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Resumo de Livro de Leitura Obrigatória para Vestibular

Estação Carandiru de Dráuzio Varella

 

Resumo Estação Carandiru de Dráuzio Varella – parte II

A desconfiança com alguém de fora que entra na casa de detenção é generalizada. Para os funcionários, pode ser alguém ligado a Associação dos Direitos Humanos, pessoal da Imprensa ou com interesses políticos. Todos estes são pessoas indesejáveis à Administração.
Certa vez, relata o Dr. Varella, “encontrei um rapaz ensanguentado que era levado à enfermaria e perguntei o que havia acontecido. O funcionário que escoltava respondeu: caiu uma telha na cabeça dele, sendo que o infeliz havia ferido numa briga entre presos. O certo é que guardas de presídio não gostam de pessoas estranhas no ambiente de trabalho.”
Jornalistas e repórteres são os mestres do desagrado. Os presos fogem das objetivas como o diabo da cruz. Só se aproximam deles quando é para denunciar superlotação, espancamento, etc.
Mais nem tudo na cadeia é malandragem e barbárie. Padres, Pastores, Pais e Mães de Santo, frequentam o presídio para converter à Palavra de Deus as ovelhas desgarradas. A crença na ajuda Divina é para muitos presos a derradeira esperança de conforto espiritual capaz de ajudá-los a estabelecer alguma ordem no caos de suas vidas pessoais.

Estação Carandiru de Dráuzio Varella: a pregação dos pastores evangélicos, que apontam os caminhos do céu pelo conhecimento da Bíblia e de uma divisão clara entre o bem e o mal, obtém sucesso e acolhe muitos seguidores. Destaca-se na casa o grupo coeso da Assembleia de Deus que congrega cerca de mil fiéis. Todavia há entre eles, aqueles que às vezes fingem se converter para contar com a proteção do grupo religioso e tirar proveito próprio. Como usam as mesmas roupas, carregam a Bíblia e repetem o nome do Senhor a cada frase, é difícil distingui-los dos crentes de verdade.
Também entre os crentes, o código de comportamento é severo. Precisam se destacar dos demais. Não podem usar a gíria, devem evitar a pinga e a droga. Pessoas amasiadas não podem morar na galeria da assembleia, apenas os solteiros e os casados legalmente no papel. Os homossexuais são aceitos mais tem que abandonar a vida pecaminosa e voltar a ser um cidadão normal. A rotina na cadeia é cheia e programada: há horas para orar, para cantar, para ler e estudar a Bíblia. É proibido assistir televisão. No rádio não se admite pagode, samba, rock, apenas as emissoras evangélicas.

Estação Carandiru de Dráuzio Varella: vizinhos dos crentes, no último andar do pavilhão cinco, fica o “amarelo”, um dos recantos mais lúgubres do presídio, são mais de quinhentas pessoas juradas de morte, em sua maioria. Um cheiro forte de cadeia misturada com fumaça de cigarro enche o apertado ambiente. No amarelo, a tranca é permanente. Para soltá-los, teria que prender o restante do pavilhão.
Permanecer dia e noite preso, no meio de neuróticos e revoltados, é tortura psicológica para o ser humano, diz um detento mais esclarecido. Para ampliar seu horizonte visual, os presos sobem nas janelas do xadrez, sentam-se com as pernas para fora, abraçando as grades. Permanecem assim, horas seguidas formando uma fileira de pernas pendentes. Por esse motivo são denominados, depreciativamente de “canelinhas”.
Mesmo vivendo no meio de sujeira, muitos presos se negam a entrar no banho gelado. Aconselhei-os, diz Dr. Varella, a se lavarem, pois não o fazendo, espalhariam sarna para os demais, em prejuízo de todos. O argumento os convenceu: malandro não arrisca ser acusado de prejudicar os seus companheiros, isso é um compromisso que deve ser cumprido rigorosamente.
Durante o banho coletivo, observei que entravam com as costas quase encostadas na parede. Comentei o fato com o seu Manoel: “ladrão nunca fica de bunda para os outros, doutor”.
Outra grande desgraça que campeia na prisão é o crack que invadiu a cadeia em meados de 1992, sorrateiramente. Muitas vezes o crack é preparado lá mesmo. O processo é artesanal. Misturam cocaína com bicarbonato de sódio ou amoníaco que é aquecido para derreter a mistura. Após esfriar e se solidificar, a pedra resultante é fumada em cachimbos improvisados.

Estação Carandiru de Dráuzio Varella: mais nem só de trabalho que favorece a autodestruição se ocupa o preso. Há outras atividades produtivas que contribuem para a recuperação do encarcerado. São atividades incentivadas pela própria administração. Algumas empresas empregam mão de obra local para costurar bolas de couro, chinelos, colocar espiral em cadernos e similares. Ao lado deste trabalho organizado que reduz a pena, existe lá também uma economia informal. São os que lavam roupa para fora, costuram, cortam cabelos, constroem barcos a vela com distintivos de times de futebol, etc.
Nas celas de segurança máxima e na Isolada, cheias de fumaça de cigarro e trancado o tempo todo, a ociosidade pode enlouquecer o homem. Segundo seu Jeremias, ele já viu muita gente entrar lá bom e sair para o manicômio. Diz ele que já passou três meses nesse local, e para se ocupar, jogava uma bolinha de gude na parede e tateava no escuro, o chão até encontrá-la. Chegou a repetir a operação cento e setenta e sete vezes no mesmo dia. “Mas graças a Deus saí de lá com juízo”.
Outro problema relatado pelo autor diz respeito à superpopulação do sistema penitenciário. O problema começa nos Distritos em que se encontravam. Ali, quando há revolta dos presos a ordem é: “leva para a Casa de Detenção”. Um preso por nome de Zildenor conta que quando seu grupo de dezoito presos foi transferido para a casa de detenção, ouviu a reação dos que lá estavam : “Não tem condições, não cabe mais ninguém, vão matar um de nós”. Não adiantou nada. Os funças puseram a gente para dentro pois eles não estão nem aí para sofrimento de ladrão. Um carcereiro ainda justificou: “é para ninguém reclamar que aqui falta calor humano.”
O sofrimento do preso na casa de detenção tem várias modalidades. Relembro, diz o Dr. Varella, que um dia entrou na sala de consulta, um altão forte, as pernas abertas e as mãos amparando os testículos. Apresentava um abscesso na bolsa escrotal de tamanho de um pêssego grande. Vou te encaminhar para o Hospital Mandaqui.

Estação Carandiru de Dráuzio Varella: Doutor, diz o paciente, “já me encaminharam para lá umas três vezes, mais faltou viatura, ontem, depois de eu implorar desesperadamente acabaram me levando, mas nem desci do camburão. Os PMS falaram que ia demorar e eles não eram ama-seca de vagabundo. Não tem condição do senhor lancetar aqui mesmo?” O material daqui é precário e você não tem noção da dor que dá, é duro aguentar sem ter anestesia. “Que é isso doutor? O senhor está falando com um homem que tem quatro balas no corpo; que já foi pendurado no Deic mais de vinte vezes, já apanhei de cano de ferro duas horas e não entreguei o que os homens queriam. Se é pela dor, já era, pode fazer o serviço”.
Mesmo adiante de tanta brutalidade, o malandro tem momentos de sentimentos nobres: o carinho para com os filhos e parentes nos dias de visita, o respeito pelos familiares dos companheiros, a invocação da mãe quando em situação de dor física. Expressões como: “ai, pelo amor de Deus, larga. Ai mamãezinha querida, vela eu, mãezinha querida, vela o teu filho, mãezinha.”
Num dos últimos capítulos do “Estação Carandiru”, o autor analisa a situação do “Sem–Chance”. Este personagem representa genericamente as circunstâncias, o tempo e o lugar ocupados por um presidiário. Seu primeiro crime, a prisão, a fuga, a reincidência no crime, a escola do mal existente na prisão de onde o criminoso saiu pior do que entrou, etc.
Abandonado pela família após a morte da sua mãe, “Sem – Chance” revela que para a sociedade ele não passa de um reles rejeitado que nem cachorro sarnento. “Sou um zero no mundo. Estou perdendo a identidade própria do ser humano. Sou um “Sem –Chance”.

Estação Carandiru de Dráuzio Varella: não podia passar em branco nessa obra o trágico acontecimento denominado matança do Carandiru fato este que levantou a opinião pública no Brasil e Exterior. Tudo começou com um desentendimento entre dois rivais no pavilhão nove. A razão da desavença não foi devidamente esclarecida.
As quatorze e trinta da primeira Sexta-feira de Outubro de 1992, começou a rebelião. Às quinze horas, policiais entraram na Detenção com metralhadoras, cães e escopetas. O Governador Fleury Filho qualificou a operação como uma ação policial para combater briga de quadrilhas. No final da operação, cento e onze detentos estavam mortos.

Estação Carandiru de Dráuzio Varella: cadeia é como panela de pressão, quando explode é impossível conter. O ataque foi desfechado com precisão militar, rápido e letal. A violência da ação não deu chance para a defesa. Trinta minutos depois da invasão ouviram-se gritos de “Para ! Já chega! Acabou!” Uma, depois da outra, as metralhadoras silenciaram. Após os tiros caiu um silencio de morte na galeria. Os carros da polícia e do IML transportaram os mortos, até tarde da noite. Nas celas o ambiente era trágico. Dadá, um preso evangélico sobrevivente abriu a Bíblia e leu o salmo 91 chorando como criança com o trecho: “Mil cairão ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido, nada chegará à tua tenda”.

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Estação Carandiru de Dráuzio Varella

Publicado em:Resumos de livros

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