Menu fechado
Resumo de Livro Obras por Vestibular1

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa

 

Resumo Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – parte II

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Os irmão Dagobé
Este conto confirma a ideia popular de que Deus escreve certo por linhas tortas. Ou então a de que do nada é que as coisas acontecem, conforme havia dito Joaquim Norberto, em “Luas de Mel”. Damastor Dagobé, bandido extremamente feroz (parece uma referência ao Gigante Adamastor, de Os Lusíadas), foi surpreendentemente assassinado por um sujeito aparentemente fraco, Liojorge, pressionado porgítima defesa.

É em meio ao velório que o narrador se coloca, para captar mais vivamente a reação das pessoas presentes, todos com inúmeras conjecturas sobre como será a vingança dos irmãos Dagobé.
O mais surpreendente é que chega o recado de Liojorge, querendo deixar claro que havia matado com respeito e que queria estar na presença dos irmãos, para mostrar sua boa vontade.

Se isso já deixou todos sobressaltados, muito mais quando se fica sabendo que o bom moço queria ajudar a carregar o caixão de Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um maluco.

Surpreendentemente os irmãos Dagobé concordam, mas impõem uma condição: só depois do caixão ser fechado. Os presentes imaginam algum plano malévolo e traiçoeiro dos bandidos. No entanto, a narrativa apresenta frustração após frustração. Liojorge chega e não é assassinado. Conduz o caixão.
No caminho, tropeça e quase derruba o féretro. Para os espectadores é um prenúncio de desgraça. E comentam que os irmãos Dagobé estão na realidade realizando o pior dos planos: usar o homem como carregador e no cemitério dar cabo dele.

No entanto, este é outro conto a lidar com anticlímax. Enterrado Damastor, seus irmãos agradecem a atenção dos acompanhantes, mostram compreensão em relação a Liojorge e reconhecem que o falecido, em vida, era mesmo muito ruim. Comunicam que estão de mudança para a cidade, o que indica evolução.

Interessante é notar que a personagem que aplica a penalidade sobre o Mal neste conto, como em “Fatalidade” e “A Benfazeja”, não o faz por vontade, o que indicaria um caráter maligno. É muito mais um instrumento de algo superior, preocupado com a ordem e o equilíbrio.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – A terceira margem do rio
Este é o mais famoso e o mais aberto conto de Guimarães Rosa. Trata-se da história do pai do narrador, chamado de nosso pai (como a incluir também o leitor) que tem um aparente desatino: constrói uma canoa para passar o resto de sua vida nela, numa viagem em direção à terceira margem do rio. Fica claro, pois, que seu alvo é metafísico, já que um rio só tem duas margens.

É uma viagem em que nosso pai vai-se exceder, sair de sua condição primitiva em direção a uma verdade superior. Assim, a imagem da água concentra algumas simbologias. Pode estar ligada ao batismo, em que se morre para uma vida e se nasce para outra.

Assim, há uma forte ligação com “O Espelho”, que fica confirmada com a ideia de que ambos os contos possuem a tese de que se deve buscar o verdadeiro eu (o eu por trás de mim, ideia já presente em “A Menina de Lá”). Essa busca está no mergulho em si mesmo, ou na busca de uma verdade religiosa ou até na própria morte, denotativa ou conotativamente.

Um aspecto interessante a ser notado é que o narrador, quando criança, queria embarcar com o pai. Este o impediu. Adulto, intui o porquê da busca do pai e, chegando-se à margem do rio, diz que quer substituí-lo.

É o único momento em que o velho se manifesta, indo em direção à margem. No entanto, o narrador fica com medo da imagem do pai, que parecia vir do outro mundo. Foge. Por isso, torna-se a única personagem fracassada, pois não foi capaz de transcender, de realizar seu salto.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Pirlimpsiquice
O nome desse conto parece uma união de duas ideias, Pirlimpimpim, o pó de faz de conta do Sítio do Picapau Amarelo (“Faz de conta” é a frase que o protagonista de “Nada e a Nossa Condição” mais fala) e psique, que tanto pode significar “alma”, “espírito”, “mente”.

É a história de onze ou doze crianças que estão ensaiando uma peça, “Os Filhos do Dr. Famoso”, para ser encenada diante da escola. É notável como crianças, símbolo da liberdade, agem no rigor dos ensaios constantes. Chama a atenção também como os adultos têm uma linguagem tão empolada, próxima do vazio. O pior é que um grupo de crianças, liderado pelo Gamboa, ficou de fora de todo esse processo e começa a espalhar que tem conhecimento da obra que os meninos ensaiam tão em segredo. Então, como disfarce, os atores criam uma terceira história.

Tudo perfeitamente programado, mas em cima da hora o Ataualpa, quem iria abrir a peça, tem um parente que está para morrer e, por isso, precisa ir embora. Quem assume o seu lugar é o narrador, que sabia todas as falas de cor, pois era o ponto. No entanto, na estreia é que se tocaram de que a peça devia ser aberta por um poema conhecido só pelo Ataualpa. O narrador fica parado, sem saber o que fazer. A gafe é paga com vaias monstruosas.

A situação é salva por Zé Boné, garoto limítrofe que teve sua participação limitada a um papel sem fala. Inesperadamente começa a encenar a própria peça do Gamboa, no que é seguido pelos demais garotos, como se estivessem num transe, que se transfere para a plateia, paralisando-a. Esse transe coletivo pode ser entendido como o poder da Arte. Há, no entanto, quem o compare à primeira manifestação do Espírito Santo diante dos apóstolos, que os fez falarem línguas de que nem tinham conhecimento.

Perdem a noção do tempo – contato com o divino? – o que os faz não conseguirem terminar a peça. Até que o narrador realiza um salto mortal do palco – a queda do Paraíso, como em “As Margens da Alegria”? O quase salto de “Darandina”? A ideia aristotélica de que o teatro é um salto para a vida? Ou a ideia de sublimação tão comum nos contos da obra?).

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Nenhum, nenhuma
Este é o conto mais hermético da obra. Sabe-se que o narrador faz um enorme esforço de memória, que tanto pode ser entendido com a recuperação de um sonho, ou uma regressão psicanalítica ou até terapia de vidas passadas. E não está descartada a hipótese de um resgate da reminiscência do mundo das ideias, bem mais perfeito, de acordo com o platonismo.

Tudo o que o narrador consegue relatar, de forma nebulosa, imprecisa e fragmentada, é que está de visita em uma casa, em que havia um Moço e uma Moça que se amavam. Havia também uma velha de idade tão avançada que nem havia mais noção de como chegara ali. Essa ideia é o motivo de os dois jovens não poderem ficar juntos, pois a Moça precisa cuidar dela.

Desfeito o relacionamento, o menino é levado para sua casa pelo Moço. O garoto vê o sofrimento do jovem. É um amor forte. Chegando a sua casa, o pai fala do muro novo que está sendo construído. A mãe está preocupada em ver se a roupa do filho estava em ordem.
O garoto, indignado, berra com os pais, dizendo que eles não sabiam nada do amor, preocupados que estavam com questões tão insignificantes e chãs.

Há aqui três possíveis interpretações para essa reação. A primeira é a de que o menino, conhecendo um amor tão forte como o do Moço e da Moça, fica decepcionado quando vê os pais se perderem no prosaico. A segunda é a de que o Moço e a Moça foram o pai e a mãe do menino no passado e no tempo presente deixaram o amor morrer, o que frustrou o jovem.
Ou então o Moço e a Moça eram a ideia perfeita do amor, de acordo com o platonismo, enquanto o pai e a mãe seriam a cópia, a sombra terrena desse ideal e, portanto, imperfeitos.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Nada e a nossa condição
Este conto é considerado uma paródia dos contos de fada. No mínimo, possui elementos desse gênero, pois seu protagonista, Tio Man’Antônio, é tão rico e bom como os reis dessas histórias tradicionais.

A narrativa inicia-se com o enterro da esposa da personagem principal, que, a partir desse instante, começa a realizar um movimento de desapego em que se esvazia das posses e abastece seus próximos. Desfaz o jardim predileto de sua falecida, o que dá a impressão de estar-se desfazendo das lembranças dela. No aniversário de um ano de luto, dá uma festa em que consegue fazer com que suas três filhas conheçam seus noivos.

Casadas, partem. Man’Antônio vende suas propriedades e transfere o lucro para suas filhas. Divide sua enorme fazenda entre seus empregados, o que pode ser enxergado como um tipo de reforma agrária. E ainda tem de se intrometer nos afazeres deles, pois sozinhos não conseguem se virar. O senhor virou capataz – outro desapego, dessa vez de posição.

Estes, ingratamente, tratam-no de maneira silenciosamente agressiva. Acham que ainda estava se fazendo de senhor. Talvez não perdesse sua majestade. Engrandecido estava, mas espiritualmente, graças ao seu desapego. Já está pronto para a sua grande viagem, a espiritual. Espera, realizado e tranquilo, a morte, que de fato chega. Conforme seu pedido, sua casa é incendiada, ele dentro. É a cremação. As cinzas parecem subir, como se buscassem o Céu.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – O cavalo que bebia cerveja
O narrador deste conto é Reivalino, erroneamente chamado pelo protagonista, Giovânio, de Irivalini. A personagem principal é um italiano, refugiado da guerra, que mora numa chácara escurecida, ocultada por árvores.

Tem uma dor a ocultar, mas escondê-la é só um erro, tanto que ninguém entende o que fala. E nem consegue a estima do narrador, que xenofobamente o acha nojento. Talvez a explicação seja Reivalino achar que o estrangeiro esteja de gozação quando chega à sua venda e pede cerveja para o cavalo.
Há aqui o cruzamento de valores. Giovânio come alface em um balde de água. Animalizou-se. O cavalo bebe cerveja. Humanizou-se.

A birra começa a diminuir quando a mãe de Reivalino fica doente e Giovânio, talvez tocado com a ideia dolorosa de perda (mais tarde se verá que também é vivida por ele), paga as despesas com remédio. Com a morte dela, passa a trabalhar para o italiano, mas com ressalvas, o que justifica ter colaborado com a polícia na entrega de algumas informações sobre Giovânio.

Por causa delas, a polícia visita a casa do italiano, não descobrindo nada de errado. Em outra oportunidade, Reivalino acaba conhecendo os cômodos mais internos da casa, em um deles até havia um cavalo empalhado. Empalhar é tentar absurdamente deter o inevitável: o curso do tempo e a morte.

A intimidade entre os dois vai-se fortalecendo, até o momento em que Giovânio mostra o seu segredo: Josepe, seu irmão morto, com o rosto mutilado pela guerra. Aceitar e verbalizar essa dor serviu, como numa terapia, para Giovânio viver melhor, pois sofre menos, seu italiano misturado com português passa a ser entendido e é aceito pelo narrador.

Eis a ideia aqui é que se deve aceitar nossa imperfeição marcada pelo tempo, já vislumbrada pelo Menino de “As Margens da Alegria”. Aceitar a morte e consequentemente o fluir do tempo é viver melhor.

Marcante é uma das últimas falas do italiano, pouco antes de tornar Reivalino seu herdeiro: “A vida é bruta e os homens são cativos”. Pode-se entender uma relação entre a ideia do homem ser cativo, prisioneiro, ou seja, cheio de apegos, até mesmo à própria vida, como um dos motivos para os problemas da vida, até a traumatizante guerra pela qual havia passado Giovânio.

Por outro lado, assim como numa parábola, corremos o risco de cometer o mesmo erro de Damásio em “Famigerado”. A verdade ser-nos exposta, mas não a enxergamos. As palavras “bruta” e “cativos” existem no língua italiana, mas com outro significado: “feia” e “maus”, respectivamente.

Assim, pode-se entender também que a vida é feia, cheia de problemas, porque os homens são maus, ou por serem imperfeitos, ou por terem uma queda para a malignidade, ou por causa dos dois motivos.

 

Continuar lendo o resumo Primeiras estórias de João Guimarães Rosa

Voltar a ler o resumo Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – parte I

 

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa

Publicado em:Resumos de livros

Você pode gostar também