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Chapadão do Bugre de Mário Palmério I

 

Chapadão do Bugre de Mário Palmério – parte I

Quem apostou que o máximo a que se poderia chegar com o romance regionalista foi alcançado por Mário Palmério, em Vila dos Confins, um dos raros casos em nossa literatura de aprovação entusiasmada de crítica e público, felizmente perdeu.
O próprio Mário Palmério tratou de superar seu aplaudido romance de estreia com uma obra ainda mais impressionante: Chapadão do Bugre.
Com letras de fogo, Mário Palmério, nesta obra-prima de nossa literatura, forja a monumental e trágica história de um cavaleiro solitário do sertão brasileiro, que vaga por uma terra adubada com sangue, onde florescem a intolerância, a violência e a crueldade.
Como nas tragédias clássicas, o destino brinca com vidas humanas, e conflitos sucessivos jogam uns homens contra outros, num vendaval de violência e morte do qual nem os poderosos chefes políticos do lugar são protegidos. Alimentando tudo, o furioso desejo de conquista da terra e do amor.

Quem busca a aventura, a ação incessante, a resposta de homens rudes e cruéis aos desafios que a vida impõe, descobre em Chapadão do Bugre um romance insuperável.
Quem busca o estilo impecável, o domínio absoluto da linguagem mesclado ao amor à terra que descreve, encontra em Mário Palmério um autor regionalista que eleva o gênero em que é mestre à condição de epopeia.

Chapadão do Bugre de Mário Palmério I: neste, como lembra o escritor Otávio de Faria, “a vitória do romancista é completa. Pode-se dizer que é uma das mais brilhantes a que temos assistido. Todas as altas qualidades de Vila dos Confins”, reconhece o crítico, “ressurgem aqui, mas os elementos novos com que deparamos são aqueles justamente que caracterizam, acima de tudo, o grande romancista, o grande romance”.
Chapadão do Bugre é um romance baseado numa história real e misteriosa ocorrida no interior de Minas Gerais no início do século, fato que não seria relevante se o povo da cidade em que tudo ocorreu, Passos, não acabasse por eleger a obra de Palmério como a mais original das versões sobre o episódio.
Como em Vila dos Confins, o escritor escolhido em 1968 para suceder João Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras, nos leva ao Brasil dominado pelo coronelismo político, reconstruindo todas as facetas desta dominação e suas consequências para a comunidades e os indivíduos.
Mais amadurecido no manejo da composição, atuando com desembaraço e verdade no levantamento dos tipos mais expressivos de sua galeria de personagens, Mário Palmério, como este chapadão do Bugre, confirmou sua condição de ficcionista de ato nível, de escritor capaz de transpor para a literatura a linguagem e os costumes do homem do interior.

Chapadão do Bugre de Mário Palmério I: altamente dramático, cruel e violento, o romance prende o leitor pela sua trama, mas é o tom de conversa entre compadres que o torna inesquecível.
Talvez por isso, quando, em 1988, Walter Avancini adaptou-o para a TV, manteve-se fiel à linguagem que consagrou Mário Palmério, produzindo uma das minisséries de maior sucesso da Rede Bandeirantes.
Narrado em terceira pessoa, paralela à qual coexiste a “consciência” de Camurça, a mula de montaria que visualiza o sentido de toda a trama – inclusive sua própria morte, como ocorre com os protagonistas de O coronel e o lobisomem e Sargento Getúlio -, Chapadão do Bugre é, sob o ponto de vista da estrutura narrativa, bastante insólito, rompendo os esquemas tradicionais.

Chapadão do Bugre de Mário Palmério I: linguisticamente, de todas as obras da nova narrativa é, ao lado de A pedra do reino, a que menos se desvia da norma culta do português, apesar de ser forte, nos diálogos, a presença de um linguajar caboclo-sertanejo.

Chapadão do Bugre de Mário Palmério I – Texto escolhido – A Chacina
Acostumado a levantar-se cedo e ir logo ao Fórum, Seu Juca Meirinho ali chegou pouco antes das sete da manhã, malgrado o frio e a ausência do Juiz de Direito.
Sabia da reunião marcada para as oito horas entregara, na véspera, por ordem do Dr. Damasceno, a chave da porta de entrada do sobrado ao Sargento-Ordenança e desejava, agora, pôr-se à disposição do delegado militar.
Abriria o café do vão da escada e, vez ou outra, acharia desculpa para ir até o andar de cima, conforme recomendara o doutor, a fim de verificar se não tentavam fuçar pelo quartinho fechado, cheio de roupas e outras coisas particulares, além de tanto livro e papelada.
A porta estava aberta, de sentinela embalada.
Mais velho que o sobrado era o Juca Meirinho varredor e cafeteiro no antigo Fórum, e já rapazote e já taludo, quando da construção e instalação do novo o prédio acabou como por ser casa, coisa sua, e o oficial de justiça foi entrando, distraído, pensando no café do Capitão e das outras pessoas por chegar.
Alto! o cavalariano atravessou-lhe o passo.
Assustado com o berro, a feia catadura e a declarada má-inclinação da sentinela a fera estava armada de máuser, sabre e mosquetão, as cartucheiras pesadas de tanta bala mal pôde o Juca Meirinho gaguejar:
Mas eu sou o oficial de justiça… O doutor… O Doutor Juiz de Direito…
Aqui não tem juiz de direito nenhum! O Fórum ’tá requisitado. Se arretire!
O jeito era afastar-se, como ordenava o soldado, e foi o que fez o Juca, sem abrir mais a boca, cruzando a Praça e indo postar-se na esquina da confeitaria. Quando aparecesse o Capitão reclamasse o café, que viessem ali chamá-lo… E, se o homem azedasse, paciência!: o volantezinho malcriado da porta do Fórum, então, que ouvisse…
Erguia-se a manhã, ainda fria e nevoenta, e principiava a encher-se o Largo das Mercês. Abriam-se as portas da Confeitaria do Cucute, as das lojas e outras casas de negócio abriam-se as janelas dos sobrados que davam para a Praça.

Chapadão do Bugre de Mário Palmério I: iam e vinham as normalistas descia dos altos o povo do comércio, subiam os que voltavam do Mercado.
Encostava-se ao ponto o primeiro carro de praça, quando o relógio da Matriz deu as sete horas, e começou a apitar a serraria-carpintaria do Seu Costinha da Força de Luz, lá no Alto da Estação.
Mais um dia! pensava o Juca Meirinho, de pé na esquina, curtindo a mágoa causada pelos gritos da sentinela. Felizmente, porém, o Governo já havia mandado chamar, com urgência, o doutor…
Seu Polinésio da Estação falara, muito em segredo, na véspera, depois que partira o Dr. Damasceno, sobre um telegrama do Dr. Tancredinho para o pai, o Coronel Americão: as coisas, na Capital, corriam bem, pois o rapaz se declarava muito satisfeito… Decerto a viagem o Dr. Damasceno Soares era para fecharem, por lá, algum acordo, acertarem tudo com o Coronel Americão, mandarem embora o Capitão Eucaristo e a soldadesca dele…
Sim concordava com Seu Polinésio da Estação o Juca Meirinho o Dr. Damasceno, pessoa tão religiosa, não podia estar apoiando, no íntimo, as barbaridades da Captura: o Dr. Jojoca, coitado criatura tão alegre, um mão-aberta, brincalhão… O inofensivo do Quincota, esse, o mal dele era somente aquela mania de futricar, meter a colherzinha torta onde não devia…
Que limpassem a cidade do banditismo, que se pusesse um freio aos abusos do Coronel Americão Barbosa… havia mesmo necessidade de um pouco mais de energia por parte do Governo…; mas sem tanta malvadeza e violência!
Prenderem o Clodulfo era merecido: culpado de tudo, o alma-negra de Santana do Boqueirão, o espírito-mau que atuava na sombra… Sim.
Precisavam de acabar com tanto crime, tanta jagunçada: não passava uma semana sem nova façanha da quadrilha do Cludolfo: a última Santana do Boqueirão inteirinha já sabia dela a história do José de Arimatéia em Campanário…
Passou pela esquina o Xico das Moças murchozinho, as mãos cruzadas nas costas, olhando pro chão, parecia até que falando sozinho. Oito filhas-mulheres, o azarado!
E todas solteiras ainda… Decerto nem dormir ele não podia mais, com o fechamento da Lotérica… Viver, agora, de que, o pobre do Seu Xico? Sustentar de que maneira a mulherada em casa, se a única ocupação que sabia ele desempenhar era vender bilhete e encher talão de bicho?
Chegou à esquina Seu Lamartine da Farmácia, o Brasilino da Tinturaria, o Aracífico da Gráfica. De charrete, passou o Zé da Vó, carregado de menino, vindo da chácara, com certeza.
Outro que perdera a minazinha, o Zé da Vó: o ponto mais movimentado do centro da cidade, o invejado Elefante de Ouro, com mais de vinte cambistas… Além do bicho, o víspora, e mais o buzo e o jaburu nos fundos…

Chapadão do Bugre de Mário Palmério I: Deus havia de ajudar porém suspirou o Juca Meirinho. O Dr. Damasceno acharia jeito de normalizar, na Capital, a ruim situação, deixar, pelo menos, aberto o jogo…
Ali estava ele sim, ele também, Seu Juca Meirinho do Fórum com um rombo danado na feriazinha… Brincando, brincando, eram lá os seus oitenta, os seus cem mil réis o que rendia, em comissão, e todo mês, o talãozinho dos advogados e do pessoal aos cartórios justo o que pagava do aluguel de casa.
Os primeiros a chegar passava pouco das sete e meia foram o Capitão Eucaristo Rosa e o Sargento Hermenegildo. De passo descansado atravessaram pelo meio do Largo sem se deterem na esquina ou na confeitaria e entraram logo no Fórum.

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Chapadão do Bugre de Mário Palmério I

Publicado em:Resumos de livros

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