Menu fechado

As escolas não devem andar ao sabor de modas

Não perca essa!

José Pacheco

Só um educador de coragem pode transpor a barreira do caos social em nome da hegemonia do processo educacional. Só quem não desiste de mudar o mundo pode cruzar a ponte, vislumbrar novos horizontes e ainda servir de guia para os que não sabem sozinhos realizar as mudanças necessárias.

O Educador português José Pacheco, 54 anos, é como poucos. De uma turma rotulada como do lixo, ele conseguiu transformar o sistema educacional da Escola da Ponte, instituição pública localizada a 40km da cidade portuguesa do Porto, em um modelo reconhecido por educadores de todo o mundo. Lá, não existem turmas e classificação de alunos por série ou faixa etária. Muito menos tempo igual para aprender. Na Escola da Ponte, são os alunos que decidem como e o que vão estudar. Definido o plano de trabalho quinzenal, cada aluno é gestor do seu desenvolvimento, tendo apenas o acompanhamento de um professor tutor.

Os que aprendem, ensinam aos demais alunos, num verdadeiro exercício de solidariedade e autonomia. Especialista em música, leitura e escrita, Pacheco esteve em Salvador ministrando palestras sobre a importância de fazer da escola um espaço para acolher a diversidade.

Correio da Bahia – A realidade do ensino público em Portugal não é tão diferente da brasileira. O senhor fala em violência nas escolas, alunos viciados em drogas com dificuldade de aprendizado e professores com baixos salários…

José Pacheco – Na verdade, os professores portugueses hoje já não são mal remunerados. Quando comecei a trabalhar como professor, há quase 40 anos, ganhava muito mal. Para você ter uma ideia, recebia nove vezes menos que meu salário como eletricista. Mas, hoje, felizmente, os professores portugueses estão sendo bem remunerados. Porém, no restante, naquilo que está mais negativo nas escolas, estamos muito, muito irmãos com o Brasil. Ainda existe muito insucesso, abandono, muita exclusão e violência nas escolas de Portugal.

CB – Como o senhor conseguiu transformar este cenário caótico que encontrou ao chegar na Escola da Ponte, hoje reconhecida em todo o mundo como exemplo de projeto educacional?

JP – Não fui eu quem transformou. Fui um dos que transformaram, porque um projeto é um ato coletivo. Ninguém faz nada sozinho. Mas, fui eu quem cheguei para desassossegar aquela gente. A Escola da Ponte era uma escola como as outras, degradada, cheia de insucesso, e tinha uma turma do lixo, constituída por jovens entre 13 e 15 anos, que estavam na primeira série, quando deveriam já ter concluído o ensino fundamental.

CB – Foi essa turma do lixo que lhe motivou a acreditar no projeto Fazer a Ponte?

JP – Como era novato e único homem, esta turma de jovens que nenhum professor queria trabalhar sobrou para mim. Tinha 25 anos na época e tive que encarar o desafio de ensinar a uma turma de jovens que ninguém queria trabalhar. Eles batiam nos professores, fumavam dentro da sala de aula, insultavam, brigavam com navalhas, pulavam as janelas. Enfim, era uma coisa terrível. Alguns morreram e não conseguiram, infelizmente, chegar à idade adulta, mas salvamos muitos deles. Aquela foi a menor turma que tive: 30 alunos. Quando trabalhava com o ensino dito tradicional, as turmas eram de 50 alunos. Quero dizer que muito do que eu pude fazer depois devo à minha aprendizagem no tradicional. Porque é sobre o tradicional que se constrói a inovação, não sobre o vazio, por capricho ou por moda pedagógica.

CB – Como foi possível mudar esta realidade?

JP – A minha pergunta foi: por que existia aquela turma do lixo no meio de tantas turmas? Os pais não iam à escola, estavam longe. A escola não tinha sequer banheiro. A miséria era total. No princípio, conseguimos sobreviver – porque quem faz algo diferente é logo olhado com maus olhos, criticado e perseguido – graças aos pais. Fomos buscar os pais para a escola, sem querer escolarizar famílias, mas mostrando-lhes que eles eram também agentes educativos essenciais. Os pais são pessoas inteligentes e amam os filhos. Os professores são pessoas inteligentes e amam os alunos. Então, estamos do mesmo lado.

CB – E os pais continuam sendo peças fundamentais na Escola da Ponte?

JP – Hoje em dia, estes pais que, no início, nos protegeram de muitos ataques políticos, hoje, são avós e continuam à frente do ensino da escola. A Escola da Ponte é a única escola pública no mundo dirigida por pais. Temos um contrato de autonomia com o estado, uma lei própria que nos dá um grande espaço de autonomia porque, enquanto o professor, mesmo que pense diferente, tem que obedecer às ordens do Ministério da Educação, os pais não têm o dever da obediência hierárquica. Este projeto está protegido daquelas aventuras que os políticos de vez em quando fazem, das modas pedagógicas. As escolas não devem andar ao sabor de modas, mas sim se desenvolver em função de um projeto nobre.

CB – Como foi que o mestre se sobrepôs àquela turma de alunos indisciplinados, agressivos?

JP – A minha primeira reação foi querer sobreviver. Confesso que andei muitos dias com vontade de desistir. Aquilo era demais. Pensei que eles não eram os únicos culpados, mas não podia ter pena deles e tratá-los como coitadinhos. Tive que usar de autoridade ou estaria destruído: eles nunca iriam me respeitar. Então, exerci autoridade, que é diferente de autoritarismo e, ao mesmo tempo, propus-lhes que tivessem autonomia para algumas tarefas. E alguns, mesmo desconfiados, porque não acreditavam em mim, aderiram. Primeiro aderiram os líderes e, atrás deles, vieram outros. E foi assim que a escola começou a ser reconstruída. A escola não tinha nada e eles tinham muita competência manual. Comigo, começaram a decorar o espaço como queriam e a desenvolver o amor à escola.

CB – Como foi iniciado este processo de mudança?

JP – Dirigi um convite a outras professoras que também tinham turmas de 30 alunos para fazermos um trabalho conjunto. Éramos três professores e 90 alunos. Elas tiveram muito medo, eu também, mas aceitamos o desafio. Antes, quando davam aula, em turmas de 30, não conseguiam chegar a cada aluno. Com 90, conseguimos chegar a cada aluno. Como? Foi toda uma alteração de estrutura do trabalho escolar. O básico foi transformarmos o trabalho solitário dos professores num trabalho solidário, de equipe. Acabamos com a ideia de série, diretor, manuais iguais, toques de campainha. A partir da maior miséria, conseguimos provar que a utopia é realizável.

CB – Como é a dinâmica da escola agora?

JP – É como a vida. A vida só anda a toques de sirenes? Não anda, mas claro que existem os horários a serem respeitados. A escola foi estruturada sem séries. O aluno que é capaz de definir escolhe o que estudar. Quando não é capaz, somos nós que dizemos o que ele tem que fazer. Não faço de conta que o aluno é autônomo. Lá, não há lugar para faz-de-conta, mas a maioria gere seu tempo, seu espaço em plena autonomia. E aprende muito mais rápido porque não fica à espera de ninguém. E ainda ajuda a quem não sabe. Há um grande exercício de solidariedade entre os alunos.

CB – E o desempenho dos alunos melhorou?

JP – O mais interessante é que, sendo esta escola um local que acolhe jovens jogados fora, que são expulsos das outras escolas, quando foram feitos os primeiros exames nacionais, entre milhares de escolas do país, a que teve melhores resultados foi a Escola da Ponte. Claro que isso depois de 25 anos de trabalho. Estavam todos à espera que nossos alunos tivessem maus resultados, porque não fazemos provas lá na escola e, quando eles foram avaliados por provas, tiverem um desempenho muito superior aos demais. Foram cifras astronômicas, perto do 100%, quando a média nacional andou nos 52%.

CB – Por que a Escola da Ponte volta agora a experimentar um momento de crise?

JP – Nos últimos anos, recebemos dezenas de alunos excluídos de outras escolas. Alunos órfãos, vítimas de violência física e até estupro, com necessidades especiais, com paralisia cerebral, que não são atendidos nas outras escolas e são encaminhados para a Escola da Ponte. Além disso, estamos com muitos professores novos, que estão ainda se adaptando. Mais da metade dos nossos professores está na Escola da Ponte há menos de quatro meses. Por estas e outras coisas, a crise é muito grande e vai durar mais um ou dois anos ainda.

CB – Há o risco da utopia da escola ideal acabar?

JP – A utopia está realizada. A escola para todos é garantia de sucesso e excelência de ensino. Sei que está ocorrendo o que chamo de uma revolução silenciosa. No Brasil e na Europa, depois de anos de palestras, identifico muitas escolas com a filosofia da Escola da Ponte.

CB – O que é preciso para que outras escolas também se transformem num espaço que respeita a diversidade?

JP – Que os professores deixem de ser pessoas que dão aulas para serem, de fato, mestres. Que buscam, antes de tudo, conhecer as dificuldades de aprendizagem e do ensino, porque tem muito professor que complica mais do que ensina. O professor tem que deixar de ser solitário para ser mais solidário, substituindo a cultura do individualismo, do professor sozinho em sala de aula, pela cultura da solidariedade, da partilha, da aceitação e do trabalho em equipe. Não faz mais sentido um professor sozinho em sala de aula.

Fernanda Carvalho – Correio da Bahia

Enem

Conheça o Novo Enem

O que muda com o Novo Enem

Vantagens do Novo Enem

Projeto Imposto Solidário

EaD com Notebook no IESDE

Cursos de curta duração na FGV

Unicamp encerra chamadas

Civismo

Cursos grátis no Sebrae via Internet

Para Passar no Vestibular!

Mais uma Faculdade Gratuita

Conheça o Exclusivo

Guia de Como Escolher a Profissão

Revise com Vestibular1, e tenha um aprendizado empolgante para Vestibular e Enem

Visite a página de Opção de Carreira Navegue também pelas carreiras

Veja também links de carreiras Veja as tendências de carreiras

Revisando com o Vestibular1, seus resultados serão incríveis!

Publicado em:Notícias

Você pode gostar também