Menu fechado
Resumos de Livros para vestibular e Enem por Vestibular1

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade

 

Resumo Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade – parte II
Em algumas definições, interferências de ordem interpretativa quebraram a impersonalidade de determinadas frases como foi o caso do verbete Wiclif. Introduzindo a citação, a expressão “escreveu isto” foi mudada para “escreveu este erro simpático”. Antes da última frase – “Leitor pequeno-burguês, não será você?” – Oswald com um lápis lilás observou “Nota”. Shelley perdeu o qualificativo de “grande” poeta.
Modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos. Algumas delas estão na linha da tentativa de eliminar as estocadas de ordem pessoal, como a referência “Um prefeito idiota – o Dr. Pires do Rio”, presente no verbete Conde Matarazzo simplesmente resumida para “Um prefeito”.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: na definição de Antonio Conselheiro foi retirado o ataque direto ao Conselheiro Antonio Prado. Preferiu o escritor centrar sua ironia no Partido Democrático, ganhando o verbete mais concisão e graça. Outras pretenderam sanar equívocos de datilografia, como aconteceu com o verbete João Cândido, uma vez que a expressão social, acrescentada à mão, aparecia desde o manuscrito D. Na releitura Oswald esteve preocupado em limpar o texto, isto é, torná-lo sintético e rápido. Condensou a definição de Ford e modificou o último trecho de “Por essas e outras, é que estamos “fodidos”” para “Nós, por exemplo, estamos “fodidos””. Já Miguel Costa ganhou uma frase irônica “Dizem que está criando juízo”. Da mesma forma José Carlos de Macedo Soares recebeu mais uma definição simpática “Copa de Ouro”. Em Pontes de Miranda os acréscimos deram um tom de trocadilho aos qualificativos “tenentes da direita pretendem alcançar a margem esquerda da revolução”. Outras modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos.
Comparando todos os manuscritos, podemos fazer um amplo elenco de nomes ausentes no texto F: Jonas, Josué, Licurgo, Confúcio, Buda, Heródoto, Platão, Diógenes, Cheron de Pelene, Aristóteles, Camões, Getúlio Vargas, Gal. Isidoro, Távora, João Alberto, Autor dos Atos dos Apóstolos, Ezequiel, Kolontai. Portanto dezenove nomes, pinçados nos documentos anteriores (A, B, C, D).

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: no texto B, verbete Trotski, houve uma única referência explícita ao momento em que Oswald escrevia este Dicionário: “fevereiro – março de 32” (certamente época da redação dos quatros primeiros textos). Todavia, a ordem cronológica da elaboração dos textos E e F (provavelmente datados da década de 40) pareceu bastante relativa se pensarmos nas peculiaridades do processo artesanal do escritor que refazia e corrigia os seus trabalhos inúmeras vezes. Pela mudança de lápis e de tinta podemos prever as várias leituras e consequentes reparos. Como o escritor levava bastante tempo para dar por concluído seus escritos, as modificações introduzidas nesses dois textos certamente refletiram novas posturas estéticas, o amadurecimento pessoal do Autor ; a mudança de opinião a respeito de pessoas, inspirada por novas atitudes e posições defendidas na época pelo escritor ou pela figura apreciada, e ainda por desentendimentos pessoais. O caso de Vicente Rao é expressivo.

Velho amigo e advogado de Oswald, desde os tempos da “garçonnière” da Líbero Badaró (19l8), Rao na década de 30 tornou-se Ministro da Justiça do Estado Novo. A frase – “segurança da lei” acrescentada e a retirada do São do título do verbete foi historicamente datada e acompanhou alterações na trajetória político-intelectual do escritor e do antigo colega de Faculdade. Essas correções estão presentes apenas no texto E, sendo assim, este fragmentado manuscrito não deve ser considerado rigidamente anterior ao F. As revisões, os acréscimos confirmam a simultaneidade de realização do E em relação ao F, ou ainda que Oswald fez muitos consertos no texto E, depois de ter concluído o F.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: as inúmeras correções permitem ao leitor visualizar a busca consciente e esforçada de um estilo adequado ou de um achado interessante, quer com brincadeiras do tipo mais apreciado pelo escritor – jogos de palavras, trocadilhos – quer pela exploração ou subversão da ideia, da frase alheia, etc. como exemplificam alguns dos verbetes citados: São Tomé – “Visionário que enxergava com os dedos”; Loiola – “Má companhia de Jesus”; Pombal – “Terremoto de Lisboa na Companhia de Jesus”; Mauá – “Maquinista nacional que apitava em inglês”, etc.
Outro aspecto marcante na reescritura oswaldiana diz respeito às reelaborações. A partir da obra construída o autor descobria novos caminhos, apenas riscando palavras, mudando-as de posição ou trocando-as por outras. Encontramos um bom exemplo ao observar as modificações no verbete Dom Sebastião Leme nas cópias E e F, onde o sobrenome do religioso passou a ser peça chave de sua própria definição : “Paninho de N.S. Jesus Cristo”. Refeito temos: Cardeal Dom Sebastião: “Leme sem navio”.
Ao longo dos manuscritos, o autor foi realizando modificações atenuando comentários maliciosos, críticas fortes ou injustas. Particularmente tentou eliminar as observações ligadas à vida íntima das personalidades enfocadas.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: deparamos muitas vezes com comentários mordazes de cunho pessoal riscados (no verbete Mário de Andrade – “de resto serve”, “muito parecido de costas com Oscar Wilde”) e as observações em torno do nome de Paulo Prado, totalmente eliminada no texto F: “Cocote viajada e lida a serviço do imperialismo inglês”. Procedimento idêntico aconteceu na definição já comentada de Antonio Conselheiro no texto E e na primeira redação do F. Alterado somente na releitura do texto E para a versão da montagem final. Na cópia C, acompanhava o verbete Dom Sebastião Leme (já citado) uma nota de rodapé desaparecida no texto seguinte – o D: “O Dr. Amoroso Lima, dono da fábrica de Toalhas de Paquetá, foi quem descobriu essa intimidade do Cardeal brasileiro com o deus do Corcovado”. Apesar de tudo, sobrou uma ou outra crítica mais forte dirigida principalmente a antigos companheiros: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, etc.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: os verbetes mais curtos se revelaram os mais interessantes. Basicamente sintagmas nominais, sem o tom descritivo, rápidos e irreverentes, são deliciosamente engraçados os comentários sobre Cabral (“o culpado de tudo”), Einstein (“Passatempo perdido no espaço-tempo”), Hitler (“Bigodinhos de aço”), Edison (“Lâmpada de ladino”), Mussolini (“Macarronada com sangue”). Verdadeiras máximas, onde a brincadeira surgiu às custas do achado de ideias buscadas na biografia dos próprios personagens em foco; há ainda a possibilidade de algumas citações deslocadas do seu contexto original provocarem o riso, como é o caso da definição encontrada para Laudo de Camargo: “Le cocu magnifique”.
Oswald não deixou nenhuma sugestão de título para essa obra inacabada. Não encontramos nenhuma referência a este projeto em particular no conjunto da obra oswaldiana. O título proposto, Dicionário de Bolso, foi inspirado no Serafim Ponte Grande, especialmente no seu secretário José Ramos Pinto Calçudo autor de um dicionário de bolso, “para não confundir nem esquecer as pessoas que conhece ou conheceu”. Oswald e Pinto Calçudo usaram algumas técnicas semelhantes. Ora apelaram para o recurso da manipulação de um verbete em relação ao outro imediatamente anterior ou posterior (ver definições de George Sand e Chopin e a letra H na “literatura de bombordo” do Serafim); ora determinada personalidade foi nomeada exatamente por suas qualidades díspares e distantes, como aconteceu com o vizinho de quarto de Pinto Calçudo o “sábio alemão e massagista” Klober; por exemplo João Ramalho: “pai natural dos paulistas legítimos”; Locke: “Avô liberal dos conservadores modernos”.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: não houve um critério explícito por parte de Oswald na escolha dos nomes para compor esse dicionário e também para sua organização. Figuras históricas e bíblicas, nomes ligados à tradição greco-latina, representantes do pensamento universal, políticos, grandes escritores, estrelas de cinema se misturaram desordenadamente nas páginas desse dicionário exótico. Curiosamente apenas um nome da vanguarda histórica europeia do início do século o amigo e pintor cubista francês Léger. Do Brasil, afora os políticos, um bom número de modernistas e todos definidos pela veia ferina do velho companheiro. Com exceção de três verbetes – O gigante de pedra, o Bandeirante e o Proletário – todos os demais são nomes próprios.
Na definição de certos personagens houve a intenção clara de reavaliar seus papéis, ressuscitando uma antiga obsessão oswaldiana de por os pingos nos is na historiografia brasileira. E para isso escolheu redefinir o papel histórico de alguns mitos: Floriano (“Baleiro da História do Brasil”), Tiradentes (“Pivô da independência nacional”) José do Patrocínio (“Negro vendido”). Na realidade Oswald teve o propósito de reescrever sucinta e fragmentariamente a história, a partir de um pequeníssimo dicionário de bolso. Para este fim, começou o texto por Caim – “o primeiro burguês” – e fechou o círculo concluindo com o Proletário – “quem se revolta afinal e desencadeia no mundo a revolução que o fará coveiro e herdeiro da burguesia”.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: Oswald buscou nessa seleção exemplos de atitudes e de lutadores em prol da melhoria social da humanidade. Traçou os precursores, recortando trechos sobre a justiça social de autoria de membros da Igreja (São Clemente de Alexandria, Santo Agostinho), de escritores (Aristófanes, Shelley), etc. Percorreu em sentido inverso, garimpando ao longo da história as personalidades que inspiraram e apoiaram o surgimento da divisão de classes, da exploração do trabalhador e do homem simples. Nesse aspecto Oswald colocou a religião em lugar de destaque na opressão das massas populares, como vinha fazendo desde os tempos da Antropofagia modernista.
Mesmo se não houvesse uma data precisa em um dos manuscritos que compõem o corpus desse Dicionário, bastaria examinarmos o desfile de nomes e a sua definição para situarmos historicamente essa obra. A série de líderes comunistas e sobretudo o verbete Stalin (“Ponte de aço conduzindo a humanidade ao futuro”) é um bom índice de época. O Dicionário é uma obra contemporânea à produção mais engajada do escritor, isto é das peças O rei da vela e O homem e o cavalo.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: época de compromisso político partidário, quando Oswald se empenhava por uma mudança radical da sociedade. Se a participação do escritor na luta política não agradou a seus companheiros de partido, tão pouco essa convivência foi satisfatória em termos de aprimoramento ou avanço de suas propostas estéticas, se compararmos sua produção escrita na década de 20, sobretudo a dupla Miramar / Serafim com A escada e as duas peças citadas. No Dicionário de Bolso, o desequilíbrio se evidencia justamente nas interferências caracterizadas pela impostação séria, didática e militante. No geral, o tom do discurso é bem humorado marcadamente nas passagens mais sucintas, onde predomina a vontade de elaboração da linguagem, retomando a estratégia modernista inclusive a da Revista de Antropofagia de adotar o viés do riso com o intuito de questionar a realidade e discutir problemas sérios.
A ideia dessa obra é imediatamente posterior à Antropofagia, haja visto a recuperação de fragmentos incorporados à revista (Vieira, Joseph de Maistre, etc.). O verbete Vieira foi transposto quase que literalmente do Manifesto Antropófago. Outros parentescos com a produção de vanguarda, além da preferência pelo discurso citacional e aforístico, podem ser traçados. Dentro do projeto de contribuir para reinstaurar uma nova sociedade com bases mais justas, a postura irreverente, iconoclasta e bem humorada das páginas da revista impulsionou mais esta derrubada de mitos, que informaram a civilização burguesa e marcaram o segundo tempo das inovações modernistas: sem esquecer o estético dando maior ênfase às questões ideológicas e sobretudo às discussões nacionais em pauta no momento.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: o alvo das estocadas oswaldianas nesse período de militância no Partido Comunista foi obviamente o sistema capitalista. Daí essa tentativa de dicionário na tradição de um Voltaire (Oswald definiu também alguns nomes – José, Moisés, Pedro, Salomão – encontrados no Dicionário Filosófico) de um Ambroise Bierce que no Dicionário do Diabo (The Cynic´s Word Book) critica os costumes contemporâneos, através de uma forma especial de humor negro e de definições aforísticas e epigramáticas. Por isso, afora os valores culturais burgueses a investida principal se deu contra a propriedade privada, mola propulsora de todos os desequilíbrios sociais e tema recorrente na obra de Oswald, a partir da Antropofagia. Evidentemente que os polos sustentadores do sistema vigente – a igreja e a política internacional – também não escaparam das pontas das flechadas do antropófago. E para fundamentar sua crítica, há uma seleção datada, diversificada de nomes ligados a esses setores, ao lado de uma gama de filósofos e para nossa surpresa alguns poucos literatos.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: no prefácio manifesto escrito em 1933 para o romance Serafim Ponte Grande (concluído em 1928) Oswald sublinhou os traços anarquistas de sua personalidade: “Do meu fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo”. As tiradas sarcásticas em cima da burguesia nacional no romance, – “nosso herói tende ao anarquismo enrugado” – aparecem no Dicionário em questão ampliadamente, dirigida ao sistema capitalista, aos seus sequazes e propagandistas. No dicionário, a ausência dos anarquistas mais ortodoxos foi compensada por uma gama de utopistas com quem Oswald sempre dialogou: Thomas More, Saint-Simon, Fourrier, Giordano Bruno, Marx. Apenas um representante do anarco individualismo de muitas afinidades com o escritor: Max Stirner – “o pai moderno do anarquismo”. Os pensadores anarquistas revelaram ao modernista a possibilidade de aliar a aspiração por um ideal mais humano com sua pesquisa pela liberdade de forma e estilo. Além disso, Oswald se identificou com as manifestações libertárias da mesma forma que as vanguardas, idealizando uma arte símbolo do dinamismo e do poder criador de cada sociedade.

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade: o humor e a agressão verbal aproximam Oswald dicionarista de outros entusiastas do pensamento libertário: os surrealistas. Inclusive a trajetória política de aproximação é idêntico. Os dois líderes da vanguarda artística de seus países, Breton e Oswald, tiveram uma simpatia inicial para com os anarquistas, depois filiaram-se ao Partido Comunista, em seguida romperam com o PC. Todavia permaneceram em ambos os vestígios da linguagem libertária. Basta examinarmos os “Billets surréalistes” do jornal Libertaire (1951-1953) e os escritos antropofágicos da década de 40. Oswald costumava citar uma passagem célebre do Manifesto do Surrealismo (1924) – “A simples palavra liberdade é tudo o que me exalta ainda” – e era exatamente a busca apaixonada da liberdade o élan impulsionador das ações do surrealista Breton e do antropófago Oswald. E “liberdade absoluta sem limites” foi também a mola mestra da filosofia libertária. Muito provavelmente nas páginas extraviadas desse Dicionário houvesse um verbete também dedicado a algum surrealista: Péret ou Breton, que como Oswald, eram otimistas, cheios de esperança na eclosão de um mundo livre e harmonioso: uma nova idade humana ou o matriarcado de Pindorama.

Voltar a ler o resumo Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade – parte I

Faça a revisão das matérias para o vestibular!!
Preparação e conteúdos para provas de vestibular

Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade

Publicado em:Resumos de livros

Você pode gostar também