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Angústia de Graciliano Ramos II

 

Resumo Angústia de Graciliano Ramos – parte II
Toda essa erotização acumula-se de forma torturante em Luís da Silva, inspirando-lhe críticas moralistas as mais ácidas, mas que no fundo revelam ser recalques, ou seja, resultado de desejos não realizados. Tudo se torna uma bomba de efeito retardado, que, enquanto não é detonada, vai massacrando a existência do narrador, mergulhando-o numa verdadeira angústia obsessiva. Quando se pensa que é descarregada graças ao assassinato de Julião Tavares, descobre-se que a situação não está resolvida, pois o protagonista cai em outra tortura mental, um misto de culpa e medo de ser descoberto. Não tira mais da cabeça a ideia de conseguir perder a consciência. Cai, portanto, mais uma vez, na angústia, piorada pelo fato de não poder livrar-se de sua agonia.

Angústia de Graciliano Ramos II: Esse aspecto é tão forte a ponto de nortear a narrativa, que se mostra circular, não-linear (mas bastante coesa). Começa-se o livro em meio às reflexões de Luís da Silva, de mãos feridas, que não consegue realizar o seu serviço, pois em todo canto vê o rosto de Julião Tavares e se lembra do esganamento. Acompanhamo-lo, então, em seu mergulho na rememoração de todo o contexto que gerou o assassinato. É uma sondagem existencial que vai vasculhar a memória do narrador (o mais interessante é que, como dizia um crítico, quando realiza uma fuga para a infância, não percebe que está indo justamente na direção das causas de todos os seus problemas), o que faz de Angústia uma obra que antecipa o romance intimista ou o psicológico. Nesse ponto, é interessante ver como os fatos vão puxando outros e compondo, no final de uma narrativa impressionantemente em nada caótica, o todo de uma personalidade em que o aspecto psicológico interpenetra-se ao social.
É bastante significativo, quanto a essa técnica de efabulação, o modo em que o elemento exterior acaba-se misturando ao interior, comunicando-se. Veja como isso ocorre no trecho abaixo.

Angústia de Graciliano Ramos II – Não me continha: saía de casa e andava à toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas. O inverno tinha começado, quase sempre caía uma chuvinha renitente. Ia sentar-me num banco da Praça dos Martírios, e os pingos que tombavam da folhagem das árvores molhavam-me a cabeça descoberta e escaldada. A sentinela cochilava no portão do palácio. Ao pé do morro, pedaços da igreja fechada apareciam entre os ramos. Um barulho horrível de motores e rodas. Automóveis a roncar. Todos queimavam gasolina misturada com perfume. Depois um rádio começava a trovejar óperas. O cheiro e o som tornavam-se insuportáveis. Esforçava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao fuzil. Serviço pau. Um pobre homem dormindo em pé. Acordava, escancarava a boca, via com tédio as grades do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha. O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Porque não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela.

Angústia de Graciliano Ramos II – Nesse excerto, Luís da Silva está atormentado com a ideia de Marina ir de carro à ópera na companhia de Julião Tavares. As lembranças da moça vestida de forma chique e seu perfume misturando-se à gasolina do veículo, além do vermelho, cor predileta dela e sua marca registrada, vão-se fundir de forma obsessiva, ecoando em vários elementos da praça. O mundo externo, na verdade, passa a ser visto filtrado e reinterpretado pelo transtorno mental do narrador. Ou melhor, deturpado.
Essa confusão mental constrói-se de forma tão intensa que monta um processo de esquizofrenia no qual o protagonista extrapola na mistura entre realidade e imaginação, o que revela uma mente doente e massacrada pelo meio, já que, alijada do sistema a que pertence e de suas benesses, acaba se tornando aleijada. É o que se percebe no excerto a seguir.
“Como seria a cara de d. Albertina? Imaginei-a magra, pálida, séria, correta. Não havia motivo para Marina esconder os olhos.
– Faça o favor de descobrir o rosto. Não se acanhe. Tão natural!
Depois voltariam as regras.
– Dois meses? Perfeitamente. Agora a senhora toma precauções, usa isto, usa aquilo.
Exatamente como se Marina estivesse no consultório de um médico, sarjando um tumor. Nenhum sinal de crime ou de ação proibida. A seringa na água que borbulhava, um frasco sobre a mesa da cabeceira, quadros de anatomia nas paredes, a chama do álcool tremendo, a voz calma de d. Albertina a prescrever medidas de segurança. Uma senhora pálida e franzina, de rosto sereno e boas intenções.
– Não se acanhe. Fique à vontade.
Nenhuma alusão a qualquer espécie de falta. Direita, fria, falando baixinho, empregando termos escolhidos.

Mas porque era que d. Albertina, parteira diplomada, com longa prática, deveria ser assim e não de outra forma? Talvez fosse diferente. Os anúncios não valem nada, papel aguenta tudo (A desconfiança e a depreciação da linguagem escrita é um tema muito comum na obra de Graciliano Ramos. Lembre-se de que em Vidas Secas Fabiano pensa que as palavras difíceis (comuns na forma impressa), apesar de sedutoras, deviam esconder ladroagens. Paulo Honório, em São Bernardo, considerando-se homem prático, acha o discurso literário e seus “floreios” algo inútil.

Angústia de Graciliano Ramos II: Luís da Silva não escapa dessa mitologia, o que é interessante, pois é uma personagem que está do outro lado da questão, já que domina o código impresso. Está acostumado a redigir textos agressivos com opiniões das quais não participa, muitas vezes até contraditórias entre si; fá-lo apenas porque está sendo pago. Por isso chega a pôr descrédito em relação ao que abstratamente se chama “opinião pública”, montada que é de uma forma tão inautêntica), como dizem os matutos. D. Albertina era uma velha gorda e mole, sem diploma nem prática, de óculos ordinários e hálito desagradável, mal-educada, resmungona. Marina estava deitada numa cama nojenta; nas paredes nojentas não havia gravuras de anatomia: havia quadros de santos, retratos coloridos, páginas de revistas. Sem lavar as mãos duras, de unhas compridas e negras, d. Albertina examinava brutalmente o corpo de Martina, arranhando-a,machucando-a, rosnando:
– Era melhor deixar-se de vergonhas e descobrir a cara. Quando andam na pândega, não têm esses luxos. E depois parem bem na bananeira. Feias coisas.
Mostrava os dentes amarelos de selvagem. Seria assim d. Albertina? A cliente mordia as cobertas sujas, continha a respiração, fechava os olhos, apertava as coxas e engolia o choro.
– Abras as pernas, criatura. Donde vêm esses dengues? Assim ninguém pode trabalhar.
O dinheiro do trabalho fora recebido adiantadamente. Marina dera nome falso e endereço errado, temendo a exploração de d. Albertina.
– Não vale a pena a senhora se incomodar. Eu apareço, compreende? Se houver necessidade, eu apareço.
– Quanto devo?
O homem cabeludo deu a conta. Joguei uns niqueis no balcão, disse frases sem sentido (…)”

Angústia de Graciliano Ramos II: É importante reparar como a imaginação de Luís da Silva, ao retratar a parteira que fará o aborto em Marina, oscila radicalmente entre o idealizado e o grotesco em questão de instantes, enquanto está no bar em frente, espionando sua ex-noiva em sua “consulta”. E o faz de maneira tão viva que é como se o imaginário fosse de fato real. Além disso, reforçando o que foi dito anteriormente, há ainda a mistura, no último discurso direto, entre o plano interno imaginário (a quantia a ser paga pelo aborto) e o planto externo-real (a quantia a ser paga pela bebida).
Enfim, por todos esses motivos Angústia encaixa-se facilmente entre os tesouros que a Literatura Brasileira apresentou até agora, merecendo ser mais do que lido – tem de ser degustado em outras situações que não a sufocante em que todo vestibulando se encontra.

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Publicado em:Resumos de livros

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