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Resumo dos livros de vestibular

Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade

 

Resumo Memórias Sentimentais de João Miramar – parte I

Miramar (o narrador) é sem dúvida alguma um poeta modernista dialogando com a literatura romântica à medida que se refere à sua viagem ao exterior . Não podemos deixar de notar a evolução que vai ocorrendo lentamente na arte do narrador.
Da infância para a mocidade, desta para a maturidade (tomada de consciência de sua própria cultura).

Mas, não é só de poesia que o narrador serve-se para sugerir sua história. Há momentos em que a linguagem é referencial.

Memórias Sentimentais de João Miramar – “79-TERREMOTO
O Pantico estava na Bélgica em pleno perigo de ser fuzilado ou morrer de fome.
Mas depois de copos espumantes de leite eu acreditava de geografia aberta sobre a mesa que a situação dos alemães não era brilhante.
Em vinte dias eles apenas tinham entrado em Bruxelas e tomado Liège, a cidade, conservando-se nas mãos dos heróis belgas a linha de fortes quase completa. E na fronteira intacta da França deviam reunir-se com certeza nessa hora dois milhões de soldados.

Molestados pelo flanco em Antuérpia, sem poder esquecer o exército francês vitorioso na Alsácia Lorena e a avalanche russa que ameaçava Thorn e Danzig, era de prever-se o esmagamento desses bárbaros em algumas semanas. E se a Itália entrasse contra a Áustria nos primeiros dias de Setembro, como era certo, a guerra podia terminar por nocaute científico nesse mesmo mês.”

Memórias Sentimentais de João Miramar: conquanto Oswald empregue algumas metáforas (p.e.”… de geografia aberta sobre a mesa” = mapa) a linguagem deste capítulo difere das demais. É predominantemente referencial.

Há uma adequação entre a seriedade do tema tratado (a guerra) e a linguagem empregada pelo narrador, deixando transparecer que num momento (ou tema) como aquele a poesia cede ou deve ceder espaço à prosa.
A ironia é muito presente na obra. É empregada para demolir a sociedade burguesa, revelando seu verdadeiro valor moral, que para Oswald é monetário.

“…E Rolah trazia ao céu do cinema um destino de letra de câmbio.” (Cap. 32)
A Letra de Câmbio é um título de crédito inventado na Idade Média para possibilitar as transações à longa distância. Empregando-as, os negociantes evitavam o transporte de somas elevadas em dinheiro, diminuindo o risco de serem aliviados por salteadores.
A Letra de Câmbio desempenhou e ainda desempenha um papel importante nas relações econômicas capitalistas. Ao referir-se a ela, Oswald evidencia o caráter essencialmente econômico das relações sociais burguesas.

Memórias Sentimentais de João Miramar – Em dois momentos, o casamento (principal instituição burguesa da época) é ferido mortalmente pela pena do autor:-
“…o casamento é um contrato indissolúvel.” (Cap. 42)
“…separação precavida de bens.” (Cap. 62)
Em alguns momentos o trabalho do narrador cede espaço para o registro fiel da oralidade na escrita tal como praticada por outras pessoas.

Memórias Sentimentais de João Miramar – “130- RESERVA
” 21 de Abril
Seu Dr.
Peguei hoje na pena para vos Felicitar os nossos antes Passado sendo um dia de grande gala, para nós no nosso Grande Brasil sendo o dia do nobre Brasileiro Tiradentes que foi executado na forca, mais tudo passa vamos tratar do nosso futuro que é melhor os passado eram bobos, por aqui todos Bom grassas a Deus o mesmo a todos que aí estão…”

Existem passagens em que a linguagem empregada por Oswald é ambígua:-
“…conspurcada vindos em bonde dos tabeliães protestantes.” (Cap. 145)
“…bestenamorada dum mineiro de minas.” (Cap. 154)

No primeiro fragmento fica-se sem saber se os tabeliães professam a religião protestante ou se protestaram (cobraram através de Cartório) o narrador. No segundo, se mineiro é o natural de Minas Gerais, filho de cidadãos daquele Estado ou se é o operário que trabalho em mina.

Em todos os fragmentos citados é evidente que a sintaxe empregada na obra segue um padrão diferente do usual. Os elementos da frase são embaralhados, a classificação das palavras intencionalmente destruída.
Com isto, Oswald coloca em xeque a própria capacidade de o leitor ler a obra a partir da língua que domina.
Memórias Sentimentais de João Miramar ão é apenas uma obra escrita sob influência cubista é uma obra cubista em todos os sentidos.

Como atesta Antonio Candido, Memórias Sentimentais de João Miramar é a primeira grande experiência de prosa modernista no Brasil, e só por isso sempre merecerá destaque na História da Literatura Brasileira.
Estas são as principais considerações sobre a linguagem. Vejamos agora os recursos expressivos.

5 – Recursos expressivos – Memórias Sentimentais de João Miramar
Ao longo da obra Oswald abusa de recursos de linguagem, muitas vezes misturando-os com um poder de síntese invejável.

METONÍMIA – “… de geografia aberta sobre a mesa…” (Cap. 79) = mapa
ONOMATOPÉIA – “…No silêncio tique-taque…” (Cap. 8) (Antítese:- silêncio/barulho)
“Dez horas da noite, o relógio farto batia dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão!
HIPÉRBATO – “… mapas do secreto Mundo.” (Cap. 9) ao invés de “…mapas do Mundo secreto.”
ALITERAÇÃO – “…punha patetismos pretos…” (Cap. 22)
PARADOXO – “…Companhia Industrial e Segurista de Imóveis Móveis…” (Cap. 119)
PROSOPOPÉIA – “… Depois casas baixas desanimaram a planície cansada.” (Cap. 113)
SINESTESIA – “…de janelas cerradas e acesos silêncios.” (Cap. 153)
O emprego de trocadilhos é comum na obra:- “… sátiras à sociedade de sátiros…” (Cap. 72)

A exemplo de outros escritores, Oswald também realiza diálogos intertextuais, fazendo referência aos seguintes autores, personagens e obras:- O primo Basílio (Eça de Queiroz) Cap. 100
-Herodes (Bíblia) Cap. 98
-Lord Byron (poeta romântico) Cap. 155
-Virgílio (poeta latino) Cap. 163

Faz referência à vanguarda artística europeia (Picasso, Satie e João Cocteau – Cap. 51, Isadora Duncan – Cap. 47).

Memórias Sentimentais de João Miramar: também é marcante o emprego de vocábulos e expressões em línguas estrangeiras:- Inglês Francês Espanhol Italiano: dancing habitué encuentro de ustedes si sinhore / It is very beautiful! Mademoiselle / board-house tour du monde / Albany Street goudron-citron / Latim / Res non verba!

A obra registra também uma variante do português resultante da influência da migração árabe:- “- Aqui nong teng acordo. Teng pagamento! (Cap. 148)

Há um momento que Oswald recorre as todas as línguas e língua nenhuma:- “…Os
Estados Unidos é cotuba. All right. Knock Out! I and my sisters speak french. Moi et ma soer nos savons paletre bien le Français. Eu e a minha ermam sabemos falal o francês…” (Cap. 68)

Memórias Sentimentais de João Miramar: ao destruir e reconstruir diversas línguas em busca de novos significados e formas de expressão, Oswald deve ter escandalizado seus contemporâneos. Ainda hoje a leitura de passagens como estas causam certo espanto, embora o recurso já tenha sido universalizado por Umberto Eco (em o Nome da Rosa o personagem Salvatore fala uma língua que mistura latim, italiano, francês, espanhol, etc…, ou seja, fala todas as línguas e nenhuma).

Ao longo da obra Oswald cria diversos neologismos. Dentre eles destacamos um para dar uma ideia da riqueza da criatividade do autor:- ORINÓIS (Cap. 138) = OURO (metal precioso) + URINOL (recipiente empregado para colher urina).

Através deste neologismo, criado a partir de duas palavras de campos semânticos distintos mas que guardam uma interseção gráfica (UR), Oswald redefine o valor do urinol e do ouro, zombando da burguesia que emprega ambos. Além disso, “OURINÓL” é um neologismo difícil de classificar, pois traz em si a ideia de um substantivo e ao mesmo tempo de um adjetivo (dourado). Consideremo-lo, para efeito deste trabalho como um substantivo.

Memórias Sentimentais de João Miramar: o maior recurso expressivo empregado pelo autor é a criação de vocábulos.
Verbos Substantivos Adjetivos: Vagamundear, cornamusas, calva, gramática note-americava, neopropriedades comerciaturos, tombadilhavam, reisreais, jantar, fazendeira, cosmoramava, automobilizados, fazendeiral, tardava, ourinóis, paisajal, mulatava, caradura, respeitabundos, sentinelando, bestenamorada, espinafrado, gondolamos, institutal, turcavam, pince-nez, arqueólogo, guardanapando, mulatal, boulevardearam, perdoadora, verticalavam, pianal, pullmavam, quilometrais, quilometraram, charutal, frigorificavam, bolsentas, eldoradava, genealogias, fascícolas, morenava, gramofônica, fox-trotar, alfandegueiros, transatlanticarem, apelidais, beiramarávamos, figueiradal, bandeiranacionalizavam, calomelânica, britanizávamos, criadais, fordei, fortunais, grandilocou, ramazevedos, esperançava, matadoural, taxizara, carbogramado, cilindravam, marideiro, parisiavam, lanteijoulante, seminudava.

6 – Ideologia – Memórias Sentimentais de João Miramar
A obra apresenta uma crítica ao casamento como instituição burguesa (união por interesse).
“Separação precavida de bens” (Cap. 62)

O motivo da separação do casal João Miramar/Célia é falência financeira dele.
“A margem disso o caso financeiro negreja no horizonte. O Senhor adquiriu rapidamente uma reputação de dilapidador.” (Cap. 142)
O interesse do pai pela filha só ocorre após a morte da mulher.
“Foi à ele que corri na aflita busca de minha Celiazinha, feita milionária e só pelo Deus das revisões do processo.” (Cap. 157)

Através do livro, Oswald ressalta e satiriza o caráter patrimonial das relações sociais burguesas.
“E Rolah trazia ao céu do cinema um destino de letra de câmbio.” (Cap. 32)
Em duas oportunidades Oswald registra a utilização de dinheiro público para viagens de artistas ao exterior.

“Dalbert de subsídio e trombone ia partir para a conquista da Europa.” (Cap. 26)
“João Jordão que não era artista nem nada parecida magro e uma tarde arranjou subsídio governamental para estudar pintura em Paris.” (Cap. 22)

Memórias Sentimentais de João Miramar: a linguagem também reflete uma escolha ideológica. Oswald quebra a forma usual de narrar, rompendo definitivamente com as escolas literárias que o antecederam, e com uma determinada concepção da língua portuguesa (abusa de neologismo, cria verbos, adjetivos, etc.).

Memórias Sentimentais de João Miramar é uma narrativa que se recusa a construir-se como tal. Assim, através deste verdadeiro mosaico que é a obra, Oswald de Andrade não pretende somente explodir as bases da literatura da época, mas também e principalmente implodir a sociedade burguesa e seus valores morais.

 

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Leia também a biografia de Oswald de Andrade

 

Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade

Publicado em:Resumos de livros

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