Lucíola de José de Alencar II - Vestibular1

Lucíola de José de Alencar II

Lucíola de José de Alencar II

Lucíola de José de Alencar II – Parte II

 

Lucíola de José de Alencar II – Sentimentalismo Melancólico: o romântico é acima de tudo um sentimental. A poesia, sobretudo, está infestada destas sensitivas melancólicas, pessimistas e sentimentais: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Varela e outros. Aqui e lá fora. Também no romance se encontra uma galeria enorme de heróis e heroínas choramingas, que colocam o sentimento acima da razão, elegendo o coração como norma suprema de conduta pessoal e social. O comportamento de tais personagens é imprevisível,, dependendo de seus estados de alma.
Em LUCÍOLA, por exemplo, um mínimo contratempo é o suficiente para lançar Lúcia ou Paulo na mais profunda tristeza. Numerosas passagens do romance colocam o leitor diante de quadros profundamente melancólicos. Como esta:
“Foi terrível. Meu pai, minha mãe, meus manos, todos caíram doentes: só havia em pé minha tia e eu. Uma vizinha que viera acudir-nos, adoecera à noite e não amanheceu. Ninguém mais se animou a fazer-nos companhia. Estávamos na penúria; algum dinheiro que nos tinham emprestado mal chegara para a botica. O médico, que nos fazia a esmola de tratar, dera uma queda de cavalo e estava mal. Para cúmulo de desespero, minha tia uma manhã não se pôde erguer da cama; estava também com a febre. Fiquei só! Uma menina de 14 anos para tratar de seis doentes graves, e achar recursos onde os não havia. Não sei como não enlouqueci.” (op. cit. p.110)
E esta outra, onde Lúcia se fez passar por uma amiga morta para aliviar o sofrimento dos pais: “Lúcia morreu tísica; quando veio o médico passar o atestado, troquei os nossos nomes., Meu pai leu no jornal o óbito de sua filha; e muitas vezes o encontrei junto dessa sepultura onde ele ia rezar por mim, e eu pela única amiga que tive neste mundo. Morri pois para o mundo e para minha família. Meus pais choravam sua filha morta; mas já não se envergonhavam de sua filha prostituída.” (op. cit. p.112).
Muitas das atitudes tomadas por Paulo ou Lúcia são próprias de pessoas que se deixam guiar pelo sentimento. Esta, por exemplo, esquisita e inexplicável de Lúcia “- Iremos juntos!… murmurou descaindo inerte sobre as almofadas do leito. Sua mãe lhe servirá de túmulo.” (op. cit. p. 126).
Enfim, o romance todo, do início ao fim, está impregnado de uma atmosfera melancólico-sentimental.

Lucíola de José de Alencar II – Ilogismo: Para Domício Proença tal ilogismo, na literatura romântica, “leva, inclusive, a uma instabilidade emocional traduzida em atitudes antitéticas ou paradoxais: alegria e tristeza, entusiasmo e depressão.”
Tal ilogismo parece ser um dos pontos altos de LUCÍOLA. Os paradoxos; o comportamento ora excêntrico ora dúbio de Lúcia, ora virtuoso, ora pecaminoso que vai lançando Paulo numa dúvida angustiante: a própria duplicidade comportamental de Paulo, generoso e mesquinho, compreensivo e intransigente, correto e pilantra; tudo isso dá à intriga do romance um atrativo todo especial que, por sua vez, ora atrai ora aborrece o leitor.
Há ainda outras manifestações de Romantismo no romance, tais como, imaginação e fantasia, culto da natureza, senso do mistério, exagero. Mas são de importância secundária.

Lucíola de José de Alencar II – Características de José de Alencar

Lucíola de José de Alencar II – Lirismo: Não no sentido de gênero literário, mas no sentido de visão lírica da realidade. Nesse aspecto, Alencar é um escritor eminentemente lírico, pois é delicado, terno, de sensibilidade fina, imaginação fértil, estilo cheio de graça e harmonia. A realidade , principalmente a natureza, sempre que possível, é embelezada poeticamente na sua pena. A maioria dos críticos são concordes em que ele criou seu estilo, expresso numa musicalidade toda sua.
Há um lirismo bem bucólico nesta passagem de LUCÍOLA: “Sentamo-nos sobre a relva coberta d flores e à borda de um pequeno tanque natural, cujas águas límpidas espelhavam a doce serenidade do céu azul. Lúcia tirou do bolso seu crochê e o novelo de torçal, e continuou uma gravata que estava fazendo para mim. Enquanto ela trabalhava, eu arrancava as flores silvestres para enfeitar-lhe os cabelos; ou arrastava-me pela relva para beijar-lhe a ponta da botina que aparecia sob a orla do vestido.” (p.105)
E nesta outra há graça, ternura, sentimento: “Toquei com os lábios a raiz daqueles cabelos sedosos que ondulavam com o sopro de minha respiração. Ana teve um estremecimento íntimo; e banhou-se na onda de púrpura que descendo-lhe da fronte, derramou-se pelas espáduas roseando a branca escumilha.” (p. 120)

Lucíola de José de Alencar II – Gosto pela Descrição: A descrição parece ser o forte de Alencar. Principalmente dessas três realidades: paisagem, personagem e vestuário feminino. A descrição da paisagem sobressai em qualidade e quantidades nos seus romances regionalistas e indianistas. Mesmo nos urbanos, sempre haverá um parêntese reservado para a paisagem (natureza) ou cenário (salões, ambientes). Em LUCÍOLA, de quando em quando aparece a natureza como a aliviar o leitor das tensões dos dramas humanos.
Quanto à descrição dos personagens, Alencar parece se preocupar antes com o aspecto externo para depois chegar ao temperamento. “O físico, ainda antes das ações e intenções, define seus personagens. Para mostrar-lhes a alma, o autor nos adverte sobre seus planos e projetos, mas primeiro lhes descreve rosto e corpo, olhos, voz, gestos. E tem sempre o cuidado de acentuar traços que lhe parecem reveladores de defeitos ou virtudes, roteiros para o conhecimento psicológico” (M. Cavalcanti Proença, op. cit. p.47).
Antes mesmo de o leitor saber quem era ela, já Alencar lhe mostrou o retrato de Lúcia no cap. II: “Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegância. O vestido que o moldava era cinzento com orlas de veludo castanho e dava esquisito realce a um desses rostos suaves, puros e diáfanos, que parecem vão desfazer-se ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada. Ressumbrava na sua muda contemplação doce melancolia e não sei que laivos de tão ingênua castidade, que o meu olhar repousou calmo e sereno na mimosa aparição.” (p. 13). Na passagem seguinte Alencar como que nos conduz do exterior ao interior de Lúcia: “O rosto suave e harmonioso, o colo e as espáduas nuas, nadavam como cisnes naquele mar de leite, que ondeava sobre formas divinas. A expressão angélica de sua fisionomia naquele instante, a atitude modesta e quase íntima, e a singeleza das vestes níveas e transparentes, davam-lhe frescor e viço de infância, que devia influir pensamentos calmos, senão puros.” (p.27).
No que concerne ao vestuário feminino é inegável a influência que Balzac exerceu em Alencar. E Antônio Cândido confirma: “Alencar não denota a influência marcada do mestre francês apenas na criação de mulheres cujo porte espiritual domina os homens, ou na mistura do romanesco e da realidade. Denota-a principalmente na intuição da vestimenta feminina, que aborda como elemento de revelação da vida interior: os vestidos de Lúcia, por exemplo, desde o discreto, de sarja gris, com que aparece na festa da Glória, até a chama de sedas vermelhas com que se envolve num momento de desesperada resolução, são tratados com expressivo discernimento.” (op. cit. p.234).

Nesta citação de LUCÍOLA, Alencar mostra que realmente entende do “babado”: “Lúcia fitou-se por muito tempo, e chegou-se ao espelho para dar os últimos toques ao seu traje, que se compunha de um vestido escarlate com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver suas belas espáduas, de um filó alvo e transparente que flutuava-lhe pelo seio cingindo o colo, e de uma profusão de brilhantes magníficos capaz de tentar Eva, se ela tivesse resistido ao fruto proibido. Uma grinalda de espigas de trigo, cingia-lhe a fronte e caía sobre os ombros com a vasta madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros anéis que brincavam.” (p.71).

Lucíola de José de Alencar II – Comparações: É um corolário do gosto pela descrição. As comparações de Alencar, geralmente, referem-se aos personagens, ora em seus detalhes físicos, ora em seus estados de alma, ora em seus atributos morais. O segundo termo da comparação é colhido, na esmagadora maioria das vezes, de elementos da natureza: reino vegetal, animal ou mineral. Uma confirmação do que se disse está neste trechinho: “Como as aves de arribação, que tornando ao ninho abandonado, trazem ainda nas asas o aroma das árvores exóticas em que pousaram nas remotas regiões, Lúcia conservava do mundo a elegância e a distinção que se tinham por assim dizer impresso e gravado na sua pessoa.” (p.117).

Lucíola de José de Alencar II – Desarmonias: É mais ou menos aquilo que atrás se chamou de “ilogismo”. Lá, tal ilogismo foi mostrado como uma das características românticas no livro. Aqui, as “desarmonias” aparecem como uma das características do estilo alencariano. Quem as explica é o mestre Antônio Cândido: “Outro fator dinâmico na obra de Alencar é a desarmonia, o contraste duma situação, duma pessoa ou dum sentimento normal, e tido por isso como bom, com uma situação, pessoa ou sentimento discordante. Sob forma mais elementar, é o choque do bem e do mal. (…) Em Lucíola, a luxúria do velho Couto, e mais tarde a prática do vício, torcem a personalidade de Lúcia. A forma refinada desse sentimento da discordância é certa preocupação com o desvio do equilíbrio fisiológico ou psíquico. Relembre-se a depravação com que Lúcia se estimula e castiga ao mesmo tempo, e cujo momento culminante é a orgia promovida por Sá – orgia espetacular, com tapetes de pelúcia escarlate, quadros vivos obscenos, flores e meia luz, ultrapassando o realismo qualquer outra cena em nossa literatura séria.” (op. cit. p.230).
Já se disse atrás que o ilogismo, ou seja, o contraste de situações, pessoas ou sentimentos constitui o aspecto mais significativo na intriga romanesca de LUCÍOLA. E não será difícil ao leitor observar a presença dessas desarmonias ou contrastes no livro. Dentre muitos exemplos que se poderiam dar de “desarmonia” de situações, está o contraste entre Maria da Glória e Lúcia: aquela, pobre, simples, escondida; esta, rica, caprichosa, pública. Mas isso já é um conflito entre o passado e o presente.. Porém, os contrastes mais importantes na técnica narrativa do livro são aqueles relacionados com pessoas e sentimentos. De Paulo e Lúcia, naturalmente.
A mesma Lúcia que compôs recatadamente o roupão ante os olhos ávidos e voluptuosos de Paulo que vislumbravam o simples contorno de um seio foi capaz de desfilar nua na ceia em casa do Sá. Ela é assim: contraditória. Ama e odeia. Atira-se ao vício e tende para a virtude, segundo suas próprias palavras: “Eis a minha vida… deixara-me arrastar ao mais profundo abismo da depravação; contudo, quando entrava em mim, na solidão de minha vida íntima, sentia que eu não era uma cortesã como aquelas que me cercavam. Ficaram gravados no meu coração certos germes de virtudes…” (p. 112).
Também Paulo apresenta um comportamento paradoxal. Ora ele deseja violentamente Lúcia ora promete respeitá-la. Ofende-a e pede-lhe perdão; dá-lhe liberdade e a quer só para si; despreza-a e sente dela pungente ciúme; vê nela uma prostituta refinada e uma menina de quinze anos, pura e cândida. Também Paulo é contraditório: vil e magnânimo, como todo bípede implume e social chamado homem.

Lucíola de José de Alencar II – Estrutura da Obra

Lucíola de José de Alencar II – Técnica narrativa: Por técnica narrativa se entende o conjunto de recursos utilizados pelo autor para fazer o enredo (a ação) chegar até o leitor.
LUCÍOLA é um romance de primeira pessoa, ou seja, quem narra a história não é Alencar diretamente. Ele o faz por meio de um personagem que viveu os episódios. No caso, esse personagem narrador é Paulo, que em cartas dirigidas a uma senhora (por quem o autor se faz passar) conta uma história de amor acontecida há seis anos entre ele e Lúcia. A senhora reuniu as cartas e delas fez o livro. “Eis o destino que lhes dou; quanto ao título, não me foi difícil achar. O nome da moça, cujo perfil o senhor me desenhou com tanto esmero, lembrou-me o nome de um inseto. “Lucíola” é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d’alma?”
No capítulo I, o narrador explica a razão das cartas: “A senhora estranhou, na última vez que estivemos juntos, a minha excessiva indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagâncias”. (p.11).
Na estrutura narrativa de LUCÍOLA, portanto, pode-se observar o seguinte:
a) há um autor real, José de Alencar;
b) um autor fictício, a senhora G. M., destinatária das cartas de Paulo.
c) Um narrador, Paulo, com a incumbência e o privilégio de ordenar os fatos, comentá-los e tirar-lhes conclusões.
À medida que transmite os fatos, vai fornecendo ao leitor elementos para a análise de Lúcia e dele mesmo.

No romance analisado, os fatos são apresentados sob dois pontos de vista, dois ângulos diferentes: o de Paulo/personagem que transmite ao leitor as sensações vividas com Lúcia e o de Paulo/narrador que, por vezes, interrompe a narrativa fazendo reflexões ou dirigindo-se à destinatária de suas cartas.

O enredo abrange um período de aproximadamente seis meses. Foi o que durou o namoro do par romântico. Às vezes, o autor avança a narrativa com soluções bem simples: “Essa vida calma e tranquila, remanso de uma existência tão agitada, durava cerca de um mês.” (p.1116). Em outras, retarda-a: dedicou três capítulos para a ceia em casa de Sá (capítulos VI, VII e VIII).

Lucíola de José de Alencar II – Técnica de composição: No estudo de um romance é costume observar, além da técnica narrativa do autor, a ação, o tempo, o lugar e as personagens.

Lucíola de José de Alencar II – Ação: Já se disse antes que a ação de LUCÍOLA (=enredo) gira em torno de uma história entre Paulo e Lúcia, com todos os ingredientes de um romance romântico: heróis e vilões, heroínas incompreendidas, virgens pálidas e meigas e cortesãs depravadas, a morte como única saída para um amor verdadeiro porém impossível, etc.
A ação num romance, como um filme, se caracteriza por uma “simultaneidade dramática”. Explicando: são vários episódios colhidos, pelo autor, numa realidade social ou pessoal e interligados no romance. Tais episódios ocorrem simultaneamente, como na vida real. Mas esta simultaneidade, o autor confere maior evidência a um dos “casos” que funciona como núcleo central da narrativa. Há, portanto, no romance um episódio central em torno do qual giram outros secundários.
Em LUCÍOLA, o núcleo central da narrativa se concentra em Paulo e Lúcia, ora como duas individualidades com passado e presente próprios, ora como o “par romântico”. E se concentra com tal intensidade, (afinal o narrador é exatamente Paulo – o herói, o mocinho – que ama a Lúcia – a heroína) que os episódios envolvendo os demais personagens ficam totalmente ofuscados.
No núcleo central – a história de amor entre Paulo e Lúcia – vão influenciar principalmente as posições do Sr. Couto e de Ana: aquele no sentido negativo de atrapalhar este amor; esta, no positivo, como símbolo de uma quase perfeita perpetuação do amor dos dois na terra.

Lucíola de José de Alencar II – Tempo: Significando “época retratada”, é o século em que se passa: 1855 – “A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855”. Numa leitura atenta, o leitor percebe no livro o Rio de Janeiro da época de D. Pedro II, com seus salões, sua burguesia, suas vitrinas chiques na Rua do Ouvidor com mercadorias elegantes vindas de Paris ou Londres, seus tílburis, seu vestuário, etc.
Como tempo narrativo, ele é eminentemente “cronológico”. Ou seja, em LUCÍOLA os acontecimentos se sucedem numa ordem quase normal, com uma sequência natural de horas, dias, meses, anos. Só há um momento em que o fluxo narrativo retroage: quando Lúcia narra a Paulo seu passado. (Cap. XVIII e XIX). E em dois momentos ele avança: o capítulo I e o finalzinho do último revelam o estado de alma de Paulo seis anos após a morte de sua querida Lúcia: “Terminei ontem este manuscrito, que lhe envio ainda úmido de minhas lágrimas. (…) Hás seis anos que ela me deixou; mas eu recebi a sua alma, que me acompanhará eternamente.” (p. 127)

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