Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II - Vestibular1

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga – parte II
Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II: Assim, negar a presença física e concreta de Maria Dorotéia nas liras é incorrer em tão grasso engano quanto negar a presença da pastora Marília: ambas têm um lugar ao sol nas liras, assim como têm presença garantida no livro o poeta ouvidor Tomás Antônio Gonzaga e o pastor Dirceu.
A influência de Cláudio Manuel da Costa nas liras é fato que Antônio Cândido defende com fortes argumentos. Com efeito, há diversas referências nas liras e Cláudio (Glauceste ou Alceste) como:

a) elogiando-o pela sua posição que considerava superior (I, 31):

“Porém que importa
não valhas nada
seres cantada
do teu Dirceu?

Tu tens, Marília,
cantor celeste;
o meu Glauceste
a voz ergueu:

irá teu nome
aos fins da terra
e ao mesmo Céu.”

b) na lira 1 (I), onde traça o próprio perfil, manifesta o orgulho de ser admirado pelo “poeta das lágrimas tristes”:

“Com tal destreza toco a sanfoninha
que inveja até me tem o próprio Alceste.”

c) comovente a bela é também a amizade que unia os dois poetas, como se pode ver na lira 12 (II):

“Quando passar pela rua
o meu companheiro honrado,
sem que me vejas com ele
caminhar emparelhado,
tu dirás: Não foi tirana
somente comigo a sorte;
também cortou desumana
a mais fiel união.”

O mais curioso dessa amizade, como observa Rodrigues Lapa, “é que Cláudio Manuel da Costa, ao tempo que Gonzaga escrevia estes versos (na prisão), estava denunciando o amigo como comprometido na conjura!”

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II: Segundo ainda Antônio Cândido esta amizade contribuiu grandemente para a individualidade e naturalidade do estilo de Gonzaga: “Mais notável se torna o calor dessa fraternidade sem ciúmes, se repararmos que Gonzaga vinha de certo modo superar a obra de Cláudio, trazendo à literatura luso-brasileira um tom moderno dentro do Arcadismo, deslocando para um plano mais individual e espontâneo a naturalidade, que na geração anterior ainda é quase acadêmica.” Assim, Cláudio nem combatia nem rejeitava essas manifestações, espontâneas e inovadoras. “Pelo contrário, emenda os versos do amigo, certamente entusiasmado e rejuvenescido pelo seu cristalino frescor; e, quem sabe, sentindo neles a consequência natural da reforma que ajudara a empreender, trinta anos antes, em busca da naturalidade.”

A “prisão brutal e injusta” contribuiu, igualmente, conforme Rodrigues Lapa, para novos acentos, singulares tonalidades da poesia gonzagueana: amargurado pela incompreensão e injustiça dos homens, a poesia de Gonzaga expressa à dura realidade circundante. Traduz o estado de espírito do tempo que passou na prisão. Para abrandar o seu martírio apenas uma realidade existe: a doce lembrança de Marília. Colocado face a face com a realidade brutal, ganha a sua poesia novos acentos, maior autenticidade, dissipando-se, em parte, aquele idealismo e convencionalismo dominante na Parte I. E assim, pelo tom confessional e plangente, pela presença de saudade, ganha a sua poesia maior dose de individualidade e naturalidade, podendo muitas liras ser arroladas no pré-romantismo, como estes versos da lira 2, (II):

“Eu tenho um coração maior que o mundo,
tu, formosa Marília, bem o sabes:
Um coração, e basta,
onde tu mesma cabes.”

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II: Nascido em Portugal (Porto), o luso-brasileiro Gonzaga não poderia ficar indiferente à paisagem brasileira. Na sua poesia, a natureza tem presença garantida, como já ressaltamos, desde a cor local da famosa lira 3, (III), até a visão que revela “um estado de alma”, ainda de “inspiração puramente romântica” como se pode notar na lira 5, (I):

“Os sítios formosos,
que já me agradaram,
ah! não se mudaram;
mudaram-se os olhos,
de triste que estou.

São estes os sítios?
São estes, mas eu
o mesmo não sou.

Marília, tu chamas!
Espera, que eu vou.”

Ainda com relação ao estilo de Gonzaga, podemos notar a presença de alguns aspectos linguísticos que sobressaem nas suas liras, como a predileção por certas palavras (“beiço” para “lábios”, “discurso” para “juízo”, “inteligência” etc.); inversões (“são que os de Apolo mais belos”); a repetição de vocábulos, numa técnica superlativa sui-generis, como:

“Ah! enquanto os destinos impiedosos
não voltam contra nós a face irada,
façamos, sim, façamos, doce amada,
os nossos breves dias mais ditosos.”

E assim em muitas outras passagens.

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – Estrutura das liras de Gonzaga: Com relação à estrutura das liras gonzagueanas, podemos dizer que se distribuem por duas partes, visto ser a terceira constituída de composições que pertencem à primeira ou segunda partes, além de trazer outras espécies literárias que estão fora do objeto do nosso estudo: os sonetos e as odes.

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – Parte I: Na primeira parte (anterior à prisão) mostra-se o poeta cheio de esperanças, fazendo projetos conjugais, defendendo o ideal de vida burguês. De um modo geral, predomina o convencionalismo arcádico, embora possamos já constatar a presença de manifestações pré-românticas que se acentuarão na Parte II. Aí, com efeito, se constata mais intensamente a presença da mitologia, do bucolismo, da imitação, do racionalismo – postulados estéticos caracterizantemente arcádicos e neoclássicos.

Nesta primeira fase, conforme Antônio Cândido, “denota preferência pelo verso leve, tratado com facilidade”, como revela essa odezinha de sabor anacreôntico (I, 4):

“Se alguém te louvava, Se estavas alegre,
De gosto me enchia; Dirceu se alegrava;
Mas sempre o ciúme Se estavas sentida,
No rosto acendia Dirceu suspirava
Um vivo calor À força da dor.
Marília, escuta Marília, escuta
Um triste Pastor. Um triste Pastor.”

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – Parte II: A segunda parte das liras traz a marca dos dias de masmorra, longe de sua pastora e de seu rebanho, curtindo a amargura da prisão. Daí o caráter nitidamente pré-romântico que perpassa as diversas liras que a constituem e que nos lembra Casimiro de Abreu, posteriormente, com sua poesia da saudade.

A dimensão onírica de que está impregnada esta segunda parte é outro elemento decisivamente pré-romântico: o poeta vive de sonhos ou do tempo passado. Veja-se neste sentido a lira 9, onde conclui o poeta:

“Assim vivia…
Hoje os suspiros
O canto mudo;
Assim, Marília,
Se acaba tudo.”

É curioso observar na Parte II o emprego do verbo no passado: o poeta vive de lembranças e recordações passadas. A realidade que o cerca é o mal presente. É interessante observar, neste sentido, a lira 15, onde o poeta revive o mesmo ambiente bucólico que envolve a lira 1, (I) – do bem passado. Mas note-se que o poeta jamais perde a esperança de rever Marília, de reconstruir tudo – porque crê na sua inocência:

“Ah! minha Bela; se a Fortuna volta,
Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;
Por essas brancas mãos, por essa faces
Te juro renascer um homem novo;
Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,
Amar no Céu a Jovem, e a ti na terra.”

Enfim, é ocioso ressaltar as recordações do bem passado e a brutal realidade do mal presente. As primeiras, o poeta as revive oniricamente, a segunda, embora sempre esperançoso, levava o poeta, muitas vezes, à revolta (II, 16):

“A quanto chega
A pena forte!
Pesa-me a vida,
Desejo a morte,
A Jovem acuso,

Maldigo a sorte,
Trato a Cupido
Por um traidor.

Eu já não sofro
A viva dor.”

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II: Do ponto de vista técnico, é preciso que se ressalte aqui também a estrutura métrica das liras. Conforme observa Cavalcanti Proença, “a versificação é pouco variada e, a par dos versos de quatro sílabas, melhor ditos células métricas, vêm a redondilha menor, com acentuação na 2.ª e 5ª sílabas; o heroico quebrado, sempre em combinação; a redondilha maior; o decassílabo.”

Assim, exemplificando, temos:

a) tetrassílabo (quatro sílabas):

“A/mi/nha a/ma/da
É/mais/for/mo/sa,
Que/bran/co/lí/rio
Do/bra/da/ro/sa”

b) pentassílabo ou redondilha menor (cinco sílabas):

“Mal/vi/o/teu/ros/to,
O/san/gue/ge/lou/-se,
A/lín/gua/pren/deu/-se,
Tre/mi,/e/mu/dou/-se,
Das/fa/ces/a/cor”
c) heptassílabo ou redondilha maior (sete sílabas):

“Tem/re/don/da e/li/sa/tes/ta
Ar/que/a/das/so/bran/ce/lhas
A/voz/mei/ga a/vis/ta ho/nes/ta
E/seus/o/lhos/são/uns/sóis”

d) decassílabo (dez sílabas) com heroico quebrado ou hexassílabo (seis sílabas):

“É/cer/to/mi/nha a/ma/da/sim/é/cer/to
Qu’eu/as/pi/ra/va/va a/ser/de um/ce/tro/o/do/no;
Mas/es/te/gran/de im/pé/rio/que eu/fir/ma/va
Ti/nha em/teu/pei/to o/tro/no”

 

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – Presenças marcantes nas liras: Vamos tentar esboçar aqui o retrato e caracteres de algumas figuras que transparecem nas liras de Gonzaga, catalisadas pela pastora Marília (Maria Dorotéia Joaquina de Seixas) e o pastor Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga), além de outro pastor Glauceste ou Alceste (Cláudio Manuel da Costa) que reponta aqui e ali nas liras, como já ressaltamos.

a) Maria Dorotéia Joaquina de Seixas (Marília). Já falamos de Marília ao longo deste comentário. Parece-nos que ficou claro o retrato de Marília (figura vaga, sem existência concreta – objeto ideal de poesia) e o de Maria Dorotéia (amada de Gonzaga, menininha de 17 anos que faz o poeta quarentão vibrar, como na Lira 14 (I)) e outras. Além de outras indicações, veja-se a lira 2 (I), que traça o perfil da amada do poeta.

b) Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu). Sem dúvida, pode-se afirmar que as liras são a expressão do “eu” do poeta, onde se revela altivo e apaixonado. Fala com naturalidade e abundância da sua inteligência, posição social, prestígio, habilidades (cf. I, 1). Preocupa-se com a aparência física e a erosão da idade (cf. I, 14 e 18); com o conforto, futuro, planos, glória (cf. II, 15) etc. A esse propósito, Antônio Cândido observa que “talvez a circunstância de namorar uma adolescente rica (ele, pobre e quarentão) tenha exarcebado essa tendência, que seria além disso exibicionismo compreensível de homem apaixonado.”

Por outro lado, impressionam a firmeza e a sabedoria reveladas nas liras da prisão: “nenhum momento de desmoralização ou renúncia; sempre a certeza da sua valia, a confiança nas próprias forças”. É o pastor Dirceu que se “despastoraliza”, tornando-se cada vez mais o poeta Tomás Antônio Gonzaga, que se exterioriza e que confia na sua inocência.

c) Cláudio Manuel da Costa (Glauceste ou Alceste). Já vimos à presença de Cláudio nas liras e a amizade que unia os dois poetas, em que se nota também a admiração que Gonzaga nutria pelo poeta mais velho. Outra referência a Cláudio pode-se ver na lira 7 (II), onde Gonzaga parece ignorar a prisão e morte do grande amigo.

d) Na lira 38 (II), onde Gonzaga faz a justificação da sua inocência, há uma alusão a Tiradentes, cabeça da conjuração, que era tido por todos como alucinado:

“Ama a gente assisada
A honra, a vida, o cabedal tão pouco,
Que ponha uma ação destas
Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco?”

A lira 23 (II) é um elogio ao Visconde de Barbacena, governador de Minas, destinada a captar-lhe a benevolência. O visconde foi quem mandou prender Gonzaga mas fora-lhe um dos amigos mais caros.
Professor Teotônio Marques Filho

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II -Arcadismo: a palavra Arcádia, que dá origem a Arcadismo, é grega e designa uma sociedade literária típica da última fase do Classicismo, cujos membros adotam nomes poéticos pastoris, em homenagem à vida simples dos pastores, em comunhão com a natureza.

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – O Arcadismo quanto à forma:

– vocabulário simples
– frases na ordem direta
– ausência quase total de figuras de linguagem
– manutenção de versos decassílabos, do soneto e de outras formas clássicas

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – O Arcadismo quanto ao conteúdo:

– pastoralismo
– bucolismo
– fugere urbem
– aurea mediocritas
– elemento da cultura greco-latina
– convencionalismo amoroso
– idealização amorosa
– racionalismo
– Ideias iluministas
– carpe diem
– Cronologia

Início do Arcadismo no Brasil: 1768 – publicação das Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Costa
Término: 1836 – publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves Magalhães.

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – Biografia do autor: Embora português de nascimento, Tomás Antônio Gonzaga viveu no Brasil parte de sua infância. De volta a Portugal, formou-se em Coimbra, mas a partir de 1782 passou a exercer em Vila Rica o cargo de ouvidor.

Aos 40 anos de idade praticamente, Gonzaga apaixonou-se por uma adolescente de 17 – Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. A família da moça opunha-se ao namoro. Quando o poeta já vencia a resistência da família, foi preso (17898) e enviado para a ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, como participante da Inconfidência Mineira. Os últimos dezessete anos de sua vida passou-os no degredo, em Moçambique, casado com a filha de um comerciante de escravos.
Gonzaga nunca se casou com Maria Dorotéia, mas esse namoro tornou-se o primeiro mito amoroso de nossa literatura e inspirou uma de nossas mais belas obras líricas.
Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) 1744-1810

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II – Obras:
– Marília de Dirceu
– Cartas Chilenas (principal obra satírica do século XVIII, atribuída a Gonzaga)

Duas tendências coexistem nas liras de Gonzaga:

a) a contenção e o equilíbrio neoclássicos, com a utilização de todos os lugares-comuns do Arcadismo: um pastor, uma pastora, o campo, a serenidade da paisagem principal.
b) o emocionalismo pré-romântico, na expressão pungente da crise amorosa e, posteriormente a prisão, da crise existencial do poeta.

O sujeito lírico é o pastor Dirceu, que confessa seu amor pela pastora Marília. Eis a convenção neoclássica realizada, Mas é evidente que nos pastores se projeta o drama amoroso vivido por Gonzaga e Maria Dorotéia.
A todo momento a emoção rompe o véu da estilização arcádica, brotando, dessa tensão, uma poesia de alta qualidade.

“ Eu tenho um coração maior que o mundo
tu, formosa Marília, bem o sabes;
um coração, e basta,
onde tu mesma cabes”
As partes da obra

A obra se divide em duas partes (há uma terceira, cuja autenticidade é contestada por alguns críticos):

1ª parte: contém os poemas escritos na época anterior à prisão de Gonzaga. Nela predominam as composições convencionais: o pastor Dirceu celebra a beleza de Marília em pequenas odes anacreônticas. Em algumas liras, entretanto, as convenções mal disfarçam a confissão amorosa do amor: a ansiedade de um quarentão apaixonado por uma adolescente; a necessidade de mostrar que não é um qualquer e que merece sua amada; os projetos de uma sossegada vida futura, rodeado de filhos e bem cuidado por suas mulher etc.
2ª parte: escrita na prisão da ilha das Cobras. Os poemas exprimem a solidão de Dirceu, saudoso de Marília. Nesta segunda parte, encontramos a melhor poesia de Gonzaga. As convenções, embora ainda presentes, não sustentam o equilíbrio neoclássico. O tom confessional e o pessimismo prenunciam o emocionalismo romântico.

Visite: Obra completa – http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html
Alguns poemas http://www.secrel.com.br/jpoesia/tomaz.html

 

Voltar a ler o resumo de Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga – parte I

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga II

Vestibular1

O melhor site para o Enem e de Vestibular é o Vestibular1. Revisão de matérias de qualidade e dicas de estudos especiais para você aproveitar o melhor da vida estudantil. Todo apoio que você precisa em um só lugar!

Deixe uma resposta