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O Demônio Familiar de Joaquim Manuel de Macedo

 

Resumo O demônio familiar: comedia em quatro atos

Segunda comédia de Alencar, O demônio familiar, esta peça em quatro atos estreou em 5 de novembro de 1857, no Ginásio Dramático, sete dias após a sua estreia no gênero teatral com Verso e reverso.

Foi publicada em volume em 1858. Trata-se da mais bem realizada comédia de José de Alencar e uma das mais importantes peças do teatro brasileiro.
Como resumia Alencar, na dedicatória à imperatriz, a peça pretendia traçar, centrando a atenção no papel deletério dos escravos que viviam no seio das famílias, “um quadro da nossa vida doméstica; uma pintura de nossos costumes; um esboço imperfeito das cenas íntimas que se passam no interior das nossas casas; é enfim, a imagem da família”.

 

Trecho escolhido de O Demônio Familiar de Joaquim Manuel de Macedo
ATO PRIMEIRO

Em casa de EDUARDO. Gabinete de estudo.

CENA I – CARLOTINHA, HENRIQUETA

CARLOTINHA – Mano, mano! (Voltando-se para a porta.) Não te disse? Saiu! (Acenando.) Vem, psiu, vem!
HENRIQUETA – Não, ele pode zangar-se quando souber.
CARLOTINHA – Quem vai contar-lhe? Demais, que tem isso? Os homens não dizem que as moças são curiosas?
HENRIQUETA – Mas, Carlotinha, não é bonito uma moça entrar no quarto de um moço solteiro.
CARLOTINHA – Sozinha, sim; mas com a irmã não faz mal.
HENRIQUETA – Sempre faz.
CARLOTINHA – Ora! Estavas morrendo de vontade.
HENRIQUETA – Eu não; tu é que me chamaste.
CARLOTINHA – Porque me fazias tantas perguntinhas, que logo percebi o que havia aqui dentro. (No coração.)
HENRIQUETA – Carlotinha!…
CARLOTINHA – Está bom, não te zangues.
HENRIQUETA – Não; mas tens lembranças!
CARLOTINHA – Que parecem esquecimentos, não é? Esquecia-me que não gostas que adivinhem os teus segredos.
HENRIQUETA – Não os tenho.
CARLOTINHA – Anda lá!… Oh! meu Deus! Que desordem! Aquele moleque não arranja o quarto do senhor; depois mano vem e fica maçado.
HENRIQUETA – Vamos nós arranjá-lo?
CARLOTINHA – Está dito; ele nunca teve criadas desta ordem.
HENRIQUETA (a meia voz) – Porque não quis!
CARLOTINHA – Que dizes?… Cá está uma gravata.
HENRIQUETA – Um par de luvas.
CARLOTINHA – As botinas em cima da cadeira.
HENRIQUETA – Os livros no chão.
CARLOTINHA – Ah! Agora pode-se ver!
HENRIQUETA – Não abrimos a janela?
CARLOTINHA – É verdade. (Abre.)
HENRIQUETA – Daqui vê-se a minha casa; olha!
CARLOTINHA – Pois agora é que sabes? Nunca viste mano Eduardo nesta janela?
HENRIQUETA – Não; nunca.
CARLOTINHA – Fala a verdade, Henriqueta!
HENRIQUETA – Já te disse que não: se vi, não me lembra. Há tanto tempo que esta janela não se abre!
CARLOTINHA – Bravo! Depois não digas que são lembranças minhas.
HENRIQUETA – O que? O que disse eu?
CARLOTINHA – Nada; traíste o teu segredo, minha amiguinha. Se tu sabes que esta janela não se abre, é porque todos os dias olhas para ela.
HENRIQUETA – Pois não…
CARLOTINHA – Para que procuras esconder uma coisa que teus olhos estão dizendo? Tu choras!… Por quê? É pelo que eu disse? Perdoa, não falo mais em semelhante coisa.
HENRIQUETA – Sim; eu te peço, Carlotinha. Se soubesses o que eu sofro…
CARLOTINHA – Como! Meu irmão é tão indigno de ti, Henriqueta, que te ofendes com um simples gracejo a seu respeito?
HENRIQUETA – Eu é que não sou digna dele; não mereço, nem mesmo por tua causa, uma palavra de amizade!
CARLOTINHA – Que dizes! Mano Eduardo te trata mal?
HENRIQUETA – Mal, não; mas com indiferença, com uma frieza!… Às vezes nem me olha.
CARLOTINHA – Mas antes, quando nos visitavas mais a miúdo, e passavas dia conosco, ele brincava tanto contigo!
HENRIQUETA – Sim; porém, um dia, tu não reparaste, talvez; eu me lembro… ainda me dói! Um dia vim passar à tarde contigo, e durante todo o tempo que estive aqui ele não me deu uma palavra.
CARLOTINHA – Distração! Não foi de propósito.
HENRIQUETA – Oh! foi! Desde então essa janela nunca mais se abriu. Agora posso dizer-te tudo… Eu o via do meu quarto a todas as horas do dia; de manhã, apenas acordava, já ele estava; antes de jantar, quando ele chegava, eu o esperava; e à tarde, ao escurecer.
CARLOTINHA – E nunca me disseste nada!
HENRIQUETA – Tinha vergonha. Hoje mesmo se não adivinhasses, se eu não me traísse.
CARLOTINHA – Deixa estar que hei de perguntar-lhe a razão disto.
HENRIQUETA – Eu te suplico! Não lhe digas nada. Para quê? Sofri dois meses, sofri como tu não fazes ideia. Uns versos sobretudo que ele me mandou fizeram-me chorar uma noite inteira.
CARLOTINHA – Mas por isso mesmo! Não quero que ele te faça chorar. Hei de obrigá-lo a ser para ti o mesmo que era.
HENRIQUETA – Agora… É impossível!
CARLOTINHA – Por quê?
HENRIQUETA – Não tenho coragem de dizer; e, entretanto, vim hoje só para dar-te parte e para… despedir-me desta casa.
CARLOTINHA – Vais fazer alguma viagem?
HENRIQUETA – Não, mas vou… (Ouve-se subir a escada.)
CARLOTINHA – É ele! É mano!
HENRIQUETA – Ah! Meu Deus!
CARLOTINHA – Depressa! Corre!…

O Demônio Familiar de Joaquim Manuel de Macedo

Publicado em:Resumos de livros

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