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Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – parte 3

Não sei se lhe parece idiota o que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós lá íamos com o meu pai, os bichos eram mais bichos, a solidão de esparguete da girafa assemelhava-se à de um Gulliver triste, e das lápides do cemitério dos cães subiam de tempos a tempos latidos aflitos de caniche.

Cheirava aos corredores do Coliseu ao ar livre, cheios de esquisitos pássaros inventados em gaiolas de rede, avestruzes idênticas a professoras de ginástica solteiras, pinguins trôpegos de joanetes de contínuo, catatuas de cabeça à banda como apreciadores de quadros; no tanque dos hipopótamos inchava a lenta tranquilidade dos gordos, as cobras enrolavam-se em espirais moles de cagalhão, e os crocodilos acomodavam-se sem custo ao seu destino terciário de lagartixas patibulares. (…)

Se fôssemos, por exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar de conversarmos um com o outro neste ângulo de bar, talvez que eu me acomodasse melhor ao seu silêncio, às suas mãos paradas no copo, aos seus olhos de pescada de vidro boiando algures na minha calva ou no meu umbigo, talvez que nos pudéssemos entender numa cumplicidade de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de insectos que não há, talvez que nos uníssemos, a coberto do escuro, em coitos tão tristes como as noites de Lisboa, quando os neptunos dos lagos se despem do lodo do seu musgo e passeiam nas praças vazias ansiosas órbitas ferrugentas.

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, na medida em que a longa conversa vai se desenrolando, vão-se equilibrando aspectos de um passado remoto que vêm à tona com imagens tomadas das recordações da infância: a casa dos pais, a casa dos avós, o professor a deslizar no rinque de patinação, a visita ao jardim zoológico.

Do passado remoto surgem as únicas imagens menos agressivas, levadas ao leitor por construções da memória e da linguagem que contêm uma certa amargura saudosa, sem contudo ser despojada de uma ironia irreverente. O olhar irônico recai principalmente no bizarro ou ridículo das cenas que a memória seleciona no passado.

O espectro de Salazar pairava sobre as calvas pias labaredazinhas de Espírito Santo corporativo, salvando-nos da ideia tenebrosa e deletéria do socialismo. A PIDE prosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de democracia, primeiro passo para o desaparecimento, nos bolsos ávidos de ardinas e marçanos, do faqueiro de cristofle.

O cardeal Cerejeira, emoldurado, garantia, de um canto, a perpetuidade da Conferência de São Vicente de Paula, e, por inerência, dos pobres domesticados. O desenho que representava o povo em uivos de júbilo ateu em torno de uma guilhotina libertária fora definitivamente exilado para o sótão, entre bidés velhos e cadeiras coxas, que uma fresta poeirenta de sol aureolava do mistério que acentua as inutilidades abandonadas.

De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de um navio cheio de tropas, para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida ao Governo que me possibilitava, grátis, uma tal metamorfose, compareceu em peso no cais, consentindo, num arroubo de fervor patriótico, ser acotovelada por uma multidão agitada e anônima semelhante à do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir, impotente, à sua própria morte.

O passado só pode ser reconstruído por uma seleção voluntária da memória e pela ordem de importância que assume para quem narra. Ao revelar a passagem para a vida adulta, o narrador em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, enfrenta não só o trauma de se conhecer adulto, como a cobrança de uma sociedade que o quer “Homem”, que o quer tomando decisões, que o quer participante e é como ser participante que essa mesma sociedade lhe revela a experiência sangrenta da guerra.

– Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.

Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segregados.

Os homens da família, cuja solenidade pomposa me fascinara antes da primeira comunhão, quando eu não entendia ainda que os seus conciliábulos sussurrados, inacessíveis e vitais como as assembleias de deuses, se destinavam simplesmente a discutir os méritos fofos das nádegas da criada, apoiavam gravemente as tias no intuito de afastarem uma futura mão rival em beliscões furtivos durante o levantar dos pratos.

Uma travessia inumana
Mas afinal, para que lhe serviu estar engajado na guerra? Ela se converteu em uma experiência traumática que teve como resultado imediato a desumanização do protagonista, que o transformou em um bicho (humano?) rancoroso.

A guerra anulou a poesia que porventura existia nas coisas, impregnou o mundo de prostituição, de corrupção: os homens se vendem por qualquer bagatela, porque através da guerra sempre se contempla o espectro da morte próxima. O que mantém o homem vivo é uma falsa esperança de final e a consciência de fragilidade adquirida no confronto sangrento com o outro.

Mas, justamente porque o narrador não partilha totalmente das opiniões da Metrópole, o universo da guerra não lhe diz respeito, lhe é indiferente, ele não tem um motivo plausível para lutar, porque não luta imbuído de uma ideologia, qualquer que seja ela. A única certeza que a guerra lhe traz são as dúvidas.

Mas não podíamos urinar sobre a guerra, sobre a vileza e a corrupção da guerra: era a guerra que urinava sobre nós os seus estilhaços e os seus tiros, nos confinava à estreiteza da angústia e nos tornava em tristes bichos rancorosos, violando mulheres contra o frio branco e luzidio dos azulejos, ou nos fazia masturbar à noite, na cama, à espera do ataque, pesados de resignação e de uísque, encolhidos nos lençóis, à laia de fetos espavoridos, a escutar os dedos gasosos do vento nos eucaliptos, idênticos a falanges muito leves roçando por um piano de folhas emudecidas.

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, nessa dura travessia da guerra, a comunicação torna-se cada vez mais escassa, mais frágil. Os laços fraternais desaparecem, cada um pensa somente em si mesmo, isola-se na sua amargura, no seu desespero e o silêncio separa os guerreiros, o diálogo desaparece, não há comunicação entre os homens.

(…) Abril de 71, a dez mil quilômetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até hoje nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.

Nem mesmo o ato de amor é capaz de redimi-lo. É necessário desnudar-se mais e mais, porque ele é um indivíduo sem rumo, marcado pelas reminiscências da guerra, pelo mundo agonizante de que fez parte, cujos espectros retornam a todos os momentos e o fazem sofrer e refletir. Não há escape, não há atos heroicos, não há sonhos e dormir se torna um ato quase impossível.

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, no momento em que os seus joelhos se afastarem docemente, os cotovelos me apertarem as costelas, e o seu púbis ruivo descerrar as pétalas carnudas numa húmida entrega de valvas quentes e macias, penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento num vão de escada para tentar dormir, procurando um aconchego impossível na madeira dura dos degraus, porque o tipo de Mangando e todos os tipos de Mangando e Marimbanguengo e Cessa e Mussuma e Ninda e Chiúme se erguerão no interior de mim nos seus caixões de chumbo, envoltos em ligaduras sangrentas que esvoaçam, exigindo-me, nos resignados lamentos dos mortos, o que por medo lhes não dei: o grito de revolta que esperavam de mim e a insubmissão contra os senhores da guerra de Lisboa, os que nos quartel do Carmo se cagavam e choravam vergonhosamente, tontos de pânico, no dia da sua miserável derrota, perante o mar em triunfo do povo, que arrastava, no seu impetuoso canto, como o Tejo, as árvores magras do Largo. (…)

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, não era o rancho que estava em causa, percebe, todos comíamos o mesmo alimento turvo, quase podre, que as crianças da sanzala, munidas de latas ferrugentas, desejavam com grandes órbitas côncavas de fome penduradas suplicantemente do arame, era a guerra, a cabronice da guerra, os calendários imóveis em intermináveis dias, fundos como os tristes e suaves sorrisos das mulheres sozinhas, eram as silhuetas dos camaradas assassinados que rondavam as casernas à noite conversando conosco na pálida voz amarela dos defuntos, fitando-nos com as pupilas magoadas e acusadoras dos esqueléticos cães vadios do quartel.

Os soldados acreditavam em mim, viam-me trabalhar na enfermaria os seus corpos esquartejados pelas minas, viam-me à beira dos beliches se tiritavam de paludismo nos lençóis desfeitos, de modo que, sabe como é, me cuidavam um deles, pronto a encabeçar a sua zanga e o seu protesto, assistiram à minha entrada na caserna onde um homem se trancara brandindo uma catana e ameaçando matar toda a gente e a si próprio, e viram-me sair com ele, momentos depois, a soluçar no meu ombro abandonos de bebé disforme, os soldados julgavam-me capaz de os acompanhar e de lutar por eles, de me unir ao seu ingênuo ódio contra os senhores de Lisboa que disparavam sobre nós as balas envenenadas dos seus discursos patrióticos, e assistiram enojados à minha passividade imóvel, aos meus braços pendentes, à minha ausência de combatividade e de coragem, à minha pobre conformação de prisioneiro.

Espere mais um pouco, deixe-me abraçá-la devagar, sentir o latir de suas veias no meu ventre, o crescer de onda do desejo que se nos espalha pela pele e canta (…)

A noite está se findando e o narrador em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, não conseguiu a paz que tanto almejava. Sua busca é contínua e clara, mas ele continua insatisfeito e não satisfez sua companheira.

A esperança de um retorno, de uma continuidade no relacionamento fracassa, tanto quanto fracassou com sua esposa, com a guerra, com a profissão. Enfim, o homem não obtém êxito em suas buscas mais simples, não se realiza nem no sexo, no prazer mais primário do homem.

Tampouco é incapaz de realizar a mulher que o acompanhou e que o esquecerá com a mesma facilidade com que se esquecem dos encontros casuais. A solidão volta a dominá-lo. Não há esperança. Só existe uma certeza: da reconstituição do inferno resta a imagem sem unidade, incapaz de unir passado e presente.

Gostou? Assim, assim? Desculpe, não estou em forma hoje, sinto-me azelha, alheado, não domino o meu corpo, o uísque inquina-me o hálito de um relento de urina, a dolorosa consciência das minhas insuficiências preocupa-me.

Durante muitos anos pensei em inscrever-me num desses cursos de que nos enviam os prospectos desdobráveis pelo correio, e que em quinze dias nos transformam em Hércules eficazes, bem penteados, bem barbeados, nodosos de músculos, cercados por uma nuvem admirativa de raparigas maravilhadas:

EM SUA CASA, SEM APARELHOS, COM DEZ MINUTOS DE EXERCÍCIO APENAS, TORNE-SE UM HOMEM. (…).

Consinta-me que tente outra vez, dê outra oportunidade à minha aflição sem esperança, porque desisti de a seduzir, de a fazer render-se às minhas proezas ou ao meu encanto, de a conceber a procurar o meu nome na lista dos telefones, para me pedir, no sábado, para jantar consigo, e ficar fitando-me, esquecida do rosbife e do tempo, num maravilhamento de descoberta.

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes a trajetória desse herói problemático de Os Cus de Judas coincide com os destroços em que mergulhou o país. Os grandes momentos de Portugal tornam-se esquecidos nas lições de História. Protagonista e país se identificam no fracasso, pessoal para aquele que viveu a guerra e recolheu os farrapos, e histórico para aquele que não obteve êxito em sua investida política além-mar. Como sempre, o fracasso é propulsor de crises e inadaptações.

Em entrevista concedida ao autor de A Voz Itinerante2, Lobo Antunes afirma:
Essa visão heroica dos portugueses eu nunca tive. Em minha família, os portugueses não foram apresentados como pessoas que desbravaram o mundo. Sempre via meu pai lendo as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, do Antero. Aquela que me foi apresentada desde a infância foi muito mais a decadência do que a grandeza.

Os livros de história sempre me fizeram muita confusão com o gesto heroico dos portugueses. (…) Quanto ao uísque, é uma tragédia, porque até nem gosto de uísque. Mas isso de concreto tinha a ver com aquela personagem que fala no livro,que é um homem detestável, sob certos aspectos. O tipo usa de uma série de estratagemas para seduzir a mulher: a guerra, a vida e depois é uma catástrofe na cama…

(2) Álvaro Cardoso Gomes, A Voz Itinerante, São Paulo, Edusp, 1993.

* in Resumos, Comentários e Textos – Obras Vest. Unicamp – 2003 – Célia A. N. Passoni – Editora Núcleo
Autora da análise: Célia A. N. Passoni

Veja site da Editora Núcleo
Para esse estudo foi utilizada a edição portuguesa da obra Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997, 19ª edição. A língua utilizada é o português de Portugal, portanto, diverso da língua escrita no Brasil.

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Publicado em:Resumos de livros

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