O Número da Sepultura de Lima Barreto II - Vestibular1

O Número da Sepultura de Lima Barreto II

O Número da Sepultura de Lima Barreto

 

Resumo O Número da Sepultura de Lima Barreto – parte II

Miúda de feições, franzina, de boa estatura e formas harmoniosas, tudo nela era a graça do caniço, a sua esbelteza, que não teme os ventos, mas que se curva à força deles com mais elegância ainda, para ciciar os queixumes contra o triste fado de sua fragilidade, esquecendo-se, porém, que é esta que o faz vitorioso.

Após o casamento, vieram residir na Travessa das Saudades, na estação de * * *
É uma pitoresca rua, afastada alguma cousa das linhas da Central, cheia de altos e baixos, dotada de uma caprichosa desigualdade de nível, tanto no sentido longitudinal como no transversal.

Povoada de árvores e bambus, de um lado e outro, correndo quase exatamente de norte para sul, as habitações do lado do nascente, em grande número, somem-se na grota que ela forma, com o seu desnivelamento; e mais se ocultam debaixo dos arvoredos em que os Cipós se tecem.

Do lado do poente, porém, as casas se alteiam e, por cima das de defronte, olham em primeira mão a Aurora, com os seus inexprimíveis cambiantes de cores e matizes.
Como no fim do mês anterior, naquele outro, o segundo término de mês depois do seu casamento, o bacharel Augusto, logo que recebeu os vencimentos e conferiu as contas dos fornecedores, entregou o dinheiro necessário à mulher, para pagá-los, e também a importância do aluguel da casa.

Zilda apressou-se em fazê-lo ao carniceiro, ao padeiro e ao vendeiro; mas, o procurador do proprietário da casa em que moravam, demorou-se um pouco.
Disso, avisou o marido, em certa manhã, quando ele lhe dava uma pequena quantia para as despesas com o quitandeiro e outras miudezas caseiras. Ele deixou o importe do aluguel com ela.

Havia já quatro dias que ele se havia vencido; entretanto, o preposto do proprietário não aparecia.
Na manhã desse quarto dia, ela amanheceu alegre e, ao mesmo tempo apreensiva.
Tinha sonhado; e que sonho !

Sonhou com a avó, a quem amava profundamente e que desejara muito o seu casamento com Augusto. Morrera ela poucos meses antes de realizar-se o seu enlace com ele; mas ambos já eram noivos.

Sonhara a moça com o número da sepultura da avó – 1724; e ouvira a voz dela, da sua vovó, que lhe dizia: “Filha, joga neste número ! ”
O sonho impressionou-a muito; nada, porém, disse ao marido. Saído que ele foi para a repartição, determinou à criada o que tinha a fazer e procurou afastar da memória tão estranho sonho.

Não havia, entretanto, meios para conseguir isso. A recordação dele estava sempre presente ao seu pensamento, apesar de todos os seus esforços em contrário.
A pressão que lhe fazia no cérebro a 1embrança do sonho, pedia uma saída, uma válvula de descarga, pois já excedia a sua força de contenção. Tinha que falar, que contar, que comunicá-lo a alguém…

Fez confidência do sucedido à Genoveva. A cozinheira pensou um pouco e disse:
– Nhanhã: eu se fosse a senhora arriscava alguma cousa no “bicho”.
– Que “bicho” é ?
– 24 é cabra; mas não deve jogar só por um lado. Deve cercar por todos e fazer fé na dezena, na centena, até no milhar. Um sonho destes não é por aí cousa à toa.
– Você sabe fazer a lista?

– Não, senhora. Quando jogo é o Seu Manuel do botequim quem faz ” ela”. mas a vizinha, Dona Iracema, sabe bem e pode ajudar a senhora.
– Chame ” ela” e diga que quero lhe falar.
Em breve chegava a vizinha e Zilda contou-lhe o acontecido.

Dona Iracema refletiu um pouco e aconselhou:
– Um sonho desses, menina, não se deve desprezar. Eu, se fosse a vizinha, jogava forte.
– Mas, Dona Iracema, eu só tenho os oitenta mil-réis para pagar a casa. Como há de ser?

A vizinha cautelosamente respondeu:
– Não lhe dou a tal respeito nenhum conselho. Faça o que disser o seu coração; mas um sonho desses…

O Número da Sepultura de Lima Barreto: Zilda que era muito mais moça que Iracema, teve respeito pela sua experiência e sagacidade. Percebeu logo que ela era favorável a que ela jogasse. Isto estava a quarentona da vizinha, a tal Dona Iracema, a dizer-lhe pelos olhos.

Refletiu ainda alguns minutos e, por fim, disse de um só hausto:
– Jogo tudo.
E acrescentou:
– Vamos fazer a lista – não é Dona Iracema?
– Como é que a senhora quer?
– Não sei bem. A Genoveva é quem sabe.

E gritou, para o interior da casa:
– O Genoveva! Genoveva! Venha cá, depressa!
Não tardou que a cozinheira viesse. Logo que a patroa lhe comunicou o embaraço, a humilde preta apressou-se em explicar:
– Eu disse a nhanhã que cercasse por todos os lados o grupo, jogasse na dezena, na centena e no milhar.

Zilda perguntou à Dona Iracema:
– A senhora entende dessas cousas?
– Ora! Sei muito bem. Quanto quer jogar?
– Tudo ! Oitenta mil-réis !

– É muito, minha filha. Por aqui não há quem aceite. Só se for no Engenho de Dentro, na casa do Halavanca, que é forte. Mas quem há de levar o jogo? A senhora tem alguém?
– A Genoveva.

A cozinheira, que ainda estava na sala, de pé, assistindo os preparativos de tão grande ousadia doméstica, acudiu com pressa:
– Não posso ir, nhanhã. Eles me embrulham e, se a senhora ganhar, a mim eles não pagam. É preciso pessoa de mais respeito.

Dona Iracema, por aí, 1embrou :
– É possível que o Carlito tenha vindo já de Cascadura, onde foi ver a avó… Vai ver, Genoveva!

A rapariga foi e voltou em companhia do Carlito, filho de Dona Iracema. Era um rapagão dos seus dezoito anos, espadaúdo e saudável.
A lista foi feita convenientemente; e o rapaz levou-a ao “banqueiro”.

Passava de uma hora da tarde, mas ainda faltava muito para as duas. Zilda 1embrou-se então do cobrador da casa. Não havia perigo. Se não tinha vindo até ali, não viria mais.

Dona Iracema foi para a sua casa; Genoveva foi para a cozinha e Zilda foi repousar daqueles embates morais e alternativas cruciantes, provocados pelo passo arriscado que dera. Deitou-se já arrependida do que fizera.

Se perdesse, como havia de ser? O marido… sua cólera… as repreensões… Era uma tonta, uma doida… Quis cochilar um pouco; mas logo que cerrou os olhos, lá viu o número – 1724. Tomava-se então de esperança e sossegava um pouco da sua ânsia angustiosa.

Passando, assim, da esperança ao desânimo, prelibando a satisfação de ganhar e antevendo os desgostos que sofreria, caso perdesse – Zilda, chegou até à hora do resultado, suportando os mais desencontrados estados de espírito e os mais hostis ao seu sossego.

Chegando o tempo de saber “o que dera” , foi até à janela. De onde em onde, naquela rua esquecida e morta, passava uma pessoa qualquer. Ela tinha desejo de perguntar ao transeunte o “resultado”., mas ficava possuída de vergonha e continha-se.

O Número da Sepultura de Lima Barreto: nesse ínterim, surge o Carlito a gritar:
– Dona Zilda! Dona Zilda! A senhora ganhou, menos no milhar e na centena.
Não deu um “ai” e ficou desmaiada no sofá da sua modesta sala de visitas.

Voltou em breve a si, graças às esfregações de vinagre de Dona Iracema e de Genoveva. Carlito foi buscar o dinheiro que subia a mais de dous contos de réis. Recebeu-o e gratificou generosamente o rapaz, a mãe dele e a sua cozinheira, a Genoveva.

Quando Augusto chegou, já estava inteiramente calma. Esperou que ele mudasse de roupa e viesse à sala de jantar, a fim de dizer-lhe:
– Augusto: se eu tivesse jogado o aluguel da casa no “bicho”.
você ficava zangado?
– Por certo! Ficaria muito e havia de censurar você com muita veemência, pois que uma dona de casa não…

– Pois, joguei.
– Você fez isto, Zilda?
– Fiz.
– Mas quem virou a cabeça de você para fazer semelhante tolice? Você não sabe que ainda estamos pagando despesas do nosso casamento?

– Acabaremos de pagar agora mesmo.
– Como? Você ganhou?
– Ganhei. Está aqui o dinheiro.

Tirou do seio o pacote de notas e deu-o ao marido, que se tornara mudo de surpresa. Contou as pelejas muito bem, levantou-se e disse com muita sinceridade. abraçando e beijando a mulher..
– Você tem muita sorte. É o meu anjo bom.

E todo o resto da tarde, naquela casa, tudo foi alegria.
Vieram Dona Iracema, o marido, o Carlito, as filhas e outros vizinhos.
Houve doces e cervejas. Todos estavam sorridentes, palradores; e o contentamento geral só não desandou em baile, porque os recém-casados não tinham piano. Augusto deitou patriotismo com o marido de Iracema.

Entretanto, por causa das dúvidas, no mês seguinte, quem fez os pagamentos domésticos foi ele próprio, Augusto em pessoa.

Revista Sousa Cruz, Rio, maio 1921.

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O Número da Sepultura de Lima Barreto

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