Evocações de Cruz e Sousa - Vestibular1

Evocações de Cruz e Sousa

 

Evocações de Cruz e Sousa

 

Evocações de Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa, considerado o mestre do simbolismo brasileiro, publica em 1893 suas obras Missal e Broquéis, as quais são consideradas o marco inicial do Simbolismo no Brasil.

Evocações é um poema em prosa e composto por 36 poemas onde explora os problemas humanos e sociais vividos pelo poeta, que os expressa através desses poemas. O poema emparedado, segundo grande parte dos críticos é seu próprio testamento de poeta.

Evocações de Cruz e Sousa: em Evocações escreve não só sobre suas dores particulares, mas também sobre o sofrimento de todo ser humano.
Cruz e Souz, um dos maiores poetas líricos do Brasil, a usou de linguagem criativa e requintada, vinda do parnasianismo, dando aos seus versos musicalidade, explorando os aspectos sonoros dos vocábulos.

Os poemas em prosa de Evocações já estavam reunidos em 1897, mas foram publicados postumamente em 1898 por iniciativa do amigo Nestor Victor.

Evocações de Cruz e Sousa – Trecho do poema Emparedado
Era aquela, assim religiosa e enevoada, a hora eterna, a hora infinita da Esperança…

Eu ficara a contemplar, como que sonambulizado, como o espírito indeciso e febricitante dos que esperam, a avalanche de impressões e de sentimentos que se acumulavam em mim à proporção que a noite chegava com o séquito radiante e real das fabulosas Estrelas.

Recordações, desejos, sensações, alegrias, saudades, triunfos, passavam-me na Imaginação como relâmpagos sagrados e cintilantes do esplendor litúrgico de pálios e viáticos, de casulas e dalmáticas fulgurantes, de tochas acesas e fumosas, de turíbulos cinzelados, numa procissão lenta, pomposa, em aparatos cerimoniais, de Corpus Christi, ao fundo longínquo de uma província sugestiva e serena, pitorescamente aureolada por mares cantantes. Vinha-me à flor melindrosa dos sentidos a melopeia, o ritmo fugidio de momentos, horas, instantes, tempos deixados para trás na arrebatada confusão do mundo.

Evocações de Cruz e Sousa: certos lados curiosos, expressivos e tocantes do Sentimento, que a lembrança venera e santifica; lados virgens, de majestade significativa, parecia-me surgirem do suntuoso fundo estrelado daquela noite larga, da amplidão saudosa daqueles céus…
Desdobrava-se o vasto silforama opulento de uma vida inteira, circulada de acidentes, de longos lances tempestuosos, de desolamentos, de palpitações ignoradas, como do rumor, das aclamações e dos fogos de cem cidades tenebrosas de tumulto e de pasmo…

Era como que todo o branco idílio místico da adolescência, que de um tufo claro de nuvens, em Imagens e Visões do Desconhecido, caminhava para mim, leve, etéreo, através das imutáveis formas.

Evocações de Cruz e Sousa – Poema escolhido:
Melancolia

Falo ainda e sempre a ti, branco Lusbel das espirituais clarividências! A ti, cuja ironia é ferro e é fogo! Cuja eloquência grave e vasta faz lembrar, como a de Bossuet, longas alamedas de verdes e frondejantes, altos plátanos chorosos. A ti, que amargurado deploras toda esta decadência dos seres; a ti, que te voltas desolado e saudoso para os tempos augustos que se foram, quando a Honra vã de hoje, era, como um poderoso e altivo brasão de águias negras atravessado de uma espada no centro!

Sim! branco Lusbel, nós caminhamos para o irreparável empedernimento; desde o solo até aos astros, homens e cousas, tudo vai quedar de pedra. Será um sono universal de uma universal esfinge. Tudo, na pedra, dormirá um sono de pedra. A pedra respirará pedra. A pedra sentirá pedra. A pedra almejará pedra. E esta tremenda aspiração de pedra profundamente simbolizará os sentimentos de pedra dos homens de hoje. E, então, branco e iluminado Lusbel, mais claro do que nunca, verás que os olhos dos homens só luzem diante do dinheiro! Que pelo Amor nenhum se sente com ânimo de brandir um facho, de agitar um gládio ou desfraldar uma bandeira! Que pelo Sacrifício nenhum se arrojará nos Nirvanas transcendentes, porque dói muito abandonar o Conforto! Que pela Abnegação nenhum se colocará na vanguarda, porque custa muito aniquilar o Interesse.

Bem sei que tu, ainda com uns restos de clemência, não sei se diabólica, não sei se divina, acharás paradoxal esta intuitiva profecia; mas, para te fazer apagar de uma vez as últimas claridades de crença inexperiente que ainda conservas na alma, vou ministrar-te um rápido e curioso exemplo —síntese preciosa de que o Sentimento está metalizado em ouro, de que a alma anda em cheques universais, no câmbio feroz do egoísmo humano:

— Meu filho, ouvi perguntar um dia a uma criança de sete para oito anos que chegara desse rude e corrupto mundo europeu a tentar fortuna nestas novas terras azuis, — meu filho, você, com certeza, deixou lá fora família, sua mãe, seu pai, não?!

— Deixei, respondeu ele.
— E não tem vontade de voltar, não tem saudade deles?
— Eu! saudades, replicou a inocente criança de sete para oito anos; eu não vim cá para ter saudades, vim para ganhar dinheiro!

Evocações de Cruz e Sousa: aí tens tu, branco e iluminado Lusbel, a boca dessa esquisita criança, na qual deveria desabrochar a flor tépida de um afeto cândido, instintivamente gangrenada já por tamanhas abjeções de palavras duras!
Nesse ingênuo bandidozinho aí tens tu a imagem simbólica, a mais que exata medida da alma humana universal que tu desoladamente observas com tão desesperada melancolia, cuja psicologia secreta tu penetras tanto nos requintes de toda a tua inquieta Indignação!

 

Evocações de Cruz e Sousa

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