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Resumo de Livros e Obras Literárias por Vestibular1

O Barão de Branquinho da Fonseca

 

Resumo O Barão de Branquinho da Fonseca – parte I

“O Barão” é um conto de Antônio José Branquinho da Fonseca (1905-1974), autor que foi um dos responsáveis, por meio da Revista Presença (1927), pela inauguração do Segundo Tempo do Modernismo Português, sediado em Coimbra e sequioso por um caráter mais avançado da literatura, ao contrário do tom saudosista do Primeiro Tempo, fixado em Lisboa e que gravitava ao redor da Revista Orpheu (1915).

Muitas vezes com o pseudônimo de Antônio Madeira, produziu poesia e drama, mas se destacou acima de tudo no conto, em que “consegue sugerir um halo de mistério, de medo ou pesadelo indefinido, de constante surpresa na perseguição a um impreciso ideal, sem todavia nos desprender de um senso de verossimilhança, antes como que acordando nesse halo misterioso os ecos emotivos da realidade.” (A. J. Saraiva & Oscar Lopes. História da Literatura Portuguesa. 17ª ed., Porto Editora, 1996, p. 1015.)

Sua obra-prima é justamente o conto em análise, O Barão de Branquinho da Fonseca, de 1952, e transformado em teatro em 1964. O narrador dessa obra é um inspetor de escolas primárias. Não é uma pessoa feliz com o seu serviço, que o obrigava a varar Portugal em inúmeras viagens; preferiria a monotonia.

Parece personagem avessa à vida, no seu sentido mais caloroso, explosivo. Reforça esse caráter inerte o motivo que apresenta para não abandonar emprego tão “sufocante”: o salário.

Para sorte do leitor, esse narrador é de primeira pessoa. Um espírito tão pobre e onisciente estragaria a magia do texto. Fechando-se no papel de espectador, acaba, na sua limitação, dando mais vivacidade, dramaticidade à história, pois servirá apenas – o que lhe é um grande prêmio – como um canal, um veículo.

Tudo se passou durante um chuvoso inverno de Novembro, em que o narrador teve de fazer uma sindicância na escola primária de V… Ao chegar, foi recebido por uma professora descrita como triste, feia e inteligente, que já deixou claro que os problemas de hospedagem seriam facilmente resolvidos com a simples intervenção do nome do Seduzimo-nos, pois, por sua figura, cuja simples menção inspira poder, influência ou algo em torno disso.

O Barão de Branquinho da Fonseca: sua chegada não desmentiu as expectativas. Homem de grande estatura (curvou-se para passar pela porta de entrada), um rico escondido nos confins do mundo, “figura que intimidava”, de “aspecto brutal”, “ar de dono de tudo”, “tosco e primitivo”, tudo parecia parar ao seu redor.

No entanto, quando notou que estava incomodando o narrador com seu caráter impositivo – insistia em hospedá-lo em seu solar –, acabou por mostrar, por meio de um riso, um lado amável. Na hora o narrador achou que uma máscara havia caído, mas depois veio a dúvida: qual era a máscara, o duro ou o infantil? Não percebeu, pelo menos naquele momento, que na realidade esse homem era a soma contraditória das duas faces.

Deve-se ter em mente, ainda, que tais ideias não aparecem gratuitamente. É como se Branquinho da Fonseca estivesse por trás do narrador, manipulando peças. A máscara é um dos símbolos do teatro, arte cujo pai ou protetor seria Dioniso, um deus tão contraditório quanto o Barão. Mas essas aproximações serão retomadas mais para frente.

Na viagem até o solar, o Barão foi contando seu passado universitário em Coimbra, dando destaque a um episódio em que, zombeteiramente, fez um cavalo, Melro, ser doutorado em Direito.

O Barão de Branquinho da Fonseca: esse mesmo desprezo ao que deveria merecer respeito já se havia manifestado no convite para que o narrador ficasse uma semana em seu solar, no que foi recusado com o argumento da necessidade de se dedicar tempo na confecção de um relatório.

A resposta do fidalgo: “Qual relatório!” É alguém que gosta de brincar com coisas sérias, conforme confessou. Como Dioniso, rompe limites.
Com a chegada, saem do carro e caem numa escuridão fenomenal. Parece estar simbolizado o mergulho iniciático, a entrada num universo distante do lógico, do real, do racional. E justo nesse momento são circundados por cinco ou seis cães, animais considerados guias para o outro universo.

Aqui cabe mais simbologia. Os cães carregam em si o mesmo aspecto visto no Barão, que também é de Dioniso: têm o lado lobo, selvagem, da involução e também o lado cão, fiel, da evolução.

Para variar, essas características não foram percebidas pelo narrador, preocupado apenas em admirar o palacete, que lhe lembrava um estilo de vida de quem fazia o que bem queria, tudo em nome do conforto. Mais uma vez, uma visão acomodada da existência, longe da luta entre contrários que pouco depois acabaria captando.

O Barão de Branquinho da Fonseca: foi quando notou que o Barão sofria uma luta causada por Deus e pelo Diabo, concluindo que “as taras e os desequilíbrios inferiores tinham-no vencido, submergindo o homem inteiro”.
Sofria, pois, a ferocidade da inadaptação, a iminência da explosão por estar onde não deveria. O mesmo deslocamento que imaginou ter visto na feia professora. Talvez o mesmo que ele próprio, narrador, sentia, ao ser obrigado a fazer o que não gosta: viajar.

Foi conduzido a uma sala de jantar, ficando numa mesa em que cabiam 30 pessoas. Sentaram-se distantes. O Barão começou a beber vinho tinto – justo a bebida de Dioniso. Passou a falar de sua vida, como se o álcool o despertasse, o liberasse. Mas parecia contar para si mesmo, fazendo do narrador mero espectador.

Ia, incrivelmente, bebendo e se esquecendo do inspetor, que já ultrapassara a hora de jantar. Este, por delicadeza, não se manifestava e, por isso, entrou em agonia. Deu uma indireta, dizendo que não entendia como se bebia sem se alimentar.

Não surtiu efeito. Por fim, foi um pouco mais direto, informando que já deveria estar comendo. O Barão se tocou e, avisando que o narrador não precisava abusar daquelas formalidades inúteis – eram outra forma de prisão da qual queria ver-se longe –, chamou Idalina e pediu para que fosse saciado o coitado.

O Barão de Branquinho da Fonseca: essa empregada, que chegou trazendo galo com batatas loiras, fora roubada do lar ainda menina pelo próprio Barão. Tinha sido sua paixão e, outrora dominada, era agora, com seu jeito altivo, a senhora do palacete. Tornou-se o gancho para que o nobre se lembrasse de uma paixão mais profunda.

Por isso o silêncio, quebrado pela afirmação “Mas vou… vou regenerar-me…”, seguida da pergunta fuzilante: “Já esteve apaixonado?” Mas o narrador não prestou mais atenção ao que lhe era dito, tão preocupado estava em comer – o que só condenava o seu caráter. Ouvia apenas, espaçadamente, a história de uma tal Emília, a única que chegou a se matar por amor por causa do Barão. Eis o tema das paixões desenfreadas.

O Barão de Branquinho da Fonseca: o nobre quebrou mais uma vez o clima com a afirmação “Nunca tomei a vida a sério”, seguida de “Sou um animal, uma pura besta”. No entanto, seu interlocutor desligava-se ao aproveitar agora um porco com ovos mexidos.

Só demonstrou preocupação quando o senhor do solar pediu para ouvir violino, no que foi contrariado, pois esse instrumento estava partido. O inspetor ficou com medo de alguma explosão de fúria, o que não aconteceu. Mas permaneceu uma intrigante impressão de que o homem estava sempre sob pressão, prestes a explodir.

O grande homem dedicou-se a beber mais vinho e licor, incitando o narrador a acompanhá-lo. Dioniso é que costumava iniciar seus discípulos pela embriaguez. Começaram a discutir sobre mulheres, no que houve uma discordância. Para o narrador, as melhores seriam as nórdicas e inglesas, mas para o Barão seriam as brasileiras, dotadas de força, de paixão. São ferozes como tigres.

Resolveram brindar por uma mulher, “a única”. O protagonista quebrou sua taça, no que foi imitado pelo narrador (costume grego?). O nobre começou um passeio com o inspetor pelos diferentes cômodos, voltando para o local de onde saíram. Essa circularidade, a sugerir os diversos ciclos da vida ou da Natureza, parecia um ritual.

O Barão de Branquinho da Fonseca: realizado, o estômago do senhor liberou-se. Sentiu fome, finalmente – já era alta madrugada. Recebeu alheiras assadas (comida feita com galinha, pão e alho). O comer está ligado à simbologia do banquete, que denota, entre vários elementos, a busca da integração, principalmente para rituais. Era o que, no fundo, estava-se processando.

Eis que, de súbito, surgiu um estrondo fantástico, como um trovão. O narrador só não ficou mais assustado porque o Barão demonstrava tranquilidade. Interessante aqui é lembrar que o trovão é a marca do pai de Dioniso – Zeus.
Outro aspecto curioso o estrondo era provocado pelos tamancos dos integrantes da orquestra do Barão, a Tuna.
Com a chegada do grupo, quase que se completou o quadro: música, comida, bebida, dança. Era a explosão de vida, numa festa típica de Dioniso, o libertador das forças reprimidas do Inferno, o delirante, o barulhento deus do entusiasmo e do desejo amoroso. No entanto, neste último campo afetivo o Barão estava-se sentindo incompleto.

O Barão de Branquinho da Fonseca: No auge de seu ritual, em que até o próprio narrador se entregou – já devia estar também liberto graças ao álcool –, o Barão recebeu um banho de vinho, considerando-se purificado. Decidiu, pois, ir ao castelo da Bela Adormecida, sua grande paixão.

A menção a Bela Adormecida faz contato com o conto de mesmo nome, cuja história apresenta uma donzela que caíra em sono profundo por cem anos, escondida por uma floresta, até ser acordada pelo beijo de um príncipe encantado. No entanto, coincidência ou não, a grande paixão de Dioniso fora Ariadne, que ele encontrara adormecida em meio à floresta da ilha de Naxos.

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O Barão de Branquinho da Fonseca

Publicado em:Resumos de livros

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