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A hora da estrela de Clarice Lispector II

 

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A hora da estrela de Clarice Lispector II
Eis aqui mais outro fato inusitado. Macabéa, instrumento que nos mostrará a explosão de viver, é a personagem mais vazia de tudo que se possa imaginar, inclusive de vida. Não se lembra de seus pais, no sertão de Alagoas; fora criada por uma tia religiosa, que lhe deu uma educação castradora. Torna-se uma mulher sem charme, expressividade, inteligência, sensualidade, carne, consciência. O conhecimento que tem do mundo é adquirido de forma fragmentada – e, por isso, inútil –, enquanto se anunciam as horas da madrugada (perdida nesse fluir do tempo e na insônia), reforça a inutilidade da existência da personagem.
A vida da protagonista, que sonha em ser estrela de cinema, mas que almoça cachorro quente para não gastar dinheiro, que come em pé nos botecos, que coleciona propagandas, que sonha com o dia em que conseguirá comprar um pote de creme hidratante (que chegaria a comer, tal a sua paixão), começa a ganhar sentido no momento em que conhece Olímpico. O relato desse encontro é o mais despropositado possível. Rodrigo S. M. informa que o havia composto numa boa forma literária, mas a faxineira havia jogado fora seus escritos. Assim, passa a refazê-lo, dessa vez de forma atirada. Informa apenas que os dois nordestinos se reconheceram como que no faro.

A hora da estrela de Clarice Lispector II: A chegada de Olímpico, que se orgulha de ter matado um cabra no sertão, que sonha ser deputado e ter a boca cheia de dentes de ouro, que admira touradas e açougueiros, em suma, um arrivista que quer subir na vida a todo custo, é importante, pois encorpa o caráter da protagonista. É quando ele diz seu nome – que indica seu caráter talhado para subir às alturas – que ficamos sabendo o nome de Macabéa. Pode-se até pensar na relação tosca entre os dois, ela ausente de carisma amoroso – o namoro consiste em passeios e momentos em que ficam sentados em bancos de praça –, ele grosseiro e autoritário, Macabéa é quem leva vantagem, pois sua personalidade vai parcamente enriquecendo. Isso se torna mais simbólico no dia em que vai ao zoológico. A protagonista fica tão estarrecida quando vê a massa compacta que é o corpo de um rinoceronte que acaba se urinando. Sua sexualização foi despertada.
No entanto, foi trocada pela companheira de escritório, Glória, datilógrafa muito mais eficiente do que Macabéa (semi-analfabeta que emporcalha o serviço), além de mais encorpada. Para Olímpico, casar-se com uma loira (oxigenada) e “carioca da gema” seria uma maneira de subir na vida. Nossa heroína, ainda assim, não sofre, mas sua libido fica mais despertada. Sintomático é, nesse contexto, o momento em que vai passar batom de forma desajeitada, usando um espelho quebrado. Enfeitar-se já indica que está com desejo, que ainda se demonstra de forma primitiva, grotesca e assustadora – mais espanta que atrai; não é à toa que a imagem que surge no espelho é retorcida.

A hora da estrela de Clarice Lispector II: O fato é que Macabéa está tendo atitudes inéditas – dando atenção a si mesma. Uma vez faltara ao serviço para ficar só, enquanto suas companheiras de quarto iam trabalhar nas Lojas Americanas. Em outra ocasião, tinha ido ao médico, que lhe diagnostica tuberculose. Ela nem sequer percebeu o que significava a doença.
Assim, aproveitando essa onda, Glória – talvez com remorso por ter tomado o namorada da amiga – aconselha a protagonista (até dinheiro empresta!) a ir a uma cartomante para tirar sua sorte. É a grande virada de sua vida, primeiro porque vai ganhar um destino, um futuro, algo que a impulsionasse para frente, que eliminasse de sua vida o simplesmente existir. O crítico, porém, é que isso virá da boca de outro.
Realmente, muita mudança ocorre. Enquanto Macabéa espera ser atendida, numa sala decorada por meio de um gosto duvidoso, seu “eu” já se está alterando. Novidade também é a forma como a cartomante, antiga prostituta e cafetina, trata Macabéa: é carinhosa, gostando até do nome dela. Adivinha perfeitamente a vida da protagonista, qualificando-a como horrível. Mas promete muita coisa boa. É nesse instante que a heroína percebe como a existência era de fato rala.
Então, a grande previsão. A cartomante vê um estrangeiro, alemão, Hans, que encherá Macabéa de amor, riqueza, jóias, casacos. Passará a ser amada, a ser bonita. O encontro com esse homem proporcionaria a Macabéa uma mudança radical em sua vida.

A hora da estrela de Clarice Lispector II: Dotada de um destino, Macabéa até sorri. Sai tão inebriada do lugar miserável em que ficava a profetisa que atravessa distraída a rua. É ironicamente atropelada por um Mercedes Benz (atropelada por uma estrela…) dirigido por um alemão, que nem pára para socorrê-la.
Nos seus últimos instantes, cabeça batida na guia, fala “Quanto ao futuro”. Está aparentemente realizada. Há pessoas prestando atenção nela. É o centro das atenções. É uma estrela. Tanto é que, em meio à sensualidade que vai sentindo, encolhendo-se como um feto, começa a delirar, imaginando que seu sangue era estrela. É o seu grande momento, proporcionado pela morte. Havia encontrado um motivo para o seu existir.

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Publicado em:Resumos de livros

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