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Fédon de Platão

 

Fédon de Platão – parte II

O Mito do Rio do Esquecimento ou do Destino das Almas serve para nos explicar esta ideia de uma forma mais clara: quando o corpo sucumbe, as almas têm que passar num rio; há umas que passam mais sequiosas do que outras, consoante a sua ligação mais ou menos estreita com o corpo. Como tal, as que beberem muita água esquecem mais facilmente aquilo que contemplaram no Inteligível.
Também este argumento não se mostrou capaz de demonstrar a imortalidade da alma. Mas sim a sua preexistência em relação ao corpo uma vez que nós, na nossa existência, vamos recordar aquilo que contemplamos no Hades, daí que a experiência atual se baseie na experiência anterior e haja uma identidade entre ideias, alma e pensamento.
Este argumento é, no entanto, mais complexo e sustentável do que o anterior e, como tal, mais difícil de desmontar, o que não impede, porém, algumas objeções da minha parte. Assim:
Afirma-se, ao longo deste argumento, que o percurso da alma é determinante no verdadeiro conhecimento; ou seja, pressupõe-se que, quanto maior for o número de encarnações, mais alargado é o conhecimento. No entanto, o menor número de encarnações da alma significa que essa mesma alma conseguiu, de uma forma mais rápida, sobrepor-se às vontades do corpo a ponto de não satisfazer os desejos por ele pedidos; só neste caso a alma consegue a tão desejada purificação, a verdade absoluta. Ainda dentro da perspectiva de Sócrates, podemos dizer que existe uma certa contradição ao afirmar-se que o recordar daquilo que a nossa alma contemplou não depende de cada um de nós mas do ciclo da própria alma, ou seja do número das suas reencarnações, já que é apenas encarnando que a alma se exercita a abstrair-se do corpo e de tudo quanto a ele diz respeito. Sendo assim, deveremos esperar e desejar que a nossa alma tenha já encarnado em muitos corpos de modo a que, enquanto estiver no nosso, esteja já a percorrer a parte final do caminho para a purificação e felicidade eterna.

Fédon de Platão: já me aconteceu estar num local onde nunca estivera antes durante a minha (não muito longa) existência e sentir que tudo o que me rodeava me era familiar. É claro que este fato se relaciona com algumas descrições que já me foram feitas ou até mesmo com algumas experiências anteriores neste “Mundo” e que, por terem características tão idênticas, regressam à minha memória. Daí que não acredite que este conhecimento do que estou a presenciar provenha de uma existência anterior, até porque muitas vezes isso me acontece em relação a ambientes novos e que surgiram muito recentemente, pelo que é impossível que tenham existido anos anteriores.
É claro que concordo que conhecer é recordar, mas recordar as experiências desta existência e não as Formas do Mundo das Ideias. E é com base nestas experiências e sensações que vou construindo o meu ser da forma que melhor me aprouver e que melhor se adapte à sociedade em que me insiro.

Fédon de Platão – As ideias
Este argumento é outra Prova Gnosiológica uma vez que tem por assunto de debate as ideias enquanto objeto de pensamento. Aqui, Sócrates vai fazer a distinção entre as realidades compósitas que, por serem isso mesmo, são susceptíveis à decomposição e, como tal, à dissipação; e as coisas simples ou incompósitas que, por não terem partes, também não se podem decompor nelas, daí que não se dissipem nem se desagreguem.
Sendo assim, os entes complexos ou compósitos são aqueles que estão em constante mudança e nunca permanecem idênticos, enquanto que os simples são os que se mantêm constantes e idênticos a si mesmos. Como tal, Sócrates vai associar as coisas compostas às coisas visíveis, ou seja, ao sensível que se encontra em constante devir, e as coisas simples às coisas invisíveis que, por não se alterarem, são puras e eternas, e porque não são perceptíveis aos nossos sentidos; só através do pensamento conseguimos aceder-lhes. A ideia é o fundamento do ser (pelo que as ideias tenham uma dimensão ontológica) e o princípio de todo o saber verdadeiro; conhecer é apreender a Ideia, “é voltando-se sobre si mesmo, que o espírito levará à luz do saber a verdade que dormita nele e que está apenas esquecida”.

Fédon de Platão: vamos ver novamente uma transposição do argumento para as realidades que são o corpo e a alma. Com efeito, o corpo, sendo visível e complexo/compósito, é susceptível à dissipação, fato que deveremos temer; a alma é a realidade invisível e, como tal, simples e incompósita, pelo que se mantenha do mesmo modo e “se dirige para o que é puro e eterno, para o imortal e que permanece sempre o mesmo” assim que o corpo sucumbir.
Sócrates prossegue, dizendo que, enquanto a alma e o corpo continuam unidos, “cabe ao corpo por essência obedecer e à alma por essência comandar”. Por aqui, podemos ver a posição de Sócrates relativamente à Natureza da alma; ou seja, ela assemelha-se ao divino e tende para ele.
Assim sendo, toda a alma que se afastou do corpo repugnando os seus prazeres, mantendo-se num total estado de pureza vai para o lugar que lhe pertence, para o que lhe é semelhante. Pelo contrário, aquela que serviu o corpo que o amou, não se interessando por chegar às Ideias, ou seja ao que é invisível e puro, não tem lugar, com toda a certeza, no Inteligível pelo que fique à espera de um corpo que a aceite de novo à vida.
Sócrates ressalta, mais uma vez, o papel da Filosofia no percurso da purificação que a alma deverá fazer se quer habitar para sempre no Hades. Com efeito, o filósofo é aquele que por trabalhar com as Ideias e com o invisível se afasta do sensível e corpóreo. A alma do filósofo sabe, então, que “enquanto viver, deve, guiada pelo raciocínio e cingindo-se sempre a ele, acalmar as paixões e não afastar os olhos do que é verdadeiro, divino e superior à opinião, e que, depois da morte, há de ir para o que tem afinidade e que lhe é semelhante, livre já dos males que atormentam o homem”.

Fédon de Platão: este argumento leva-me a questionar sobre a natureza da alma. Se para Sócrates a alma é sempre pura porque é invisível e, como tal, se assemelha ao divino, como se explica que tenha de haver um trabalho árduo da nossa parte em afastarmo-nos de tudo quanto é sensível e nos dedicarmos, por inteiro, à Filosofia que trabalha somente com as ideias, desprezando o visível e o corpóreo? A alma, sendo da mesma natureza do divino, deveria ser capaz ela mesma de atingir as Ideias sem nos obrigar àquele esforço que a Filosofia, aos olhos de Sócrates, pressupõe; isto é a abstração do real e das coisas corpóreas. Ou serão alguns corpos tão fortes que conseguem tornar impuro aquilo que é, por essência, puro e divino? Pelo que a alma tenha de iniciar um percurso que a conduza (novamente) à purificação.
Mais uma vez não ficou totalmente provada a imortalidade da alma, ou isso só acontece com as almas dos filósofos? Penso que com este argumento foi, quando muito, apenas provada a imortalidade da alma filosófica que, poderíamos nós afirmar, trabalha, por essência, com as Ideias, desprezando tudo o que é corpóreo.

Fédon de Platão – Sócrates e as Ciências Naturais
Sócrates começa por fazer referência a uma história que se passou com ele quando ainda moço em que foi à procura da origem de todas as coisas através de uma “investigação da Natureza”, mas chegou à conclusão de que como está tudo em constante mutação não se consegue atingir a verdade absoluta.
Sempre que Sócrates procurou, através da Natureza, respostas para a criação dos próprios seres, notou que o que obtinha eram cada vez mais respostas e mais contradições. Isto porque, e foi esta a conclusão a que chegou, procurando na Natureza as causas primeiras dessa mesma Natureza o que se obtém é um conjunto de respostas satisfatórias, tudo é verdade. Sendo assim, não é nas Ciências Naturais que estão as respostas, e a pergunta subsiste “Como é que aparecem e desaparecem os seres?”. O que Sócrates encontrou foi a escuridão.

Não é nos seres que encontramos as suas causas uma vez que eles são consequência dessas mesmas causas. Como tal, temos que procurar as causas nas próprias causas, ou seja, nas Ideias.
Com efeito, Sócrates opta por abandonar o Mundo Sensível refugiando-se nas Ideias. Uma vez que só através delas é que as causas e a verdade absoluta estão ao nosso alcance. É então feita nova apologia à Filosofia enquanto “exercício de morrer e estar morto”; ou seja, é através do esforço de abstração de tudo quanto é sensível que a nossa alma consegue chegar à verdade absoluta, às causas, às Ideias.

Fédon de Platão: uma outra razão que faz com que Sócrates recuse a Ciência relaciona-se com o fato de a Ciência, por ser isso mesmo, não fazer juízos de valor a respeito do que deve ser mas procura, antes, conhecer aquilo que é. Daí que ela seja um elemento quantitativo mais do que qualitativo.
Sócrates estava preocupado com a instituição do ensino entre os cidadãos de Atenas, mas defendia um ensino baseado na valorização das Ideias e da Moral, pelo que tenha recusado a Ciência, já que ela procurava o que era e não o que deveria ser. A Moral é também uma forma de purificação e, como tal, defendida por Sócrates.
Ao contrário dos seus antecessores, os Pré-Socráticos, que procuravam saber e conhecer aquilo que é, ou seja, aquilo que muda e está em constante devir, Sócrates preocupou-se com aquilo que deve ser e com a educação dos cidadãos atenienses, chamando a atenção para a Moral como forma de purificação.
A Matemática, apesar de ser uma ciência, recebe o aval de Sócrates e de Platão uma vez que trabalha com as ideias e funciona, como tal, como uma ponte entre o sensível e o inteligível. A Matemática exige, ainda, uma grande capacidade de raciocínio. Sendo assim, se formos bons a Matemática, então estamos aptos a trabalhar com a abstração e, deste modo, a chegar mais facilmente às Ideias.

Fédon de Platão: a Matemática tem, então, um papel propedêutico para chegar ao Mundo Inteligível e dos Seres Perfeitos.
Platão repugna-se com o mau uso que é dado à Matemática, na medida em que o uso sensível desta ciência é uma forma de a subverter, ou seja de a trazer do Inteligível ao Sensível.
Esta sua posição seria, na sociedade de hoje, completamente ignorada na medida em que a ciência é, atualmente, o centro e causa de todo o desenvolvimento a que temos vindo a assistir. Com efeito, muitos filósofos falam na Morte de Deus, já que foi a ciência que passou a dar as respostas ou a resolver os problemas, anteriormente requisitados à transcendência.

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Publicado em:Resumos de livros

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