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Resumo livro Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III

 

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões – parte III

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III

A abordagem lírica do episódio termina com a criação de uma fonte mágica, dando ares ainda mais lendários ao episódio:

As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
‘Dos amores de Inês’, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome Amores!

As filhas daquela região choraram a morte de Inês por longo tempo e suas lágrimas transformaram-se em fonte; o nome dado, que até hoje dura, foi “Dos amores de Inês”, ali acontecidos. O poeta termina concluindo com uma contradição: Vede que fresca é a fonte regando as flores, mas feita com lágrimas e cujo nome é Amores!

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III – A verdadeira história de Inês de Castro

Filha bastarda de um fidalgo galego, Inês de Castro veio para Portugal como companhia de D. Constança, que vinha para se casar com o infante d. Pedro, futuro rei de Portugal. Logo surgem os rumores de um romance entre o príncipe e a moça. Para abafar o caso, o rei e sua nora decidem fazer de Inês madrinha do primeiro filho do casal. Isso significava criar laços de parentesco intransponíveis entre os amantes. Porém, D. Constança morre durante o parto do único filho que sobreviveria, o infante D. Fernando.

Com isso, o casal de amantes une-se ainda mais. Chegam a ter quatro filhos, um dos quais morre.

O escândalo amoroso ganha mais forma com as preocupações políticas. Os irmão de Inês eram inimigos do rei de Castela. O povo temia que D. Pedro, por amizade a eles, entrasse numa guerra aventureira contra Castela e submetesse Portugal ao jugo castelhano.

O terror político, mais do que os valores morais, levam o Conselho Real a decidir pela morte de Inês de Castro, o que acontece em 7 de janeiro de 1355, quando D. Pedro havia saído para caçar. Inês foi degolada e enterrada na igreja de Santa Clara.
A vingança não tardaria. O infante provoca praticamente uma guerra civil contra seu pai e os três conselheiros responsáveis pelo assassinato. Com o tempo, D. Pedro se contém e assina um “pacto de concórdia com o Rei”.

A situação, porém, não se manteria assim. Dois anos depois, morre D. Afonso. D. Pedro, agora senhor da situação, persegue os assassinos de Inês refugiados em Castela. Dos três um conseguiria fugir. Os outros dois foram assassinados com requintes de crueldade: tiveram o coração arrancado, um, pelo peito, o outro, pelas costas. Esse era um ritual de vingança comum na Idade Média: os culpados eram punidos com a amputação da parte do corpo sobre o qual fora praticado o crime. Ferido no coração, esse fora o órgão escolhido por D. Pedro para se vingar.

A segunda parte da vingança incluía a exaltação de Inês. Passados sete anos de sua morte, o rei decide fazer um traslado do corpo em noite triunfal, com o povo iluminando as dezessete léguas de distância entre Coimbra e Alcobaça, onde fora preparado o túmulo real daquela que seria rainha depois de morta. Lá, uma estátua da moça foi coroada com todos os rituais de celebração.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III – A lenda de Inês de Castro

O mito do amor que vence a morte foi sempre algo que provocou a imaginação dos homens. Não é à toa, portanto, que a história de Inês de Castro ganhasse tamanha repercussão. A posição dos corpos dos amantes nos túmulos — pés contra pés — reforçou ainda mais a crença no amor eterno jurado na legenda do túmulo de D. Pedro: “Até ao fim do mundo”. Ao toque da trombeta do Juízo Final, quando os corpos se levantassem, a primeira visão dos amantes seria um ao outro antes de qualquer coisa.

A coroação da estátua de Inês também serviu como inspiração para a imaginação dos poetas. O símbolo toma-se realidade fazendo com que d. Pedro tenha coroado o corpo degolado de Inês. Alguns chegam mesmo a dizer que o rei teria obrigado a corte a beija a mão da morta.

Para os artistas portugueses, a cena preferida para retratar o sofrimento de Inês foi o encontro com o rei D. Afonso IV, pela sua força emotiva. Esse é o caso de Camões que, em Os Lusíadas, praticamente não aborda o final vingador e fúnebre da história, dando total enfoque à emotividade da cena protagonizada por Inês e D. Afonso IV.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III – Episódio do velho do Restelo
(Estrofes 94 a 104)

A cena mostra, logo de início urna massa aflita e desesperada com a partida de seus filhos e esposos. As mulheres, chorando, representam toda a multidão que ficava em terra firme vendo seus queridos partirem para o desconhecido:

Em tão longo caminho e duvidoso,
Por perdidos as gentes nos julgavam;
As mulheres c’um choro piedoso,
Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrescentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo
Qual via dizendo: — “Ó filho, a quem eu tinha
Só para refrigério e doce amparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará penoso e amaro
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, á filho caro,
A fazer funéreo enterramento
Onde sejas de peixes mantimento?

Uma mulher fala ao filho, que era seu amparo na velhice agora sofrida, por que a abandona agora para morrer no mar.

Qual em cabelo: — “O doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?

Outra, descabelada de desespero, pergunta ao marido, cuja ausência não sabe suportar. como pode ir se aventurar no mar, deixando-a; como pode trocar o amor que os une para seguir um caminho desconhecido

Nestas e outras palavras que diziam,
De amor e piedosa humanidade,
Os velhos e os meninos as seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.

O choro das mulheres era seguido por velhos e meninos, que também não partiam na aventura. A emoção era tanta que até os montes respondiam ao clamor da multidão; as lágrimas derramadas erma iguais aos grão de areia da praia em quantidade.

Nós outros, sem a vista alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assim nos embarcarmos
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta ou fica, mais magoa.

Vasco da Gama determina que os marinheiros partam logo sem as despedidas costumeiras a fim de evitar arrependimentos de última hora.

O velho surge com destaque no meio da multidão. Dentro do coletivo, ele se destaca pela individualidade. Enquanto todos fazem parte de um grupo, navegantes ou multidão, ele é sozinho, à parte. Enquanto todos buscam por colocar seus nomes na história, ele entra nela anônimo:

Mas um velho de aspeito venerando, que
ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
e um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

Nessa hora, porém, um velho de aspecto respeitável, que ficava entre a multidão, balançando a cabeça três vezes negativamente, levanta a voz tão forte que os marinheiros podem ouvir do mar. Seu discurso é baseado em pura experiência:

As vozes da multidão, que se confundiam em meio a tantas lágrimas, de repente parecem calar, para dar lugar a uma voz mais forte, que impõe respeito e se faz ouvir. É a ala do Velho do Restelo:

– Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
O fraudulento gosto que se atiça
Cu’a aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

O velho diz que, enganados por belas palavras e estimulados pela vaidade os homens buscam fama e honra. Na verdade, essa busca só traz castigos e sofrimento para o homem ambicioso.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III: Os valores do mundo épico são avaliados por ele de modo negativo. A sua posição define-se pela oposição ao projeto expansionista. Sua crítica destrói todos os valores exaltados em Os Lusíadas:

Dura inquietação d’alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de remos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com que se o povo néscio engana!

A inquietação do homem ambicioso só provoca desamparos, adultérios e falência de reinos. As belas palavras usadas para estimular os navegantes são mentirosas, enganam o povo ingênuo e ignorante.

A épica caracteriza-se por contar histórias do passado. O velho do Restelo, porém, entra na épica sem ter passado e para questionar o futuro:

A que novos desastres determinas
De levar estes Remos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhes destinas
Debaixo d’algum nome preminente?
Que promessas de remos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
O velho questiona agora que novos perigos
e tormentos estariam por vir com a nova aventura dos portugueses.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III: Na estrofe seguinte, Camões une a mitologia greco-romana à cristã como bom renascentista cristão que era. O “insano”, alusão a Adão, é amaldiçoado por ter trazido o pecado e mitologia pagã é inserida na referência às idades de ouro e de ferro. Na Idade de Ouro, os homens viveriam em plena inocência, em contato com deuses, sem conhecer sofrimento e pecado. Com a degeneração da humanidade, chegamos à Idade de Ferro:

Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda d’outro estado mais que humano,
Da quieta e da simples inocência,
Da idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:

O velho culpa Adão por ter tirado a humanidade do seu estado de inocência colocando-a no pecado e na guerra.

Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá,

O velho reforça as palavras mentirosas usadas para disfarçar a vaidade e crueldade das conquistas, mostrando o desprezo do homem pela vida valorizada até por Jesus Cristo.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III: O imperialismo ganharia justificativa para o velho se tivesse fundamentação religiosa. Seu pensamento, portanto, é tipicamente medieval, caracterizado pelo Teocentrismo:

Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

Por que razão, pergunta o velho, procurar inimigos distantes, se por perto existem os mouros, inimigos religiosos? Essa razão, pelo menos, justificaria os perigos da guerra e também traria riquezas e glórias.

Mas, como vê que não é essa a motivação do expansionismo português, voltado totalmente para o aspecto mercantil, o velho prenuncia a destruição, o castigo que cairá sobre os homens ambiciosos:

Deixas criar às portas o inimigo
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Buscas o incerto e incógnito perigo,
Por que a fama te exalte e te lisonje,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!

Mas preferem ir buscar inimigos distantes, desconhecidos, deixando o próprio reino abandonado. Tudo apenas para ter fama.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III: Ao contrário da épica, que promete eternizar os heróis desbravadores, o velho amaldiçoa-os, a começar pelo primeiro deles, a quem deseja a escuridão eterna do desconhecimento:

Oh! Maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Digno da eterna pena do Profundo,
Se é justa lei que sigo e tenho!
Nunca citara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!

O velho amaldiçoa o primeiro marinheiro, pedindo à sua fé que ele jamais seja louvado.

Camões usa aqui a mitologia greco-romana na fala do Velho do Restelo. Jápeto é um dos Titãs, o que o coloca na primeira geração de deuses. Seu filho, Prometeu, é considerado criador dos primeiros homens, que moldou em barro. Depois, anima-os dando-lhes a vida com fogo roubado de Zeus:

Trouxe o filho de Jápeto do céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras — grande engano!
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!

Lamenta também que Prometeu, filho de Jápeto tenha trazido o fogo dos céus que deu vida à humanidade para que esta vivesse em guerras.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III: A mitologia pagã continua presente no discurso do velho. Agora a referência é a Faetonte, filho do Sol, criado por sua mãe, sem saber a identidade do pai. Na adolescência, ao descobrir, pede uma prova ao Sol: conduzir o seu carro. Hesitante, o Sol permite, porém com várias recomendações. Faetonte, assustado com a altitude abandona a rota traçada e quase queimou a Terra; depois quase queimou os astros. Zeus, para evitar uma desgraça faz o jovem cair no rio Erídano. A outra referência é a Ícaro, filho de Dédalo. O pai arquiteto cria asas de cera para que ambos saiam do labirinto por ele criado. O jovem, entusiasmado com a novidade, aproxima-se demais do sol e tem a cera derretida, caindo no mar:

Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquiteto co’o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!

Por ambição, Faetonte aproxima-se demais da Terra guiando o carro do Sol e a queima em vários lugares. Ícaro, filho do arquiteto Dédalo, entusiasmado por poder voar, aproxima-se do sol, cujo calor derrete a cera de suas asas e cai no mar, que ganhou seu nome.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III – O Maneirismo em Os Lusíadas

Como foi visto, o velho do Restelo caracteriza-se por um pensamento medieval, opondo-se basilarmente ao gênero épico. Seu tom pessimista, ameaçador e profético encontra eco na última parte do poema, o Epílogo, em que Camões deixa vazar as suas apreensões quanto ao destino de Portugal:

Não mais, musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dua austera, apagada e vil tristeza.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III: Reaparecem agora na fala do próprio poeta, as criticas à cobiça, à ganância e à crueldade. Com isso Camões, a grande voz épica dos portugueses, mostra a incompatibilidade das grandezas e heroísmos que quer narrar e o aspecto mercantilista a que Portugal se volta, esquecendo-se dos valores morais.

Voltando à comparação com o velho do Restelo, podemos notar neste um tom mais radical. A grandeza e o heroísmo épico seriam simplesmente ilusões, mentiras usadas pelos governantes para estimular seus marinheiros. A única justificativa para a expansão seria o cristianismo.

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Copiado do material do Curso Universitário

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões III

Publicado em:Resumos de livros

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