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Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século de Ítalo Moriconi

 

Resumo Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século de Ítalo Moriconi

Ítalo Moriconi garimpou os cem melhores textos produzidos no Brasil ao longo do século 20. Um trabalho que deixou de lado os rígidos critérios acadêmicos e foi pautado somente pela qualidade e sabor daquelas pequenas obras-primas.

O resultado foi essa coletânea,Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, que é um passeio pela mais deliciosa e contundente ficção curta produzida no Brasil entre 1900 e o fim dos anos 90.

Uma antologia capaz de traduzir as mudanças do país e as inquietações de várias gerações de brasileiros, em cem anos de produção literária.
Dividida cronologicamente em quatro partes, traz desde os modernistas, passando pelos concretos até chegar à atualidade.
Vejamos cada período:

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
De 1900 aos anos 30 / Memórias de ferro, desejos de tarlatana

O autor situa corretamente os contos deste momento com o Pré-modernismo, deixando claro que os contistas deste período experimentam os mais variados estilos, não havendo exatamente um padrão.

Temos um Machado de Assis ainda a questionar certas atitudes da sociedade da época, João do Rio falando sobre o carnaval e aventuras extravagantes, Lima Barreto fazendo as pessoas desenterrarem os ossos de seus falecidos parentes para fazerem ouro e, assim, criticando a ganância e estupidez da sociedade brasileira e outros.

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Anos 1940/1950: Modernos, maduros, líricos

Representando um momento em que o Modernismo já se havia estabelecido na cultura brasileira, mas em que a poesia e o romance tinham maior espaço no mundo literário.

Não obstante isso, teremos maravilhosos contos dessas décadas a nos mostrar as dificuldades das relações afetivas entre os brasileiros. Temos “O peru de Natal”, de Mário de Andrade, mostrando a onipresença de um falecido e sovina pai no seio de uma família que se reúne para cear, José J. Veiga coloca dois irmãos que nem se conheciam frente a frente, tentando quebrar o gelo da distância que os separava apesar de terem o mesmo sangue, o maravilhoso Drummond vendo o mundo com os olhos de uma garotinha de 3 anos e outros.

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Anos 1960: Conflitos e desenredos

A década de todas as revoluções também é retratada por Moriconi como um momento em que escritores consagrados como Clarice Lispector e Orígenes Lessa explorarão mais os campos da psicologia humana em contos marcados pelo fluxo da consciência do narrador e finais surpreendentes.

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Anos 1970: Violência e paixão

O país vive um contexto de violência política e social até então inédito e o conto afirma-se como instrumento adequado para a expressão artística do ritmo nervoso e convulsivo desta década passional.

Rubem Fonseca destila o famoso “Passeio noturno” narrando a “tara” do personagem que tinha como hobby atropelar pessoas, enquanto Luiz Vilela põe um barbeiro experiente e um jovem assustado para fazerem a barba de um cadáver e filosofar sobre a morte.

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Anos 1980: Roteiros do corpo

A sexualidade é exacerbada no início desta década, como consequência das revoluções culturais ocorridas nas décadas anteriores e o conto terá como cenário as grandes metrópoles. A mídia ditará as regras e começará a explorar o erotismo. O homossexualismo ganhará vulto na literatura oficial.

Mas tanta concentração nas energias sexuais poderão terminar com uma sensação de vazio, que parecerá anunciar um fim de século melancólico, marcado pelo afastamento das pessoas através do uso da camisinha (isolante sexual) e o medo da AIDS.

Sérgio Faraco, Caio Fernando Abreu, Ignácio de Loyola Brandão e João Ubaldo Ribeiro são alguns dos representantes desta fase.

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Anos 1990: Estranhos e intrusos

Momento de nova agitação cultural e diversidade de temas e tipos serão marcados pelo final do século XX. “Década de estranhos e intrusos” como afirma o Dr. Moriconi, época que celebra a diferença, combinando o humano ao animal e ao tecnológico.

Um novo período de transição, como aquele marcado pelo Pré-modernismo no início do séc. XX se anuncia para o início do séc. XXI, confirmando a máxima de que “a História se repete”. O destaque é dos contistas Moacyr Scliar, Silviano Santiago e Luís Fernando Veríssimo.
Durante o trabalho de seleção dos contos, Ítalo Moriconi se deparou com algumas constatações. Entre elas a de que o Brasil produz um dos mais bem acabados contos do mundo, e que eles só melhoram com o passar do tempo.

Ainda: a partir dos anos 60, o texto curto explodiu no País, consolidando-se nos anos 70, que entrou para a história da literatura brasileira como a década do conto. Nos anos 80, houve um retorno do romance.

Mas é justamente nesta época, ressalta Moriconi, que saltaram às prateleiras produções como as de Caio Fernando Abreu e Sérgio Sant’Anna.

Cem poemas essenciais, incontornáveis, inesquecíveis. Textos que marcaram gerações e nos ajudam a decifrar enigmas – os mais íntimos, pessoais e intransferíveis, e também os coletivos, aqueles que dizem respeito ao nosso sentido de brasilidade.

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Conto escolhido: Nossa Amiga (Carlos Drummond de Andrade)

Não é bastante alta para chegar ao botão da campainha.
O peixeiro presta-lhe esse serviço, tocando. Alguém abre.
— Foi a garota que pediu para chamar…
Quando não é algum transeunte austero, senador ou ministro do Supremo, que atende à sua requisição.

Com pouco, a solução já não lhe satisfaz. Descobre na porta, a seu alcance, a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa móvel, de matéria idêntica: por ali entram as cartas. Os dedos sacodem a tampa, desencadeando o necessário e aflitivo rumor. Antes de abrir, perguntam de dentro:
— Quem está aí? É de paz ou de guerra?
De fora respondem:
— É Luci Machado da Silva. Abre que eu quero entrar.

Ante a intimação peremptória, franqueia-se o recinto. Entra uma coisinha morena, despenteada, às vezes descalça, às vezes comendo pão com cocada, mas sempre séria, ar extremamente maduro das meninas de três anos.

À força de entrar, sair, tornar a entrar minutos depois, tornar a sair, lanchar, dormir na primeira poltrona, praticar pequenos atos domésticos, dissolveu a noção de residência, se é que não a retificou para os dicionários do futuro.
— Qual é a sua casa?
— Esta.
— E a outra de onde você veio?
— Também.
— Quantas casas você tem?
— Esta e aquela.
— De qual você gosta mais?
— Que é que você vai me dar?
— Nada.
— Gosto da outra.
— Tem aqui esta pessegada, esta bananinha…
— Gosto desta casa! Gosto de você!

Não é gulodice nem interesse mesquinho… Será antes prazer de sentir-se cortejada, mimada. Esquece a merenda para ficar na sala, de mão na boca, olhando os pés estendidos, enquanto alguém lhe acarinha os cabelos.
Nem tudo são flores, no espaço entre as duas residências. Há Catarina e Pepino.

Catarina foi inventada à pressa, para frustrar certa depredação iminente. Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis se desfariam. Na parede, esquecida, preta, pousara uma bruxa.
— Não mexa nos bichinhos.
Mexia.
— Não mexa, já disse…
Em vão.
— Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina.
— Que Catarina?
— Uma menina de sua idade, igualzinha a você, talvez até mais bonita. Muito mexedeira, mas tanto, tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro, a mãe não queria que ela brincasse. Catarina teimou, mexeu e quebrou o cachorrinho. Então, de castigo, Catarina virou aquela bruxinha preta, horrorosa. Para o resto da vida.

A mão imobiliza-se. A bruxa está presa tanto na parede como nos olhos fixos, grandes, pensativos. Entre os mitos do mundo (entre os seres reais?) existe mais um, alado, crepuscular, rebelde e decaído.
Pepino tem existência mais positiva. Circula na rua — a rua é o espaço entre as duas quadras, repleto de surpresas — geralmente à tarde. Vem bêbado, curvado, expondo em frases incoerentes seus problemas íntimos. Pegador de crianças.
— Vou embora para minha casa. Você vai me levar.
— Mas você mora tão pertinho…
— E Pepino?
— Pepino não pega ninguém. Ele é camarada.
— Pega, sim. Eu sei.
— Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e convido Pepino. Você vai ver se ele pega.
— Eu não vou na festa.
— Você é quem perde. Vem Elzinha, Nesinha, Heloísa, Alice, Maria Helena, Lourdes, Bárbara, Édison, Careca, João e Adão. Pepino vai dançar para as crianças. Você, como é uma boba, não toma parte.
— Até logo!
Sai voando, a porta fecha-se com estrondo. Da varanda, ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado.
— Espere aí, você não tem medo do Pepino?
— Não. Estou zangada com você.

Com a zanga, desaparece o temor. Seria realmente temor? Gosta de ser acompanhada, para dizer à mãe, quando chega a casa:
— Espia quem me trouxe.
Volta meia hora depois, penteada, calçada, vestido limpo.
— Espia minha roupa nova. Meu sapato branco.
— Mas que beleza! Aonde você vai?
— Vou à festa.

Para tomar banho e trocar de vestido, é necessário que se anuncie sempre uma festa, jamais localizada ou realizada, mas que opera interiormente sua fascinação. Não há pressa em ir para ela.

A merenda, a conversa grave com pessoas grandes, estranhamente preferidas a quaisquer outras, o brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia — um carretel, a galinha que salta do carrinho de feira — fazem esquecer a festa, se não a constituem. E resta saber se o enganado não será o adulto, que sugere terrores ou recompensas fantasiosas. Nas campinas da imaginação, esse galope de formas — será a verdade?
Senta-se no corredor, e com uns panos velhos, lápis vermelho, pedrinha, qualquer elemento poetizável, representa para si só a imemorial história das mães.
— Comadre, seu filhinho como vai?
— Tá bom, comadre, e o seu?
— Tá com dedo machucado e dodói na barriga. Vai tomar injeção.
— Então vou dar no meu também.

Perguntas e respostas, recolhidas em conversas de adulto, saem da mesma boca inexperiente. O objeto que serve de filho é embalado com seriedade.

A doença existe, existem os sustos maternais. Mas tudo se desfaz, se acaso um intruso vem surpreender a criação, tirada em partes iguais da vida e do sonho, e que os prolonga.

Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho, ante os soldados de Herodes.

 

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século

Publicado em:Resumos de livros

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