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Resumo de Livros, não substitui a leitura vestibular1

A Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho II

A Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho II: CENA IV
DUVAL (Da soleira da porta). Sra. Margarida Gauthier?
MARGARIDA Sou eu, meu senhor. A quem tenho a honra de falar?
DUVAL —A Jorge Duval.
MARGARIDA Ao Sr. Duval!
DUVAL Sim, minha senhora, ao pai de Armando.
MARGARIDA Mas Armando não está aqui, meu senhor.
DUVAL Eu sei, é com a senhora mesmo que desejo ter uma explicação… queira ter a bondade de ouvir-me. Meu filho está se comprometendo e se arruinando por sua causa…
MARGARIDA Está enganado, meu senhor. Graças a Deus ninguém mais fala de mim e eu não aceito nada de Armando.
DUVAL Quer dizer que pois o seu luxo e as suas despesas são bem conhecidos quer dizer que meu filho é tão indigno a ponto de esbanjar com a senhora o que a senhora aceita dos outros?
MARGARIDA Perdão, mas sou uma senhora e estou em minha casa duas razões que deveriam interceder em meu favor junto à sua cortesia; o tom em que está me falando não é o que eu podia esperar de um cavalheiro, que tenho a honra de ver pela primeira vez, e…
DUVAL E…
MARGARIDA Peço licença para me retirar, não tanto por mim como pelo senhor.
DUVAL É verdade, quando nos defrontamos com a senhora e com suas maneiras, custamos a crer que todas essas coisas sejam postiças e essas maneiras dissimuladas. Bem me tinham dito que era uma pessoa perigosa.
MARGARIDA Perigosa, é verdade. Mas para mim e não para os outros.
DUVAL Perigosa ou não, a verdade, é que Armando está se arruinando por sua causa, minha senhora.
MARGARIDA Com todo o respeito que devo ao pai de Armando, repito-lhe que está enganado.
DUVAL Então o que significa esta carta de meu tabelião me prevenindo que Armando quer lhe fazer doação de um pecúlio?
MARGARIDA Eu lhe asseguro, que se Armando, fez isso, fez a minha revelia, pois sabia perfeitamente que se me tivesse oferecido eu o teria recusado.
DUVAL No entanto, nem sempre agiu assim.
MARGARIDA É verdade, meu senhor, mas então eu não estava apaixonada.
DUVAL E agora?
MARGARIDA Agora é diferente! Amo com toda a pureza que uma mulher pode encontrar no fundo do coração, quando Deus, tendo piedade dela, manda o arrependimento.
DUVAL Pronto! Já começaram as frases de efeito!
MARGARIDA Ouça-me, por favor. Meu Deus! Sei que ninguém acredita no juramento de uma mulher como eu mas pelo que tenho de mais caro no mundo, pelo amor que tenho a seu filho, juro que ignorava essa doação.
DUVAL— Mas de alguma coisa é preciso que a senhora viva…
MARGARIDA O senhor vai me obrigar a dizer o que eu desejava calar. Se falo é porque prezo acima de tudo a estima do pai de Armando. Desde que Conheci seu filho, quis que o meu amor nada tivesse com os sentimentos que até então me atribuíam; empenhei, vendi grande parte dos meus bens; capas, diamantes, joias, carruagens. E quando ainda há pouco me disseram que havia alguém à minha procura, pensei que fosse o corretor que está negociando meus móveis, meus quadros, meus tapetes, vendendo enfim, todo o luxo de que o senhor me recrimina. E se ainda duvida de mim pense um pouco, eu não o estava esperando, como é que este documento podia ter sido preparado para o senhor? Se duvida de mim, leia isto. (Entrega-lhe o documento).
DUVAL Mas é a venda dos móveis, obrigando-se o comprador a pagar os credores e devolver-lhe a diferença! (Olhando-a com emoção). Meu Deus! Será que me enganei?
MARGARIDA Enganou-se, sim senhor, ou antes foi enganado! Sei que fui uma doida; sei que tenho um triste passado; mas desde que me apaixonei daria até a última gota de meu sangue para apagá-lo. Pois apesar de tudo o que lhe disseram, eu tenho coração. Sou boa, acredite, o senhor mesmo há de ver, quando me conhecer melhor… Foi Armando que me transformou assim; gostou de mim, ainda gosta. E um pouco de amor devolve a toda mulher a inocência perdida. De três meses para cá sou tão feliz! O senhor que é pai dele, também deve ser bom; por favor, não lhe fale mal de mim; ele gosta tanto do senhor que seria capaz de acreditar; e eu, o respeito e estimo porque é o pai de Armando.
DUVAL Perdão, minha senhora, pela maneira com que ainda há pouco me apresentei. Não podia prever que tivesse sentimentos tão nobres, não a conhecia… Cheguei irritado com o silêncio e a ingratidão de meu filho, e atirei-lhe a culpa no rosto. Me perdoe.
MARGARIDA Obrigada pelas suas palavras.
DUVAL Por isso, é em nome de sentimentos tão nobres que lhe vou pedir, para a felicidade de meu filho, um sacrifício ainda maior do que aquele que já fez.
MARGARIDA Cale-se, por favor! Sei que vai me pedir uma coisa terrível, tão terrível que nunca deixei de esperá-la; eu já sabia era feliz demais.
DUVAL Não pense que ainda estou irritado, estamos conversando como dois bons amigos; trazemos no coração o mesmo afeto e temos na mente um só propósito: a felicidade de Armando.
MARGARIDA Pode falar, estou ouvindo.
DUVAL A senhora é mais generosa que as outras mulheres, por isso é como um pai que eu lhe falo, como um pai que lhe vem pedir a felicidade de seus dois filhos.
MARGARIDA De seus dois filhos?
DUVAL É, Margarida, de meus dois filhos. Ouça o que me trouxe à sua presença. Tenho uma filha, bonita, moça, pura como um anjo. Gosta de um rapaz e fez desse amor o sonho de sua vida. Creio que também tem direito ao amor. Pretendo casá-la; escrevi a Armando, contando-lhe tudo, mas ele, absorvido pela senhora, nem sequer recebeu minhas cartas mesmo que eu tivesse morrido não teria ficado sabendo. Pois bem! Minha filha vai se casar com um homem direito, entrar numa família honrada, que espera da nossa a mesma honradez. Mas a sociedade tem exigências, Margarida, principalmente a sociedade de província; e se seu amor por Armando pode purificá-la aos olhos dele e também aos meus, não a purifica aos olhos de uma sociedade que só há de ver na senhora o seu passado e que vai lhe fechar as portas, sem piedade. A família de meu futuro genro soube da vida de Armando, e me declarou que retiraria a palavra dada se ele prosseguisse na vida que leva… Está em suas mãos o destino de uma moça que não lhe fez nenhum mal. Em nome de seu amor, Margarida, conceda-me a felicidade de minha.
MARGARIDA Quanta bondade em suas palavras… Diante do seu pedido o que posso fazer? Eu o compreendo, sei que o senhor tem razão. Vou sair de Paris, vou me afastar de Armando por algum tempo. Vai ser doloroso, mas faço esse sacrifício, para que o senhor nada tenha a me censurar.., Aliás, a alegria da volta me fará esquecer a tristeza da separação. O senhor dará licença para ele me escrever de vez em quando e depois do casamento…
DUVAL Obrigado, Margarida, obrigado pela sua compreensão… mas o que estou pedindo é outra coisa.
MARGARIDA Outra coisa? Mas o que mais podia me pedir, meu Deus?
DUVAL Ouça, Margarida; vou lhe falar com franqueza: uma separação provisória, não basta.
MARGARIDA Então quer que eu deixe Armando para sempre?
DUVAL É preciso!
MARGARIDA Isso nunca! Me separar de Armando, agora, não seria apenas, uma injustiça, mal um crime. Então não sabe o que somos um para o outro? Não sabe que não tenho amigos, nem parentes? Que me perdoando ele jurou ser tudo para mim, e que fiz de sua vida a minha vida? Não sabe então que eu sofro de uma moléstia incurável, que tenho pouco tempo para viver e que fiz de meu amor, esperança dos meus dias? Deixar Armando, Antes me matar de uma vez.
DUVAL Vamos, minha filha, calma e nada de exagero; a senhora é bonita, moça, e está tomando por uma moléstia o cansaço de uma vida um pouco agitada; não tem perigo, não vai morrer antes do tempo em que a morte é uma felicidade. Sei que lhe peço um sacrifício enorme, mas a senhora tem, fatalmente, que ceder. Ouça, há três meses que conhece Armando e que se apaixonou por ele! Será que uma paixão tão nova tem o direito de destruir o futuro? Pois se ficar ao lado dele, é o futuro de meu filho que a senhora está destruindo. Tem certeza da eternidade desse amor? Já não se enganou de outras vezes? E se percebesse de repente, que não gosta de meu filho, que está apaixonada por outro homem, não seria tarde demais? Me perdoe, Margarida, mas o seu passado me dá o direito de tais suposições.
MARGARIDA Nunca amei, nem nunca hei de amar como estou amando!
DUVAL Seja! Mas se a senhora não se engana, quem diz que ele não está enganado? Pode o coração, nessa idade, assumir um compromisso definitivo? Não está sempre mudando de afeições? É o mesmo coração que no filho, ama os pais acima de tudo, que no marido ama a mulher mais do que os pais e que mais tarde no pai, ama os filhos acima dos pais da mulher e das amantes. A natureza é exigente, porque é pródiga. É bem possível que vocês dois estejam enganados. E agora, está disposta a encarar a realidade? Está me ouvindo, não está?
MARGARIDA Se estou, meu Deus!
DUVAL Está pronta a tudo sacrificar por meu filho; mas se Armando aceitar, o seu sacrifício que Sacrifício poderá oferecer-lhe em troca? Irá desfrutar a sua mocidade e depois, o que acontecerá quando vier o fastio? Porque o fastio há de vir… Se for um homem como os outros, há de abandoná-la, atirando-lhe o passado no rosto e dizendo que todos fazem o mesmo; se for um homem de bem casa-se com a senhora, ou pelo menos, fica ao seu lado. E esta ligação, ou este casamento, que não teve a castidade por base, a religião por apoio, nem a família por resultado? Seria desculpável no rapaz, mas nunca no homem maduro… Que aspirações poderia ter que carreira poderia seguir? E eu, que recompensa iria receber do filho por quem me sacrifiquei durante vinte anos? Este amor não é o fruto de duas simpatias puras, a união de duas afeições castas; é a paixão, no que ela tem de mais terrestre e de mais humano; nasceu do capricho de um e da fantasia de outro; em resumo não é uma causa, é um resultado. E com o correr dos anos, o que ficará de tudo isso? Quem lhe diz que as rugas do seu rosto não vão fazer cair o véu dos olhos de meu filho? Quem lhe diz que o amor de Armando não vai morrer com a sua mocidade?
MARGARIDA Ah! A realidade!
DUVAL Não está vendo daqui a sua dupla velhice, duplamente deserta, duplamente isolada, duplamente inútil? Que lembrança vai deixar? Que bem terá praticado? Não, Margarida, a vida é feita de necessidades cruéis. A senhora e meu filho têm pela frente, dois caminhos diversos, que o acaso reuniu por um momento, mas que a razão separa para sempre. Quando, por livre vontade escolheu a vida que hoje leva, não previu o que podia acontecer. Foi feliz três meses, não manche uma felicidade, que já não pode durar guarde apenas no coração a sua lembrança. Que esta lhe dê forças, é tudo o que tem direito de pedir. É duro o que estou pedindo, é cruel o que exijo, mas a estima em que a tenho é que me Obriga a falar assim. Quero dever ao seu bom senso, ao seu coração, ao seu amor por meu filho, o sacrifício que podia ter pedido à força e à lei. Um dia ainda vai se orgulhar do que fez e a vida inteira terá o respeito de si própria. É um homem que conhece a vida quem lhe fala. É um pai quem lhe implora. Vamos, Margarida! Vamos, minha filha, prove que gosta de meu filho, coragem!
MARGARIDA (Consigo mesma). Então, por mais que se esforce, a criatura caída, jamais se levanta? Deus talvez lhe perdoe, a sociedade, nunca! De fato, com que direito irá ocupar no seio da família, um lugar reservado à virtude? Que importa se está apaixonada! Pode dar a prova que quiser dessa paixão, ninguém acredita, e é muito justo. Por que, coração, por que futuro? Que quer dizer com essas palavras? Olhe um pouco a lama do passado! Que homem lhe chamaria esposa, que criança lhe chamaria mãe? O Sr. tem razão: quantas vezes, cheia de terror, eu me dizia tudo o que acabo de ouvir! Mas como falava comigo mesma não me escutava até o fim… Agora vejo que era verdade, porque é o senhor quem me está dizendo! É preciso obedecer. Falou em nome de seu filho, em nome de sua filha foi muita generosidade invocar esses nomes. Pois bem… um dia o senhor dirá a essa moça, tão linda e tão pura pois é a ela que estou sacrificando a minha felicidade, o senhor dirá a essa moça que havia uma vez, em algum lugar, uma mulher que só tinha uma esperança, um pensamento, uma alegria, que à invocação do seu nome renunciou a tudo e esmagou o coração com as próprias mãos até morrer. Porque eu vou morrer talvez então, Deus me perdoe.
DUVAL Pobre moça!
MARGARIDA O senhor está chorando, está pouco. pena de mim! Obrigada por essas lágrimas vão me dar forças… Quer que eu me separe de seu filho, pelo sossego, pela honra, pelo futuro dele o que é preciso que eu faça, diga!
DUVAL É preciso dizer que não gosta dele.
MARGARIDA Ele não vai acreditar
DUVAL É preciso ir embora.
MARGARIDA Ele irá à minha procura.
DUVAL Então…
MARGARIDA Escute: o senhor acredita que eu gosto de Armando, que eu gosto dele sem nenhum interesse?
DUVAL Acredito, Margarida.
MARGARIDA Acredita que tenha feito desse amor o sonho, a esperança, o perdão de minha vida?
DUVAL Acredito, sim, Margarida.
MARGARIDA Então, me beije uma vez, como se beijasse sua própria filha… Juro que esse beijo, o único realmente puro que já recebi, me fará vencer o amor! Juro que dentro de oito dias, Armando estará em sua casa talvez infeliz por algum tempo, mas curado para sempre. E juro, também, que nunca há de saber o que acaba de se passar entre nós dois.
DUVAL Margarida, a sua alma é muito nobre, mas tenho medo que…
MARGARIDA Não tenha medo de nada, ele vai me detestar. (A campainha toca; Nanine aparece) Vá chamar a Sra. Duvernoy.
NANINE Sim, senhora.
MARGARIDA (A Duval). Um último favor.
DUVAL Diga, minha senhora, diga.
MARGARIDA Daqui a pouco Armando vai ter um dos maiores desgostos que já teve e que talvez terá, em toda vida… Vai precisar de afeição perto dele fique ao seu lado. E agora, vamos nos despedir… ele pode chegar de um momento para outro e se visse o senhor, tudo estaria perdido…
DUVAL E a senhora, o que vai fazer?
MARGARIDA Se eu lhe contasse, o senhor não consentiria.
DUVAL Então, o que posso fazer pela senhora, em troca de um favor tão grande?
MARGARIDA Quando eu já estiver morta e Armando amaldiçoar a minha memória, conte
lhe como eu o amava e como dei provas desse amor. Estou ouvindo vozes, adeus, meu senhor, decerto nunca mais vamos nos encontrar. Seja feliz. (Ele sai).
CENA V
(Margarida e Prudência).
MARGARIDA Meu Deus! Dai-me forças! (Escreve uma carta).
PRUDÊNCIA Mandou me chamar, Margarida?
MARGARIDA Mandei. Quero encarregá-la de uma coisa.
PRUDÊNCIA Do que?
MARGARIDA Desta carta.
PRUDÊNCIA Para quem é?
MARGARIDA Veja! (Movimento de espanto de Prudência). Silêncio! Vá depressa.
CENA VI
(Margarida e Armando) .
MARGARIDA (Só). E agora, uma carta para Armando. O que vou lhe dizer? Meu Deus! Perdoai o mal que lhe estou fazendo e perdoai-lhe o mal que me vai fazer! Estou enlouquecendo, estou sonhando?… Não é possível… falta-me coragem. Não se tem o direito de exigir de alguém o que está acima de suas forças…
ARMANDO (Que enquanto isso entrou e se aproximou). O que está fazendo, Margarida?
MARGARIDA (Levantando-se). Armando!… Nada, querido.
ARMANDO Estava escrevendo?
MARGARIDA Não… estava sim.
ARMANDO Que confusão é essa? Que palidez? Para quem você estava escrevendo, Margarida? Me dê essa carta.
MARGARIDA Era para você, Armando, mas pelo amor de Deus, não me peça.
ARMANDO Pensei que entre nós já não houvesse segredos, nem mistérios…
MARGARIDA Nem suspeitas, Armando!
ARMANDO Perdão, Margarida, mas estou muito preocupado.
MARGARIDA Por quê?
ARMANDO Meu pai chegou.
MARGARIDA Você esteve com ele?
ARMANDO Não, mas deixou lá em casa uma carta severa. Já está a par de minha estadia aqui, de minha vida com você. Deve vir cá esta noite. Vamos ter um entendimento difícil; sabe Deus o que lhe disseram e o que vou ter de desmentir. Mas ele vai te ver bastará isso para te querer bem. E depois, é verdade que eu dependo dele, mas eu posso trabalhar, se for preciso. Não há trabalho penoso com o teu amor no fim do dia…
MARGARIDA Não; evite brigar com seu pai, Armando. Escute, você disse que ele vinha cá, não foi? Então eu vou me embora, para que ele não me veja logo, na chegada; depois eu volto e fico perto de você. Vou me atirar aos pés dele, implorando tanto, que não terá coragem de nos separar.
ARMANDO O que é isso, Margarida? Alguma coisa está acontecendo! Essa agitação não é só por causa da notícia que eu dei… você mal se tem em pé!… Aconteceu alguma coisa … Essa carta… (Estende a mão).
MARGARIDA Esta carta contém uma coisa que eu não te posso contar. Há certas coisas, Armando, que não podemos confessar a nós mesmas, nem deixar que outros leiam em nossa frente. É uma prova de amor que eu estou te dando, juro pelo nosso amor, e não me pergunte mais nada.
ARMANDO Guarde essa carta, Margarida, eu sei de tudo; Prudência me contou tudo esta manhã foi por isso que eu fui a Paris. Sei do sacrifício que ia fazer por minha causa. Mas eu também estava trabalhando pela nossa felicidade; agora já está tudo arranjado. É esse o segredo que você não me queria confiar? Como poderei algum dia agradecer tanto amor, Margarida?
MARGARIDA Então, agora que já sabe de tudo, me deixe ir embora.
ARMANDO Ir embora!
MARGARIDA Me afastar, pelo menos. Seu pai pode chegar de um momento para outro. Eu estou aí mesmo no jardim, com Gustavo e Nichette, a dois passos de você, basta me chamar, que eu venho Como podia me separar de você? Acalme seu pai se ele estiver irritado, e depois, vamos realizar o nosso projeto, não é mesmo? Vamos viver juntos como dantes, felizes, como somos há três meses. Pois você é feliz, não é mesmo? E não tem nada a me censurar? Diga… eu gostaria de ouvir. Mas se te magoei, perdoe, foi sem querer, pois te amo mais do que tudo no mundo. E você também, não é mesmo? Você também me ama. E fosse qual fosse a prova de amor que eu te desse, não ia me desprezar, nem amaldiçoar?
ARMANDO Mas por que essas lágrimas?
MARGARIDA Precisava chorar um pouco. Está vendo? Agora já estou calma. Vou procurar Nichette e Gustavo. Estou aqui mesmo, sempre tua, sempre te amando, sempre pronta a ir ao teu encontro. Viu, já estou sorrindo, até já, para sempre. (Sai).
CENA VII
(Armando só, depois Nanine).
ARMANDO (À Nanine que ateia o fogo). Pobre Margarida! Como fica assustada à ideia de uma separação! Nanine, de vier um senhor me procurar, faça-o entrar é meu pari! Se perguntar por Margarida, diga-lhe que está em Paris.
NANINE Sim senhor.
ARMANDO Estou me preocupando a toa. Meu pai vai me compreender. O passado está morto. Depois, que diferença entre Margarida e as outras mulheres! Veja Olímpia, sempre às voltas com as festas e os divertimentos… Quem não ama, precisa encher de ruídos a solidão. Vai dar um baile; convidou-nos, a mim e a Margarida, como se pudéssemos voltar a esse meio… Já sete horas! De certo meu pai não vem mais! Nanine! Traga o candeeiro e dê ordens para jantar. Como o tempo custa a passar, quando ela não está ao meu lado. Que livro é este? “Manon Lescaut”! Oh! A mulher apaixonada não faz o que você fazia, Manon!… Por que este livro estará aqui? (Nanine entra com a lâmpada e sai. Lendo, ao acaso). “Juro-te meu cavaleiro, que és o ídolo do meu coração, que só a ti, em todo o mundo eu poderia amar como te amo! Mas não vês, pobre alma querida, que no estado a que estamos reduzidos, a felicidade e uma virtude bem tola? Acaso é possível a ternura quando nos falta o pão? A fome vai me levar a algum fatal engano e exalarei qualquer dia o último suspiro, supondo que seja um suspiro de amor. Eu te adoro, esteja certo, mas confia-me por algum tempo a direção de nossa sorte; desgraçado daquele que cair em meus laços! Trabalho para tornar rico e feliz meu cavaleiro. Meu irmão dar-te-á notícias de tua Manon e dir-te-á como chorou vendo que precisava deixar-te”. (Armando põe o livro no lugar com tristeza e fica algum tempo inquieto). Essa leitura me fez mal, esse livro é falso… (Toca a campainha, Nanine aparece). Meu pai não vem mais hoje diga à Margarida para voltar.
NANINE A patroa não está em casa.
ARMANDO Como? Então onde está?
NANINE Saiu… Pediu para dizer ao senhor que volta logo.
ARMANDO A Sra. Durnevoy saiu com ela?
NANINE Não a Sra. Durnevoy saiu um pouco antes.
ARMANDO Está bem… (Só) . É capaz de Ter ido antes a Paris, tratar de venda que estava projetando. Felizmente Prudência está prevenida e arranjará um meio de impedi-la… (Olha pela janela). Parece que estou vendo uma sombra no jardim… (Chama). Margarida! Margarida! Ninguém!… Nanine! Nanine!… (Toca a campainha). Não responde. O que quer dizer com isso? Este vazio me arrepia. Este silêncio encobre uma desgraça. Por que deixei Margarida sair? Ela me escondia alguma coisa. Estava chorando! Será que me enganava? Ela, me enganar? Impossível! Logo quando pensava sacrificar tudo por mim… Mas quem sabe aconteceu alguma coisa? Quem sabe está ferida?… Quem sabe, morta? Preciso saber o que…
UM MENSAGEIRO (Entrando). Sr. Armando Duval?
ARMANDO Sou eu.
MENSAGEIRO Uma carta para o senhor.
ARMANDO De onde?
MENSAGEIRO De Paris.
ARMANDO Quem mandou?
MENSAGEIRO Uma senhora.
ARMANDO E como foi que conseguiu chegar até aqui?
MENSAGEIRO O portão do jardim estava abertos não encontrei ninguém, vi luz aqui, pensei…
ARMANDO Está bem, pode ir… (Mensageiro se retira).
ARMANDO É de Margarida… De onde me vem essa emoção… Com certeza está me esperando em algum lugar e me pede para ir ao seu encontro! (Vai abrir a carta). Estou tremendo. Ora, que bobagem! (Durante esse tempo, Jorge Duval entrou e ficou de pé atrás do filho. Armando lê). Quando você receber esta carta, Armando! (Dá um grito). Ah! (Volta-se e vê o pai). Meu pai! (Atira-se no seus braços, soluçando. Duval pega a carta e lê).
ATO IV
(Um “bondoir” em casa de Olímpia. Ao fundo, porta comunicando com um salão profusamente iluminado. Porta à direita e à esquerda. Mesa de jogo e jogadores, à esquerda, pessoas sentadas num canapé. Empregados oferecendo refrescos. Ao fundo, pessoas passeando. Ruído de orquestra; dança, movimento) .
CENA I
(Gastão, Artur, o médico, Prudência, Saint-Gaudens, Olímpia, Anais e convidados) .
GASTÃO (Fazendo banca no “baccarat”). Façam seu jogo, cavalheiros, façam seu jogo…
ARTUR Qual é a banca?
GASTÃO Cem luíses.
ARTUR Cinco francos no ponto.
GASTÃO Ora, ora… perguntar qual era a banca, para jogar cinco francos…
ARTUR Se prefere posso jogar dez luíses a crédito . . .
GASTÃO Não, não, não. (Ao Médico). E o senhor, doutor, não joga?
O MÉDICO Não.
GASTÃO E o que está fazendo aí?
O MÉDICO Conversando com as senhoras… me fazendo conhecer…
GASTÃO Ganha mesmo muito em ser conhecido!
O MÉDICO É só no que ganho.
GASTÃO Se é assim que jogam, eu largo a banca.
PRUDÊNCIA Espere! Eu jogo 10 francos.
GASTÃO Onde estão?
PRUDÊNCIA Aqui no bolso.
GASTÃO (Rindo). Dava 15 francos para ver os seus 10.
PRUDÊNCIA Gente! Esqueci minha bolsa.
GASTÃO Isso é que se chama uma bolsa bem mandada. Tome 20 francos
PRUDÊNCIA Depois eu pago.
GASTÃO Ora, deixe disso. (Dando as cartas) Nove! (Recolhe o dinheiro).
PRUDÊNCIA Ele ganha sempre.
ARTUR Já estou perdendo 50 luíses.
ANAIS Doutor, veja se pode curar o Artur do mal da pretensão.
O MÉDICO É uma doença de moço, passa com a idade.
ANAIS Está dizendo que perdeu 1.000 francos quando chegou tinha dois luíses no bolso.
ARTUR Como é que você sabe?
ANAIS Porque à força de olhar para um bolso, a gente fica sabendo o que tem dentro.
ARTUR E isso prova o que? Prova que estou devendo 960 francos.
ANAIS Que é infeliz.
ARTUR Infeliz por quê? Fique sabendo que eu pago as minhas dívidas.
ANAIS Não é o que dizem os credores.
GASTÃO Façam seu jogo cavalheiros, façam seu jogo! Não estamos aqui para perder tempo.
OLÍMPIA (Entrando com Saint-Gandens). Ainda estão jogando?
ARTUR Ainda.
OLÍMPIA Me dê 10 luíses, Saint-Gaudens, eu quero jogar.
GASTÃO Olímpia, sua festa está magnífica.
ARTUR Saint-Gaudens sabe quanto lhe custa.
OLÍMPIA Não é ele quem sabe é a mulher.
SAINT-GAUDENS Teve graça! Ah! O senhor está aí! Preciso consultá-lo doutor, ando tendo umas tonturas…
O MÉDICO Não diga!
OLÍMPIA O que é que ele quer?
O MÉDICO Acha que tem qualquer coisa na cabeça.
OLÍMPIA Que convencimento! Saint-Gaudens perdi, tudo. Vamos, jogue por mim e trate de ganhar.
PRUDÊNCIA Saint-Gaudens, quer me emprestar 3 luíses? (Ele dá o dinheiro).
ANAIS Saint-Gaudens, vá me buscar um sorvete!
SAINT-GAUDENS Neste instante.
ANAIS Então conte a estória do fiacre amarelo.
GAUDENS Já vou indo! Já vou indo!
PRUDÊNCIA (A Gastão). Lembra-se da estória do fiacre amarelo?
GASTÃO Se me lembro! É claro! Foi em casa de Margarida que Olímpia nos quis contar. E Margarida, está aqui?
OLÍMPIA Deve vir.
GASTÃO E Armando?
PRUDÊNCIA Armando não está em Paris Então não sabe o que aconteceu?
GASTÃO Não.
PRUDÊNCIA Estão separados. Margarida o abandonou.
GASTÃO Quando isso?
ANAIS Há um mês, e fez muito bem.
GASTÃO Muito bem, por quê?
ANAIS A gente deve sempre abandonar os homens, antes que eles abandonem a gente.
ARTUR Então, senhores, joga-se ou não?
GASTÃO Credo! Como você é cacete! Pensa que vou gastar os dedos nas cartas por causa de suas apostinhas de 5 francos? Todo Artur é igual. Felizmente você é o último deles.
SAINT-GAUDENS (Entrando). Anais, está aqui o sorvete.
ANAIS Coitado, como demorou! Também na sua idade…
GASTÃO (Levantando-se). Senhores, a banca estourou. Se alguém me dissesse: Gastão, você vai ganhar 50 francos, para passar a noite inteira dando cartas, é claro que eu não aceitava… Pois bem! Estou dando cartas há duas horas para sair perdendo 2.000 francos! Bela profissão é o jogo! (Um outro toma a banca).
CENA II
(Os mesmos, Armando).
SAINT-GAUDENS Não está mais jogando?
GASTÃO Não.
SAINT-GAUDENS (Mostrando, ao fundo, dois jogadores de “écarté”). Vamos apostar no jogo daqueles cavalheiros?
GASTÃO Não me arrisco. São seus convidados.
SAINT-GAUDENS Não. São convidados de Olímpia. Ela os conheceu no estrangeiro.
GASTÃO Que caras, hein?
PRUDÊNCIA Vejam! Olha o Armando!
GASTÃO (A Armando). Ainda há pouco falamos de você.
ARMANDO E o que foi que disseram?
PRUDÊNCIA Dissemos que você estava em Tours e por isso não podia vir.
ARMANDO Pois se enganaram, meus amigos!
GASTÃO Faz tempo que chegou?
ARMANDO Há uma hora, mais ou menos.
PRUDÊNCIA E então, Armando o que conta de novo?
ARMANDO Nada, Prudência, e você?
PRUDÊNCIA Tem visto Margarida?
ARMANDO Não.
PRUDÊNCIA Ela deve vir.
ARMANDO Muito bem! Então vou ter o prazer de vê-la.
PRUDÊNCIA Que modo de falar!
ARMANDO Como que você quer que eu fale?
PRUDÊNCIA E o coração, está curado?
ARMANDO Completamente! Se não, acha que eu estaria aqui?
PRUDÊNCIA E não pensa mais nela?
ARMANDO Se dissesse que não estaria mentindo; mas felizmente sou desses homens que dançam conforme a música… Margarida me despediu de uma tal maneira, que percebi que fui um idiota me apaixonando daquele jeito. Pois gostei muito dela, mesmo.
PRUDÊNCIA Ela também gostou muito de você e ainda gosta um pouco mas o que você quer? Já estava a ponto de vender o que tinha!
ARMANDO E agora, está tudo pagos?
PRUDÊNCIA Integralmente.
ARMANDO E foi Varville quem pagou as dívidas?
PRUDÊNCIA Foi.
ARMANDO Então, está tudo bem.
PRUDÊNCIA Há homens que nasceram para isso. Enfim ele chegou onde queria. Resgatou os cavalos, as joias e devolveu-lhe todo o luxo de antes… Que ela tem sorte, isso tem!
ARMANDO E agora está de novo em Paris?
PRUDÊNCIA Claro… Depois que você partiu não quis mais voltar a Auteuil. Eu é que fui buscar as coisas dela, e as suas também. Por falar nisso. está tudo lá em casa, à sua disposição. Quando quiser pode mandar buscar. Está faltando apenas uma carteirinha com as suas iniciais, que ficou com Margarida; mas querendo, posso pedir.
ARMANDO (Comovido). Que fique com ela!
PRUDÊNCIA Aliás, nunca a vi assim nesse estado quase não dorme, vive pelos bailes, passa as noites em claro. ultimamente, depois de uma cela, ficou três dias de cama e assim que o médico lhe deu licença para se levantar, recomeçou tudo, com risco de vida. Se continuar desse jeito, não vai muito longe. Pretende visitá-la?
ARMANDO Não. Pretendo evitar qualquer explicação. O passado morreu. Que Deus tenha a sua alma.
PRUDÊNCIA Sim senhor! Que bons propósitos! Antes assim!
ARMANDO (Avistando Gustavo). Ah! Aí vem um dos meus amigos, com quem preciso falar, com licença, Prudência.
PRUDÊNCIA Esteja à vontade ! (Vai à mesa de jogo). Jogo 10 francos!
CENA III
(Os mesmos, Gustavo).
ARMANDO Afinal, recebeu minha carta?
GUSTAVO Recebi e aqui estou.
ARMANDO Decerto ficou intrigado com o meu pedido estas festas não estão nos seus hábitos.
GUSTAVO De fato.
ARMANDO Faz muito tempo que não vê Margarida?
GUSTAVO Faz; desde aquele dia em que almoçamos todos juntos.
ARMANDO Então, não sabe de nada?
GUSTAVO Não, o que houve?
ARMANDO Você pensava que Margarida gostava de mim, não é mesmo?
GUSTAVO E ainda penso.
ARMANDO (Dando-lhe a carta de Margarida) Leia!
GUSTAVO Foi Margarida quem escreveu isso?
ARMANDO Foi.
GUSTAVO Quando?
ARMANDO Há um mês.
GUSTAVO E você, o que respondeu?
ARMANDO O que queria que eu respondesse? O golpe foi tão inesperado que pensei enlouquecer… Ela, me enganar! Margarida me enganar! A mim, que a adorava! E assim, de repente… Essas mulheres não têm alma! Depois do que aconteceu, precisava de um apoio para continuar a viver. Por isso me deixei conduzir por meu pai, como uma coisa inerte. Fomos para Tours. Pensei que lá eu pudesse ficar, mas não foi possível, não conseguia dormir, o ar me faltava. Tinha gostado demais dessa mulher para esquecê-la, assim de repente. Ela só podia me inspirar amor ou ódio; afinal não resisti mais, parecia que eu ia morrer se não tornasse a vê-la, se não ouvisse de sua boca o que me havia escrito… Queria me libertar do amor, pelo desprezo, afogar o passado no ódio. Se estou aqui é porque desejo encontrá-la. Não sei o que vai acontecer mas sei que vai acontecer alguma coisa, e talvez precise de um amigo.
GUSTAVO Estou às suas ordens, Armando, mas pelo amor de Deus reflita um pouco. Lembre-se que se trata de uma mulher e a ofensa que se faz a uma mulher se aparenta muito à covardia.
ARMANDO Não importa! Ela tem um amante ele me pedirá satisfações. Se eu cometer uma covardia tenho bastante sangue para pagá-la.
UM CRIADO (Anunciando). Sra. Margarida de Gauthier! Sr. Barão de Varville.
ARMANDO É ela!
OLÍMPIA (Indo ao encontro de Margarida). Por que veio tão tarde?
VARVILLE Estamos chegando da ópera. (Varville cumprimenta os presentes).
PRUDÊNCIA (À Margarida). Então, como vai?
MARGARIDA Muito bem!
PRUDÊNCIA Armando está aqui.
MARGARIDA Armando!
PRUDÊNCIA É.
(Neste momento, Armando que está junto à mesa de jogo, vê Margarida. Ela sorri, timidamente. Ele cumprimenta-a secamente).
MARGARIDA Eu não devia ter vindo a este baile.
PRUDÊNCIA Por quê?
MARGARIDA Ainda pergunta?
PRUDÊNCIA Pelo contrário. Mais dia, menos dia, você, tinha mesmo de se encontrar com Armando pois então que seja hoje.
MARGARIDA Ele falou com você?
PRUDÊNCIA Falou.
MARGARIDA De mim?
PRUDÊNCIA É claro.
MARGARIDA E o que foi que disse?
PRUDÊNCIA Que não lhe queria mal, que você tinha feito bem.
MARGARIDA Antes fosse; mas não é possível que seja mal me cumprimentou e está muito.
VARVILLE (À Margarida). Armando Duval está aqui, Margarida.
MARGARIDA Eu sei
VARVILLE Jura que não imaginava encontrá-lo?
MARGARIDA Juro
VARVILLE Então prometa não lhe dirigir a palavra.
MARGARIDA Prometo. Mas não prometo negar-lhe respostas, se dirigir-se a mim. Não me largue
O MÉDICO (À Margarida). Doa noite, minha senhora.
MARGARIDA Ah! É o senhor? Por que está me olhando tanto?
O MÉDICO Porque é o melhor que tenho a fazer, quando a tenho diante dos olhos.
MARGARIDA Está me achando mudada, não e mesmo?
O MÉDICO Cuide-se, minha, senhora, cuide-se por favor. Amanhã irei à sua casa repreendê-la, à vontade.
MARGARIDA Isso! Ralhe comigo, que eu gosto… Mas já está de saída?
O MÉDICO Ainda não, mas não demoro. Tenho que ver um doente; há seis meses que o vejo, diariamente, à mesma hora.
MARGARIDA Que fidelidade! (Ele aperta-lhe a mão e se afasta).
GUSTAVO Boa noite, Margarida.
MARGARIDA Oh! Que prazer, Gustavo! Nichette está aqui?
GUSTAVO Não.
MARGARIDA Desculpe! Isso não é meio para Nichette. Goste bem dela, Gustavo é tão bom ser amada! (Enxuga uma lágrima).
GUSTAVO O que você tem, Margarida?
MARGARIDA Sou tão infeliz, Gustavo!
GUSTAVO Que é isso, não chore! Por que foi que veio?
MARGARIDA Por acaso sou dona de mim? Depois, preciso me atordoar.
GUSTAVO Quer um conselho? Saia deste baile o quanto antes.
MARGARIDA Por quê?
GUSTAVO Porque nem sei o que poderá acontecer… Armando…
MARGARIDA Armando me odeia e despreza, não é?
GUSTAVO Não, Armando gosta de você. Veja como está pálido já não está mais se dominando. Antes que haja um incidente entre ele e Varville, invente uma indisposição e vá embora.
MARGARIDA Um duelo entre Armando e Varville, por minha causa! Não é possível! Tem razão, Gustavo, vou-me embora. (Levanta-se).
VARVILLE (Aproximando-se). Aonde vai, Margarida?
MARGARIDA Não estou me sentido bem, Varville. Quero ir embora.
VARVILLE Não, não é verdade, Margarida. Você quer ir embora porque Armando Duval está aqui e não lhe está dando a menor importância; mas você deve compreender que eu não posso nem quero fazer papel ridículo, fugindo do lugar em que ele se encontra. Foi você quem quis vir, pois agora, fique.
OLÍMPIA (À Margarida). O que foi que levaram hoje na ópera?
VARVILLE “A Favorita.”
ARMANDO A estória de uma mulher que enganava o amante.
PRUDÊNCIA Ora! Que novidade!
ANAIS Então era mentira; não há mulher nenhuma que engane o amante.
ARMANDO Pois digo que há.
ANAIS Onde isso?
ARMANDO Em toda a parte.
OLÍMPIA Sim, mas há amantes e amantes.
ARMANDO Como há mulheres e mulheres.
GASTÃO Armando! Você está se excedendo no jogo!
ARMANDO É para me certificar se é verdadeiro o provérbio: “Infeliz no amor, feliz no jogo.”
GASTÃO Neste caso deve ser muito infeliz no amor, porque é feliz demais no jogo.
ARMANDO Meu caro, esta noite pretendo ganhar uma fortuna e, se juntar bastante dinheiro, vou passar uns tempos no campo.
OLÍMPIA Sozinho?
ARMANDO Não, com alguém que uma vez já foi comigo e depois me abandonou. Quem sabe, quando eu for mais rico..
GUSTAVO Fique quieto, Armando! Veja em que estado está essa pobre moça.
ARMANDO É uma estória divertida merece ser contada. Há um sujeito que aparece no fim, uma espécie de providência de última hora, que e um tipo inesquecível.
VARVILLE (Avançando). Cavalheiro!
MARGARIDA Varville, se provocar Armando Duval, nunca mais na vida há de me ver.
ARMANDO (A Varville). É comigo que o senhor está falando?
VARVILLE Justamente. Sua sorte no jogo está me tentando… Além disso, compreendo tão bem o emprego que pretende dar ao seu lucro, que, na esperança de vê-lo dobrar, proponho-lhe uma partida.
ARMANDO Que aceito, com o maior prazer.
VARVILLE Jogo cem luíses.
ARMANDO Feito. De que lado?
VARVILLE Do lado que não escolher.
ARMANDO Cem luíses na banca.
VARVILLE Cem lumes no ponto.
ARMANDO Dê as cartas.
GASTÃO Ponto, quatro banca, nove. Armando ganhou.
VARVILLE Então, duzentos luíses.
ARMANDO Feito! Mas tome cuidado, pois se o provérbio diz: “Infeliz no amor, feliz no jogo”, diz também, “Feliz no amor, infeliz no jogo”.
GASTÃO Ponto, seis! Banca, oito! Ainda é Armando quem ganha.
OLÍMPIA Ora vejam! É o barão quem vai pagar a vilegiatura de Armando.
MARGARIDA Meu Deus, meu Deus! O que vai acontecer!
OLÍMPIA Para a mesa, meus senhores. Vamos, a ceia está servida.
ARMANDO Continuamos a partida?
VARVILLE Por enquanto, não.
ARMANDO Fico lhe devendo uma desforra dou-lhe a liberdade de escolher o jogo.
VARVILLE Fique tranquilo, não dispenso a gentileza.
OLÍMPIA (Dando o braço a Armando). Você tem uma sorte!
ARMANDO E você uma solicitude quando eu ganho!
VARVILLE Não vem, Margarida?
MARGARIDA Daqui a pouco. Preciso dizer uma coisa à Prudência.
VARVILLE Se dentro de dez minutos não vier, eu venho buscá-la. Ou a o que estou dizendo
MARGARIDA Está bem, pode ir.
CENA IV
(Prudência e Margarida).
MARGARIDA Procure Armando e peça-lhe para vir falar comigo, em nome do que ele tem de mais caro.
PRUDÊNCIA E se ele recusar?
MARGARIDA Não tem perigo. Não vai perder esta oportunidade de dizer que me odeia.
CENA V
(Margarida só).
MARGARIDA Vamos, um pouco de calma! É preciso que ele continue a pensar o que está pensando… Será que vou ter forças de cumprir a minha promessa? Meu Deus! Fazei com que ele me odeie e me despreze pois é o único meio de impedir uma desgraça…
CENA VI
(Margarida e Armando) .
ARMANDO A senhora mandou me chamar?
MARGARIDA Mandei, Armando preciso falar com você.
ARMANDO Fale, estou ouvindo. Vai pedir desculpas?
MARGARIDA Não, Armando, não se trata disso, peço-lhe mesmo que não toque no passado.
ARMANDO Tem razão, é vergonhoso demais para a senhora.
MARGARIDA Tenha piedade, Armando! Veja como estou pálida e desfeita! Não posso me defender contra você, e mesmo que pudesse, não o faria… Me escute, sem ódio, sem rancor e sem desprezo. Vamos, Armando, me dê sua mão.
ARMANDO Não, isso nunca! E se é tudo o que me tinha a dizer… (Faz menção de se retirar).
MARGARIDA Nunca pensei que fosse um dia repelir a minha mão. Mas não é disso que se trata, você precisa sair de Paris, Armando.
ARMANDO Sair de Paris?
MARGARIDA Sim. Volte para junto de seu pai o mais depressa possível.
ARMANDO E por quê?
MARGARIDA Porque Varville vai provocá-lo e eu não quero que aconteça uma desgraça por minha causa. Quero sofrer sozinha.
ARMANDO Então, está me aconselhando a fugir a uma provocação? Isso é uma covardia ! Mas de uma mulher como a senhora, eu não podia esperar outra conselho.
MARGARIDA Juro, Armando, que de um mês para cá tenho sofrido tanto, que quase não me sobram forças para dizê-lo. Sinto que o mal aumenta me consome. Em nome do nosso antigo amor, em nome do que ainda vou sofrer, em nome de sua mãe e de sua irmã, fuja de mim, volte para junto de seu pai, e esqueça até o meu nome, se puder.
ARMANDO Compreendo que esteja apreensiva. Seu amante representa a sua fortuna. E eu posso destruí-la com um tiro ou um golpe de espada. Seria uma desgraça, tem razão.
MARGARIDA Você pode ser morto, Armando, isso é que seria uma desgraça.
ARMANDO Que importa que eu viva, ou que eu morra? Por acaso, pensou em minha vida quando me escreveu: “Armando, esqueça-se de mim, sou amante de outro homem?” Pouco se lhe dava então que eu morresse desse amor! Se não morri, foi porque precisava vingar-me. Pensou que isso ficaria assim? Que iria me despedaçar o coração e eu não iria pedir satisfações, nem à senhora, nem ao seu cúmplice? Isso nunca! Estou de volta a Paris entre mim e Varville a questão é de vida ou de morte. Juro que hei de matá-lo, ainda que isso possa matá-la.
MARGARIDA Varville não tem culpa de nada.
ARMANDO A senhora o ama! É o bastante para que eu o odeie.
MARGARIDA Você bem sabe que eu não gosto… não posso gostar desse homem!
ARMANDO Então, por que se entregou a ele?
MARGARIDA Pelo amor de Deus, não me pergunte, Armando. Não lhe posso responder
ARMANDO Pois bem! Sou eu quem lhe vou dizer! Entregou-se a ele, porque é uma mulher sem lealdade e sem coração, porque o seu amor pertence a quem paga melhor. Porque, diante do sacrifício que ia fazer, faltou-lhe coragem e deixou-se vencer pelos instintos. Enfim, porque este homem que lhe dedicava a própria vida, que lhe confiara à própria honra, valia menos, aos seus olhos, que os cavalos de sua carruagem, ou as joias do seu colo.
MARGARIDA Fiz tudo isso, está certo. Sou uma criatura infame, desprezível, que não o amava e que o enganou. Mas quanto mais infame eu seja menos se deve lembrar de mim, expondo por mim a sua vida e a vida daqueles que o amam. Armando, é de joelhos que eu estou pedindo. Vá-se embora, saia de Paris e não olhe para trás.
ARMANDO Está bem, mas com uma condição.
MARGARIDA Diga depressa, eu a aceito, seja qual for.
ARMANDO Você vem comigo.
MARGARIDA (Recuando). Nunca!
ARMANDO Nunca?
MARGARIDA Dai-me coragem, meu Deus!
ARMANDO Escute, Margarida parece que vou enlouquecer, sinto a cabeça girando; no estado em que estou um homem é capaz de tudo, mesmo de uma infâmia. Por um momento pensei que fosse o ódio que me impelia era o amor, o amor invencível, rancoroso, machucado, acrescido de remorso, do desprezo e da vergonha. Porque, depois do que aconteceu tenho vergonha do que sinto. Mas diga uma única palavra de arrependimento, atire a culpa no acaso, na fatalidade, na fraqueza, que eu esqueço de tudo. Que me importa esse homem? Só o odeio porque você o ama. Se disser que ainda me ama, eu te perdoo, Margarida. Fugiremos de Paris e do passado, iremos até o fim do mundo se for preciso’ até onde não exista mais ninguém, só nós e o nosso amor.
MARGARIDA Daria toda a minha vida por um só dia dessa felicidade, Armando, mas essa felicidade é impossível.
ARMANDO Por quê?
MARGARIDA Seríamos muito infelizes um abismo nos separa. Entre nós dois o amor não é mais possível, vá embora e me esqueça; é preciso, eu prometi.
ARMANDO A quem?
MARGARIDA A quem tinha o direito de exigir de mim essa promessa.
ARMANDO Varville, não foi?
MARGARIDA Foi.
ARMANDO A Varville, de quem você gosta!
MARGARIDA Gosto! Gosto de Varville.
ARMANDO (Correndo ao fundo e abrindo, violentamente a porta). Entrem, entrem todos.
MARGARIDA O que está fazendo?
ARMANDO Você vai ver. (Aos convidados). Estão vendo essa mulher?
TODOS Margarida Gauthier…
ARMANDO Isso! Margarida Gauthier. Sabem o que ela fez?
ALGUMAS VOZES Não.
ARMANDO Vendeu os cavalos, as carruagens. as joias, para ir viver comigo tão grande era o seu amor… Lindo gesto, não acham? Pois bem! Sabem o que eu fiz? Me portei como um canalha. Aceitei o sacrifício sem lhe dar nada em troca. Todos aqui são testemunhas de que paguei esta mulher, de que não lhe devo mais nada. (Atira as notas e as moedas em Margarida).
(Margarida dá um grito e cai desmaiada).
VARVILLE (A Armando). O Sr. não passa de um covarde!
ATO V
(Quarto de dormir de Margarida. Leito ao fundo; cortinados entreabertos; diante da lareira, um canapé onde Gastão está deitado. Luz de lamparina. Piano, junto à lareira porta à esquerda).
CENA I
(Margarida dormindo; Gastão) .
GASTÃO (Levantando a cabeça). Passei pelo sono… será que enquanto isso ela não chamou ninguém? (Ouve). Não. Está dormindo… Que horas são? 7 horas… ainda está escuro… vou acender o fogo. (Atiça o fogo).
MARGARIDA (Acordando). Nanine.
GASTÃO Já vai, Margarida.
MARGARIDA (Levantando a cabeça). Quem está aí?
GASTÃO (Preparando uma xícara de poção). Sou eu, Gastão… água.
MARGARIDA O que você está fazendo aqui?
GASTÃO (Dando-lhe de beber). Beba, primeiro depois eu digo. Está bom de açúcar?
MARGARIDA (Dando-lhe esta).
GASTÃO Eu nasci para enfermeiro.
MARGARIDA Que é de Nanine?
GASTÃO Está dormindo. Ontem de noite quando vim saber de você, a coitada não se aguentava mais de cansaço; eu, ao contrário, estava lépido. Você já estava dormindo… Então mandei Nanine se deitar. Me recortei perto do fogo e passei muito bem a noite vendo você dormir. O seu sono me fez bem. Então, como e que está se sentindo hoje?
MARGARIDA Bem… Mas coitado de você, Gastão… se cansando à toa…
GASTÃO Coitado nada… Vivo perdendo as noites em bailes, por que não podia perder algumas velando um doente? Depois, eu precisava falar com você.
MARGARIDA O que tem para me dizer?
GASTÃO Você está em aparo?
MARGARIDA Como, em apuro?
GASTÃO Precisando de dinheiro… Parece que não há muito na casa, e é preciso que haja algum. Eu também, não tenho grande coisa. Não é pouco o que tenho perdido no jogo e fiz um mundo de compras inúteis, para o primeiro do ano. (Beijando-a). E que ele te traga saúde e felicidade, é o que desejo. Enfim ainda me sobraram uns 400 francos, que vou pôr ali naquela gaveta. Quando não houver mais nada, sempre haverá um pouco.
MARGARIDA (Comovida). É um anjo! E dizer que é você que está cuidando de mim, se preocupando por minha causa… você um desmiolado, como todos te chamam… você que nunca foi mais do que um amigo…
GASTÃO É sempre assim… E agora, sabe o que vamos fazer?
MARGARIDA O que?
GASTÃO Está fazendo um dia lindo hoje… você dormiu oito horas em seguida e ainda vai dormir um pouco… Da uma as três, quando o sol estiver bem quente, eu venho te buscar, você se agasalha bem e nós vamos dar uma volta de carro. E depois, quem é que vai dormir a noite inteira Margarida? Enquanto isso, vou fazer uma visita à minha mãe, que vai me receber, sabe Deus como! Há mais de quinze dias que não a vejo! Almoço com ela, dou-lhe um beijo e a uma em ponto estou de volta. Está bem?
MARGARIDA Vou ver se tenho forças.
GASTÃO Tem sim. Está com muito boa aparência (Entra Nanine). Pode entrar Nanine. Margarida já acordou.
CENA II
(Os mesmos, Nanine).
MARGARIDA Estava muito cansada, Nanine?
NANINE Um pouco, sim senhora.
MARGARIDA Abra a janela para entrar um pouco de luz. Quero me levantar.
NANINE (Abrindo a janela e olhando a rua). O doutor está aí.
MARGARIDA Coitado!… A primeira visita é sempre minha. Gastão, quando você sair deixe a porta aberta… Nanine, me ajude a levantar.
NANINE Mas…
MARGARIDA Eu quero.
GASTÃO Então, até já, Margarida.
MARGARIDA Até já, Gastão. (Antes de sair, Gastão ajeita os travesseiros no canapé, para Margarida deitar. Ela tenta se levantar e torna a cair. Enfim, apoiada em Nanine, vai até o canapé; o médico entra a tempo, para ajudá-la a sentar).
CENA III
(Margarida, Nanine, o Médico).
MARGARIDA Bom dia, doutor. Como o senhor é bom de estar pensando em mim desde cedo!… Nanine, vá ver se chegou alguma carta.
O MÉDICO Me dê sua mão. (Pega a mão de Margarida). Como está se sentido?
MARGARIDA Bem e mal! Bem de espírito, mal de corpo. Ontem de noite tive tanto medo de morrer que mandei buscar um padre… Que grande coisa é a religião! Eu estava triste, desesperada, com medo da morte… ele entrou, conversou comigo uma hora e carregou tudo, a tristeza, o desespero, o remorso, o pavor. Então eu dormi e estou acordando agora.
O MÉDICO Tudo vai indo muito bem, minha filha. Prometo que estará convalescendo, assim que a primavera chegar.
MARGARIDA Obrigada pela promessa, doutor. Quando Deus disse que mentir era pecado, estava abrindo uma exceção para os médicos. É o seu dever mentir! (A Nanine que entra). O que você traz aí Nanine?
NANINE Uns presentes.
MARGARIDA Ah É verdade, hoje é dia de ano bom. Quanta coisa, desde o ano passado! Há um ano atrás, a essa hora, estávamos à mesa, cantando… e saudávamos o ano novo com o mesmo sorriso com que nos despedíamos do ano velho. Lá se foi o tempo em que nós ainda sorríamos, doutor… (Abrindo os pacotes). Um anel com o cartão de Saint-Gaudens. Que boa alma! Um bracelete, com um cartão de Londres, do conde de Giray. O que diria se me visse neste estado! Bombons… Então os homens não são tão esquecidos como eu pensava! Tem uma irmãzinha, não tem doutor?
O MÉDICO Tenho, sim senhora.
MARGARIDA Leve esses bombons para ela… Há tanto tempo que não os provo. (À Nanine). E só isso?
NANINE E uma carta.
MARGARIDA De quem será? (Pegando a carta e lendo). “Minha boa Margarida. Estive em sua casa mais de vinte vezes, sem conseguir vê-la. No entanto, não quero que falte ao ato mais importante de minha vida: caso-me no dia l.° de janeiro. Era esse o presente de festas que Gustavo me reservava. Espero vê-la entre os raros convidados à cerimônia… cerimônia muito simples e modesta, que terá lugar às 9 horas da manhã, na capela de Sta. Teresa, na Igreja de Madalena. Beijo a com toda a alegria de um coração feliz. Nichette”. Então a felicidade existe para todos, menos para mim! Que é isso, eu sou uma ingrata! Doutor feche a janela que estou sentindo frio. E me dê um papel quero escrever. Por favor, me deixe gastar com aqueles que eu amo, os poucos momentos que ainda tenho de vida. (Esconde o rosto nas mãos. O médico põe o tinteiro na lareira e lhe da um bloco).
NANINE (Baixo ao Médico). Então, doutor?
O MÉDICO (Sacudindo a cabeça). Está muito mal!
MARGARIDA Doutor, quando sair faça o favor de deixar esta carta na igreja em que Nichette vai se casar; mas recomende que só lhe entreguem depois da cerimônia… (Escreve, dobra a carta e põe no envelope). Pronto; muito obrigada. (Aperta-lhe a mão). Não se esqueça; e se puder… volte logo. (O médico sai).
CENA IV
(Margarida e Nanine).
MARGARIDA Agora, ponha um pouco de ordem no quarto. (Tocam a campainha). Vá abrir, Nanine, estão tocando. (Nanine sai).
NANINE (Entrando). É a Sra. Duvernoy.
MARGARIDA Mande-a entrar.
CENA V
(Os mesmos, Prudência).
PRUDÊNCIA Então, Margarida, como vai passando hoje?
MARGARIDA Bem, Prudência muito obrigada.
PRUDÊNCIA Mande Nanine sair um instante; preciso falar a sós com você.
MARGARIDA Nanine, é melhor arrumar primeiro o outro quarto; se precisar de você, eu chamo… (Nanine sai).
PRUDÊNCIA Quero lhe pedir um favor, Margarida.
MARGARIDA Que favor?
PRUDÊNCIA Tem dinheiro à mão?
MARGARIDA ultimamente ando meio atrapalhada, mas enfim, diga…
PRUDÊNCIA É que hoje é dia de ano bom e eu queria fazer umas compras… Estou precisando com urgência de uns 200 francos. Será que você podia me emprestar até o fim do mês?
MARGARIDA Até o fim do mês!
PRUDÊNCIA Se não puder…
MARGARIDA Eu ia precisar desse dinheiro…
PRUDÊNCIA Então não faz mal.
MARGARIDA Que importa! Abra a gaveta… quanto tem aí…
PRUDÊNCIA 500 francos.
MARGARIDA Então, tire os 200 francos que está precisando.
PRUDÊNCIA E você? Não vai lhe fazer falta?
MARGARIDA Não, eu me arranjo com o resto. Não se preocupe comigo.
PRUDÊNCIA (Pegando o dinheiro). Ah! Está me prestando um servição.
MARGARIDA Antes assim, Prudência… Antes assim.
PRUDÊNCIA Já vou indo… Venho vê-la a qualquer hora… Você está com melhor aspecto.
MARGARIDA É… estou melhor.
PRUDÊNCIA Os dias bonitos já estão chegando… O ar do campo vai acabar de curá-la.
MARGARIDA Isso mesmo.
PRUDÊNCIA Muito obrigada, outra vez.
MARGARIDA Me mande Nanine.
PRUDÊNCIA Sei. (Sai).
MARGARIDA Algumas esperanças por 200 francos.
NANINE (Entrando). Veio pedir dinheiro outra vez?
MARGARIDA Veio.
NANINE E a senhora deu?
MARGARIDA De que me vale o dinheiro? E ela disse que precisava tanto! De fato, sem ele não podemos viver e hoje ainda temos os presentes de festas… Pegue esse bracelete que acabam de me mandar. Vá vendê-lo e volte logo.
NANINE Mas enquanto isso…
MARGARIDA Eu posso ficar só, não preciso de nada. Depois, você não vai demorar, há três meses que já conhece o caminho do penhor. (Nanine sai).
CENA VI
MARGARIDA (Lendo uma carta que tira do seio). “Minha senhora. Soube por terceiro do duelo entre Armando e o barão de Varville, pois meu filho partiu sem ao menos vir me pedir a bênção. Confesso que ousei acusá-la desse duelo e dessa fuga. Felizmente já estou a par de tudo e Artur de Varville não corre mais perigo. A senhora cumpriu sua promessa além do que permitiam as suas forças e todos esses reveses abalaram a sua saúde. Escrevi a Armando contando-lhe a verdade. Ele está bem longe mas há de voltar para pedir perdão, por ele e por mim, pois quero reparar o dano que fui forçado a lhe causar. Cuide de sua saúde, minha filha, e espere confiante. Sua coragem e sua abnegação tornaram na digna de um futuro melhor que, prometo, ainda há de alcançar. Por enquanto, receba os protestos de grande simpatia, estima e consideração, de Jorge Duval”. Há 6 semanas que ele me escreveu e que eu leio esta carta, sem parar, para ver se me encorajo um pouco. Se ao menos Armando me escrevesse. Se eu pudesse esperar a primavera! (Ela se levanta e olha no espelho). Como estou mudada! No entanto, o médico prometeu que vai me curar. É preciso paciência. Mas ainda há pouco, falando com Nanine, não me condenou? Disse que estou mal, eu ouvi. Muito mal! Ainda é uma esperança, ainda são alguns meses de vida, e se enquanto isso Armando chegasse, eu estaria salva. É o mínimo que se pode esperar no primeiro dia do ano. Depois, estou em meu juízo perfeito. Se eu estivesse em perigo de vida, Gastão não teria coragem de rir, como ainda a pouco à minha cabeceira. O médico não me deixaria. (Na janela). Quanta alegria pelas casas! Olhe aquele menino rindo e cambaleando ao peso dos brinquedos; se pudesse eu o beijava.
NANINE (Entra, deixa o dinheiro em cima da lareira e vem até Margarida). A senhora…
MARGARIDA O que é, Nanine?
NANINE Está se sentido melhor, hoje?
MARGARIDA Estou, por quê?
NANINE Então, prometa que vai ficar calma.
MARGARIDA Mas o que foi?
NANINE Quis primeiro prevenir a senhora… quando a gente não espera é difícil suportar uma alegria!
MARGARIDA Você disse uma alegria? Armando! Você viu Armando? Armando veio me ver! (Nanine faz que sim com a cabeça. Margarida corre até a porta). Armando! (Ele aparece, muito pálido. Ela se atira ao seu pescoço, se aperta contra ele). Não é você! Não é possível que Deus seja tão bom, tão misericordioso.
ARMANDO Sou eu, Margarida, eu mesmo, tão arrependido, tão culpado, que nem tinha coragem de cruzar a sua porta. Se não tivesse encontrado Nanine teria ficado na rua. Margarida, não me amaldiçoe! Meu pai me escreveu. Eu estava bem longe, sem saber para onde ir, fugindo do meu amor e do meu remorso… Parti como um louco, viajando noite e dia, sem trégua, sem sono, sem repouso, perseguido por pressentimentos sinistros… vendo de longe a casa coberta de lato… Se eu não tivesse te encontrado eu morreria, pois teria sido o culpado de sua morte… Ainda não estive com meu pai. Diga que nos perdoa, Margarida, a nós dois. Como é bom te ver de novo.
MARGARIDA Te perdoar, querido? Fui eu a culpada… Mas não podia ter feito outra coisa. Queria a sua felicidade, mesmo a custa da minha… Agora seu pai não vai mais nos separar… Não é a mesma Margarida que você está encontrando, mas ainda sou moça e voltarei a ser bonita, pois sou tão feliz! Vamos esquecer tudo… De hoje em diante, começaremos a viver…
ARMANDO Nunca mais hei de te deixar… Nunca mais havemos de voltar a Paris… Agora meu pai já sabe o quanto você vale… Vai te amar como o anjo bom de seu filho. Minha irmã está casada. O futuro nos pertence…
MARGARIDA Fale… fale… Suas palavras me dão outra vida, seu amor me devolve as forças… Eu estava dizendo, hoje cedo, que só uma coisa! podia me salvar… Mas não pensei que pudesse acontecer! Não devemos perder mais tempo e como a vida me escapa entre os dedos, vou prendê-la na mão… Sabe? Nichette vai casar… com Gustavo, agora cedo… Vamos vê-la… Vai ser bom entrar na igreja, fazer uma oração e assistir à felicidade dos outros… Que surpresa que estava me reservando a Providência para o dia de ano bom! Diga que me ama ainda uma vez.
ARMANDO Eu te amo, querida, e hei de te amar a vida inteira.
MARGARIDA Nanine, eu quero me aprontar para sair.
ARMANDO Você tomou bem conta dela Nanine! Obrigado.
MARGARIDA Falávamos em você todos os dias só nós duas; pois ninguém mais tinha coragem de pronunciar o seu nome. Ela me consolava, dizendo que você ia voltar… E não mentia… Você andou correndo o mundo… Agora partiremos juntos…
ARMANDO Que é isso, Margarida, está tão pálida!…
MARGARIDA Não é nada querido. É a felicidade que não pode entrar de repente num coração desolado… sem sufocar um pouco… Às vezes a alegria dói tanto como a dor. (Senta-se e atira a cabeça para trás).
ARMANDO Meu Deus! Por favor, Margarida! Fale!
MARGARIDA Não se assuste, querido; sempre fui sujeita a essas vertigens. Passam depressa: olhe estou sorrindo. Pronto já passou! É a alegria de viver que me embriaga!
ARMANDO Está tremendo!
MARGARIDA Não é nada, não! Me dê um xale, Nanine, um chapéu…
ARMANDO (Assustado). Meu Deus! Meu Deus!
MARGARIDA (Tirando o xale, com desespero depois de ter experimentado sair). Oh! Não posso! (Cai sobre o canapé).
ARMANDO Corra buscar o médico, Nanine.
MARGARIDA Isso, depressa! Diga-lhe que Armando voltou e que eu quero viver, que eu preciso viver… (Nanine sai). Se sua volta não me salvou, o que irá me salvar? Mais cedo ou mais tarde aquilo que foi a nossa vida acaba nos matando. Eu vivi de amor estou morrendo de amor.
ARMANDO Não foi para te perder de novo que Deus quis que eu te encontrasse, Margarida… Você vai viver, é preciso.
MARGARIDA Sente aqui, perto de mim… o mais perto que puder e preste atenção… Ainda há pouco tive um momento de raiva contra a morte. Estou arrependida, ela é necessária. E generosa pois esperou a sua chegada para me levar. Se minha morte não fosse certa, seu pai não teria pedido a sua volta.
ARMANDO Não fale mais assim, Margarida, eu acabo enlouquecendo… Não diga mais que vai morrer, diga que você não acredita… que não pode ser… que você não quer morrer!
MARGARIDA Mesmo que eu não quisesse, teria de me conformar, querido, é a vontade de Deus. Se eu fosse uma moça direita, se em mim tudo fosse puro, talvez ainda chorasse à ideia de te deixar neste mundo. Se eu morrer, a imagem que você guardar de mim será pura; se eu viver sempre haverá manchas em nosso amor… Creia, tudo que Deus faz é bem feito.
ARMANDO (Levantando-se). Ah! E demais!
MARGARIDA (Detendo-o). Que é isso? Sou eu que tenho de te dar coragem? Escute, abra essa gaveta e pegue um medalhão… é o meu retrato, no tempo em que eu era bonita! Mandei fazer para você… é seu, quero que te ajude a recordar. Mas se algum dia uma moça bonita se apaixonar por você, se você casar com ela, como deve ser… como eu quero que seja… e se ela encontrar esse retrato.. . diga que é de uma velha amiga que morreu… Mas se ela tiver ciúmes do passado, como nós mulheres costumamos ter, se te pedir o sacrifício desta lembrança, faça-o sem medo e sem remorsos; será muito justo e, desde já, eu te perdoo… A mulher apaixonada sofre demais não se sentindo querida… Está ouvindo, Armando compreendeu bem?
CENA VII
(Os mesmos, Nanine, depois Nichette, Gustavo e Gastão. Nichette entra as sustada mas se acalma à medida que vê Margarida sorrindo e Armando a seus pés).
NICHETTE Ah! Margarida! Você me escreveu que estava morrendo e eu a encontro feliz e com Armando…
ARMANDO (Baixo). Oh! Gustavo, como sou infeliz!
MARGARIDA Eu estou morrendo, mas estou feliz também e minha felicidade esconde minha morte… Então estão casados… Como é estranha esta primeira vida e como deve ser estranha a outra. Agora vão ser ainda mais felizes do que antes. Falem de mim, às vezes… Armando, me dê a mão… Juro que quando a gente é feliz. não é difícil morrer… (Entra Gastão) F. Gastão que veio me buscar… Que bom… assim ainda o vejo… Como a felicidade é ingrata! Eu tinha me esquecido de você… (A Armando). Ele foi tão bom para mim… Ah! É estranho! (Levanta-se).
ARMANDO O que?
MARGARIDA Não estou sofrendo mais. Parece que a vida está voltando… um bem estar, como nunca senti… Eu vou viver! Ah! Como estou me sentindo bem! (Senta-se e parece adormecer)
GASTÃO Está dormindo!
ARMANDO (Inquieto e depois, aterrado). Margarida! Margarida! Margarida. (Dá um grito, é obrigado a fazer um esforço para retirar sua mão da de Margarida). Ah! (Recua, horrorizado). Morta! (Correndo para Gustavo). Meu Deus! Meu Deus! O que vai ser de mim?…
GUSTAVO Pobrezinha, como gostava de você!
NICHETTE (Que se ajoelhara). Durma em paz, Margarida! Muito lhe será perdoado pelo muito que amou !

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