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Resumo dos livros de vestibular

Numa e a Ninfa de Lima Barreto

 

Resumo Numa e a Ninfa de Lima Barreto – parte II

Já desanimava, quando, uma madrugada, ao chegar da manifestação do Senador Sofonias, naquele tempo o mais poderoso chefe da política nacional, quase chorando, Numa dirigiu-se à mulher:
— Minha filha, estou perdido!…
— Mas que há, Numa?
— Ele… O Sofonias…
— Que tem? que há? por quê?

A mulher sentia bem o desespero do marido e tentava soltar-lhe a língua. Numa, porém, estava alanceado e hesitava, vexado em confessar a verdadeira causa do seu desgosto. Gilberta, porém, era tenaz; e, de uns tempos para cá, dera em tratar com mais carinho o seu pobre marido. Afinal, ele confessou quase em pranto:
— Ele quer que eu fale, Gilberta.
— Mas, você fala…
— E fácil dizer… Você não vê que não posso… Ando esquecido… Há tanto tempo… Na faculdade, ainda fiz um ou outro discurso; mas era lá, e eu decorava, depois pronunciava.
— Faz agora o mesmo…
— E… Sim… Mas, preciso ideias… Um estudo sobre o novo Estado! Qual!
— Estudando a questão, você terá ideias…

Numa e a Ninfa de Lima Barreto: ele parou um pouco, olhou a mulher demoradamente e lhe perguntou de sopetão:
— Você não sabe aí alguma coisa de história e geografia do Brasil?
Ela sorriu indefinidamente com os seus grandes olhos claros, apanhou com uma das mãos os cabelos que lhe caíram sobre a testa; e depois de ter estendido molemente o braço meio nu sobre a cama, onde a fora encontrar o marido, respondeu:
— Pouco… Aquilo que as irmãs ensinam; por exemplo: que o rio São Francisco nasce na serra da Canastra.

Sem olhar a mulher, bocejando, mas já um tanto aliviado, o legislador disse:
— Você deve ver se arranja algumas ideias, e fazemos o discurso.

Gilberta pregou os seus grandes olhos na armação do cortinado, e ficou assim um bom pedaço de tempo, como a recordar-se. Quando o marido ia para o aposento próximo, despir-se, disse com vagar e doçura:
—Talvez.

Numa e a Ninfa de Lima Barreto: numa fez o discurso e foi um triunfo. Os representantes dos jornais, não esperando tão extraordinária revelação, denunciaram o seu entusiasmo, e não lhe pouparam elogios. O José Vieira escreveu uma crônica; e a glória do representante de Sernambi encheu a cidade.

Nos bondes, nos trens, nos cafés, era motivo de conversa o sucesso do deputado dos Cogominhos:
— Quem diria, hein? Vá a gente fiar-se em idiotas. Lá vem um dia que eles se saem. Não há homem burro – diziam -, a questão é querer…

E foi daí em diante que a união do casal começou a ser admirada nas ruas. Ao passarem os dois, os homens de altos pensamentos não podiam deixar de olhar agradecidos aquela moça que erguera do nada um talento humilde; e as meninas olhavam com inveja aquele casamento desigual e feliz.

Numa e a Ninfa de Lima Barreto: daí por diante, os sucessos de Numa continuaram. Não havia questão em debate na câmara sobre a qual ele não falasse, não desse o seu parecer, sempre sólido, sempre brilhante, mantendo a coerência do partido, mas aproveitando ideias pessoais e vistas novas.

Estava apontado para ministro e todos esperavam vê-lo na secretaria do Largo do Rossio, para que ele pusesse em prática as suas extraordinárias ideias sobre instrução e justiça.

Era tal o conceito de que gozava que a câmara não viu com bons olhos furtar-se, naquele dia, ao debate que ele mesmo provocara, dando um intempestivo aparte ao discurso do Deputado Cardoso Laranja, o formidável orador da oposição.

Os governistas esperavam que tomasse a palavra e logo esmagasse o adversário; mas não fez isso.
Pediu a palavra para o dia seguinte e o seu pretexto de moléstia não foi bem aceito.

Numa e a Ninfa de Lima Barreto – Numa não perdeu tempo: tomou um tílburi, correu à mulher e deu-lhe parte da atrapalhação em que estava. Pela primeira vez, a mulher lhe pareceu com pouca disposição de fazer o discurso.
— Mas, Gilberta, se eu não o fizer amanhã, estou perdido!… E o ministério? Vai-se tudo por água abaixo… Um esforço… E pequeno… De manhã, eu decoro… Sim, Gilberta?

A moça pensou e, ao jeito da primeira vez, olhou o teto com os seus grandes olhos cheios de luz, como a lembrar-se, e disse:
— Faço; mas você precisa ir buscar já, já, dois ou três volumes sobre colonização… Trata-se dessa questão, e eu não sou forte. E preciso fingir que se tem leituras disso… Vá!
— E os nomes dos autores?
— Não é preciso… O caixeiro sabe… Vá!
Logo que o marido saiu, Gilberta redigiu um telegrama e mandou a criada transmiti-lo.

Numa voltou com os livros; marido e mulher jantaram em grande intimidade e não sem apreensões. Ao anoitecer, ela recolheu-se à biblioteca e ele ao quarto.
No começo, o parlamentar dormiu bem; mas bem cedo despertou e ficou surpreendido em não encontrar a mulher a seu lado.

Numa e a Ninfa de Lima Barreto: teve remorsos. Pobre Gilberta! Trabalhar até àquela hora, para o nome dele, assim obscuramente! Que dedicação! E – coitadinha! – tão moça e ter que empregar o seu tempo em leituras árduas! Que boa mulher ele tinha! Não havia duas… Se não fosse ela…

Ah! Onde estaria a sua cadeira? Nunca seria candidato a ministro… Vou fazer-lhe uma mesura, disse ele consigo. Acendeu a vela, calçou as chinelas e foi pé ante pé até ao compartimento que servia de biblioteca.

A porta estava fechada; ele quis bater, mas parou a meio. Vozes abaladas… Que seria? Talvez a Idalina, a criada… Não, não era; era voz de homem. Diabo! Abaixou-se e olhou pelo buraco da fechadura. Quem era? Aquele tipo… Ah! Era o tal primo…

Então, era ele, era aquele valdevinos, vagabundo, sem eira nem beira, poeta sem
poesias, frequentador de chopes; então, era ele quem lhe fazia os discursos? Por que preço?

Numa e a Ninfa de Lima Barreto: olhou ainda mais um instante e viu que os dois acabavam de beijar-se. A vista se lhe turvou; quis arrombar a porta; mas logo lhe veio a ideia do escândalo e refletiu. Se o fizesse, vinha a coisa a público; todos saberiam do segredo da sua “inteligência” e adeus câmara, ministério e – quem sabe? – a presidência da república.

Que é que se jogava ali? A sua honra? Era pouco. O que se jogava ali eram a sua inteligência, a sua carreira; era tudo! Não, pensou ele de si para si, vou deitar-me.
No dia seguinte, teve mais um triunfo.

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Numa e a Ninfa de Lima Barreto

Publicado em:Resumos de livros

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