Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza II - Vestibular1

Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza II

Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza

 

Resumo Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza – parte II
Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza – Trecho do romance:
“Ah, Miriam jornalista, sua primeira reportagem modificou a vida. Modificou? Foca do Estado, lá estou eu com mil assuntos para laudas e laudas. Teatro de loucos na Ilha da Paixão. Toni Donetti (incógnito) divorcia-se da esposa. Minha mulher é uma Zelda! E mais, e mais: poeta propõe luta armada como saída do impasse existencial da pequena burguesia sequiosa de libertar o proletariado. Toni Donetti: voto contra, claro, um bastião cultural da esquerda bem comportada, a oposição consentida.
Me deu vontade agora de realmente ser jornalista, de poder ser jornalista, de poder escrever. A foca: o governador senhor Filho da Puta da Silveira, acompanhado do Secretário de Obras Públicas, inaugurou a Casa do Caralho, com a presença da fina flor da sociedade local. Quanto grilo, Meu Deus. E mais assunto: Júlio, ator da Rede Nacional de Televisão, vive um sacerdote hebreu nas dunas da Paixão. Mas não sei escrever, sei redatilografar releases. Queria ser o Donetti. Amor é inveja. Gosto de um personagem dele, Claudinha, acho parecida comigo. Enéas: ah, o Donetti é do tempo em que escritor tinha personagem, detalhes psicológicos, preponderância do individual sobre o social.

Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza: texto linear, estilo 1800, começo, meio e fim. O Enéas é um idiota. Mas furos para a estudante de jornalismo: entrevista exclusiva com Isaías, o louco da Ilha. Quem é Isaías, afinal? Um novo líder religioso? Tentei me aproximar dele no ensaio. Seu Isaías, gostaria de conversar um… e ele de braço erguido, túnica suja, cabelos ao vento, cheios de areia: Maldita miséria desta terra! Ó homens do povo, eu vi… eu vi nas estrelas o sinal do Messias! Pronto, e lá vão todos atrás, na hipnose do abominável homem de barbas. Queria também conhecer mais teatro, saber se realmente isto é teatro. Donetti (sempre Donetti) jura que sim, o miolo do teatro, paralelo com as festas medievais, com a Grécia pré-Ésquilo e o escambau.
Um teatro em que qualquer idiota vira ator. Nada de palco, nada de poltronas de veludo, nenhum texto escrito (consta que Isaías é analfabeto), nada de racionalismos: vivência pura, emoção visceral, inconsciente coletivo, arquétipos, coisa fina. Ai ai, suspiro. Tudo isto pra relatar no jornal do senhor Maués, o capacho simpático, todo poderoso chefe da redação. Eis um bom modo de enfrentar a angústia. Sentar sozinha nesta grama, fumar e pensar pensar pensar, que noite incrível, vendo esta casa incrível e convivendo com este povo incrível, dá de tudo aqui.

Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza: mais notícias: pintor abandona vernissages e mora numa caverna paleolítica com adolescente que fugiu de casa. Não, o Miro ainda não é notícia. Lamento muito, dona Miriam, mas essas matérias não servem, jornal não vive de poesia. Já cobriu a festa do Country? Mandei fotógrafo. Sou mulata, seu Maués, eles não deixam entrar, os filhos da puta. Que mania de perseguição, dona Miriam, que coisa. Pra página policial: Maconha corre solta na Ilha da Paixão! Solta, não: meia dúzia de maus elementos, liderados por Rômulo de Tal, dependente e traficante.
Um baseado até que ia bem agora, puxadinha lenta, cara pra lua, gostosamente enterrada na grama. Consegui esquecer o meu escritor por algum tempo. Que maravilha, viajar de transatlântico, frequentar Paris, bater papo com Cortazar. Neste momento, dona Hellen tira a calcinha, pentelhos penteados. Vai uma trepada, amor? Não, querida, estou exausto, o ensaio foi uma loucura. E a jornalistazinha, como vai, meu bem? Mais ou menos, darling, talvez dê um bom conto. Se for verdade, mato esse filho da puta. Ele tem mãos bem tratadas, de escritor, lisinhas nas minhas coxas, a barba mal feita espetando a barriga, ai! Homem é isso, o resto é adolescente. Aliás, ou sou muito difícil ou não sou sexy. Até agora, cantada só do Donetti.

Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza: deve estar sobrando mulher nessa ilha. Bem, se fosse pra eu escolher outro homem, morria sozinha. O Edgar é barrigudo, detesto homem barrigudo. Ingênuo demais pro meu gosto, mas simpático, agradável, bom músico. Tem mistério, largou família pra vir pra cá. O refúgio do artista incompreendido. Muito guri novo: Cisco, Toco, Murilo, Miro, Enéas, etcétera, etcétera. Todo mundo trocando as fraldas, não sabem nada de nada, perdidos num mundo vago. Tem quem goste. Não vou com os cornos do Cisco, fila muito cigarro, meio vaselina, emproado humilde, perna torta, mandãozinho, ferino, recalcado, dizem que comedor, o que não acredito. Raquel gamou, come um monte de merda por ele, é do gosto. Gurizada feliz, os nativos. Toco é muito alto, dou no umbigo dele. Parece-me triste, formal, simpático, sério, perdido. Vou comprar uma caixa de etiquetas, sair por aí classificando o mundo. Por eu Donetti de repente ficou caseiro?
No começo, cagou e andou pra esposa, largou no mundo, não estava nem aí. Agora, são unha e carne, ta certo que de mau humor, mas estão lá, dormindo juntos. Amor versus conveniência, a velha luta, batalha diária. Miriam língua de trapo, já me disseram. A noite cada vez mais escura, a lua vai-não-vai, brilha e some, o mundo gira no céu. Ah, uma boa manchete: o senhor Fontes paga promessa. O conhecido empresário do ramo imobiliário, Maurício Fontes, burro, babaca e rico, acompanhado da esposa, QI 3, dona Sueli, e do filho cartão-postal, de nome Jesus, em homenagem ao próprio…Tão bonitinho o garoto.

Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza: o senhor Maurício é chegado numa galanteza, quando a digníssima está longe. Andou transando mulher, mijando fora do penico, é de se conferir. Um sapo posudo, tive que dar um chega pra lá, de repente íntimo, mãos nos cabelos, fala macia, despejando besteira, dedinhos gordos no pescoço da gente, que filho da puta. O patriota paga promessa representando a Paixão. Já estou pensando em voz alta. Edgar toca piano na calada da noite. Vou lá. Não vou. Vou não vou. Ele e Maria se amando, que sorte a dela, já pegou o triângulo desfeito.
Tão bom aqui no escuro, fumando, fumando. O Donetti bem que poderia vir tomar um ar aqui fora. Não tenho sono e amanhã tem ensaio, o Cisco com aquele sino enchendo o saco às seis horas. E o Barros? Ah, o Barros é a coisa mais esdrúxula e ridícula que já vi na minha vida. Não é gente, é um fígado estragado, o par ideal para Norma, a míope. Assumiu a de Judas, completamente maluco esse cara. Viverá de quê, o figurinha? Me disseram que é publicitário, seis meses promovendo eletrodomésticos e seis meses fazendo nada na ilha, destilando rancor. É bem capaz, mas não confessa, escondido atrás do terno, da gravata e da garrafa de pinga. Drummond: o homem atrás do bigode… Coitada da Norma, tão burrinha. Quem vem lá? Uma assombração? Um lampião? Um vagalume? Um palito de fósforo aceso? Não, é Moisés, o santo.

Ensaio da Paixão de Cristóvão Tezza: sempre de sunga hindu, a pele branca resplandece na noite. São ossos e uma cabeleira. Sujeitinho estranho. A solidão é mesquinha, de repente me vejo aleijando o mundo, descobrindo inimigos, concebendo perseguições, fabricando escárnio. Para isto esta Paixão: pôr pra fora todas as misérias, limpar-se por dentro, purgar. Ele não me vê, a cinco passos. Ergue as mãos, em volteios afrescalhados, as costelas estalam, rasgam a pele, só falta esguichar sangue, provavelmente branco. Ele não me vê ou faz que não me vê? Que ritual esquisito. Torce o corpo para trás, os braços se quebram, balançam feito salame magro. Vai se abaixando, que incrível! É um arco agora, toca o chão, desce de joelhos, faz um nó, ergue os braços, dobra as pernas à oriental e entrega a face aos céus. Dizem que dorme assim, todas as noites. Correu a notícia de que hoje a Bruninha vai violentá-lo.
Ideia do Cisco, uma crueldade. Moisés é um indivíduo realmente superior, capaz da solidão. A máxima liberdade possível seria isso: capacidade de solidão.”

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