Madame Pommery de Hilário Tácito II - Vestibular1

Madame Pommery de Hilário Tácito II

Madame Pommery de Hilário Tácito

 

Resumo Madame Pommery de Hilário Tácito – parte II

Porém, um detalhe chama a atenção do leitor mais cuidadoso: uma pequena inscrição ao pé da página do lado esquerdo do desenho:
Ipse Fecit
MCMXIX
ou seja, a data de 1919 em algarismos romanos e a expressão latina “o próprio o fez”. Além disso, num exemplar da primeira edição, que pertenceu a Rui Barbosa, encontramos a seguinte dedicatória:
Ao Exmo. Snr. Conselheiro Rui Barbosa

Madame Pommery de Hilário Tácito: A crítica da moral subvertida transmuda-se na ironia, que é a Lógica do avesso. Contudo, só da summa grandeza d’alma, e da serenidade do gênio, atrevo-me a esperar a piedade, e a tolerância, que me hão de relevar a ousadia do gesto humilde com que apresento a V. Exa. frivolidades tão desprimorosas.
S. Paulo 15-IV-1920
Hilário Tácito

Como podemos verificar, a assinatura e o nome encontrados na capa são os de Hilário Tácito. Assim, José Maria de Toledo Malta parece intensificar, com estes expedientes discretos, a autonomia deste seu pseudônimo, envolvendo o leitor num intencional jogo de despistamento entre a verdade e a ficção, entre a história e a narração, fenômeno bastante explorado pelo autor em muitas digressões ao longo da narrativa:

Não suporto, nem por ideia, que se possa algum dia taxar de romance, conto ou novela, uma história verdadeira que, por amor da verdade, tanto trabalho me custou… (p. 69).
Assim, percebemos, a partir da capa e da narrativa, que o verdadeiro personagem central da obra é o pseudo autor e narrador Hilário Tácito que – contraposto à Madame Pommery/personagem-figurino ou rótulo – apresenta um dinamismo particular, essência mesma da narrativa.

Madame Pommery de Hilário Tácito: cumpre ainda observar que o nome Hilário Tácito abriga já as intenções satíricas de José Maria de Toledo Malta, pois “hilário”, aqui tratado como nome próprio, ordinariamente é um adjetivo para engraçado ou cômico.
O mesmo se dá com “tácito”, que em princípio quer dizer subentendido ou implícito. Assim, não devemos esquecer que Madame Pommery foi inicialmente considerado um roman à clef, ou seja, um romance cujos personagens estão em franca conexão com personalidades históricas e ilustres da época.

Todavia, tal conexão não é explícita, e sua decodificação exige a “chave” correta (clef , em francês, quer dizer chave). Eis aí a obra, hilária, porém tácita.
Devemos ressaltar também que os elementos levantados apontam para a modernidade de Madame Pommery, e o colocam em sintonia direta com o Modernismo de 22. Sabemos que em muitos livros modernistas a relação entre a linguagem verbal e a linguagem visual (capa, desenhos, grafismos, etc.) é essencial.

Veja-se o exemplo de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. É inegável que este elemento culmina no Concretismo da década de 50. Associado a tudo isto está o tom satírico da obra e a própria referência ao indianismo (Botocúndia) como elemento (des)mistificador da nacionalidade. Fica inequívoca então a posição ocupada por Madame Pommery neste momento de efervescência por que passava a sociedade paulistana e a cultura brasileira nas primeiras décadas do século XX.
Além disso, Madame Pommery tem muito do ambiente registrado pelo pintor francês Toulouse-Lautrec na sua série de trabalhos sobre a vida boêmia parisiense, com o seu Moulin Rouge e sua Jane Avril.

Madame Pommery de Hilário Tácito: nela alguns aspectos são essenciais. Primeiro, a paródia ao estilo pomposo das crônicas históricas ou dos cronicões, cujos modelos estão no passado da língua portuguesa e nos remetem ao final da Idade Média e ao Humanismo, principalmente a Fernão Lopes e à literatura informativa brasileira do século XVI.

Em Madame Pommery, Hilário Tácito imita o estilo empolado e altissonante dos títulos e das descrições típicas das crônicas históricas da língua, com seus personagens lusitanos (reis, rainhas, príncipes e princesas). Assim, o “estilo alto” (crônica) aqui vem associado ao “assunto baixo” (Madame Pommery e a prostituição), ao qual se quer conferir certo ar de dignidade e de seriedade, pelo menos em aparência, já que o narrador vai abordar a vida de uma ilustre “brasileira”, o que intensifica o registro satírico.
Tal operação tem como efeito assegurar, em aparência, o lado verídico da narrativa, aspecto este – como já dissemos – reiterado ao longo da obra pelo narrador, que insiste em afirmar que sua narração não é romance ou ficção, mas sim crônica histórica.

Outro aspecto interessante encontra-se ao fim da página, quando o pseudoautor dedica à obra às “…associações pensantes de São Paulo”. Aqui o deboche atinge em cheio o academicismo provinciano da Paulicéia, e instaura uma dissonância que percorrerá toda a narrativa, mimetizada na linguagem culta e erudita deste pseudo-autor.

Madame Pommery de Hilário Tácito: linguagem esta plena dos floreios tão ao gosto do beletrismo parnasiano do início do século. Uma linguagem saturada de referências elegantes e refinadas, enfim, o estilo “recherché” (elaborado) do decadentismo, esnobe e afetado e, na maioria das vezes, puramente esteticista.

E tudo isso aplicado a uma matéria que, em princípio, é escabrosa e indigna para os padrões literários e morais vigentes na época: a meretriz, a cafetina e seu mundo, suas práticas, em suma, o bordel e sua dinâmica particular, um microcosmo que em última análise explicita o funcionamento da sociedade como um todo.
A justaposição dos binômios bordel X sociedade, prostituição X civilização, cafetina X coronel, materializada por meio de um “estilo alto”, é muito produtiva enquanto formulação literária, resultado estilístico e penetração no real histórico. Tarefa no mínimo louvável se devidamente contextualizada, e capaz de apontar a argúcia de seu autor, o que de novo o coloca num fluxo cultural que culmina no que de melhor o Modernismo de 22 produziu.

A partir do bordel, Hilário Tácito passa em revista a sociedade de seu tempo e as instituições sobre as quais se assenta toda a dinâmica social brasileira nas primeiras décadas do século XX (e que em verdade marca até hoje a nossa estrutura social e mental): o coronelismo e o caciquismo. Porém, não sem um travo às vezes moralista e conservador, sutilmente dissimulado sob a capa de um espírito agudo e desabusado.
Madame Pommery tem, pois, o bordel como metáfora e o coronelismo como alvo.

Madame Pommery de Hilário Tácito – Foco narrativo
Como já dissemos, talvez o verdadeiro protagonista da obra seja o seu pseudo autor e narrador. Já no Capítulo I isto se evidencia, quando o próprio narrador admite estar ferindo as regras da arte, pois, antes de falar da suposta protagonista, vai falar de si:

Cousa nova há de parecer a muita gente que este livro, cujo propósito declarado é narrar a vida de uma personagem tão principal como Mme.Pommery, logo no começo se extravie do seu reto caminho, trocando assunto de tamanho momento por outro apagado e tão pouco interessante, como seja a personalidade incógnita do autor. (p.33)

Assim, percebemos que um narrador de terceira pessoa, onisciente e aparentemente convencional, vai relatar a vida de Mme. Pommery. Porém, ele se reserva ao direito de comentar e dialogar com o suposto leitor, que passa a compor não só como um elemento externo à obra, mas também como uma entidade literária que faz parte do jogo narrativo.
O foco, então, se desloca para a primeira pessoa e introduz alguns elementos fundamentais para a composição desta narrativa e do seu insólito narrador, quais sejam: a metalinguagem, o narrador intruso, a intertextualidade, as digressões.

Madame Pommery de Hilário Tácito:; aqui é inevitável a comparação com os narradores da fase madura de Machado de Assis (em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, etc.). A conexão dos estilos é evidente, apesar das diferenças.
Assim, este pseudo-autor e narrador intruso passa a conduzir o processo da narração e, em função dos expedientes acima relacionados, a linearidade narrativa vai sendo esgarçada e matizada de tal forma, que a obra às vezes beira o fragmentário, efeito almejado e amplamente desenvolvido pela literatura moderna.
Sob este aspecto, a construção de Madame Pommery também é avançada para a sua época, e se encaixa no fluxo de renovação das convenções narrativas romanescas impostas desde o Romantismo e cristalizadas no maquinário narrativo pseudocientífico do Realismo-Naturalismo, aqui francamente abandonadas e desautorizadas.

Porém, como bem notou Tristão de Atayde, num dos primeiros ensaios sobre a obra, tais expedientes “…não há dúvida que desviam ou enfraquecem a ação primordial da sátira.” Assim, há uma tensão permanente entre a matéria narrada e o ritmo da narrativa, o que, mesmo sendo um procedimento avançado para a época, muitas vezes causa-nos a sensação de não estar plenamente desenvolvido, e portanto não se sustentar literariamente.
O seu efeito acaba por prejudicar a obra, fazendo-a recair numa certa monotonia e previsibilidade narrativa. Dessa forma, apesar de percebermos a audácia da experiência frente aos padrões narrativos vigentes da época, somos obrigados a concordar com as palavras de Tristão de Atayde.

Madame Pommery de Hilário Tácito: aquilo que em Hilário Tácito parece uma experiência no meio do caminho, ou seja, a subversão dos esquemas narrativos oitocentistas, encontrará sua plenitude em obras como Macunaíma, de Mário de Andrade e Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade.
Devemos ainda reforçar que esta “volubilidade” do narrador de Hilário Tácito aproxima-se da melhor produção machadiana, que por sua vez é um dos raros exemplos de dissonância em relação às convenções literárias e romanescas dominantes no fim do século XIX e início do XX.

Madame Pommery de Hilário Tácito – Considerações Finais
Madame Pommery de Hilário Tácito, apesar de ser um livro pouco conhecido, bem como o seu autor, é uma obra interessante e capaz de suscitar importantes debates sobre questões fundamentais da vida paulistana, em particular, e da vida brasileira, em geral, no início deste século. Muitas das questões levantadas são atualíssimas e deitam raízes nas estruturas sociais e culturais brasileiras, tais como o coronelismo e o caciquismo, que dominam a nossa vida política.

Esta obra é realmente única e riquíssima, tanto no que diz respeito à linguagem e ao estilo, quanto às intenções que a movem. Porém, é perceptível uma incompletude típica da obra que promete muito e não consegue realizar plenamente o anunciado, fenômeno não incomum entre os autores do Pré-Modernismo.
Apesar do interesse do tema e da matéria narrada picante e estimulante; apesar da linguagem agilíssima e capaz de incorporar diversos registros linguísticos, que vão desde o beletrismo parnasiano até o coloquialismo contaminado de estrangeirismo e já quase modernista; apesar do estilo repleto de torneios elegantes e auto irônicos, que constroem uma prosa requintada e sofisticada, próxima do melhor ensaísmo moderno; apesar de todas as suas qualidades, Madame Pommery de Hilário Tácito parece naufragar enquanto objeto estético “autônomo”, cuja estrutura se justifica em si mesma, construindo um mundo estruturado em leis próprias, as quais são domínio da ficção e da arte.

Não é, pois, sem motivos, que este livro – repito, apesar de todas as suas qualidades – caiu no esquecimento, e não se constitui em obra referencial e indispensável para a compreensão da cultura e da produção literária brasileira como um todo.

Madame Pommery de Hilário Tácito é a produção de um autor bissexto, retirado do esquecimento dentro de um projeto de redefinição do lugar ocupado pelo Pré-Modernismo na tradição literária. E, como tal, é um bom exemplo dos impasses e contradições do período.

Nele, o que há de melhor é justamente o que está por ser feito de forma sistemática. E, sem dúvida alguma, Mário de Andrade e Oswald de Andrade não se descuidaram desta tarefa, e onde Madame Pommery falha, eles acertam, uma vez que livros como Macunaíma e Memórias Sentimentais de João Miramar são tão críticos e virulentos quanto à obra de Hilário Tácito. São, porém, esteticamente muito mais radicais, e muito melhor acabados enquanto forma e linguagem.
Assim, sem perder de vista o panorama mais amplo da cultura brasileira, se não podemos alçar Madame Pommery de Hilário Tácito à condição de obra-prima, também não podemos ignorá-la, e muito menos as questões que ela suscita.

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Madame Pommery de Hilário Tácito

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