Meus Verdes Anos de José Lins do Rego II - Vestibular1

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego II

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego

 

Resumo Meus Verdes Anos de José Lins do Rego – parte II

 

A reconstituição dos procedimentos de elaboração do discurso memorialístico de José Lins do Rego mereceu estudo de Wilma M. de Mendonça, que destacou algumas modificações operadas na passagem do manuscrito à publicação, procurando entender o “objetivo inutilmente perseguido pelo autor de Meus verdes anos de busca e revisão de sua trilha existencial sem a mediação da imaginação” (1993, p. 163-168).

Do ponto de vista estilístico, Geralda Medeiros Nóbrega deteve-se na análise de fragmentos do prototexto, tendo verificado a presença de um protonarrador-estilista, que testa a eficácia da escritura, sendo influenciado pela atitude do autor leitor (1993, p. 169-175).

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego: todavia, é o regionalismo, na obra de José Lins do Rego, o aspecto normalmente salientado pelos críticos literários. Neroaldo Pontes de Azevêdo afirma:
“Quanto ao regionalismo, porém, não sobra dúvida ter sido a preocupação mais decisiva na formação do escritor paraibano José Lins” (1991, p. 212), e assegura, em seguida: “No Nordeste que José Lins do Rego vivenciou é que ele vai buscar a substância fundamental de sua obra. Não só o que dizer, mas também o como dizer” (1991, p. 223).

Por sua vez, Peregrino Júnior considera: “Com a vinculação do romance com o povo, incorporou à sua problemática, ao seu temário e ao seu estilo as peculiaridades mais genuínas das expressões coloquiais do Nordeste” (1991, p. 190).
Dessa forma, é pertinente verificar, a partir do manuscrito, o processo de atualização de uma linguagem popular regional (o “como dizer”, a que se refere Neroaldo Pontes de Azevêdo) em Meus verdes anos.

Naturalmente, a construção de uma linguagem é fenômeno complexo, cuja análise não pode ser satisfatoriamente cumprida nos limites de uma rápida abordagem, como a deste trabalho.

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego: passaremos, então, a destacar, para uma rápida demonstração dos processos de construção do discurso de José Lins do Rego, em Meus verdes anos, situações exemplares, colhidas no prototexto. O texto publicado passará a ser indicado como MVA; o prototexto, Prot.
MVA: …enormes lubins no toutiço e com orelhas de abano. (p. 48)
Prot.: …enormes lubins [nas costas] no <toutiço> e com orelhas de abano. (f.. 25)

Conforme o Atlas linguístico da Paraíba (Aragão, M. S. S., Menezes, C. P., 1984, v. 1, p. 143), a protuberância notada nas costas dos bois, como uma corcova, recebe vários nomes nas diversas regiões da Paraíba: cupim, castanha, tuntum e lubim, entre outros.

Assim, ao descrever o gado, e tendo já realizado uma forma regional, compreende-se a substituição de nas costas por no toutiço, que, apesar de não pertencer ao nível popular regional, é atualizada no registro familiar (Aulete, 1964, v. 5, p. 4013), relacionando-se, dessa forma, com a tonalidade popular regional já impressa ao discurso no início do sintagma.

Trata-se de movimento de escritura análogo ao da introdução de camarinha, quando prevalece o popular regional:
MVA: “Olha, Luísa, vai na camarinha onde eu dormia… (p. 44)
Prot.: Olha, Luiza, vai, na [quarto] <camarinha> onde eu dormia… (f. 23)
Vejamos alguns outros fragmentos que ilustram exemplarmente os movimentos do discurso de José Lins do Rego:
MVA: …falavam de aparições… (p. 23)
Prot.: …falavam de [visagens] <aparições> …(f.10)

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego: a ocorrência de visagens contribui para uma dicção popular regional. A modificação para aparições conduz o discurso para outro nível de linguagem.
Aparição, do latim apparitione, significa manifestação súbita de um ente, visão, fantasma. Por sua vez, visagem, do provençal visatge, só como brasileirismo significa fantasma, pois seu sentido original remete a rosto e, modernamente, a esgar, trejeito fisionômico, significados esses que não eram aqueles buscados por Lins do Rego (Lello, J., Lello, E., 1989, p. 81 e 1251).

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego: outras vezes, são expressões de gosto popular regional que desaparecem na publicação, muitas vezes sem que haja marcas de rasura no manuscrito. Isso pode ser verificado, por exemplo, com a atualização de estropiços, variante de estrupícios (Aragão, 1990, p. 108).

Em algum momento da escritura, houve troca por gritos, apesar de, no manuscrito conhecido, não haver registro da substituição:
MVA: …todos aqueles gritos do marido não valiam de nada. (p. 120)
Prot.: …todos aqueles estropiços do marido não valiam de nada. (f . 83)

Vale salientar, porém, que o acento popular permanece no fragmento graças a manutenção da expressão não valer de nada, frequente na boca dos nordestinos.
Também em algum momento da escritura o autor realizou a modificação:
MVA: Dizem que até barão encheu o papo com a desgraça do povo. (p. 131)
Prot.: Dizem que até barão encheu o rabo com a desgraça do povo. (f. 90)

Mantendo o gosto popular em encheu o papo, a hipótese é que a alteração aconteceu por razões de estilo, impedindo a introdução do calão.

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego: fenômeno que revela o leitor-crítico na retomada imediata do texto é o emprego de cocho:
MVA: …corria de manso para uma ancoreta com funil, (p. 41)
Prot.: …corria de manso para uma [cocho] ancoreta com funil, (f. 20)
Descrevendo o alambique, o primeiro movimento de escritura lança cocho, vasilha cavada em um tronco de madeira, na qual se coloca comida ou água para os animais (Aragão, 1990, p. 72).

A impropriedade do uso de cocho para nomear os utensílios do alambique levou o autor a escolher ancoreta, nomeação acertada.
A crítica literária desconhece as formas alternativas experimentadas pelo autor, formas essas que traduzem um repertório linguístico assim como um universo cultural frequentado por ocasião da escritura.

Por outro lado, voltando-se para os documentos originais do texto, sem privilegiar essa ou aquela lição, o geneticista, estudioso de manuscritos modernos, reencontra complexas operações metalinguísticas, pois, no eixo das similaridades, as formas escolhidas para a publicação, e, portanto, organizadas no eixo das contiguidades, falam daquelas que foram expurgadas, alimentando-se, ao mesmo tempo, de seus significados.

Meus Verdes Anos de José Lins do Rego: o interesse consiste em preservar os traços reveladores dos caminhos percorridos nos eixos da linguagem, reconstituindo os movimentos de seleção e de combinação executados na escritura.
Dessa forma, através do manuscrito, podem ser reconstituídas as formas alternativas experimentadas por José Lins do Rego em Meus verdes anos, que atualizam a relação dialética entre uma bagagem linguística e cultural de fatura erudita e uma linguagem de gosto popular e regional.

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Leia também a biografia de José Lins do Rego

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