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Resumo de Livros e Obras Literárias por Vestibular1

O Santo Inquérito de Dias Gomes

 

Resumo O Santo Inquérito de Dias Gomes – parte I

 

O Santo Inquérito de Dias Gomes – Primeiro ato

O palco contém vários praticáveis, em diferentes planos. Não constituem propriamente um cenário, mas um dispositivo para a representação, que é completado por uma rotunda. É total a escuridão no palco e na plateia. Ouve-se o ruído de soldados marchando. A princípio, dois ou três, depois quatro, cinco, um pelotão. Soa uma sirene de viatura policial, cujo volume vai aumentando, juntamente com a marcha, até chegar ao máximo.

Ouvem-se vozes de comando confusas, que também crescem com os outros ruídos até chegarem a um ponto máximo saturação, quando cessa tudo, de súbito, e acendem-se as luzes. As personagens estão todas em cena: Branca, o Padre Bernardo, Augusto Coutinho, Simão Dias, o Visitador, o Notário e os guardas.

PADRE BERNARDO: Aqui estamos, senhores, para dar início ao processo. Os que invocam os direitos do homem acabam por negar os direitos da fé e os direitos de Deus, esquecendo-se de que aqueles que trazem em si a verdade têm o dever sagrado de estendê-la a todos, eliminando os que querem subvertê-la, pois quem tem o direito de mandar tem também o direito de punir.
É muito fácil apresentar esta moça como um anjo de candura e a nós como bestas sanguinárias. Nós que tudo fizemos para salvá-la, para arrancar o Demônio de seu corpo. E se não conseguimos, se ela não quis separar-se dele, de Satanás, temos ou não o direito de castigá-la?
Devemos deixar que continue a propagar heresias, perturbando a ordem pública e semeando os germes da anarquia, minando os alicerces da civilização que construímos, a civilização cristã? Não vamos esquecer que, se as heresias triunfassem, seríamos todos varridos! Todos!
Eles não teriam conosco a piedade que reclamam de nós! E é a piedade que nos move a abrir este inquérito contra ela e a indiciá-la. Apresentaremos inúmeras provas que temos contra a acusada. Mas uma é evidente, está à vista de todos: ela está nua!
BRANCA: (Desce até o primeiro plano.) Não é verdade!
PADRE BERNARDO: Desavergonhadamente nua!

BRANCA: Vejam, senhores, vejam que não é verdade! Trago as minhas roupas, como todo mundo. Ele é que não as enxerga!
Padre sai, horrorizado.
BRANCA: Meu Deus, que hei de fazer para que vejam que estou vestida? É verdade que uma vez – numa noite de muito calor – eu fui banhar-me no rio… e estava nua. Mas foi uma vez. Uma vez somente e ninguém viu, nem mesmo as guriatãs que dormiam no alto dos jeribás!
Será por isso que eles dizem que eu ofendi gravemente a Deus? Ora, o senhor Deus e os senhores santos têm mais o que fazer que espiar moças tomando banho altas horas da noite. Não, não é só por isso que eles me perseguem e me torturam. Eu não entendo… Eles não dizem… só acusam, acusam! E fazem perguntas, tantas perguntas!

VISITADOR: Come carne em dias de preceito?
BRANCA: Não…
VISITADOR: Mata galinhas com o cutelo?
BRANCA: Não, torcendo o pescoço.
VISITADOR: Come toicinho, lebre, coelho, polvo, arraia, aves afogadas?
BRANCA: Como…
VISITADOR: Toma banho às sextas-feiras?

BRANCA: Todos os dias…
VISITADOR;: E se enfeita?
BRANCA: Também…
VISITADOR: Quando tempo leva enfeitando-se?
NOTÁRIO: Quanto tempo?
TODOS: Quanto tempo? Quanto tempo?
Saem todos, exceto Branca.

BRANCA: Não sei, não sei… Oh, a minha cabeça… Por que me fazem todas essas perguntas, por que me torturam? Eu sou uma boa moça, cristã, temente a Deus. Meu pai me ensinou a doutrina e eu procuro segui-la. Mas acho que isso não é o mais importante.
O mais importante é que eu sinto a presença de Deus em todas as coisas que me dão prazer. No vento que me fustiga os cabelos, quando ando a cavalo. Na água do rio, que me acaricia o corpo, quando vou me banhar. No corpo de Augusto, quando roça no meu, como sem querer. Ou num bom prato de carne-seca, bem apimentado, com muita farofa, desses que fazem a gente chorar de gosto.
Pois Deus está em tudo isso. E amar a Deus é amar as coisas que Ele fez para o nosso prazer. É verdade que Deus também fez coisas para o nosso sofrimento. Mas foi para que também o temêssemos e aprendêssemos a dar valor às coisas boas.
Deus deve passar muito mais tempo na minha roça, entre as minhas cabras e o canavial batido pelo sol e pelo vento, do que nos corredores sombrios do Colégio dos Jesuítas. Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver.
Tudo isso que estou lhes dizendo, é na esperança de que vocês entendam… Porque eles, eles não entendem… Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo Demônio. E isso não é verdade! Não acreditem!
Se o Demônio estivesse em meu corpo, não teria deixado que eu me atirasse ao rio para salvar Padre Bernardo, quando a canoa virou com ele!…

PADRE BERNARDO: (Fora de cena, gritando.) Socorro! Aqui Del rei!

Branca sai correndo. Volta, amparando Padre Bernardo, que caminha com dificuldade, quase desfalecido. Ela o traz até o primeiro plano e aí o deita, de costas. Debruça-se sobre ele e põe-se a fazer exercícios, movimentando seus braços e pernas, como se costuma fazer com os afogados. Vendo que ele não se reanima, cola os lábios na sua boca, aspirando e expirando, para levar o ar aos seus pulmões.

PADRE BERNARDO: (De olhos ainda cerrados, balbucia.) Jesus… Jesus, Maria, José…
Ele vai se reanimando aos poucos. Abre os olhos e vê Branca, de joelhos, a seu lado.
PADRE BERNARDO: Obrigado, Senhor, obrigado por terdes atendido ao meu apelo desesperado… Não sou merecedor de tanta misericórdia. (Ele beija repetidas vezes um crucifixo que traz na mão.) Alma de Cristo, santificai-me; Corpo de Cristo, salvai-me; Sangue de Cristo, inebriai-me…

BRANCA: Achava melhor o senhor deixar pra rezar depois. Agora era bom que virasse de bruços e baixasse a cabeça pra deixar sair toda essa água que engoliu.
Ajudado por ela, ele vira de bruços e baixa a cabeça. Ela pressiona sua nuca, para fazer sair a água.
BRANCA: Se eu não chego a tempo, o senhor bebia todo o rio Paraíba…

PADRE BERNARDO: (Senta-se, meio atordoado ainda.) A minha canoa?…
BRANCA: A canoa? Seguiu emborcada, rio abaixo. Tinha alguma coisa de valor?
PADRE BERNARDO: Tinha, o cofre com as esmolas…
BRANCA: Muito dinheiro?
PADRE BERNARDO: Bastante.
BRANCA: Agora deve estar no fundo do rio.

PADRE BERNARDO: Só consegui agarrar o crucifixo; tinha de escolher, uma coisa ou outra…
BRANCA: Foi uma pena. Com o dinheiro, o senhor talvez comprasse dois crucifixos. E quem sabe ainda sobrava.
PADRE BERNARDO: Não diga isso, filha!
BRANCA : Por quê?
PADRE BERNARDO: Porque é o Cristo… Não é coisa que se compre. Tivesse eu escolhido o cofre e certamente a esta hora estaria no fundo do rio com ele. Foi Jesus quem me salvou.

BRANCA: (Timidamente.) Eu ajudei um pouco…
PADRE BERNARDO: Eu sei. Você foi o instrumento. Não estou sendo ingrato. Sei que arriscou a vida para me salvar.
BRANCA: Não foi tanto assim. O rio aqui não é muito fundo e a correnteza não é lá tão forte. Quando a gente está acostumada…
PADRE BERNARDO: Acostumada?…

BRANCA: Venho banhar-me aqui todos os dias. Sei nadar e salvar alguém que está se afogando. É só puxar pelos cabelos. Com o senhor foi um pouco difícil por causa da tonsura. Tive de puxar pela batina. Me cansei um pouco, mas estou contente comigo mesma.
Hoje vai ser um dia muito feliz para mim.

PADRE BERNARDO: Deus lhe conserve essa alegria e lhe faça todos os dias praticar uma boa ação, como a de hoje.

(O santo inquérito, 1966.)
O Santo Inquérito de Dias Gomes

O que sabemos e o que pensamos das personagens:
Parece fora de qualquer dúvida que Branca Dias, realmente, existiu e foi vítima da Inquisição. Segundo a lenda, bastante conhecida no Nordeste, Branca foi queimada, como Joana d’Arc.
A história não é tão precisa. Há controvérsia. Opinam alguns pesquisadores que, embora tendo sofrido perseguições, Branca deve ter morrido na cama, como os generais.

Mas nenhum põe a mão no fogo. Nelson Werneck Sodré inclina-se pela primeira versão. E se Branca, que segundo Ademar Vidal “era jovem de boniteza excepcional”, não terminou seus dias numa fogueira, bem poderia ter tido essa sorte, pois os autos-de-fé de meados do século XVIII, em Lisboa, registram a condenação de cerca de quarenta mulheres procedentes do Brasil.

Aqui mesmo, na Bahia, em fins do século XVI, a octogenária Ana Roiz foi queimada simplesmente “por ter, doente, tresvariando, dito desatinos”. Alguém (um ancestral dos modernos dedos-duros) ouvira e denunciara. Também com relação à sua nacionalidade divergem os pesquisadores, alguns dando-a como portuguesa banida para o Brasil pelas perseguições antissemitas da Inquisição lusa, no século XVI. Viriato Corrêa, que estudou o assunto, endossa essa versão. Mas a maioria afirma ter sido ela brasileira de nascimento, e paraibana.

Ademar Vidal chega a citar datas precisas: nascimento “na capital da Paraíba em 15 de julho de 1734, tendo sido seus pais Simão Dias e Dona Maria Alves Dias, ambos da terra de André Vidal” , e morte no “auto-de-fé de 20 de março de 1761, às seis horas da tarde, em Lisboa, no lugar onde demora o Limoeiro”. Também quanto ao lugar da execução há divergência, querendo alguns que tenha sido aqui mesmo, no Brasil.

O Santo Inquérito de Dias Gomes: enfim, história e estória entram em choque e esta é uma briga para historiadores e folcloristas. A mim, como dramaturgo, o que interessa é que Branca existiu, foi perseguida e virou lenda.

A verdade histórica, em si, no caso, é secundária; o que importa é a verdade humana e as ilações que dela possamos tirar. Se isto não aconteceu exatamente como aqui vai contado, podia ter acontecido, pois sucedeu com outras pessoas, nas mesmas circunstâncias, na mesma época e em outras épocas. E continua a acontecer.

Muito embora a Santa Inquisição tenha hoje vários defensores, que procuram amenizar a imagem que dela fazemos e diminuir a responsabilidade da Igreja (a nova Igreja, justiça lhe seja feita, a Igreja de Paulo VI, procura ser, na teoria e na prática, a condenação formal de espírito e dos métodos do Santo Ofício), a verdade é que as razões apresentadas em sua defesa são as mesmas de todos os opressores, quase sempre sinceramente convencidos de que seus fins justificar os meios.

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Publicado em:Resumos de livros

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