O Vermelho e o Negro de Stendhal II - Vestibular1

O Vermelho e o Negro de Stendhal II

O Vermelho e o Negro de Stendhal

 

Resumo O Vermelho e o Negro de Stendhal (Le Rouge et le Noir) – parte II

Segundo Ato: No Seminário – O Vermelho e o Negro de Stendhal
No Seminário Julien assumiu um postura arrogante. Enxergava aqueles seminaristas como seres grosseiros; camponeses que preferiam ganhar o pão recitando algumas frases decoradas do latim a cultivar a terra. Uma situação que, na verdade, não era tão diferente da sua. Mas seu gosto pela leitura e a capacidade de julgar por si mesmo o faziam diferente.

Contrastando sua capacidade com a dos outros, deu-se conta de sua superioridade. Através dessa observação, que fizera nos primeiros dias, sonhou com sucessos imediatos e viu-se ocupando posições de destaque. Nosso jovem herói, tão dado a pensar a vida como uma guerra, errou.

Esqueceu-se de fazer o reconhecimento do campo inimigo (conhecer as regras do jogo) e a partir daí definir suas táticas. Esqueceu de que, para saber agir como padre, para ser padre, deveria dominar e interiorizar o funcionamento do campo religioso. Havia um conjunto de pressupostos consolidados (doxa) que davam sustentação a esse campo, independente da vontade de Julien.

O esforço que Julien fazia para ser o primeiro nos diversos cursos de dogma e de história eclesiástica era visto como um enorme pecado. O inimigo número um da igreja naquele momento eram os livros.
O Iluminismo e a Revolução Burguesa deixaram uma lição: a única coisa importante é a submissão do coração. Vencer nos estudos, mesmo sacros, é suspeito. O pensamento, a busca do conhecimento, trás em si o poder de libertação, de subversão. Todo raciocínio ofende.

A atitude de Julien, olhando sempre direto nos olhos, com ares de quem está sempre pensando, manteve os companheiros à distância. Ninguém queria relacionar-se com o jovem “Martinho Lutero”, como ficou conhecido. Julien era como uma nota musical entoada fora do tom. Desafinava.
Percebeu, depois de algum tempo, que a diferença não se tolerava e que nada conseguiria com aquele seu jeito de agir.

Para adaptar-se àquele novo espaço social, Julien teve que ajustar suas ações às normas de conduta daquele campo: a maneira de andar, de mover os braços, os olhos, o tom da voz, o conteúdo das conversas. Tudo deveria ser feito com resignação, numa economia constante de energia. Julien percebeu, então, que “no seminário, é o modo de se comer um ovo que revela os progressos feitos na vida devota”(:218).

Além desse esforço de comportar-se de forma mais condizente com os padrões de um jovem padrezinho, Julien teve o cuidado de observar as disputas de posição entre aqueles que representavam a ortodoxia e, a partir daí, definir qual o melhor partido a tomar.
Entre o diretor do Seminário, o abade Pirard, jansenista, e seu inimigo, o senhor de Frilair, Vigário Geral de Besançon, jesuíta. Julien alia-se ao primeiro, tomando-o como confessor e amigo.

Pela postura sempre tão calculista e maquiavélica de Julien, esperávamos que se aliasse ao senhor de Frilair, representado internamente no Seminário pelo Padre Castanède. Talvez por uma leitura errada das posições naquele campo Julien tenha se aproximado do Abade Pirard. Isso num primeiro momento. Depois a atenção e carinho que o Abade tinha por ele o conquistaram definitivamente.

O abade Pirard foi diretor do seminário durante quinze anos, boa parte dos quais envolvido em brigas com o senhor de Frilair. As disputas, que aconteciam ao nível da ortodoxia, refletiam nos seguidores de uma (jansenismo) ou outra posição (jesuítas). Julien pôde sentir isso na pele.

O abade Pirard nomeou Julien, seu protegido, o explicador do Novo e Antigo Testamentos. Na prática, isso lhe conferia uma posição mais elevada na hierarquia em relação aos outros seminaristas (representava que seu capital tinha aumentado): podia comer sozinho, tinha a chave do jardim podendo passear quando quisesse. Pouco a pouco tornou-se de mau gosto chamá-lo de “Martinho Lutero”.

Chegou à época dos exames. Os examinadores eram nomeados pelo Vigário Geral de Frilair. Um examinador pôs-se a falar de Horácio, Virgílio e outro autores profanos. Julien aprendera de cor um grande número de passagens daqueles autores.

Arrastado pelo sucesso, esqueceu em que lugar se achava e na companhia de quem. Depois de vários minutos recitando e parafraseando com entusiasmo odes de Horário, percebeu que caíra numa cilada: o examinador fechou a cara e reprovou-lhe o tempo perdido com estudos e ideias inúteis. Foi com prazer que o Vigário Geral colocou o número 198 ao lado do nome de Julien: o protegido do abade Pirard não conseguira uma colocação melhor. Através de Julien, o Vigário atingira seu inimigo.

Mas, por que Julien, tão ambicioso, não se aliara ao Vigário? A forma como as ações de Julien são construídas nos indica a complexidade de sua personalidade. Julien não é vilão, nem mocinho. Nada se distancia mais dele do que o tipo ideal desses dois extremos, imortalizado pelos personagens das novelas medievais. O carinho e a preocupação que o velho abade Pirard tinha por ele, fez Julien considerá-lo como um pai.

Em O Vermelho e o Negro de Stendhal inicialmente construímos a imagem de um jovem que ocultava sob um rosto singelo, a resolução “inquebrantável de expor-se a mil mortes, contanto que chegasse a fazer fortuna “(:33) Porém, muitas vezes diante de situações onde esperamos uma determinada conduta, ele nos surpreende e se surpreende.

É no processo de conhecimento do mundo que ele realiza o autoconhecimento. Mas, quem pode dizer que se conhece ou tem a capacidade de prever todas suas ações em todos os momentos da vida social?

Todos nós somos portadores de determinado sistema de disposições duráveis, que nos capacita a compartilhar determinadas realidades sociais. Se entre o habitus e as situações concretas há um nível de previsibilidade das ações (conforme visto anteriormente), também há o da imprevisibilidade. Isto aparece em Julien quando se envolve com alguém, sente carinho.

Neste momentos seu racionalismo, que procura numa ardente meditação interior suas razões de agir, volatiza-se. Não consegue pensar antes de agir e nem de pensar como o outro está pensando para lhe surpreender com um xeque-mate. Isso é mais visível quando está apaixonado. Aí se estabelece um duelo interior infernal entre a razão e o coração.

O inevitável na história do abade Pirard acontece: é obrigado a pedir demissão do seu cargo, devido ao crescente número de intrigas e da certeza que seria demitido. O abade Pirard tinha como amigo e aliado em Paris o Marquês de La Mole.

Preocupado com os rumos que a vida do jovem Sorel poderia tomar naquele seminário com a sua ausência, o Abade convence o Marquês a torná-lo como seu secretário particular.
Terceiro Ato: Nos salões de Saint -Germain

Julien não se continha de tamanha felicidade. Finalmente deixaria aquele lugar sombrio, sem vida. Depois daquela temporada interno no seminário, entendeu que a cor do hábito não poderia ser outra. Iria para Paris. Quem poderia imaginar, um jovem camponês nos salões da alta sociedade parisiense ? Nem ele próprio.

O provinciano Sorel tudo admirava naquela cidade cheia de brilho, de pessoas, cavalos, damas perfumadas, prédios. Seus olhos pareciam querer saltar do rosto para conseguir absorver tudo quanto lhe rodeava. Quando entrou no Palácio dos La Mole, para assumir suas tarefas, pensou: “Então é assim que eles vivem”.

A alta sociedade provinciana, com a qual tivera contato, era composta de pessoas que ocupavam essa posição pelo adquirido e não pelo herdado, embora de um adquirido que ainda procurava se disfarçar sob a aparência deste. Era precisamente o caso do Sr. Rênal que se envergonhava de ter sido industrial antes de 1815.

Na alta sociedade parisiense o nome e o nascimento eram o principal passaporte para torna-se um frequentador dos salões e ser reconhecido como par. Eram barões, duques, condes, marqueses que sabiam localizar com precisão o lugar que ocupavam na árvore genealógica dos Retz, Tolly, Croisenois, Caylus. A tradição, o passado dava o sentido do presente.

É sua posição presente e passada na estrutura social que esses indivíduos transportam com eles todo tempo e lugar, sob a forma de um habitus assentado num conjunto de símbolos. O traje, o cetro, o manto, a coroa real representavam o máximo de capital: eram símbolos do capital social.

A posição que cada indivíduo ocupava dentro desse campo dependia do seu capital, objetivado em títulos, cruzes e outros símbolos. Havia disputas para conseguir títulos, que os colocariam numa posição mais elevada na hierarquia aristocrática.

O objeto em torno do qual estas pessoas giravam era um “sistema simbólico” (Bourdieu), que funcionava como instrumentos de conhecimento e de comunicação, exercendo um poder estruturante na medida em que são estruturados, funcionando assim, como instrumentos de integração social.

Era outro mundo que Julien entrava em contato. Um mundo onde “a história dos antepassados eleva-os acima dos sentimentos vulgares, e eles não têm de pensar continuamente na própria subsistência! Que miséria! Sou indigno de raciocinar sobre esses grandes assuntos. Minha vida não passa duma sequencia de hipocrisias, porque eu não tenho 1000 francos de renda para o pão “(:293). Ali ninguém se preocupava em trabalhar, encarava este como o pior dos males.

Durante os dias, Julien ocupava-se com suas funções de secretário. À noite, jantava com os donos do Palácio e com seus convidados. A presença de um plebeu inicialmente incomodou bastante, a ponto da Sra. de La Mole propor ao marido mandá-lo desempenhar uma missão qualquer nos dias em que tivessem certos personagens à mesa.

Em O Vermelho e o Negro de Stendhal, o medo de passar ridículo e a intenção de melhor orientar-se, fez Julien proceder da mesma forma que na casa dos Rênal: escreveu os nomes e uma frase sobre o caráter das pessoas que entravam no salão. A precaução de Julien lhe ajudou muito pouco. Todos caçoam de sua falta de jeito em se portar. Comportava-se como um subalterno inoportuno a quem ninguém se dava o trabalho de esconder o que achasse a seu respeito.

Passado algum tempo pôde perceber com mais clareza o código de conduta dos salões. O sentimento de admiração inicial cedia lugar ao menosprezo pelo mundo da alta sociedade parisiense. Participar todas as noites daqueles encontros tornara-se para ele uma suplício.

Nos salões podiam comentar tudo livremente, menos fazer piadas “a respeito de Deus, nem dos padres, nem do rei, nem das pessoas de posição, nem dos artistas protegidos pela corte, nem de tudo o que está estabelecido; contanto que não falassem bem de Béranger, nem dos jornais da oposição, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de todos os que se permitiam certa linguagem franca; contanto, sobretudo, que nunca falassem em política, podiam comentar tudo livremente.” (:246)

Não havia espaço para qualquer ideia viva. O código dos salões era implacável. Não se admitia qualquer nível de imprevisibilidade nos comportamentos ou opiniões, fosse dos jovens ou velhos aristocratas. As maneiras encantadoras, tão alegres na aparência, careciam de ideias, de originalidade. Julien só enxergava cópias. Viviam à sombra de uma revolução. Buscavam voltar-se para dentro.

Nada poderia transpor aquela parede invisível entre o mundo lá fora, em ebulição, e o dos salões. Podia-se sentir, contudo, que pairava o medo no ar, medo de outra revolução e da volta da aristocracia à guilhotina.

Julien sentia-se asfixiado. A única coisa que diminuía seu tédio eram as longas conversas que tinha com a Srta. Mathilde de La Mole. Eles tinham alguns pontos em comum: prazer nas leituras sérias e proibidas (tipo Voltaire), faziam a mesma interpretação do século em que viviam.
Porém, enquanto Julien tinha como modelo Napoleão e Danton, Mathilde ia buscar em épocas muito mais longínquas seus modelos: na Corte de Catarina de Médicis, quando os homens lutavam por uma causa, eram capazes de expor-se ao perigo.

Eram de homens como seu antepassado, La Mole, que deu a vida pelo amor de Margarida, que carecia sua classe. Mathilde orgulhava-se profundamente do seu nome.
O ódio que ambos nutriam pelo seu século rendeu longas conversas e uma paixão que mudou o futuro de Julien.

A jovem aristocrata sentiu-se atraída por Sorel por tê-lo na conta de um homem inteligente, um novo Danton. Embora fosse aristocrata, odiando tudo que lembrasse 1792, admirava as ações dos indivíduos ousados.

A história de amor de Mathilde e Julien é marcada por avanços e recuos: Mathilde, depois que consegue ter Julien, arrepende-se, sente-se envergonhada. Como se permitira se apaixonar por um criado da casa, um camponês?

Desprezado por Mathilde, Julien volta-se para dentro, tal qual casulo. Nunca sua situação de classe lhe pesara tanto. O ódio que nutria pela aristocracia foi domesticado. Sentia vergonha de sua origem e de não poder ter sua amada.

O processo para reconquistá-la assemelha-se a uma enorme batalha. Julien joga, provoca a orgulhosa Mathilde, despreza-a. Recuperou a razão . Pensava “…não pense Srta. Mathilde que eu esqueço meu lugar. Farei com que compreenda e sinta que é pelo filho de um carpinteiro que a senhora atraiçoa um descendente do famoso Guy de Croisenois”(: 321).

Julien venceu. Teve sua amada de volta aos seus braços. Pouco depois, ela engravida. O Sr. La Mole quase enlouquece: “Este século está destinado a confundir tudo, e nós marchamos para o caos!” (: 427). A filha de um aristocrata grávida de um plebeu.

A bela Mathilde com casamento marcado com o nobre Croisenois. Paris toda zombaria da Casa dos La Mole! Nada que o pai argumentava, a fazia reconsiderar: ia casar-se com Julien e dá o nome Sorel ao seu filho. Agora era o amor paixão que falava mais alto e não o cerebral. O amor paixão que nasce como uma força interior, representando a vitória da intimidade, do “eu”.

O Sr. de La Mole consegue uma patente de Tenente de Hussardos para Julien, forja uma condição de nascimento nobre. Passaria a chamar-se Julien Sorel de La Vernay. Tudo que Julien sempre sonhara estava realizando: tornara-se um militar, conseguira ter seu amor correspondido, seria pai. Parecia que sua guerra com a sociedade findara.

Mas, então por que Julien não agiu de forma mais fria e racional, quando leu a carta da Sra. de Rênal, que o descrevia como egoísta, um homem que só pensava em dinheiro? Por que ele correu até Verrières e atentou contra a vida dela, quase matando-a? Essa atitude reforça a ideia, a complexidade das ações e reações de Julien, acima colocadas.

Julien é preso. Durante o tempo que durou o processo, Mathilde dedica-se totalmente ao seu amado. Mas este vê ressurgir o amor pela Sra. Rênal.
As longas noites e dias na prisão são preenchidos por pensamentos profundos, filosóficos.

No seu julgamento estava cheio desses pensamentos e ousou quebrar a regra de ouro do seu século; usou as palavras para expressar qual sua posição diante da sociedade: “Senhores, eu não tenho a honra de pertencer à vossa classe; vós vedes em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua condição. . . Sou culpado. . . mereço a morte, mas mesmo que eu fosse menos culpado, vejo homens que, sem contemplação para o que a minha juventude possa merecer de piedade, hão de querer punir em mim e desencorajar para sempre os jovens que, oriundos, de uma classe inferior e de qualquer forma oprimidos pela pobreza, têm a felicidade de conseguir uma boa educação e a audácia de imiscuir-se naquilo que o orgulho da gente rica chama ‘sociedade’. “(: 487)

Falando assim, ele decretou sua própria sentença. O Sr. de Valenod, presidente dos jurados, a lera: guilhotina.
Pouco antes de subir ao cadafalso, pensava; “Uma efêmera nasce às nove horas de um lindo dia verão para morrer às cinco horas da tarde; como haveria ela de compreender a palavra noite?”

Quando a lâmina afiada separou o corpo da cabeça de Julien, Mathilde não ficou desesperada. Agora ela via que estava certa : Julien era audacioso.
Sentia-se a própria Margarida de Navarra. Pegou a cabeça de Julien, colocou-a a sua frente e beijou-lhe a fronte. E ela mesma a enterrou, com muita pompa.

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