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Resumo de Livro de Leitura Obrigatória para Vestibular

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto

 

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto é um meta-poema, tendo como objeto a construção do poema, toma com referente um ato do cotidiano em que também o escolher, o combinar são necessários.
Palavra-Chave: João Cabral: Metalinguagem poética:
Catar feijão se limita com escrever:
Joga-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco
2.
Ora, nesse catar feijão entra um, risco
o de que entre os grão pesados entre
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto é um poema que faz parte do livro Educação pela pedra, cuja primeira edição foi publicada em 1966. O rigor composicional do poemas largamente difundido pela crítica nesse livro chega a seu ápice.

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto: são quarenta e oito poemas escritos em duas estrofes que muito se assemelham a quadros pictóricos, visualmente considerados. Ao todo cada poema atinge dezesseis ou vinte e quatro versos e o universo temático sempre tendo a ver com o Nordeste/Espanha, a condição humana e o fazer poético.
Tudo isso numa rede de inter-relações lucidamente arquitetada. “Catar feijão” se apresenta composicionalmente em duas partes, com a marcação da segunda delas como o número 2.
Na primeira parte o poeta descreve o que se pode denominar de habitual, comum num ato de catar feijão: a limpa, isto é, “jogar fora o leve e oco, palha e eco” que é a sobra, a sujeira – o “eco”, pois o bom do feijão fica no fundo. Ocorre, porém, que já desde aí o poema conotativamente inicia seu jogo poético. A começar pelo título: “Catar feijão”.
Nada mais despistador. Na verdade, ao término de sua leitura, sabe-se que lhe interessa mesmo é o “catar” palavras. E nessa linha do despiste, o primeiro verso enuncia que “catar feijão se limita com escrever \, quando quer mesmo a ideia de que escrever se limita com catar feijão.
O jogo através do símile se faz o inverso, toma-se o real comparado na condição de comparante. A composição começa por demonstrar assim que ela toma-se a si mesma como modelo desse catar feijão em que “a pedra ‘da à frase seu grão mais vivo:/ obstrui a leitura fluviante, flutual, /açula a atenção, isca-a com o risco”. O verbo catar assume o sentido de escolher.
Porque catar feijão é, como catar palavras, recolher, retirar o que não é feijão ou não é feijão bom ,o que não é palavra adequada ou não é palavra boa.

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto: nota-se que o rigor de escolha é mesmo exemplar. Conquanto haja o propósito de conceituar o ato de escrever, com a importância fundamental que lhe dá de ser dada, o poeta usa o verbo limitar para estabelecer proximidades (e não igualdade) entre comparante e comparado: “Catar feijão se limita com escrever”, e não É o mesmo que catar feijão é como escrever.
As diferenças e semelhanças dos dois atos ficam garantidamente asseguradas nos versos do poema. E para demonstrar concretamente essa imagem, seguem-se os verso dois, três e quatro, com os quais estabelece simultaneamente a semelhança/diferença no ato de jogar: “joga-se os grãos na água do alguidar” é semelhante apenas na intenção de escolher a “e as palavras na folha de papel”.
E a imagem da diferença novamente se estabelece, pois, ao contrário dos grãos, as palavras não vão fundo, boiam no papel, não obstante chumbo: “Certo, toda palavra boiará no papel, / água congelada, por chumbo seu verbo”.
A imagem é muito significativa, ainda mais quando se observa que a “água-papel” se contrasta com a “água – alguidar” não apenas quanto à imagem produzida: líquida, a do alguidar, sólida (e branca), a do papel, amas também porque a complexidade do verbo boiar é muito maior pelo efeito que o contexto lhe confere.
Ora, na água – papel, efetivamente as palavras não boiam porque não há fundo, mas conotativamente boiam, quando ao texto não se ajustam, sendo então necessário “catá-las”.
Com o visível propósito de evidenciar, concretizar a imagem buscada, o poema efetivamente se constrói sob o efeito de uma espécie de hipálage, atribui-se o que é próprio do catar feijão ao escrever (poesia) e vice-versa, numa estrutura sintática direcionada pelo símile.
E nessa linha se fecha a primeira fase: “pois para catar esse feijão, soprar nele e jogar o leve e oco, a palha e eco. “Esses são elementos concretamente próprios do ato de catar feijão jogado no alguidar: o que sobe é leve, palha, oco e, pois, eco (sujeira).

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto: mas poeticamente é no “catar” palavras que ele se aplica: jogar fora as que são palha, ocas, portanto, eco. Deve-se atentar ainda para a especial conotação da palavra eco, que no poema é eco (sujeira de que se deve livrar) por fazer eco, (som desagradável, que se deve evitar).
Na Segunda parte, a Segunda estrofe, o poema expõe uma das consequências ou um dos resultados possíveis desse ato de catar feijão; o risco que se corre, pois pode ficar no fundo algo que, como o feijão, não boia e que, estranho, é um perigo: “um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar dente”.
Isto para esse real catar feijão na água do alguidar. Entretanto par acatar palavra o efeito é outro bem contrário: “a pedra dá à frase seu grão mais vivo:” Como se verifica, o processo composicional estabelecido se mantém.
Apenas que desta feita a implícita comparação se dá de forma direta. A pedra para o “catar palavra” não é indigesta, mas sim renovadora. Melhor dizendo, o indigesto em “catar palavras”, qual seja, o que rompe o tradicional (o habitual) não causa problemas, ao contrário, instaura o novo, criativamente considerado, “a pedra dá à frase se grão mais vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual.”
Quanto ao ritmo, o primeiro dos recurso a chamar a atenção é a predominância do rigor com que as palavras oxítonas e paroxítonas se sucedem, determinadas ou interligadas por monossílabos, numa combinação de variabilidade harmônica dos pés de verso: a cadência binária fundamenta a estrutura.
À pauta rítmica também dá suporte o uso exaustivo da aliteração e da assonância. Pode-se mesmo dizer que elas são verdadeiros esteios da estrutura rítmica do poema. Basta apontar alguns exemplos dos muitos que permeiam todo o poema. A aliteração em /g/: “joga-se os grão na água do alguidar”, (v.2) em /p/: “pois para catar esse feijão soprar nele” (v.7).

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto – reitere-se: a aliteração ocorre praticamente em todos os versos, com a incidência muitas vezes de mais de um consoante. Sirva-se ainda para isso de exemplo: “obstrui a leitura fluviante, flutual” (v.14) em que /t/ e o encontro consonantal /fl/ surgem, fonossemanticamente, perfeitamente empregados.
A assonância, com a aliteração , permeia todo a o poema. Exemplificá-la, seria citá-la inteiro. A incidência das vogais /i/ e /u/ no verso acima é um bom exemplo. Dois outros mais com vogais /o/ e /a/: “e depois joga-se fora o que boiar”, (v.6) e “e jogar fora o leve e oco, palha e eco”.
(v.8) Além desses elementos, tem papel fundamental, não apenas, mas também, para a realização rítmica do poema, a reiteração de palavras e expressões. Outro aspecto esse que perpassa por todo o poema. Note-se, por exemplo, a grande frequência dos verbos que “catar”, “jogar” e dos substantivos “feijão”, “grãos” e “palavras”.
Evidentemente, esta estruturação formal não se dá isoladamente. A ela está acoplada num entrelaçamento indissociável para a significação do poema a outra face da linguagem, a do seu significado, ou seja, os elementos semânticos.
E nesse sentido pode-se constatar perfeitamente em “Catar feijão” o que ensinam Roman Jackobsom: “A função Poética (da linguagem) projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre eixo de combinação” (1970).
Reduzido a dezesseis versos, o poema busca na potencialidade significativa de inter-relação de seus elementos fonéticos, semânticos e sintáticos a projeção de sua significação que é bastante densa. Daí que o jogo semântico atua na exploração de palavras que se repetem com significados diferentes, com o que o jogo rítmico se amálgama ao jogo semântico.

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto: assim é que catar é denotação em “catar feijão”, (v.1), mas é conotação nos versos 7 e 13; pedra é denotação em “um grão qualquer, pedra ou indigesto”, (v.11), mas conotação em “A pedra dá à frase seu grão mais vivo”., (v.14). Veja-se que eco, (v.18), tem o duplo significado simultaneamente ao conotar mau som e sujeira que dá repugnação.
Risco no verso 9 e denotação, mas já assume uma evidente ambiguidade no verso 16. Atente-se ainda para o jogo sonoro – semântico conseguido com o emprego de entre preposição e verbo no verso 10.
Grão é outra palavra cujo significado flutua a cada contexto frasal: são grãos de feijão no verso 2, são grãos quaisquer, algo não claramente definido nos versos 10, 11 e 12, e já no verso 14 assume caráter metafórico: “a pedra dá à frase seu grão mais vivo”.
A sintaxe do poema é também bem peculiar. Sua estrutura dá sustentação à forma lógico-argumentativa em que se organiza. A reflexão sobre o fazer poético que busca limites no catar feijão se conduz por acirrada linguagem lógico – argumentativa.

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto: os versos não as medidas extensas e variáveis, mais apropriados e adequados a esse tipo de raciocínio, no caso, poemático. Mas o que singulariza a sintaxe poemática de “Catar feijão” é a construção firmada em frase elípticas, o que concorre tanto para a economia vocabular do poema enquanto para a sua pauta rítmica. Sirvam de exemplo: a elisão de água em: as palavras na da folha de papel;” v.3; e a intrincada construção com versos 5, 6 e 7: “Acertos, toda a palavra boiará no papel.
Água congelada (que é água congelada), por chumbo seu verbo (por ser de chumbo o seu verbo); / pois para catar esse feijão, soprar nele (é necessário soprar nele)”. “Catar feijão” é, pois, uma poema em que a construção poemática é brevemente discutida, melhor diria, argumentada (em dezesseis versos), porém numa linguagem poética lógico – discursiva bastante densa e rigorosamente trabalhada, dando-se próprio poema como exemplo desse fazer poético que ele mesmo preconiza.
Há uma perfeita sintonia entre a cadência rítmica assegurada pela frequência quase exclusiva de vocábulos paroxítonos e oxítonos alternado-se, a grande incidência da aliteração, da assonância e a reiteração de determinadas palavras ou expressões como já se observou.
Essa sintonia se faz presente no amálgama dessa camada sonora com o campo semântico e sintático, o que também já ficou aqui observado.
Se há uma certa dissonância: a rima toante feita de forma bem peculiar, a variabilidade da métrica nos versos, a sintaxe singularmente elíptica e outros, é porque “quando ao catar palavras “a pedra dá à frase seu grão mais vivo”.

Leia a biografia de João Cabral de Melo Neto

Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto

Publicado em:Resumos de livros

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