O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro - Vestibular1

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro

 

Resumo O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – parte I

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo.
Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…” O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro.

Brasileiros… Um povo novo? Que tipo de povo somos nós? A verdade é que muito já se escreveu sobre isso. E, no entanto, continuamos a fazer as mesmas perguntas… O Povo Brasileiro: vamos ver o que este livro O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro conta.

Meu livro O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro, mostra por que caminhos e como nós viemos, criando aquilo que eu chamo de Nova Roma. Roma com boa justificação… Roma por quê? A grande presença no futuro da romanidade, dos neolatinos é a nossa presença.

Isso é o Brasil, uma Roma melhor porque mestiça, lavada em sangue negro, em sangue índio, sofrida e tropical. Com as vantagens imensas de um mundo enorme que não tem inverno e onde tudo é verde e lindo, e a vida é muito mais bela… E é uma gente que acompanha esse ambiente com uma alegria de viver que não se vê em outra parte.

Esse país tropical, mestiço, orgulhoso de sua mestiçagem… Isso é que me levou muito tempo. Entender como isso se fez… Havia muita bibliografia sobre aspectos particulares, mas não uma visão de conjunto. Deixa eu contar pra vocês como é que isso se fez?

“Os iberos se lançaram à aventura no além-mar… desembarcavam sempre desabusados, atentos aos mundos novos, querendo fruí-los, recriá-los, convertê-los e mesclar-se racialmente com eles…”

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro
No Brasil a mestiçagem sempre se fez com muita alegria, e se fez desde o primeiro dia… Eu prometi contar como. Imagine a seguinte situação: uns mil índios colocados na praia e chamando outros: “venham ver, venham ver, tem um trem nunca visto”… E achavam que viam barcas de Deus, aqueles navios enormes com as velas enfurnadas… “O que é aquilo que vem?”

Eles olhavam, encantados com aqueles barcos de Deus, do Deus Maíra chegando pelo mar grosso. Quando chegaram mais perto, se horrorizaram. Deus mandou pra cá seus demônios, só pode ser.
Que gente! Que coisa feia! Porque nunca tinham visto gente barbada – os portugueses todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem banho no mar… Mas os portugueses e outros europeus feiosos assim traziam uma coisa encantadora: traziam faquinhas, facões, machados, espelhos, miçangas, mas sobretudo ferramentas.

Para o índio passou a ser indispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do lado fazia uma guerra pra tomá-la.

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – Crianças indígenas: junto à natureza
Ao longo da costa brasileira se defrontaram duas visões de mundo completamente opostas: a selvageria e a civilização. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente.
Aos olhos dos europeus os indígenas pareciam belos seres inocentes, que não tinham noção do “pecado”. Mas com um grande defeito: eram “vadios”, não produziam nada que pudesse ter valor comercial.

Serviam apenas para ser vendidos como escravos. Com a descoberta de que as matas estavam cheias de pau-brasil, o interesse mudou… Era preciso mão de obra para retirar a madeira.
Onde tinha algum europeu instalado na costa em contato com as naus, e portanto capaz de fornecer mercadoria, cada aldeia, e eram milhares de aldeias, levava uma moça pra casar com ele. Se ele transasse com a moça, então ele se tornava cunhado.

Ele passou a ter sogro, sogra, genros… ele passou a ser parente. Então o sabido do português, do europeu, conseguia desse modo pôr milhares de índios a serviço dele, pra derrubar pau-brasil…
A porta de entrada do branco na cultura indígena foi o “cunhadismo”. Através desse costume foi possível a formação do povo brasileiro. E da união das índias com os europeus nasceu uma gente mestiça que efetivamente ocupou o Brasil.

No ventre das mulheres indígenas começavam a surgir seres que não eram indígenas, meninas prenhadas pelos homens brancos – e meninos que sabiam que não eram índios… que não eram europeus.
O europeu não aceitava como igual. O que era ? Era uma gente “ninguém”, era uma gente vazia. O que significavam eles do ponto de vista étnico ? Eles seriam a matéria com a qual se faria no futuro os brasileiros…

Um dos primeiros núcleos povoadores surgiu em São Paulo, chefiado pelo português João Ramalho. Há quem afirme que ele tenha chegado ao planalto paulista antes mesmo da chegada de Cabral.
Os poucos registros da época supõem que ele teve mais de trinta mulheres índias e quase oitenta filhos mestiços. Um escândalo comentado numa carta do padre Manoel da Nóbrega de 1553!

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – Edificação antiga em SP: povoamento
“É principal estorvo para com a gentilidade que temos, por ser ele muito conhecido e aparentado com os índios. Tem muitas mulheres. Ele e seus filhos andam com irmãs e têm filhos delas… suas festas são de índios e assim vivem andando nus como os mesmos índios…” Trecho da carta de Manoel da Nóbrega

O povoamento se fez a partir do litoral. Na Bahia, em Pernambuco, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, em toda a costa os europeus geraram uma legião de mestiços.

Homens e mulheres chamados de mamelucos pelos jesuítas espanhóis, por acusa do aspecto rústico e da violência com que capturavam e escravizavam os indígenas, de quem descendiam.
“A expansão do domínio português terra adentro, na constituição do Brasil, é obra dos mamelucos…
O mameluco abriu seu mundo vasto andando descalço, em fila, por trilhas e estreitos sendeiros, carregando cargas no próprio ombro e no de índios e índias cativas…”

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – O Povo Brasileiro
Esses filhos das índias aprendem o nome das árvores, o nome dos bichos, dão nome a cada rio… Eles aprenderam, dominaram parcialmente uma sabedoria copiosa, que os índios tinham composto em dez mil anos.
Em dez mil anos os índios aprenderam a viver na floresta tropical, identificaram 64 tipos de árvores frutíferas, domesticaram muitas plantas, essas que a gente usa: mandioca, milho, amendoim… quarenta e tantas que nós demos ao mundo…

A mandioca faz parte do cardápio do brasileiro. Ela é cultivada e preparada em todo o país do mesmo modo que os indígenas ensinaram no começo da colonização. É uma planta preciosa porque não precisa ser colhida nem estocada. Mantém-se viva na terra por meses.
Herança indígena: canoa feita de tronco

Nas comunidades caiçaras, isoladas dos centros urbanos, é possível reviver um pouco da atmosfera do Brasil dos primeiros tempos. Os ancestrais dessa gente provavelmente descendem dos primeiros mestiços que habitaram o litoral.
A canoa, feita a partir do tronco de árvore, se parece com as usadas pelos índios. Ela é o único meio de transporte e garante a sobrevivência.

Em alguns lugares o recuo na história é ainda maior. Quinhentos anos após a chegada dos portugueses, é possível encontrar indígenas vivendo no litoral, próximo do Rio de Janeiro.

São guaranis, um povo nômade, de origem tupi, que hoje habita a Serra do Mar. Eles conseguiram resistir ao processo de extermínio de sua gente e à ocupação de suas terras. Mesmo depois de séculos de contato eles conseguiram preservar boa parte de sua cultura.

“Antigamente a terra era do índio guarani… Guarani passava com fruta do mato. A mistura era palmito. Hoje nós estamos que nem branco. Os brancos terminaram com a natureza.
Nosso trabalho a maioria é de lavoura; comemos numa panela só. A gente sente o guarani como puro brasileiro, porque muitos brancos dizem: ‘esses bugres aí, índio não vale nada’. Não é isso não. O puro guarani é o brasileiro puro… ”

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – Depoimento de Cacique Miguel
“Meu nome é Olívio Zeferino. Não sou índio puro, sou mestiço guarani… porque o que causa essa questão de ser ou não ser é essa identidade em que você é metade. Então, por exemplo, você é um mestiço.

Tem uns que assumem a cultura indígena. Tem uns que são mestiços e assumem a cultura do branco. Então uma pessoa que nasceu com fisionomia de índio não adianta querer falar que é branca, porque todo mundo vê. Agora, o importante é você assumir, porque mesmo sendo mestiço você pode lutar pelo seu povo. ”

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – Depoimento de Olívio Zeferino, estudante de Filosofia na USP
Há duas contribuições fundamentais nesse encontro: uma mestiçagem do corpo e uma mestiçagem da cultura. Em nós vivem milhões de índios, índios que foram esmagados porque a brutalidade do branco com o índio foi terrível. Esmagados porque o europeu tinha muita doença.

Os índios não tinham cárie dentária, nem gripe, nem tuberculose… Cada enfermidade dessas era uma espécie de guerra biológica, matou índios em quantidade…
Estima-se em cinco milhões o número de indígenas que habitavam as terras brasileiras na ocasião da chegada dos portugueses. Dois séculos depois, eles não chegavam a dois milhões.

Hoje, os sobreviventes somam duzentos e setenta mil habitantes, menos de meio por cento da população brasileira. Em cinco séculos desapareceram para sempre cerca de oitocentas etnias. Eram povos de diferentes culturas, que ocupavam vastos territórios de características geográficas distintas.

Mas esses índios que morriam sobreviviam naqueles mestiços que nasciam. Somos nós que carregamos no peito esses índios, os genes deles para reprodução e a sabedoria deles da mata. O Brasil só é explicável assim, é uma coisa diferente do mundo…

A população paulista dos primeiros tempos vivia numa economia de subsistência. Não podia contar com a riqueza gerada pela exportação de açúcar. O regime de trabalho, voltado para o sustento, e não para o comércio, era quase o mesmo da aldeia tribal.

A base da agricultura era indígena, enriquecida pela contribuição dos europeus, que trouxeram os animais domésticos. As casas passaram a ser de taipa, cobertas por telhas. E equipamentos como o monjolo vieram para ficar. Até hoje facilitam o trabalho de beneficiar o milho.
“A importância dele é que a gente, por exemplo, planta, depois colhe, depois leva para lá para ceifar farinha pra gente gastar. A gente cria galinha pra gastar… Dá um pouco pra criação, pro gado, pro porco…”

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – Depoimento do Sr. Vicente
Era uma sociedade que, por ser mais pobre, era também mais igualitária. A miscigenação era livre, porque quase não havia entre eles quem não fosse mestiço. Até meados do século XVIII essa gente falava uma língua aprendida com os índios, o “nheengatu” . Um jeito de falar tupi com boca de português, inventado pelos padres jesuítas.

Em suas andanças, os paulistas foram aumentando o tamanho do Brasil. Na esperança de encontrar minérios, eles buscavam no fundo das matas a única mercadoria que estava ao seu alcance: os indígenas.
As bandeiras partiam de São Paulo levando mais de duas mil pessoas. Eram homens e mulheres, famílias inteiras de mestiços que iam fazendo roça de milho e feijão pelo caminho, fundando vilarejos, caçando e pescando pra comer.

Eles ignoraram as fronteiras portuguesas para aprisionar os habitantes da terra e depois vendê-los como escravos aos engenhos do nordeste. E não pouparam sequer os índios convertidos à fé católica que habitavam as missões jesuíticas do sul do país e do Paraguai.

O modelo jesuítico procurava assegurar a eles uma existência própria dentro das Missões, ao contrário dos colonos, que tratavam o indígena como mão de obra escrava.
Desde o princípio houve um partido de jesuítas que tinha uma utopia para os índios. Era fazer dos índios pios seráficos, religiosos, gente tão boa que era a melhor gente do mundo. Eles achavam que era a maneira de fazer o Paraíso na Terra.

A religião pegou mesmo foi com as filhas das índias e das negras, as mestiças, que, não podendo satisfazer-se com a religião dos índios e dos negros, aceitavam e gostavam das novenas, das ladainhas, das missas, das procissões… E assim surgiu esse catolicismo santeiro e festeiro, que foi um belo catolicismo do Brasil até pouco tempo.
“Minas foi o nó que atou o Brasil e fez dele uma coisa só.”

Trecho do livro O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro
No final do século XVII, a descoberta de ouro pelos paulistas nas terras do interior mudou os rumos do Brasil Colônia. Em menos de dez anos, chegaram à região das Minas mais de 30 mil pessoas, vindas de todo o país. Eram paulistas, baianos, senhores de engenho falidos e, principalmente, escravos.

No começo da exploração muitos morriam de fome com o ouro nas mãos, já que não havia o que comer. Os tropeiros garantiam a sobrevivência vendendo comida e panos de algodão. Atraídos pelo ouro, muitos deles acabaram se fixando no cruzamento das rotas de comércio e estabeleceram as primeiras povoações. Desse modo abriram caminho para a ocupação do interior do país.

“No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo, veja só: eram multidões de mestiços, crioulos daqui mesmo.”

Trecho do livro O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro
Setenta anos depois, a capitania de Minas Gerais já era a área mais populosa da América, com trezentos mil habitantes. Eram pessoas que vinham fazer fortuna, como os garimpeiros que ainda hoje trabalham na região das Minas.

“Aqui se trabalha de segunda a sábado, das oito da manhã as 3 tarde, e sábado até 11 horas. Aqui mesmo em Antonio Pereira, Ouro Preto, garimpo de topázio imperial. Tudo o que tenho em casa é tirado do garimpo. Não tem um alfinete, em casa, que seja resultado de trabalho em firma, porque firma não dá nada, ganhar cem contos não dá. Garimpo custa a dar dinheiro, mas quando dá, é muito.

A gente ganha bolada de dólar. Quando eu acho uma pedra grande eu falo assim: “Eu tirei a vaca do atoleiro, tirei uma pedra boa e agora vou descansar, vou comprar o que eu desejar na vida…” . Todo mundo fica alegre quando tira um topázio bom. Bebe cachaça… atropela carro no asfalto… é isso aí, o garimpo é isso aí.”

O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro – Depoimento de Genesco Aparecido de Souza, garimpeiro
A descoberta do ouro mudou totalmente a vida da colônia. A mineração desbancou a indústria açucareira, que era então a principal atividade econômica. A sociedade estava estruturada nos moldes da fazenda – da casa-grande e da senzala – vivendo ao redor do senhor de engenho.

O país prosperava graças ao trabalho escravo de três milhões de negros. O açúcar, no entanto, começava a sofrer concorrência das Antilhas.

A grande contribuição da cultura portuguesa aqui foi fazer o engenho de açúcar… movido por mão de obra escrava. Por isso, começaram a trazer milhões de escravos da África. O negócio maior do mercado mundial era a venda de açúcar para adoçar a boca do europeu e depois a remessa de ouro. Mas a despesa maior era comprar escravos.

Os europeus sacanas iam à África e faziam grandes expedições de caça de negros que viviam ali uma vida como a dos índios aqui, com sua cultura, com sua língua, com seu modo… Metade morria na travessia, na brutalidade da chegada, de tristeza, mas milhões deles incorporaram-se ao Brasil.
O CUSTO DO TRÁFICO DE ESCRAVOS NOS 300 ANOS DE ESCRAVIDÃO FOI DE 160 MILHÕES DE LIBRAS-OURO. CERCA DE 50% DO LUCRO OBTIDO COM A VENDA DO OURO E DO AÇÚCAR.

E esses negros não podiam falar um com o outro, veja esse desafio como é tremendo. Eles vinham de povos diferentes. Então, o único modo de um negro falar com o outro era aprender a língua do capataz, que nunca quis ensinar português. Milagrosamente, genialmente esses negros aprenderam a falar português.

Quem difundiu o português foi o negro, que se concentrou na área da costa de produção do açúcar e na área do ouro… Mas preste atenção: com os negros escravos vinham as molecas de 12 anos, bonitinhas. Uma moleca daquelas custava o preço de dois ou três escravos de trabalho. E os donos de escravos queriam muito comprar, e os capatazes também. Comprar uma moleca pra sacanagem.

Mas essas molecas pariam filhos, e quem era o filho? Era como o filho da índia. Ele não era africano, visivelmente. Ele não era índio. Quem era ele ? Ele também era um “Zé ninguém” procurando saber o que era. Ele só encontraria uma identidade no dia em que se definisse o que é o brasileiro.

Nestas terras, ricas em ouro e diamante, muitos escravos conseguiram comprar a liberdade e enriquecer.
Assim surgiu uma classe intermediária formada de mulatos e negros libertos, que conseguiram melhorar de vida e se dedicar às atividades de ourives, carpinteiros, ferreiros e artistas. Ouro Preto viu florescer a mais alta expressão da civilização brasileira.

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