Menu fechado
Resumos de livros para o Vestibular. Leitura de Vestibular

Atire em Sofia de Sônia Coutinho II

 

Resumo Atire em Sofia de Sônia Coutinho – parte II

O jovem João Paulo que saiu daqui para realizar tantos sonhos e projetos está morto. E, até certo ponto, conseguiu – só que o sonhador morreu e os sonhos perderam o sentido, ou viravam pesadelos.
Na cama, tentando dormir, conclui: enlouquecer é muito mais fácil do que jamais imaginou. Pode-se perfeitamente enlouquecer e continuar vivendo, como todo mundo – ou quase.
Fernando
Agora, um homem de meia idade, cabelos grisalhos, ligeiramente gordo, parecendo acomodado a suas tarefas diárias de advogado e professor de grego na Universidade.
O rosto mantém os traços firmes e ele conserva também seu jeito cortês e suave de sempre. Continua, porém, uma pessoa algo misteriosa, alguém que sempre cultivou a obscuridade, como se este fosse o único clima que conviesse. Sempre evitou destacar-se.
Fazia esforço constante para agradar até o ponto de autoanulação. O mistério sempre cercou sua vida amorosa aparentemente inexistente. Fernando e seu sorrido. Fernando e seus constantes sins. Era na casa de Fernando que a turma se reunia nos almoços de domingo para planejar e sonhar o futuro.
Filho de um comerciante português que lutou toda a vida para garantir o “sossego” dos filhos, conclui Direito e Letras Clássicas e logo após a formatura ganha um apartamento e uma pequena fazenda de gado. Sua mãe era uma mulher dedicada aos filhos, padrão de comportamento, quase uma santa.
Ele não se casara e despertou, por isso, especulações maldosas, mas seu comportamento garantia que não ia contestar os costumes e desempenharia seu papel a contento.
Para ele a regra da vida é a moderação, o nada em excesso. Quando o simples mortal ultrapassa a medida e cai no descomedimento, os deuses se enfurecem e lhe aplicam o destino cego.
Matilde
A cidade considera sua maneira de vestir espalhafatosa para uma mulher de 40 anos: saias curtas, cores muito vivas, babados, botinhas prateadas, barriga de fora. Frequenta os lugares chiques e movimentados e procura seduzir os homens.
Fora educada de forma convencional, encaixara-se nos modelos propostos pela família e pela sociedade, casara-se virgem com um marido escolhido pelos pais. Após a morte dos pais, o marido apossou-se da sua herança e a abandonou, ficando inclusive com a custódia dos filhos. Vive apenas com uma pensão que lhe ficara dos pais e que lhe garante apenas a sobrevivência. Criou uma rotina para afogar a solidão e abafar o desespero.
No final, Matilde encontra Júlio, um antropólogo com jeito de hippie tardio, malvisto pelo sistema universitário por seu contato com grupos negros. Ele sente muita ternura por ela e resolve protegê-la.
Tom
Cabelo comprido com alguns fios brancos, a pele morena, uma intensidade de criatura da terra, com cheiro de mato úmido. O único de sua turma de escola que estudou fora, fez vestibular para um curso de Física em São Paulo e passou. Mas abandonou o curso quando se tornou um militante político radical, em meados dos anos 60. Nos anos 70, jurado de morte, exilou-se e ficou fora do Brasil quase uma década. Casou-se duas vezes, teve filhos, separou-se. Agora, com cabelos emaranhados de hippie, trabalha em misteriosas empreitadas e transa com garotinhas. Apesar do cabelo, está ficando com um jeito de empresário próspero.
Josué
Era um especialista em datas, capaz de lembrar, por exemplo, a cor da blusa que Sofia usava no ano tal, em determinado dia e hora. Sofia costumava dizer que ele era a sua memória. Com a sua morte, morreu uma boa parte de Sofia. Numa viagem de pesquisas à Europa, conheceu Ingrid, uma moça austríaca, e veio morar com ela na cidade. Na época em que se encontrou com os colegas de escola, num almoço, dizia ter desvendado o mistério da morte e já sabia quando iria morrer. Morreu poucos meses depois daquele almoço.
Maíra
Engordando confortavelmente no enorme apartamento herdado do marido, já tem pouco a ver com essa imagem sua que aparece nas fotos, de colegial, magrinha, morena, risonha. A mãe queria casá-la com um engenheiro alourado e bonito, comportado e promissor que terminou com acessos de loucura. Para Maíra, a mudança de valores e costumes levou muitas pessoas à loucura. Eram preparados para uma realidade e enfrentavam outras bem diferentes.
Ela consegue viver à sua maneira, conservando sua vitalidade e sua disposição para se divertir. Teve e tem muitos homens ainda. Vive à margem, não sabe se é aceita. Sobrevive porque o casamento lhe deixou alguma coisa.
Milena
Faz do curso de Psicologia. É aluna de Fernando, professor de grego, matéria eletiva do seu curso. Tem 19 anos, um namorado negro e lindo e não consegue deixar de ser virgem.
Cabelo alto e crespo, cortado redondo, e traje sempre negro – pulseirinha de couro negro, com toachas, botinhas negras. Chamada, nas casas noturnas, por um nome de guerra – Dandalunda.
Não passa de uma moça magrinha e muito morena, quase mulata; a mulatinha rica que faz, no máximo, um estilo afro-punk de boutique, capaz de chorar de desamparo e solidão. Por mais que se pareça com a mãe, por mais que a ame, ela nunca vai se aproximar de Sofia. A cidade lhe impôs uma marca – continuará sendo “a filha da Sofia”, uma “mulher perdida”.
A avó a obrigou até certa idade a alisar o cabelo. Seu pai comporta-se como ariano puro e fala contra os negros em todas as oportunidades. Nas escolas chiques que frequentou ouvia alusões a seu cabelo e sua cor, vivenciando o preconceito. Rebelou-se e o ato simbólico desta rebeldia foi deixar de alisar o cabelo e adotar um penteado afro.
A avó e o pai tentavam impedir que frequentasse o candomblé e dançasse o carnaval de rua. Como tentou o suicídio, fingem ignorar tudo que lhes desagrada e pagam um psicanalista para ela.
Maura
Doce e aparentemente tranquila, pele clara, vestido azul e branco. Para Milena, ela é tola e carente e vai repetir o modelo da avó.

Atire em Sofia de Sônia Coutinho II – Obs.: O estudioso Sebastião Veloso faz uma inteligente colocação acerca da obra num estudo feito direcionado para o vestibular da UFBA.
“A obra não condiciona a crise existencialista apenas às mulheres feministas mas, em menor proporção, denuncia que anos de contemporaneidade são também aqueles onde o ser humano entra em crise porque busca em tudo, se projeta em tudo mas não se vê em nada. Sua imagem não é refletida em nada. Então se sente solto no espaço sem vínculo algum material ou espiritual, muito menos com o outro, o próximo. Quase sempre este comportamento se expressava nos homens e mulheres de classe média, universitários, de famílias conservadoras e bem relacionadas com a elite social. Com essa busca constante, sempre no vácuo de algo, mas nunca com as mãos no objeto, estas pessoas se afundavam nas drogas, na solidão, no vazio interior, no seu próprio eu que não servia para segurá-la, porque era frágil o suficiente para não permiti-las coragem de lutar contra esta sofreguidão marasmenta em que viviam. João Paulo, Fernando, Sofia, Milena (…) são exemplos de pessoas que sofreram profundamente por causa desta busca interior de coisas imateriais.

Atire em Sofia de Sônia Coutinho II – A presença do sobrenatural
No pensamento de Fernando, Sofia aparece como Lilith. Ela própria se admite Lilith, como quando atende ao telefonema que a convida a voltar para Salvador:
Eu, Lilith. A primeira companheira de Adão, a mulher suja de sangue e saliva que lhe perguntou: “Por que devo me deitar embaixo de você? Por que devo me abrir debaixo do seu corpo? Por que ser dominada por você? Mas eu também fui feita de pó e por isso sou sua igual”.
Voei então para muito longe, em direção às margens do Mar Vermelho, e Jeová decretou: “O desejo de mulher é para seu marido. Volte para ele.” Ao que eu respondi: “Não quero mais nada com meu marido”.
Jeová mandou à minha procura uma formação de anjos, que me alcançaram nas charnecas desertas do Mar Arábico, cujas águas atraem os demônios. Estava cercada de criaturas das trevas, quando chegaram anjos enviados por Jeová. Disse a eles: “Não vou, este é meu lugar.” E fiquei, e conquistei minha liberdade e minha solidão.
(Atire em Sofia de Sônia Coutinho, pág. 12)

Lilith, na tradição cabalística, seria o nome da mulher criada antes de Eva, ao mesmo tempo em que Adão, não de uma costela de homem, mas ela também diretamente da terra.
Ela se tornará instigadora de grandes conflitos e amores ilegítimos, a perturbadora de leitor conjugais.
Uma das mais famosas figuras do folclore hebreu, Lilith faz, assim, parte de um grupo de espíritos malignos identificados com a noite.
Na Babilônia, aparece como uma ninfa vampiro que dá aos filhos do homem o leite venenoso dos sonhos. Conhecida também como Lua Negra, é comparada à sombra do inconsciente, aos impulsos obscuros, devora os recém-nascidos, devorada ela própria pelo ciúme.

Atire em Sofia de Sônia Coutinho II: A literatura interessa-se sobretudo por Lilith revoltada, que, na afirmação de seu direito à liberdade e ao prazer, à igualdade em relação ao homem, perderia a si própria, assim como perde aqueles que encontra.
O mito de Lilith tem por função afastar dela os homens, alertando-os do perigo que representa para eles. Sua função principal, contudo, seria alertar as mulheres: aquela que não segue a lei de Adão será rejeitada, eternamente insatisfeita e fonte de infelicidade. Dessa maneira, rejeitada pela sociedade dos homens, deseja fazer-se conhecer, se necessário for, pelo avesso, ou seja, pelo mal que lhes faz.
No Talmude, século VI a.C., ela aparece como a primeira mulher de Adão. Conta-se que, feita do mesmo barro que moldou Adão, não se deixou subjugar por ele durante o primeiro intercurso sexual, levando-o a se sentir repelido e desejoso de outro tipo de companheira. Lilith queria fazer valer seus direitos de ser também uma criatura de Deus e apresentava sua opinião e sua palavra como tão importantes quanto as de Adão.
(sites.uol.com.br/Xango/lilith.html)

Atire em Sofia de Sônia Coutinho II: Ishtar é também uma representação de Lilith e Milena identifica-se com esta deusa babilônica, revelando-nos as suas semelhanças com Sofia.
Eu sou Ishtar, a deusa babilônica. As estrelas são meu cinto dourado, que tiro antes de descer para o mundo subterrâneo das trevas. Minha descida é no tempo da Lua Negra, ou quando chega o inverno e a terra se torna árida. Aproximo-me do porteiro do inferno, digo: “Abre teu portão para eu poder entrar. Se não abrir, arrebentarei a porta, farei os mortos se levantarem e devorarem os vivos, de modo que o número dos mortos ultrapassará o dos vivos.” Sou a deusa do amanhecer e a deusa do fim de tarde, deusa guerreira ou deusa do amor.
E foi meu amor, segundo o herói Gilgamesh, que causou a morte de Tamuz, deus da colheita. Para salvar Tamuz é que concebi o plano de descer aos infernos, viajar para aquela terra de onde ninguém volta, para aquela casa da qual não se torna a sair. Os portões se abriram, entrei nos sete aposentos, em cada portão ia tirando um adorno ou uma peça de roupa. A grande coroa da minha cabeça, brinco das orelhas, o colar do pescoço, as joias do peito, a tiara enfeitada com pedras zodiacais, as pulseiras dos pulsos e dos tornozelos – e, finalmente, a roupa que cobria a minha nudez.
(Atire em Sofia, pág. 39)

Ishtar é a Grande Deusa, venerada como força da vida feminina, responsável pela viação da vida e pela destruição da mesma. Tinha amantes por prazer e não para que seus filhos tivessem um pai. Ela fragmentou-se em muitas deusas menores, recebendo cada uma delas atributos que outrora tinham pertencido a ela.

Atire em Sofia de Sônia Coutinho II – As deusas gregas e as mulheres contemporâneas
As deusas gregas são imagens de mulheres que viveram na imaginação humana por mais de três mil anos. As deusas são modelos ou representações daquilo que as mulheres se assemelham (com mais poder e diversidade de comportamento do que as mulheres se têm historicamente consentido exercitar. Elas são bonitas e fortes. São motivadas por aquilo que lhes interessa) e elas representam padrões inerentes ou arquétipos que podem modelar o curso de vida da mulher. (…) Todas as deusas estão potencialmente presentes em cada mulher. Quando diversas deusas disputavam o domínio sobre a psique de uma mulher, esta precisa decidir que aspecto de si própria expressar, e quando expressá-lo. Ela, aliás, será arrastada primeiro numa direção e depois noutra.
As deusas também viviam numa sociedade patriarcal. Os deuses governavam a terra, o céu, o oceano e o inferno. Cada deusa independentemente se ajustava a essa realidade a seu modo, separando-se dos homens, unindo-se a eles como um deles, ou retraindo-se no íntimo. Cada deusa que dava valor a um determinado relacionamento era vulnerável e relativamente fraca em comparação aos deuses, que podiam negar-lhe o que ela queria e dominá-la. As deusas, portanto, representavam modelos que refletem a vida numa cultura patriarcal.
(Jean Shinoda Bolen)

Continuar lendo o resumo de Atire em Sofia de Sônia Coutinho

Voltar a ler o resumo de Atire em Sofia de Sônia Coutinho – parte I

 

Atire em Sofia de Sônia Coutinho II

 

Publicado em:Resumos de livros

Você pode gostar também