Menu fechado
Resumo de Livros e Obras Literárias por Vestibular1

O Santo Inquérito de Dias Gomes

 

Resumo O Santo Inquérito de Dias Gomes – parte II

São as razões de Hitler, de Franco e de MacCarthy. Vejamos o que diz um desses defensores da Santa Inquisição, o Padre José Bernardo: “(…) tanto o Estado como a Igreja se viam em face de um perigo crescente e ameaçador.
Toda a sociedade humana, a ordem civil e religiosa, construída com imensos esforços, toda a civilização e cultura do Ocidente, o progresso, a união e a paz estavam ameaçados de dissolução.”

Ameaçados por quê? Pelas heresias, sendo o protestantismo e as práticas judaizantes dos cristãos-novos as que mais preocupavam a hegemonia católica. Na defesa dessa hegemonia, justificava-se o emprego de medidas que, embora contrariando o espírito cristão, encontravam acolhida entre os teólogos da Igreja de Cristo.
“Conforme São Tomás, todo aquele que tem o direito de mandar tem também o de punir; e a autoridade que tem o poder de fazer leis tem também o de lhes dar a sanção conveniente. Ora, as penas espirituais nem sempre bastam. Alguns as desprezam. É por isso que a Igreja deve possuir e possui o direito de infligir também penas temporais”.

E embora o braço eclesiástico não decretasse diretamente as penas de morte, na verdade as endossava ao relaxar a vítima ao braço secular, para que este as aplicasse.” “É, portanto, justíssimo que a pena de morte seja aplicada aos que, propagando a heresia com obstinação, perdem o bem mais precioso do povo cristão, que é a fé, e, por divisões profundas, semeiam nele graves desordens.”

Em Portugal e no Brasil foram os cristãos-novos as maiores vítimas desse direito de punir invocado pela Igreja no poder. Quando, em 1496, Dom Manoel desposou Dona Isabel, filha dos reis católicos, esta exigiu que todos os judeus fossem expulsos de Portugal antes de ela lá pisar.

Dom Manoel apressou-se em satisfazer a exigência da noiva, decretando que todos os judeus e mouros forros se retirassem do reino. Entretanto os navios que deveriam transportá-los à África lhes foram negados, no momento em que eles se reuniam nos portos, prontos para partir, seguindo-se então uma terrível perseguição, à qual poucos sobreviveram. Estes foram convertidos à força, constituindo os cristãos-novos, no íntimo fiéis à sua antiga fé.

Acreditando representarem permanente perigo às instituições e à civilização cristã, a Santa Inquisição os mantinha sob severa vigilância. Justificando essa atitude de autodefesa, o Padre José Bernardo traça um paralelo entre o Tribunal do Santo Ofício e os Comitês de Atividades Antiamericanas, criados pelo macarthismo.

Diz ele: “Será lícito reprimir a heresia pelo uso da forca, quando ela constitui um perigo iminente para a ordem religiosa e civil?” A autoridade civil já dera, havia muito, a resposta afirmativa e continua ainda hoje na mesma disposição.

O Santo Inquérito de Dias Gomes – Siga um exemplo: contrariando seus princípios de completa liberdade democrática, os Estados Unidos da América do Norte julgaram necessário proteger-se contra a desintegração da sua sociedade.

Começaram a citar diante dos tribunais os comunistas declarados “por pregarem uma ideologia revolucionária”, com o fim confessado de derrubar a ordem existente e a constituição democrática… Este proceder contra os comunistas é uma genuína restauração dos princípios inquisitoriais da Idade Média.

Até quando esses princípios serão invocados, até quando forjarão mártires como Branca e Augusto, ou criminosos por omissão, como Simão Dias? Até quando as fogueiras reais ou simplesmente morais (estas não menos cruéis) serão usadas para eliminar aqueles que teimam em fazer uso da liberdade de pensamento?

Branca é realmente culpada de heresia. De acordo com a monitória do inquisidor-geral, instruções para a configuração das heresias, ela está “enquadrada” em vários artigos, sendo, além disso, acusada de atos contra a moralidade e da posse de livros proibidos.
Mas, do princípio ao fim, ela caminha de coração aberto ao encontro de seu destino, acreditando que a sinceridade e a pureza que lhe moram no coração a absolvem de tudo.

Mais importante do que conhecer e seguir as leis e os preceitos ao pé da letra não é estar possuída de bondade? Se ela traz Deus em si mesma, e se Deus é amor, isso não a redime inteiramente? E é isso, justamente, que a perde, não percebe que os homens que a julgam agem segundo uma ideia preconcebida, que subverte a verdade, embora eles também não tenham consciência disso e se considerem honestos e justos.

E, sem dúvida, o são, se os considerarmos segundo seu ponto de vista. Branca nada percebe até o fim, quando já é tarde demais. Sua perplexidade cede lugar então a um princípio de consciência, que inicialmente a aniquila e depois a faz erguer-se na defesa fatal da própria dignidade.

O Santo Inquérito de Dias Gomes: Branca nada tem de comum com Joana d’Arc, a não ser o fim trágico. Ela não é uma iluminada, não ouve vozes celestiais, nem se julga em estado de graça. É mulher. E para a mulher o amor é a verdadeira religião, o casamento a sua liturgia e o homem a humanização de Deus. Não se julga destinada a grandes feitos, nem a uma vida excepcional.

Quer casar-se e ter quantos filhos puder seu ventre anseia pela maternidade. Nada tem das maneiras masculinas de Joana, nem de seu espírito de sacrifício; é feminina, frágil e vê no prazer uma prova da existência de Deus. A grandeza que atinge, no final, ao enfrentar o martírio é dada pela sua recusa em acumpliciar-se com os assassinos de Augusto. É um gesto de protesto e também de desespero.

Padre Bernardo era jesuíta, muito embora os inquisidores fossem, em geral, dominicanos. Mas, nas visitações ordenadas para o Brasil, os jesuítas tiveram papel de destaque, vindo a ser, depois, suas maiores vítimas, com a perseguição a eles movida pelo Marquês de Pombal. Além disso, aqui, como em toda a peça, seguimos a lenda, procurando harmonizá-la, sempre que possível, com a verdade histórica e subordinando ambas aos interesses maiores da obra dramática.

A conduta do Padre Bernardo para com Branca, a princípio, é impecável. Ele quer realmente salvá-la, curá-la de seus “desvios”, repô-la nos trilhos de sua ortodoxia, e acredita, sinceramente, que assim procede por dever de ofício e gratidão.

O Santo Inquérito de Dias Gomes: quando a paixão carnal (que desde o início o motivou inconscientemente) começa a torturá-lo, ele só encontra um caminho para combatê-la: a punição de Branca, que será, em última análise, à sua própria punição. Mas em nenhum momento ele tem consciência de estar sacrificando Branca à sua própria purificação.

Sua convicção é de que ela é culpada, herege irredutível e irrecuperável, sendo justa a pena que lhe é imposta. Também o Visitador do Santo Ofício, ao relaxá-la ao braço secular, tem a consciência tranquila está certo de ter esgotado todos os esforços para levá-la ao arrependimento, está convicto de ter usado de toda a tolerância e toda a misericórdia e chegado ao limite onde qualquer irresolução na defesa da fé e da sociedade importa num suicídio dessa mesma fé e dessa mesma sociedade.

A tranquilidade com que ordena a aplicação de torturas em Augusto Coutinho, exigindo somente que sejam observadas as regras impostas pelo inquisidor-geral, não revela nele qualquer sintoma de sadismo, mas apenas a deformação a que pode chegar a mente humana para a defesa de uma causa.
Olhado através de seu próprio prisma de interesses, motivações e condicionamento histórico, o bispo visitador pode ser considerado até liberal, equilibrado, humano e justo – muito embora seja ele o executor da tarefa hedionda, desumana e cruel.

Essa deformação, em outro ângulo, pode ser percebida também no Notário. O necessário esquematismo da personagem pode levar à sua desumanização, e isso seria um erro. Ele é o que comumente chamamos “um bom sujeito”. Se tivesse oportunidade de encontrar-se a sós com Branca, talvez chegasse até a compadecer-se de sua sina e a pensar num jeito de livrá-la. Diante do Visitador, porém, ele é um autômato, em que pesem as suas irreverentes interrupções durante a inquirição.

No decorrer do processo, ele se transforma na peça de uma máquina e jamais lhe passaria pela mente emperrar deliberadamente essa engrenagem. A sua irritação ao ver Branca não compreender a inexorabilidade do processo a que está submetida é uma prova de sua humanidade, embora isto não chegue a conscientizá-lo. Mais consciência da iniquidade de seu papel tem o Guarda – também certo da impossibilidade de modificá-lo.

Diz a lenda que, em noites de plenilúnio, quando o nordeste sopra na copa das árvores, Branca desliza pelas ruas silenciosas da capital paraibana e vai visitar o noivo prisioneiro e torturado nos subterrâneos do Convento de São Francisco. Um dos mais belos aspectos da estória é esse amor e a fidelidade a ele.

O Santo Inquérito de Dias Gomes: mas não é apenas o amor que tem por Branca o que leva Augusto a preferir a morte a acusá-la, é a certeza de que sua vida não vale a indignidade que querem obrigá-lo a cometer. Augusto é o homem em defesa de sua integridade moral, cônscio de que o ser humano tem em si mesmo algo de que não pode abrir mão, nem mesmo em troca da liberdade. Ele troca a vida pelo direito de vivê-la com grandeza, ao contrário de Simão.

Neste, prevalece o sentimento de salvar-se a qualquer preço. Mesmo ao preço da própria dignidade. É a voz que não se levanta diante de uma injustiça praticada contra outrem, que não protesta contra uma violência, se essa violência não o atinge diretamente, esquecido de que as violências contra a criatura humana geram, quase sempre, uma reação em cadeia que talvez não pare no nosso vizinho.

Seu receio de comprometer-se leva-o a assistir à morte de Augusto sem um gesto ou uma palavra em sua defesa. Essa omissão o torna cúmplice, como cúmplices são todos aqueles que se omitem por egoísmo ou covardia, podendo fazer valer sua voz. Quem cala, de fato, colabora.

Voltar a ler o resumo O Santo Inquérito de Dias Gomes – parte I

 

O Santo Inquérito de Dias Gomes

Publicado em:Resumos de livros

Você pode gostar também