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Resumo de Livro Obras por Vestibular1

Palha de Arroz de Fontes Ibiapina

 

Palha de Arroz de Fontes Ibiapina – parte II

Das muitas personagens que povoam esta narrativa podemos, aliás, dizer que giram, elas, em torno de Pau de Fumo e negro Parente, protagonistas tão imbricados um no outro (em nível, mesmo, de Philos) que, se considerados, ambos, nesta interconexão, temos aí o núcleo básico ou primário da textura romanesca, aos quais os demais núcleos (Genoveva, Ceição, Maria Preá, Antonino, etc) se agregam, em hierarquias diferentes e não em coordenação apenas, o que resultaria, repetimos, fosse este o caso, uma novela.

São, aliás, estas personagens, Pau de Fumo e negro Parente, semicomplexas ou quase redondas, posto que tenham vida interior intensa e contradições não poucas. Ademais, cheio de personagens biogênicos – os que, ficcionais na narrativa, tiveram existência fática fora dela, como o delegado de polícia, o governador do Estado, o presidente da República – é, no entanto, a abiogênese, isto é, a ficcionalidade mesma, que produz quase todos os demais seres, notadamente os principais, sem que deixemos de mencionar, por importantíssimo à compreensão da obra em foco, que os personagens de base e o de topo, ou seja, aqueles que emolduram a narrativa, fixando-lhe o limite do universo pelo qual transitam os demais, são, na base, o capitão Vilmar, chefe da polícia do governador e, no topo, o ditador-presidente Getúlio Vargas, comandante-em-chefe do Estado Novo. Percebem leitores, que são estes que emolduram, por baixo e por cima, a narrativa, não a deixando espraiar-se demais?

É interessante ainda, nessas notações sobre Palha de Arroz de Fontes Ibiapina, atentarmos para o ciclo de vida-morte-ressurreição de Chico da Benta, o Pau de Fumo. Destarte, o romance começa com a vida de Pau de Fumo, o ladrão, advinda da “morte” de Chico da Benta, o destacado estudante do Liceu, que, devido ao falecimento dos pais, não pôde prosseguir os estudos.

Mais tarde, em razão do acasalamento e posterior casamento com Ceição, “morre” Pau de Fumo, o ladrão, e renasce Chico da Benta, o carregador, detentor da devida carta profissional.
Entretanto, com o fim da II Guerra, dá-se o consequente barateamento da gasolina e o surgimento de carros em poder de qualquer “pé-rapado”, provocando a “morte” do trabalhador Chico da Benta, cuja atividade se vê quase inviabilizada por essas mudanças, e renasce, pela última vez, o ladrão Pau de Fumo, que se suicida nas águas do Parnaíba, onde, entre guardas que o levavam preso para fora do Piauí, se atira ao rio, como se fosse o Parnaíba o sempre desejado Poço da Usina.

Assim, como num círculo vicioso, a narrativa abre não com Chico da Benta (isto fica sendo o que, em boa teoria literária, se chama de elipse narrativa parcial), mas com Pau de Fumo, e se encerra não com Chico da Benta, mas também com Pau de Fumo, como a indicar que, sem mudanças profundas nas estruturas sociais injustas, o pobre nasce pobre e pobre morre, chegando, no máximo, em alguns momentos, a Chico da Benta.

Isto demonstra, aliás, o quanto era, à época, como ainda hoje, falsos os caminhos dessa abstrata ascensão social tão demagogicamente apregoada pelas elites miúdas de sempre, e que só ocorre, efetivamente, como exceção à regra, vigente, de uma sociedade de classes, quase de castas.

2.2. Marcas de estilo e técnicas narrativas
Podemos agora, a guisa de síntese, dizer que o estilo de Fontes Ibiapina, neste romance Palha de Arroz, se expressa, no interior de uma linguagem moderna, marcada por períodos curtos e, dentro deles, por frases mínimas e sincopadas, através dos seguintes, e principais, estilemas:
a) universo vocabular regional, entremeado de ditos populares;
b) parênteses de introspecção;
c) diálogos rápidos, e intermitentes, ao discurso do narrador;
d) utilização intensa do discurso indireto livre, e mesmo do indireto, com ênfase, este, na repetição, a inquérito, do que;
e) retomadas, retomadas, retomadas…

Já as técnicas narrativas empregadas por Fontes Ibiapina, no texto em apreço, são, entre outras, os flashbacks (em geral indiretos, pois que construídos desde a imaginação do personagem, e não diretamente pelo narrador), os flashforwards, também indiretos, pelo mesmo motivo, a inserção de missiva, que se dá no cap. XXX, funcionando, inclusive, esta inserção, como sumarização, outro recurso de narração bastante utilizado pelo autor, sem falar na parentetização, mais preponderantemente dissertativa, no caso (por conta, ao máximo das vezes, do exibicionismo dos conhecimentos, na verdade meramente escolares, de Pau de Fumo).

Afora isto, há, ainda, processos de anagramização, infelizmente pouco elaborados, pois exageradamente óbvios, como o nome do governador da época, e indício, assaz forte, de apenas razoável planejamento textual e pouca reescritura, parecendo mesmo um texto entregue para edição após a “primeira mijada”, o que explicaria, ainda que não justifique, certa falta, ao romance, de maior “acabamento”, tão comum, a obsessiva reescrituração, entre escritores mais exigentes e menos entre os que, mesmo excelentes, são na verdade mais “contadores de estórias”, estirpe a que pertence, sem dúvida alguma, Fontes Ibiapina, ao lado de muita gente boa, com Érico Veríssimo, Jorge Amado, Magalhães da Costa.

Aliás isto, a muito provável pouca reescrituração de Palha de Arroz, é denunciado também, e não por acaso, no uso de reticências e exclamações que, de tão excessivas, chega a irritar até o leitor menos atento.

Contudo, a par das virtudes, inúmeras mesmo, do romance Palha de Arroz, já neste estudo ressaltadas, uma há em específico que, pela sua extrema poeticidade e rara beleza, marca, de modo indelével, qualquer receptor minimamente sensível.

Trata-se, e este exercício de leitura até aqui encetado jamais poderia encerrar-se sem que se desse o indispensável sublinhamento aos magníficos “pescadores de defuntos” (no caso, Pedro Tampa e, principalmente, negro Parente e seu filho e sucessor, Antonino).

Na verdade, com esta invenção, ou seja, com esses admiráveis “pescadores de defuntos”, Fontes Ibiapina plenifica de pungente lirismo o que, em geral, é drama, e, ao elevar a grande altura a atmosfera de poesia (que é o que faz, em verdade, a prosa tornar-se literatura), retira de Palha de Arroz a simples condição, embora importantíssima, de mero documento, para inscrevê-lo entre os mais significativos exemplares da ficção em prosa da literatura brasileira.

Basta ao leitor, se quiser boas doses de poesia, ler o romance,Palha de Arroz de Fontes Ibiapina, notadamente nas passagens em que surgem no texto, e imergem no/emergem do rio, os “pescadores de defuntos” para nos darmos conta de que são, em última instância, esses “pescadores” não, é certo, integrantes do núcleo narrativo central do romance, porém, sem dúvida, os responsáveis diretos pela elevação da poética de Palha de Arroz, que poderia perfeitamente, sem nenhum prejuízo ou desd´ouro ao conjunto da narrativa, intitular-se, belamente, Pescadores de Defuntos.

3. Excerto do romance: Palha de Arroz de Fontes Ibiapina – trechos do cap. XXIII
“À margem do rio, o povo se aglomerava. Sempre havia aglomeração quando morria gente afogada. Nunca, porém, uma outra foi tão intensa quanto aquela. Seria por ser uma moça bonita e branca que as águas levaram daquela vez?

O mais interessante, porém, provinha de aquilo ali não ser lugar próprio de moça bonita e branca tomar banho. Moça branca, rica e fina toma banho em casa. Em chuveiro, porque acha bom a água fria cair em sua pele macia.

Ou mesmo em praia, pra mostrar, através do maiô, a moldura do corpo bem-feito. Mas ali? Naquele cais nojento de canoeiros, pescadores, balseiros, estivadores, carroceiros, porcos d´água, lavandeiras e outras pessoas da raia miúda? Não era lugar pra moça de gente rica tomar banho.

Aquela mesma morreu porque quis, de propósito – era a voz do povo que estava ali:
– Morreu de propósito. Não estava nem tomando banho. Suicídio, no duro!
Aparecera até boatos que alguém vira como. Caiu nas águas com roupa e tudo.
– Foi suicídio. Talvez que algum desgosto sem remédio na vida. Namoro. Caso de amor, na certa.
Antonino mergulhava. Com aquela vontade maluca na cabeça. Assim uma vontade grande, mas que nem ele mesmo sabia dizer o quê. Seria o primeiro defunto a pescar. Uma defunta. Nova e bonita. Conhecia-a. Dona Serafina. Levara ainda umas cartas do padre Salviano pra ela. (…)

(…) Na opinião de muitos, se Parente chegasse ali, logo que encontraria a defunta. Aquele, sim, sabia nadar e mergulhar com perfeição. Parecia até que tinha fôlego d´água.
Era bem fácil aquele garoto ainda passando a rapaz nada conseguir. Nadava e mergulhava bem, era verdade. Nadava mesmo melhor que qualquer um outro. Se duvidasse, melhor até mesmo do que o negro Parente que, até então, foi o melhor nadador naquelas águas.

Mas ainda muito novo para uma infuca daquelas. Marinheiro de primeira viagem. Neófito. Aprendiz de pescador de defuntos. Muito novo ainda…
Houve até apostas. (…)
(…) Antonino mergulhava num desespero tremendo. Decepção não ia passar. Não ia passar vergonha diante de tanta gente que o tinha em conta do melhor nadador daquelas águas. Havia de encontrá-la — desse no que desse, acontecesse o que acontecesse.

Parente chegou. Foi logo que o povo lhe pediu que entrasse no rio, que procurasse a moça. Tinham certeza que com ele era mais do que na certa encontrá-la.
– Não. Não é preciso. Aquele moreno é meu filho. Quero ver mesmo se ele sabe ou não com perfeição fazer o serviço. Deixem o menino vadear nas águas, que nadar ele sabe e a moça ele encontra.
Aí correu logo, por todo aquele povo, que o menino era filho do negro Parente. E lá se vinha um e outro, e outro mais, e mais outro perguntar ao negro velho de guerra se o menino era mesmo seu filho.

Parente metia as mãos nos bolsos e ficava todo imponente explicando que o garoto era mesmo seu filho, que a mãe morreu no parto e ele o criou com todo trabalho, todo sacrifício.
Chamava-se Antonino. Contava quinze anos completos. Dentro de dezesseis. (…)
(…) O negro velho ficou orgulhoso. Não é que o menino encontrou mesmo a moça? Lá se vinha ele nadando com ela!

Todo mundo queria ver a cara da morta. Mesmo os que perderam dinheiro em seu cadáver.Todo mundo querendo ver a moça que morreu afogada porque quis.

A moça que se atirou às águas com uma pedra amarrada ao pescoço pra se afogar melhor.
Mentira. Pedra no pescoço coisa nenhuma! Apenas um cordão de ouro, com uma medalha também de ouro, com a efígie de S. José. A barriga era que estava amarrada, com um pano e um prato esmaltado por baixo.

Mesmo assim, apesar de amarrada, nunca que ninguém morreu no Parnaíba com barriga tão grande. Chega estava bochechando, já quase cobrindo as bordas do prato.
Lá se vêm os cochichos, os comentários. Bem que o povo falava dela!” (…)

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Palha de Arroz de Fontes Ibiapina

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