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Resumo de Livro Obras por Vestibular1

Palha de Arroz de Fontes Ibiapina

 

Palha de Arroz de Fontes Ibiapina – parte I

1. Enfoque geral do romance Palha de Arroz de Fontes Ibiapina
Em termos gerais, podemos dizer que a literatura se manifesta de três grandes maneiras, quais sejam:
a) como re(a)presentação (mimese) estético-verbal da natureza humana,
b) como re(a)presentação estético-verbal da sociedade e
c) como re(a)presentação estético-verbal do indivíduo.

O primeiro caso é território privativo da Tragédia, que tematiza exatamente a condição humana considerada em si mesma, complexa e falha, ainda que as circunstâncias sociais em que viva o homem sejam as mais perfeitas possíveis, posto que nela, Tragédia, a própria condição humana é que é, em última instância, a tragédia mesma.

Já o segundo caso apresenta como macrogênero de melhor expressão o Drama, uma vez que, Neste, o homem percorre um caminho de degradação, movendo-se ora a favor, ora contra isto, o que ocorre, sublinhe-se, no confronto com outros homens, classe de homens ou a sociedade mesma: aqui não há, pois, que falar em Tragédia, haja vista que as quedas humanas decorrem, em suma, não da imperfeita natureza intrínseca dos humanos (conceito este, o de natureza humano intrínseca, nunca completamente resolvido), mas da inadequação deles às estruturas sociais, construídas pelos próprios semelhantes, outros homens – e jamais por desígnios outros, como os divinos, por exemplo, embora não raro, na necessidade de algumas explicações, a essas instâncias determinísticas se recorra.

Já a literatura, na acepção c, enfatiza o mundo interior dos seres, humanos ou humanizados, pondo pouco foco sobre o que lhe é exterior, desmembrando-se esta macroconcepção, em linhas amplas, nas vertentes intimista-confessional (o romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego, por exemplo), intimista-memorialista (Fogo Morto, a obra-prima do mesmo José Lins, por exemplo) e intimista-intimista (por exemplo, quase toda a romancistica de Clarice Lispector, notadamente A Paixão Segundo G.H, e Rio Subterrâneo, de O. G. Rego de Carvalho), podendo mostrar-se, qualquer delas, sob a forma preponderante da Lírica (dominância do eu que fala) ou do Drama (tensão entre o eu e outros eus ou entre o eu e o mundo) ou da Tragédia(“imitação de ações austeras”, segundo Aristóteles) ou Comédia (“imitação de ações ridículas”, conforme o mesmo Aristóteles), e imune apenas, talvez, ao primeiro desses quatro macrogêneros, a Epopeia, que se centra mais no ele do discurso e é, em essência, geralmente uma grande narrativa, em prosa ou em verso, cujo personagem central um arquétipo, isto é, uma figura heroica, no mais das vezes sintetizadora de um povo ou ma nação (Vasco da Gama, em Os Lusíadas, de Camões, Ulisses, na Odisseia, de Homero, João do Rego Castelo Branco, em El Matador, de H. Dobal, etc).

Há, também, na literatura com ênfase no social mais que no indivíduo — caso mesmo deste romance, de valor estético mediano, de Fontes Ibiapina, intitulado Palha de Arroz (Teresina, 1968, 1ª. edição, Teresina, Corisco, 2002, 3ª. edição), vertentes diferenciadas, resumíveis, entre outras nomenclaturas várias, como nostálgico-populista (quase toda a obra de Jorge Amado, com estupenda exceção para A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, Terras do Sem-Fim e Mar Morto), histórico-memorialista (Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, é excelente exemplo) e crítico-analítico (Memórias Sentimentais de João Miramar, magnífico e revolucionário romance de Oswaldo de Andrade, ainda hoje incompreendido e insuperado).

Fontes Ibiapina se integra então, salvo melhor juízo, com Palha de Arroz, na vertente histórico-memorialista, pois que interconecta ficção (as vidas virtuais de Pau de Fumo e negro Parente, principalmente), história (os terríveis, e reais além por demais, incêndios das casas, em geral as de palha e dos pobres, em Teresina, na década de 1940, em pleno, e não por coincidência, Estado Novo de Vargas) e memória (que tudo isto ficou guardado no inconsciente coletivo e foi, e é, reelaborado pela comunidade vítima do furioso fogo, na verdade uma estratégia fascista, esta, a de queimar habitações modestas, no afã, ainda hoje camuflado pelos “historiadores”, embora evidente, da posse desenfreada de cada vez maiores fatias do solo urbano, na Capital, que, naquele instante, estava algumas nas mãos de pessoas menos aquinhoadas, um absurdo no modo de ver, jamais modificado, de nossa mesquinha e violenta elite, que insiste, neste 2002, em comemorar o sesquicentenário de Teresina apenas com curiosidades de almanaque, ufanismos imbecis e louvaminhas personalísticas).

Talvez isto corresponda, no que tange à proposta de tipologia romanesca de Alfredo Bosi, a Palha de Arroz como um romance de tensão mínima, uma vez que o confronto personagens/mundo se dá marcadamente no plano da mera verbalização.

Evidente que Palha de Arroz é uma narrativa pertencente ao macro gênero Drama (Pau de Fumo e negro Parente, os protagonistas, se degradam não exatamente por serem humanos, mas por vivenciarem, na pequena, porém já violenta Teresina, uma experiência de intensa exclusão social) e ao micro gênero Prosa, sendo que, dentro deste, vincula-se à Prosa de ficção, na espécie romance (com efeito, aos núcleos narrativos centrais, relativos a Pau de Fumo e negro Parente, se agregam outros, de menor hierarquia, diferentemente, então, da novela, cujas conexões dos núcleos periféricos aos centrais se dão em coordenação ou paralelismo, e não em gradações, como no caso; ademais, se há, em Palha de Arroz, muita ação – e de fato há mesmo muita ação – o que sói, em geral, acontecer mais nas novelas que nos romances, também se percebe, na narrativa, bastante vida interior, quiçá melhor, muito melhor, que a exterior).

Assim, embora com uma macroconcepção clássica de Beleza – o Belo visto como resultante de um processo de iconização (mimese máxima) do real (o que implica, é óbvio, uma pararrealidade ficcional, e não uma suprarrealidade, que se alcança esta, pela simbolização (mimese média) do real, e, muito menos, uma hipersuprarrealidade, que se atinge pela alegorização (mimese mínima) do real –, Fontes Ibiapina não escreve, apesar disto, um romance de matriz clássica, mas moderna, ainda que sem ruptura com o tradicional, pois que linear, com começo, meio e fim, apesar dos flashbacks.

Tal paradoxo (modernidade na tradição) na verdade se dá porque o escritor constrói seu universo ficcional em paralelo ao real, na verdade quase grudado a ele (mimese máxima), à maneira dos realistas-naturalistas, porém em LINGUAGEM MODERNA, marcada, em seu âmago, por PERÍODOS CURTOS E FRASES SINCOPADAS, MENORES AINDA, ESTAS, QUE AQUELES, enriquecidos pela INTERMITÊNCIA DE PROVÉRBIOS E DITOS POPULARES que, de tão deliciosos, dão sabor peculiar e inigualável ao texto.

2. Enfoque específico do romance
2.1. Estrutura da narrativa e protagonistas
João Nonon de Moura FONTES IBIAPINA (Picos-PI, 1921, Parnaíba-PI, 1986) pertence, em termos mais restritos, ou seja, no universo da literatura brasileira de expressão piauiense, à Geração de 45, no interior do Grupo Meridiano, na tendência conservadora ou de não ruptura estética desse grupo, ao lado de, por exemplo, J. Miguel de Matos, William Palha Dias, José Expedito Rego, entre outros.

Indubitavelmente melhor contista (Tangerinos, Trinta e Dois e Memórias de Um Canário são, mesmo, pequenas obras-primas) que romancista, Ibiapiana se apresenta, porém, em condições artísticas mais favoráveis, nesta espécie de narrativa em prosa, o romance, exatamente em Palha de Arroz, sem falar que, e só isto por si já seria importante, registrou, com este texto, para a posteridade, o que muitos omitiram e coragem não tiveram, nenhuma, de fazer: tematizar, no caso dele com contundência e literariedade, embora sem tocar no âmago da questão (a luta pérfida da elite pela concentração, em suas mesquinhas mãos, do solo urbano), os incêndios criminosos que chamuscaram a Teresina dos desvalidos quando intendente Lindolfo Monteiro, interventor Leônidas de Castro Melo e ditador-presidente Getúlio Vargas.

Trata-se, no caso, da literatura como depositária da memória coletiva, a qual, em específico para Teresina, ficaria deveras prejudicada, e mais olvidada ainda, sem Palha de Arroz.

Ora, preceptor de uma literatura localista e praticante de um regionalismo (tributário, salvo melhor juízo, da linhagem de um Simões Lopes Neto, Franklin Távora e Francisco Gil Castelo Branco, e matriz literária, por seu turno, no Piauí, de Pedro Celestino, William Palha Dias e, principalmente, Magalhães da Costa) virtuoso, com ênfase na cultura popular (através, notadamente, do resgate de seus ditos e provérbios, reveladores de uma ideologia ou visão de mundo muito específicos), Ibiapina também o torna, não raro, ao regionalismo, um tanto tacanho, porque o centra como ocorre, infelizmente, aqui e ali, em Palha de Arroz, na pieguice (Pau de Fumo inebriado com a donzela branca no momento mesmo do furto!), no exótico (negro Parente provocando surpresa, como se um extraterrestre, em outras plagas!), e no pitoresco (o enfeitamento, e não uma possível, e ainda que tímida, elegância, por que não? de prostitutas como Maria Piribido!).

Como vemos, já de dentro do romance há tempos falamos e assim podemos, quem sabe, desnudá-lo em sua Superestrutura Narrativa, confirmador que é o cumprimento pleno desta Superestruturação, da obediência máxima da obra em epígrafe aos cânones narrativos tradicionais – o que, assevere-se, não significa, por si só, atributo de boa ou má qualidade textual.

Com efeito, há, em Palha de Arroz, uma Situação Inicial ou Introdução (espécie de apresentação mesma da narrativa), que vai, mais ou menos, do capítulo I ao II.

Trata-se, na verdade, de uma introdução longa, esta, de Fontes Ibiapina, em Palha de Arroz, dispensável muitíssimo nos romances mais modernos, os quais também, via de regra, eliminam o Epílogo ou Comentário, compactando-se em torno da Preparação do Conflito ou Crise ou Nó, ou no próprio Conflito, Crise ou Nó (razão mesma de ser da narrativa, sem o que não se a tem, mas a um mero relato, e com o qual uma espécime, como o conto, se contenta, tornando-se, por isso, mui complexo) e no Desfecho ou Desenlace.

Mas em Palha de Arroz há, ainda que curtíssimo, um obviamente dispensável Epílogo ou Comentário (“Pela primeira e última vez na vida, depois da morte de Pau de Fumo, Chico da Benta não veio ao mundo. Morreu de verdade. Acabou-se o homem”), uma vez que o texto, de fato, se encerra mesmo, de maneira bela e densa, um pouco antes, no parágrafo anterior (“Aí soltou uma gargalhada espalhafatosa e atirou-se, das alturas do meio da ponte, nas águas do rio velho”).

Ademais, do Desfecho ou Desenlace em questão diga-se de seu conteúdo que é ele, plenamente previsível: inúmeras vezes o protagonista Pau de Fumo anuncia que se suicidará no Poço da Usina, o que acaba, afinal, acontecendo, embora não exatamente nesse local, mas no “rio velho”, o Parnaíba.

É bem possível que Ibiapina tenha, como escritor, perdido, aqui como em outras passagens, uma boa oportunidade de surpreender o leitor, se rompesse, ao final, essa expectativa o tempo todo fixada, a marteladas, a exemplo do que fez ao deixar em suspenso à autoria do furto das joias de Maria Piribido.

Com efeito, quando todos os leitores esperávamos que tivesse sido Pau de Fumo o ladrão, ou mesmo outro, eis que emerge a surpresa, que eleva, sobremaneira, a tensão narrativa: o gatuno fora, e ninguém, ninguém mesmo, esperava por isso, o negro Parente, irmão de sangue de Piribido, e intrigado, ele, com a bela mana, por ser a moça uma prostituta (parentesco este que só agora, neste episódio, se revela), num lance, repetimos, de excelente tessitura romanesca.

No entanto, pode mesmo ser que Fontes quisesse, ao suicidar, de maneira anunciadíssima, a Pau de Fumo, expressar, implicitamente, que este ato extremado (o texto está, aliás, cheio deles, como o de Ceição, bastante detalhado, o de Serafina, Maria Celeste, etc) não ocorre nunca de supetão, assim, de um momento a outro, mas advém de longa, e dolorosa, e solitária, e desesperada, preparação interior. Se esta foi a intenção, ponto, então, para o escritor!

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Palha de Arroz de Fontes Ibiapina

Publicado em:Resumos de livros

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