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Resumo de Livro Obras por Vestibular1

Os Ratos de Dyonélio Machado

 

Resumo Os Ratos de Dyonélio Machado

Pode-se resumir Os Ratos de Dyonélio Machado: um relato psicológico, revolvendo a mente atormentada de um pobre homem; e que se alarga porque, de certa forma, reflete toda uma angústia coletiva, angústia presente em uma camada social que sobrevive à mercê de agiotagens, empréstimos, penhores e outros subterfúgios utilizados pelos homens para poder conseguir o dinheiro, que lhes permitirá sobreviver mais um dia, um único e mísero dia. Mas no horizonte há uma estreita realidade, uma malha cheia de fios sempre crescente, sempre torturante que pode ser resumida na certeza de se ter transferido para o dia seguinte a mesma necessidade: a angústia do pagamento de outras dívidas.

A obra Os Ratos de Dyonélio Machado pode ser definida como um drama urbano e envolve a vida de um reles funcionário público de baixo escalão, com pequenos rendimentos, pequena família, pequena vida e problemas a serem resolvidos. Acrescenta-se ao quadro a capacidade de condensar toda a ação do volume em um único dia.

Seguindo o traçado do Sol no horizonte, o dia tem seu início com a colocação do problema, ao meio-dia intensifica-se, levando o leitor a conhecer e se aprofundar no desespero do protagonista, para, no final, tornar-se mais um problema “resolvido”, mas com a pequena e mesquinha solução de somente transferir para mais tarde a resolução definitiva. Um retrato duro do famoso “jeitinho brasileiro” de solucionar problemas.

A narrativa de Os Ratos de Dyonélio Machado é feita em 3ª pessoa, cuja vantagem é trazer a onisciência para que o leitor possa adentrar ao máximo na problemática, sem encontrar barreiras de espécie alguma. O personagem principal é Naziazeno, pequeno funcionário público, casado com Adelaide, com um filho ainda bebê e que, por isso mesmo, necessita de leite.

O problema surge a partir do momento em que o leiteiro se recusa a continuar o fornecimento se Naziazeno não liquidar a conta atrasada. Como o leiteiro exerce uma espécie de domínio sobre o personagem, uma vez que a ele é dada a capacidade de escolher entre entregar ou não o leite, cabe a ele também o papel de coagir o já acuado personagem.

O primeiro capítulo de Os Ratos de Dyonélio Machado apresenta a situação de desespero que daí para frente aumenta a cada passo que é dado no romance, culminando com um clima de angústia e de desespero para se conseguir o dinheiro necessário para o pagamento da dívida. Em um primeiro instante, a tendência de Naziazeno é desvalorizar o leite:

“Um silêncio
Mexe nos bolsos; dá a volta à peça; vai até o cabide de parede, onde havia colocado o chapéu.
– Me dá o dinheiro – diz, num tom seco, torcendo-se para a mulher, enquanto pega o chapéu.
– E voltando ao ‘seu ponto’, depois de pôr no bolso os níqueis que a mulher lhe trouxera:

– Aqui não! É a disciplina. É a uniformidade. Nem se deixa lugar para o gosto de cada um. Pois fica sabendo que não se há de fazer aqui cegamente o que os outros querem.

A mulher não diz nada. Voltara a esfregar qualquer coisinha na tábua da mesa.
Ele se para bem defronte dela e a interpela:
– Me diz uma coisa: o que é que se perdeu não comendo manteiga, isso, que é mais um pirão de batatas do que manteiga?

Ela não responde.
– E o gelo?… pra que é que se precisava de gelo?…
Faz-se uma pausa. Ele continua:
– Gelo… manteiga… Quanta bobice inútil e dispendiosa…

– Tu queres comparar o gelo e a manteiga com o leite?
– Por que não?
– Com o leite?!

Ele desvia a cara de novo.
– Não digo com o leite – acrescenta depois – mas há muito esbanjamento.
– Aponta o esbanjamento.
– Olha, Adelaide (ele se coloca decisivo na frente dela) tu queres que eu te diga? Outros na nossa situação já teriam suspendido o leite mesmo.

Ela começa a choramingar.
– Pobre do meu filho…
– O nosso filho não haveria de morrer por tão pouco. Eu não morri, e muita vez só o que tinha para tomar era água quente com açúcar.

– Mas, Naziazeno… (A mulher ergue-lhe uma cara branca, redonda, de criança grande chorosa)… tu não vês que uma criança não pode passar sem leite?…”

Presta atenção nas conversas nos bancos vizinhos, e, ouve falar em jogo, corrida de cavalo, em que ele já havia depositado muita esperança, como todos aqueles que se apegam em dinheiro fácil para salvar suas vidas difíceis. Que esperança! Que tristeza quando não se realiza o grande sonho:

“Naziazeno quanta ‘esperança’ já depositara no betting… Aos sábados era certo munir-se da sua cautela. Tinha um companheiro, o Alcides. Às vezes, quando a crise apertava, faziam sociedade. Um dia tinham tido um susto: faltava conferir apenas um páreo, o primeiro jogo.

Alcides começara por longe, pelo último: Macau! Tinha acertado um! e se dá?… Um turbilhão enche-lhe a cabeça. Vamos ver! vamos ver! O outro! – o outro também, a égua Singapura, o grande azar do penúltimo páreo, o seu azar! Alcides levanta-se da mesa.

Tem medo de prosseguir, medo mesmo de acertar. Quase desejava ter já errado, acabando aí essa ilusão torturante. Ele ainda se encaminha em direção ao grande quadro negro pregado numa das paredes de café, o passo vago, como num sonho. Mas logo se reincorpora decidido: e foge dali, não quer saber mais nada, quer ocultar-se e é assim que encontra o amigo.
Esse susto foi memorável.”

Os dois nada dizem. Alcides já fechou várias vezes os olhos, colocou-os outras tantas vezes na rua. Mondina tem o olhar brilhante, os lábios fortemente unidos, a face levemente congesta.
Naziazeno sente um sono, um abatimento. Vê-se no bonde, de volta para casa. Bonde quase vazio, no meio da noite, com ele dormitando…

– Venha cá. Eu assumo o compromisso. Me dê esse anel – pede o Duque para Alcides. – Eu entrego-o ao Dr. Mondina em garantia do seu dinheiro. Me inteire trezentos mil-réis: me dê mais cento e vinte. Amanhã ou procuro o Alcides e o Sr. pra fazermos o penhor. Assim o Sr. fica bem garantido.

– Mas não se trata de garantia… – vai gaguejando o ‘Dr.’ Mondina. – O seu amigo não compreendeu. Eu desde o princípio não estive pronto pra auxiliar essa transação…? Não se trata de garantia ou de falta de garantia…

– Mas assim fica muito bem – acrescenta Duque. – É justo, aliás, que o Sr. queira rodear de todas as garantias o negócio.

Outro silêncio.
Alcides não se mexe. Duque mantém o braço estendido, à espera do anel. É um sono agora o que tem Naziazeno. É só um sono…”

Naziazeno está com sono, cansado, mas é preciso continuar, é preciso ser o guardião do dinheiro, até, talvez, o leiteiro chegar. Vagarosamente, contando os minutos, vai vendo chegar à madrugada e com ela os galos cantando, os ruídos da rua e… o leiteiro chegando.

“Está exausto… Tem uma vontade de se entregar, naquela luta que vem sustentando, sustentando… Quereria dormir… Aliás, esse frio amargo e triste que lhe vem das vísceras, que lhe sobe de dentro de si, produz-lhe sempre uma sensação de anulação, de aniquilamento… Quereria dormir…

Não sabe que horas são. De fora, do pátio, chega-lhe um como que pipilar muito fraco e espaçado.
Quereria dormir…
Mas que é isso?!… Um baque?

Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão… Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite…), que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro é forte, cantante, vem de muito alto…) – Fecham furtivamente a porta… Escapam passos leves pelo pátio… Nem se ouve o portão bater… E ele dorme.”

Conheça outra versão de resumo desta obra: Os Ratos de Dyonélio Machado

 

Os Ratos de Dyonélio Machado

Publicado em:Resumos de livros

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