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Alfarrábios de José de Alencar

 

Alfarrábios de José de Alencar: crônicas dos tempos coloniais

Sob esse título, publicado em 1872, Alencar enfeixou três histórias em dois volumes, dedicadas à vida no período colonial. No primeiro, veio ‘O Garatuja’ romance baseado num episódio narrado por Baltasar da Silva Lisboa, nos Anais do Rio de Janeiro; no segundo, duas novelas escritas ainda no tempo de estudante, ‘A alma de Lázaro’ e ‘O ermitão da Glória’. O perfil e a história dos textos vêm descritos no texto de apresentação da coletânea, intitulado ‘Cavaco’.

Em O Ermitão da Glória, o escritor conta as aventuras românticas de Aires de Lucena, na sua luta contra o destino e em luta contra invasores holandeses e franceses. Passa por dolorosas provações em suas desventuras, mas tem muita sorte nas batalhas.

Trecho selecionado de Alfarrábios de José de Alencar – O Ermitão da Glória

A Penitência
Antes de findar a semana largou a escuna Maria dos Prazeres do porto do Salvador, com o dia sereno e mar de bonança, por uma formosa manhã de abril.
Tempo mais de feição para a partida não o podiam desejar os marujos; e todavia despediam-se eles tristes e soturnos da linda cidade do Salvador, e suas formosas colinas.

Ao suspender do ferro partira-se a amarra, deixando a âncora no fundo, o que era mau agouro para a viagem. Mas Antônio de Caminha riu-se do terror de sua gente, e meteu o caso à bulha.
– Isto quer dizer que havemos de tornar breve a esta boa terra, pois cá nos fica a âncora do navio, e a de nós outros.
….
Ao passar fronteira a escuna, caiu um pegão de vento, que arrebatou o navio e o despedaçou contra os rochedos, como se fora uma concha da praia.

Antônio de Caminha que sesteava em seu camarim, depois de muitas horas, ao dar acordo de si, achou-se estendido no meio de uma restinga sem atinar em como fora para ali transportado, e o que era feito de seu navio.
Só ao alvorecer, quando o mar rejeitou os destroços da escuna e os corpos de seus companheiros,  compreendeu ele o que era passado.

Muitos anos viveu o mancebo ali, naquele rochedo deserto, nutrindo-se de mariscos e ovos de alcatrazes, e habitando uma gruta, que usurpara a esses companheiros de seu exílio.

Várias vezes, tentou Caminha a fortuna, que se de todas lhe sorriu, foi só para mais cruel tornar-lhe a malogro das esperanças. Quando ia medrando, e a vida se embelecia aos raios da felicidade, vinha o sopro da fatalidade que de novo o abatia.

Mudava de profissão, mas não mudava de sorte. Afinal cansou na luta, resignando-se a viver da caridade pública, e a morrer quando esta o desamparasse.
Um pensamento porém o dominava, que o trazia constantemente à ribeira, onde suplicava a todos os marítimos que passavam, a esmola de levá-lo ao Rio de Janeiro.

Penetrou o mendigo na caverna, e viu prostrado por terra o corpo imóvel de um ermitão. Ao ruído de seus passas, soergueu este as pálpebras, e seus olhas baços se iluminaram.
A custo levantou a mão apontando para a imagem de Nossa Senhora da Glória, posta em seu nicho à entrada da gruta; e cerrou de novo os olhos.

Já não era deste mundo.

A alma do Lázaro, uma crônica romanceada, tem uma trama simples, mas consegue manter o leitor preso à sua leitura. Olinda serve de cenário e na primeira parte o narrador é o próprio autor . Ele busca inspiração em um diário abandonado em uma edificação em ruínas. Na segunda parte, o autor reproduz, através dos escritos do diário encontrado, sua própria dor, humilhação e desprezo por ter contraído o “hediondo mal de Lázaro”.

Trecho selecionado de Alfarrábios de José de Alencar – A Alma de Lázaro

30 DE ABRIL
Lembro-me agora! O velho, é o mesmo que me repeliu, quando eu o acabava de salvar do cão danado. Daquela vez tinha razão: meu contacto o enchia de horror; mas desta, que mal lhe fiz para me precipitar nesta voragem do desespero?

4 DE MAIO
Sei tudo!…
O velho é avó de Úrsula. Percebeu sem dúvida o aparecimento naquele sítio de um vulto suspeito, e quis reconhecê-lo.
Acendeu a fogueira, que devia esclarecer a minha figura, e fugiu aterrado, por si e pela neta.
Não lhe quero mal por isso.
Salvar a filha de seu sangue é um dever de todo o homem. Em seu lugar eu faria mais.

Exterminaria ali mesmo o pestiferado para que nunca mais ousasse envenenar o ar que ela, a inocente, respirava.
Úrsula não tornou, e eu rogo a Deus que não me apareça nunca mais. Assim terei ao menos o consolo de olhar os muros que a escondem à minha vista, mas não ao meu coração.

Presente ela,nunca ousarei eu aproximar-me daqueles sítios.
O horror a afastou para sempre. Ainda bem! Ao menos não receberei dela o asco e desprezo que o mundo arremessa sobre mim; e poderei guardar dentro em minha alma, doce e com passiva, a linda imagem que me sorriu um dia através das agruras de uma mísera existência.

Trecho selecionado de Alfarrábios de José de Alencar – O Garatuja
O GARATUJA é a primeira de uma série de crônicas dos tempos coloniais, algumas já escritas, outras apenas esboçadas, em tempos idos, quando o pensamento, ainda não de todo enredado nas teias do mundo, tinha folga para vaguear pelo passado, e entreter-se com as pieguices e ingenuidades de nossos pais, a quem o mais simplório garoto de agora enfiaria, não pelo fundo de uma agulha, o que não fora nenhuma façanha, mas pela cabeça de um alfinete.

Todavia, se o leitor no folhear estas páginas, tiver tempo de pensar, e se deixe ir a cogitar na singularidade da revolução, que esteve para ensanguentar a heroica, mas pacata, cidade de São Sebastião, lembre-se da magna questão do martelinho, que por pouco não perturbou a paz maçônica, da mesma forma que outrora o hissope na igreja d’Elvas.
Então há de concordar comigo que o homem é sempre menino até morrer de velhice; e que depois das criançadas do pirralho, vêm as travessuras do rapazola, e por último as estrepolias dos barbaças, as quais são as piores, sobretudo quando começa lhe a grisar o pêlo.

Rio, 1 de dezembro, 1872.

 

Alfarrábios de José de Alencar

Publicado em:Resumos de livros

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