Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira - Vestibular1

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira

 

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – parte I

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – Introdução

Neste trabalho comentado procurou-se selecionar a essência da poética de MB, tarefa bastante complexa, devido a amplitude de recursos temáticos e estilístico presentes na obra.

A leitura não linear, rompendo a ordem cronológica da publicação dos livros, mostra a evolução e a reformação estética de temas recorrentes na poesia de MB: a presença do cotidiano, a preocupação com a morte, e defesa da linguagem modernista, a sensualidade, o lirismo tradicional, o antilirismo, a impossibilidade existencial, reminiscências da infância, o humor, a experimentação com o significante, o apego a formas finisseculares parnasiano simbolista.

A indicação cronológica do poema servirá para mostrar a variação estética, sempre rica, muito rítmica, dada a um universo carregado de poesias.

1. A Tuberculose, O Confessionalismo – Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.
– P
– O senhor tem escavação no pulmão esquerdo e o direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Libertinagem

2. A metalinguagem – Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira
Os Sapos
Enfunado(1) os papos.
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra.
Berra o sapo-boi:
-“Meu pai foi a guerra!”
-“Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”
O sapo-tanoeiro(2).
Parnasiano aguado.
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como o primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos(3).
O meu verso é bom
Frumento(4) sem joio(5).
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
-“Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa:
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
Clame a sapataria
Em criticas céticas:
Não há mais poesias.
Mas há artes poéticas…”
Urra o sapo-boi:
-“Meu pai foi rei” – “Foi!”
-“Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”
Brada em um assomo(6)
O sapo-tanoeiro:
-“A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário(7).
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta o martelo.”
Lá, fugido ao mundo.
Sem glória sem fé,
No perau(8) profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…
(Carnaval, 1918)

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo o lirismo que capitula ou que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário de amante exemplar com
cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes do lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira: o poema POÉTICA é um manifesto modernista – metapoema = poesia que fala de poesia. Versos livres, tom de manifesto que se recusa ao lirismo comedido, bem comportado – o lirismo metrificado, protocolar e acadêmico, erudito e conservador.
Ironiza o lirismo namorador que lembra a tradição romântica (Político, Raquítico, Sifilítico), tanto quanto o lirismo normativo, acadêmico, que lembra o parnasiano (contabilidade tabela de co-senos secretário…).

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desalento…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.

3. A Familiaridade com a Morte – Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira
A sensação de aniquilamento pessoal, de destruição do mundo físico e familiar que cercava (decadência financeira aliada à morte da mãe em 16, do pai em 20 e de sua irmã em 1928, que fora sua enfermeira desde 1904), juntamente com o convívio com a tuberculose, fez com que a sensibilidade de MB registrasse várias vezes a proximidade da morte.

Desencanto, poema do livro A cinza das horas, apresenta o seguinte verso arremate:
– Eu faço versos como quem morre.
Nesse livro, encontramos “Elegia para minha mãe”, onde o poeta escreve:

Tudo o que há de infantil dentro em minh’alma sangra
Na dor de ter visto, Ó Mãe, agonizar!

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e humor
Estrondos de bomba luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que a pouco
Dançavam
Cantavam
Riam
Ao pé das fogueiras acesas?
– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totonio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
-Estão dormindo
Estes todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – A Morte Absoluta
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne.
A enxágue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lagrimas
Nascidas menos de saudade do que de espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?…”
Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.
(Lira dos cinquent’anos)

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – Momento num Café
Quando o enterro passou
Os homens se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife lentamente.
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta
(Estrela da manhã)

Meus Poemas Preferidos de Manuel Bandeira – Consoada(1)
Quando a Indesejada das gentes(2) chegar
(Não sei se dura ou coroável,(3))
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!(4)
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.(5))
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
(Opus 10)

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