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Resumo do livro Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II

 

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa – parte II

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II

No dia seguinte, a festa com a a missa celebrada. “A Capelinha estava só de Deus: Fazendo parte da manhã lambuzada de sol, contra o azul, mel em branca, parecia saída de um gear”. Manuelzão, “a frente de todos, admirado por tantos olhos”, dirige-se ao altar para beijar a Santa e dizer um padre nosso. Depois saiu, pois a capelinha era muito pequena, e “o aperto dava aflição”. “O povoame enchia a chã, sem confusão nenhuma. Mesmo aqueles com os revólveres na cintura, armas, facas. Ao que Manuelzão, cá bem atrás ficou no coice. Gostava todos aprovassem essa simplicidade sem bazófia, e vissem que ele fiscalizava”.

Após a celebração, a festa prossegue com danças, contradanças e muita alegria. Quadras ecoam dos violeiros do sertão, numa animação cheia de brincadeira, com o Pruxe, seo Vevelhoi e Chico Bràabóz no comando:

Seu subi pelo céu arriba
numa linha de pescar:
preguntar Nossa Senhora
se é pecado namorar!…
-Olerê, canta!
O Rio de São Francisco
faz questão de me matar:
pra cima corre ligeiro,
pra baixo bem devagar…
-Olerê, canta!

Depois de muita festança e alguma comilança, a festa vai-se acabando. Ainda não. O velho Camilo, “todo vivido e desprovido”, ia contar um caso – o fantástico “Romance do Boi Bonito, que vaqueiro nenhum não aguentava trazer no curral…” Até que assucedeu, brotado de repentemente, um vaqueiro encantado, por enquanto chamado apenas de Menino, que, montado num Cavalo de conto de fada, domou o Boi Bonito:

…O Boi estava amarado, chifres altos e orvalhados. Nos campos o sol brilhava. Nos brancos que o Boi vestia, linda mais luz se fazia. Boi Bonito desse um berro, não aguentavam a maravilha. E esses pássaros cantavam.

O vaqueiro Menino foi “Dino” (= digno): não quis dote nem nenhum prêmio pela proeza – queria tão-somente que livre Boi Bonito pastasse naquelas pairagens:

“Vosmecê, meu Fazendeiro, há-de me atender primeiro, Dino. Meu nome hei: Seunavino… Não quero dote em dinheiro. Peço que o Boi seja soltado. E se me dê esse Cavalo.

Atendido, meu Vaqueiro, refiro nesta palavra. O Boi, que terá por seus os pastos do fazendado. Ao Cavalo, é já vosso. Beija a mão, meu Vaqueiro.

Deus vos salve, Fazendeiro. Vaqueiros, meus companheiros. Violeiros… Fim Final. Cantem este Boi e o Vaqueiro, com belo palavreado…”

Inebriado pela estória de seo Camilo, Manuelzão se revigora: apesar de seus 60 anos quase, ele está pronto para mais uma proeza – conduzir a boiada desbravando bravamente os caminhos do sertão das Gerais.

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II – Personagens: Ao contrário de Muguilim, em que se focaliza um universo bastante limitado, coerente com a faixa etária do protagonista, em “Manuelzão”, por estar a personagem na outra ponta da vida, tendo, portanto, passado por lugares vários, conhecendo gente e mais gente, o universo é bem maior..

Aqui, pois, sugestivamente, a novela é povoada de gente que não acaba mais, reunida na Samarra para a festa de Manuelzão.

Tudo gira, sem dúvida, em torno de Manuelzão, cuja trajetória de vaqueiro desbravador do sertão vai sendo reconstituída em meio à festa do presente.

Ao contrário de Dom Casmurro, em que a velhice é marcada por mágoas e ressentimentos, aqui a vida é uma festa, movida por muita alegria e poesia, não obstante haver na novela também alguns lampejos de baqueamento.

Apesar de vaqueiro sessentão, Manuelzão vai em frente, resistindo à idade, pois “de todo não queria parar”. No final, sugestivamente, a novela se encerra com o início de uma nova jornada: “A boiada vai sair”.

Como é próprio da gente do sertão, o perfil de Manuelzão marca-se pela dedicação ao trabalho de vaqueiro e administrador da Samarra, tudo fazendo de uma forma abnegada e obstinada: “Eh, Manuel J. Roiz não bambeia!…” “Ele Manuelzão nunca respirara de lado, nunca refugara de sua obrigação”.

Por outro lado, ao longo da narrativa, percebe-se como traço de sua personagem, além da pródiga hospitalidade demonstrada com a festa, uma necessidade obsessiva de ser reconhecido e admirado como homem de valor: “Ah, todo o mundo, no longe do redor, iam ficar sabendo quem era ele, Manuelzão, falariam depois com respeito”.

Quanto às outras personagens, as que mais se destacam já ficaram esparramadas pela síntese que se fez da novela.

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II – Linguagem: Filtrado pelo ponto de vista de uma criança, a narrativa de Miguilim apresenta, coerentemente, uma linguagem que utiliza recursos morfológicos, sintáticos e semânticos, que reproduzem bem a expressividade da linguagem infantil, o mesmo acontecendo em Manuelzão, em que tudo é visto pela ótica do adulto.

Por outro lado, também coerentemente, com o mundo apresentado, o registro da linguagem coloquial, tal como é falada pelo sertanejo, combina bem com a gente simples e rude que povoa as duas novelas.

1) Como é próprio da linguagem infantil, são constantes os diminutivos reduzidos em “-im”, a começar pelo próprio nome Miguilim.

“…tretava coragem de chegar pertim”.
“Miguilim, me dá umm beijim!”

Algumas vezes o diminutivo é usado indevidamente, em função da expressividade.

“E agorinha, agora, que ele carecia tanto de qualquer assinzinho de socorro”.

“Você me ensinazinho a dançar, Chica?”

Em Manuelzão, expressando a ótica do adulto e combinado com o mundo apresentado, ocorre, com frequência, o aumentativo, expresso não só no nome do protagonista como ao longo de toda a narrativa:

“Laço, lação! Eu gosto de ver a argolar estalar no pé do chifre e o trem pular pra riba!”

2) Como é próprio da linguagem popular, é muito frequente, em ambas as novelas, o uso duplo de negativas (“Mas nem não valia”) e o emprego do advérbio não no final (“Ninguém manda, não”).

3) Outra coisa frequente é o uso constante de sufixo – mente em situações não convencionais:

“Mesmamente que acabavam a arrancação de inhame”
“Só um caxinguelê ruivo se azougueou, de repentemente”
“Pois, minhamente: o mundo era grande”

4) Como é próprio da linguagem interiorana, a presença de arcaísmo é frequente:

“Menino, eu te amostro!”
“Escuta, Miguilim, você alembra…”

5) Também constantes são as inversões, como nos exemplos abaixo:

“se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase”
“…touro do demônio, sem raça nenhuma quase”

6) Reflexo da sintaxe popular, a silepse, caso de concordância ideológica aparece com frequência:

“A gente vamos lá!”
“Ah, todo o mundo, no longe do redor, iam ficar sabendo quem era ele”

7) Outra coisa que se destaca na linguagem roseana é a aliança com a poesia, em que o autor explora recursos próprios da poesia, como aliterações, ecos, sonoridades, rimas, etc:

“Teu lume, vaga-lume?”
“Miguilim, me dá um beijim!”

Refletindo a visão altamente lírica que ocorre em ambas as novelas, há passagens de oura poesia, como esta de “Manuelzão”:

“Fizeram noite, dançando. As iaiás também. O quando o dia já estava pronto pra amanhecer, céu já se desestrelando. No seguinte, na rompidinha do dia, a vaqueirama se formou”.

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II: A esse propósito, Beth Brait, em “Literatura Comentada”, afirma que “a lírica e a narrativa fundem-se e confundem-se, abolindo intencionalmente os limites existentes entre os gêneros”.

8) Em suma, Guimarães Rosa “não se submete à tirania da gramática”, fazendo largo uso da semântica, da sintaxe e da morfologia populares. Nesse sentido, em função da expressividade, são frequentes na sua linguagem erros de colocação, de regência, de concordância etc.

“Não truxe os óculos, Manuelzão. Assim, não dletreio…”
“O que eu não posso agora é campear ela…”

9) Por outro lado destaca-se no estilo de Guimarães Rosa a inventividade – o gosto para criar palavras novas, usando sempre os recursos e possibilidades que a língua oferece:

“Vezes que sucede de um adormorrer na estrada”
“Tinha vergonha de saberem que estava lá em sua casa, em luademéis”
“…ia ter mãezice de tolerar os casos, coisas que a todos desapraz?”
“…mas insofria por ter de esperar”
“O cachorrinho era com-cor com a Pingo”
“O cachorro Gigão caminhara para a cozinha, devagaroso”
“O vaqueiro Jé está dizendo que já vai dechover”
“Mas agora o Gigão parava ali, bebelambendo água na poça”
“Se encontrou com padrinho Simão, correu ensebado, veadal”
“Tinha de ser lealdoso, obedecer com ele mesmo”
“… enquanto Pai estivesse raivável”
“As estórias – tinham amarugem e docice”
“Carecia de um filho, prosseguinte”

10) Outro aspecto que reflete bem o mundo sertanejo e sabedoria popular é o uso constante ditados ditos populares, sempre, com rimas e musicalidade:

“Lá chove, e cá corre…”
“Eh mundão! Quem me mata é Deus, quem me come é o chão…”
“Chuva vesprando, cachorro soneja muito”
“Estou triste mas não choro. Morena dos olhos tristes, esta vida é caipora”
“Mourão, mourão, toma este dente mau, me dá um dente são!”

11) Comuníssimo também em ambas as novelas, em mais aliança com a poesia, é o uso da frase nominal, sem estrutura oracional, desguarnecida de verbo:

“Os violeiros desnudavam, Seo Vevelho, mais os filhos. A sanfona. Chico Brabóz, preto cores pretas, mas com feições. Ô homem da pólvora quente!”

12) Combinando com a atmosfera festiva de “Manuelzão”, são frequentes, sobretudo nessa novela, quadras e versos, que refletem bem o gosto popular:

O galo cantou na serra
da meia-noite pr’o dia.
O touro berrou na margem
no meio da vacaria.
Coração se amanheceu
de saudade, que doía…

13) Sempre em busca de originalidade, uma constante na ficção roseana, são comuns os jogos de palavras com verdadeiros achados como estes:

“Lá é Cristo, cá é isto…”
“Os bois todos andando, p’r’acolá, p’r’acoli”‘

Como se pôde ver, o mundo ficcional roseano não é fácil, pois a linguagem sai do convencional, do já-feito, buscando um maneira nova de expressão: “O impulso primeiro é desistir”, diz Beth Braitm que desafia: “Quem se atreve a adentrar espaço de eleitos?”

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II – Estilo de época: A originalidade da linguagem de Guimarães Rosa, a sua inventividade e criatividade configuram bem o estilo de época (pós)-modernista. Essa preocupação em fazer diferente, saindo do convencional, é, sem dúvida, uma das grandes característica do estilo de época contemporâneo. É o próprio Guimarães quem fala: “Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros”.

Outra coisa que marca bem o estilo de época na obra é a capacidade revelada pelo escritor (pós)-modernista para refletir sobre problemas universais, partindo de uma realidade regional. É o que diz a contracapa de “Literatura Comentada”: “Nele , quanto mais – aparentemente – particularizado o tema, mais universal ele é. Quanto mais simplórios seus personagens, mais ricas sua personalidades. Assim, rudes sertanejos refletem de forma peculiar e extremamente sutil os grandes dramas metafísicos e existenciais da humanidade”.

É isto que se vê em Guimarães Rosa e outro grandes escritores na nossa Literatura: há sempre uma dimensão universal no aparentemente regional. “O sertão que vem de Guimarães Rosa não se restringe aos limites geográficos brasileiros, ainda que dele extrais a sua matéria-prima. O sertão aparece como uma forma de aprendizado sobre a vida, sobre a existência, não apenas do sertanejo, mas do homem”. Como dizia o próprio Guimarães: “o sertão é o mundo”.

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II – Aspectos Temáticos Marcantes: Além de apresentar o mundo sertanejo nos seus costumes, crendice e maneira próprio de ser, “Campo Geral” retrata basicamente a infância de um menino da roça nas suas incertezas, dúvida, angústias, crendices e descobertas do mundo e da vida.

1) Ao longo da novela, não são poucas as cenas e passagens em que se pode perceber a ruindade adulta em oposição ao sentimento puro e nobre da criança. Revela-o não só a história de cadela Pingo de Ouro, quase cega, que á doado aos outros pelo pai, como também a cena da caça ao tatu em que as pessoas grandes são recriminadas pela criança, na sua inocência e pureza.

“Então, mas por que é que Pai e os outros se apraziam tão risonhos, doidavam, tão animados alegres, na hora de caçar àtoa, de matar tatu e os outro bichinhos desvalidos?”

Miguilim via essas coisas e não compreendia. Na sua inocência de criança ficava a nódoa da imagem perversa: “Miguilim inventava outra espécie de nojo das pessoas grandes.”

“Miguilim não tinha vontade de crescer, de ser pessoa grande, a conversa das pessoas grandes era sempre as mesmas coisas secas, com aquela necessidade de ser brutas, coisas assustadas”.

2) Como já deixamos claro no enredo, difícil e doloroso foi-se tornando o relacionamento de Miguilim com o pai. A cena da surra revela bem o sadismo e a prepotência do adulto ao espancar uma criança pequenina e indefesa:

“(Pai) pegou o Miguilim, e o levou para casa, debaixo de pancadas. Levou para o alpendre. Bateu de mão, depois resolveu: tirou a roupa toda de Miguilim e começou a bater com a correia da conta. Batia e xingava, mordia a ponta da língua, enrolada, se comprazia. Batia tanto, que Mãe, Drelina e a Chica, a Rosa, Tomezinho, e até Vovó Izidra, choravam, pediam que não desse mais, que já chegava. Batia. Batia…”

3) A cena do bilhete, em que tio Terêz pede a Miguilim para entregá-lo à mãe, evidencia outro drama crucial para a criança: a angústia gerada pela dúvida entre entregar ou não entregar o bilhete. Angustiava-se ante o compromisso assumido com o tio e a consciência de que estava fazendo alguma coisa errada. Nem mesmo Dito, com toda a sua sabedoria, pôde dar-lhe uma resposta que pudesse aliviar-lhe o tormento: nem mesmo a mãe, nem mesmo o vaqueiro Jé pôde tirar-lhe a dúvida que roia a alma:

“Mãe, o que a gente faz, se é mal, se é bem, ver quando é que a gente sabe?
Vaqueiro Jé: malfeito como é, que a gente se sabe?
Menino não carece de saber Miguilim. Menino, o todo quanto faz, tem de ser é malfeito…”
Ainda bem que o tio Terêz foi bom e compreensivo e aceitou o bilhete de volta:
“Miguilim, Miguilim, não chora, não te importa, você é um menino bom, menino direto, você é meu amigo!”

4) O mundo da criança é sempre povoado de superstições e crendices que refletem o adulto. Algumas dessas crendices e superstições revelam bem o poder e a influência da religião com seu conceito de pecado, além de expressar também aspectos da cultura popular.

Em “Campo Geral”, várias passagens podem ser destacadas como exemplos: “Contavam que esse seo Deográcias estava excomungado, porque um dia ele tinha ficado agachado dentro da igreja”.

“Ah, não fosse pecado, e aí ele havia de ter uma raiva enorme, de Pai, deles todos, raiva mesmo de ódio, ele estava com razão”.

“Entre chuva e outra, o arco-da-velha aparecia bonito, bebedor; quem atravessasse debaixo dele ― fú” ― menino virava mena, menina virava menino: será que depois desvirava?”

“Por paz, não estava querendo também brincar junto com o Patori, esse era um menino maldoso, diabrava. Ele tem olho ruim, – a Rosa dizia – quando a gente está comendo, e ele espia, a gente pega dor de cabeça…”

“Ali no oratório, embrulhados e recosidos num saquinho de pano, eles guardavam os umbiguinho secos de todos os meninos, os dois irmãozinhos, das irmãs, o de Miguilim também – rato nenhum não pudesse roer, caso roendo o menino então crescia para ser só ladrão”

“Quando a estória da Cuca, o Dito um dia perguntou: ?Quem sabe é pecado a gente ter saudade de cachorro?”

5) Por meio do contato com seo Aristeu e sobretudo através das conversas com Dito, muitas lições de vida Miguilim vai aprendendo: “O Dito dizia que o certa era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma”.

Era uma bela lição essa que o Dito ensinava a Miguilim: a alegria de viver. Aliás, a mesma lição é transmitida a ele por seo Aristeu, quando estava doente sem estar, e pensava em morrer. Foi só seo Aristeu fazer umas graças e Miguilim se restabeleceu da enfermidade. “Vai, o que você tem é saúde grande e ainda mal empenada.”

No final, com o happy-end provocado pelo destino, Miguilim chorava de emoção: “Sem alegre, Miguilim… Sempre alegre, Miguilim”, Miguilim, de óculos nos olhos míopes, agora enxergavam diferente – tinha uma nova visão do mundo e da vida.

Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II: Tendo também o mundo do sertão como pano de fundo, a ponto de parecer uma obra tipicamente regionalista, “Manuelzão” focaliza esse universo nos seus costumes, nas suas crendices, nas suas labutas, no seu sentimento religiosos e, sobretudo, na sua espontaneidade. Aqui certamente porque ainda não foi corroído pela civilização, o sertanejo se revela bom e puro, aproximando-se do bon sauvage dos românticos.

1) Maunelzão, como expressa o título, é realmente “uma estória de amor”, em que tudo vem lindamente misturado: gente, bichos, coisas – a natureza. Aqui, gente rica e gente pobre, brancos e negros, homens e mulheres, reunidos numa capelinha minúscula, se irmanam numa festa de confraternização. Tal como em “Miguilim”, também aqui a visão que se passa é positiva, alegre, apesar da rudeza do sertão inóspito.

“Seo Camilo, a estória é boa!
Manuelzão, sua festa é boa!”

2) Diferente de Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que a velhice é apresentada como uma fase amarga da vida, marcada pela solidão e pelo desencanto, aqui, apesar de algumas incertezas, Manuelzão e outros velhos da novela não sentem esse drama ou, pelo menos, não têm consciência dele

Solteiro a vida toda, largado pelo mundo como vaqueiro desbravador do sertão, é bem verdade que Manuelzão, aos 60 anos, começa a sentir saudade da estabilidade doméstica que nunca teve, sentimento que se desperta sobretudo com a presença de Leonísia, sua nora, casada com o Adelço: “Nem havia de ter coragem: e a Leonísia sendo tão bonita – mulher para conceder qualquer felicidade sincera”.

Entretanto, a velhice era uma realidade a que não podia fugir. Ali estava o velho Camilo e o senhor Vilamão, já no ocaso da existência, que esperavam, com paciência e sem revolta, o adormorrer inevitável: “A gente olhava aquela lamparina se esprivitando no arder, no umbral da porta, e daqui a pouco, no empretecer das estrelas, era o fim da festa se executando”.

3) Não obstante, Manuelzão vais resistindo como pode. “De todo não queria parar, não quereria suspeitar em sua natureza própria de um anúncio de desando, o desmancho, no ferro do corpo. Resistiu. Temia tudo na morte”. Mas agora nem não carecia ter medo do adormorrer. Enquanto não chegava, ele, Manuel Roíz, bravamente ia desbravar mais de uma boiada pela Gerais imensas do sertão sem fim.

4) Bonita também e altamente positiva é a visão da vida envelhecida sem envilecer, que é mostrada como manancial de sabedoria, em que vêm beber as gerações do porvir a fim de se dar continuidade à festa, que deve ser a vida de cada um. Entretanto, como ensina o final do livro, “a festa não é pra se consumir – mas para depois se lembrar…” Esse lembrar, sem dúvida, é o que fica e é o grande consolo dos que se aproximam da dimensão maior, que se conquista com o adormorrer.
Estudo feito por Teotônio Marques Filho http://www.olutador.org.br

 

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Manuelzão e Miguilim de João Guimarães Rosa II

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