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Primeiras estórias de João Guimarães Rosa

 

Resumo Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – parte III

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Um moço muito branco
Talvez por apresentar um fato que pode ser entendido como dos mais mirabolantes, ou mesmo absurdos, este conto é introduzido por uma precisão espaço-temporal atípica em Guimarães Rosa.

A história iniciou-se em 11 de novembro de 1872, em Serro Frio, no Arraial do Oratório. Na noite desse dia havia ocorrido uma tempestade fortíssima. No dia seguinte surgia na cidade um moço muito branco, luminoso, aéreo, desligado, “sonhoso”, como se não fosse deste mundo. Todos o imaginaram vítima de uma amnésia provocada pelo cataclismo. É logo cuidado por Hilário Cordeiro.

Este texto é permeado de inúmeras referências católicas, não só quanto ao nome Hilário Cordeiro, como também a datas no decorrer da história, sempre dias de santos. Além disso, a descrição do moço, além de puxar elementos ufológicos que o qualificariam como um extraterrestre, traz à baila aspectos que o qualificariam como um anjo. Isso se na realidade não possa ser encampada a tese de que ambas as qualificações referem-se à mesma entidade.

O fato é que esse moço, que quando entrava na igreja tinha jeito de cão que tinha encontrado o dono, possuía o dom de distribuir a felicidade, a graça às pessoas com quem convivia. A um cego havia dado uma semente, que dera origem a uma árvore maravilhosa, nunca vista.

À filha melancólica de um fazendeiro trouxera alegria quando, inocente ou abençoadamente, havia tocado no seu seio. O pai dela, Duarte Dias, que já havia levantado confusão enorme porque queria tirar a guarda do moço das mãos de Hilário Cordeiro, sob a desculpa de que era um parente distante e desaparecido, arranja maior ainda, alegando que a menina tinha sido desonrada. A cidade é que protege o moço da sanha do irado homem.

Por fim, o mesmo Duarte Dias é quem pede humilde e desesperadamente a companhia do moço. Parecia um pedido sem sucesso, se não fosse o próprio jovem que se oferecesse a ficar com o fazendeiro. Leva-o para suas terras e indica um local a ser enterrado. Duarte Dias obedece e descobre uma jazida de diamantes. Essa dádiva muda o comportamento do homem – torna-se bom.

Então, o sonhoso resolve partir. Com a ajuda de José Kakende, um indigente que o havia visto chegar – acendem-se 9 fogueiras. Este é um número místico, pois é o de níveis angelicais. Desce estrondosamente um objeto do céu de onde saem outros moços, que o conduzem de volta ao veículo.

A descrição feita aqui é muito parecida com a que aparece em Ezequiel I, 4-28, no instante em que se vê a manifestação da glória de Deus. Misturam-se esoterismo, misticismo e ufologia.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Fatalidade
Este conto tematiza ideias como Destino e Karma e sua inevitabilidade. É o que indica seu título.
Trata-se da história de Zé Centeralfe, que vive acochado, pois sua esposa desonrosamente está sendo cortejada por um facínora, Herculinão.

O casal, para evitar problemas, mudou-se do Pai do Padre para Amparo. Mas o bandido segue-os. Mudam-se então para a cidade, onde deveria haver lei, ordem, segurança, mas continuam sendo seguidos. É por isso que o pobre homem vai pedir ajuda ao delegado, chamado pelo narrador de Meu Amigo, figura que cita intensamente os filósofos gregos. A intenção é obter o apoio da justiça dos homens.

No entanto, Zé Centeralfe é induzido a outro tipo de moral. Aparentemente, é a justiça pelas próprias mãos, pois o delegado convence Centeralfe, apenas com o olhar, a pegar as armas. Assim que saem, encontram Herculinão, que é assassinado com um tiro no peito (coração) e outro na cabeça (mente).

Uma leitura mais atenta revela outro aspecto, bastando analisar o nome dos dois opositores. Herculinão vem de Hércules, personagem que faz lembrar o ato de exceder, pela força (algo um tanto grotesco), a condição humana.

Seu pecado, portanto, é transgredir a ordem natural, que precisa ser restabelecida. Esta é a função de Zé Centeralfe. Seu sobrenome vem do inglês, “centerhalf”, ou seja, meio de campo, o jogador que, no futebol, tem a função de distribuir a jogada. Sua tarefa assemelha-se à de Liojorge em “Os Irmãos Dagobé”: ser apenas um instrumento para o reequilíbrio das forças. Fez cumprir o karma, o destino. A Fatalidade.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Sequência
Esse conto narra a fuga de uma vaca em direção à sua querência, ou seja, o lugar de seu nascimento. É a temática da viagem de volta, presente em “As Margens da Alegria”, “Os Cimos” e “Nada e a Nossa Condição”, entre outros. Essa aproximação também se faz no campo do misticismo, pois a vaca, que ia pelo meio do caminho, é chamada de criatura cristã.

Além disso, seguia por amor e não por acaso. Outro elemento religioso é visto no fato de estar fugindo de uma fazenda chamada Pedra em direção à outra, Pãodolhão. Há a ideia de evolução da pedra para o pão. É a sublimação, tão comum em Primeiras Estórias.

No entanto, o filho mais moço de seu Rigério, dono da fazenda da Pedra, resolve ir atrás da vaca, por intuição sabendo seu caminho. Até que atravessa um rio – ideia do batismo, presente em “O Espelho” e em “A Terceira Margem do Rio”.

Sai da água outro, mais determinado. Já enxerga exatamente o rumo do animal.
Alcança a vaca já dentro da Pãodolhão. É quando vê quatro moças, apaixonando-se por uma delas, para quem acaba entregando o animal. A busca da vaca transformou-se na busca do amor, cristão, atingida na viagem de volta ao nascimento, ao princípio, à querência, ao Paraíso.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – O espelho
Este conto apresenta um aspecto que o destaca em relação aos demais de Primeiras Estórias: sua linguagem é carregada de termos científicos e filosóficos, numa formalidade que se afasta do caráter oral dos outros 20 textos.

Seu narrador, que parece conversar com o leitor (o que torna o conto um espelho) diz que realizou um enorme esforço, por meio de seu reflexo num espelho, de busca do seu verdadeiro eu, o “eu por trás de mim”. Aqui se estabelece uma forte ligação com outros contos, que ajudam a interpretá-lo. O primeiro é “A Menina de Lá”, que morava por trás da Serra do Mim, num lugar chamado Temor de Deus, perto de um brejo de águas limpas – um espelho. Essa busca de águas/espelho é semelhante à de nosso pai, em “A Terceira Margem do Rio.

Esse verdadeiro eu precisa ser encontrado por meio de seu reflexo. Estuda-se, pois, sua imagem e semelhança. Assim, a busca do verdadeiro eu está na busca de Deus. Para tanto, o narrador vê-se na necessidade de realizar exercícios que têm a proposta de eliminar as superfícies enganadoras de sua imagem (bem diferente de Jacobina, de “O Espelho”, de Machado de Assis, que se apega à superfície do seu eu).

Com esforço, elimina sucessivamente a imagem do seu sósia animal, dos seus pais, de suas paixões, das ideias que os outros lhe atribuem, dos interesses efêmeros. O resultado de todos esses esforços causa-lhe muito sofrimento, principalmente uma terrível dor de cabeça. Resolve, pois, abandonar a tarefa.

Tempos depois, voltou a se olhar no espelho e não viu nada. É como Damásio, em “Famigerado”: tem diante de si a verdade, mas não a enxerga, pois não está preparado. Aos poucos, uma imagem vai-se formando, de forma luminosa.
É o brilho que cerca as personagens divinas de “Um Moço Muito Branco” e “Substância”. No final, surge a imagem de algo que é menos que um menino. A associação com a criança de “As Margens da Alegria” e “Os Cimos” não é absurda.

Também se deve lembrar que há uma referência a I Coríntios, XIII, 11-2: “Quando eu era criança eu via e pensava como criança. Agora que cresci já não ajo como criança. Agora vejo em parte, mas quando vier o que é perfeito, verei face a face”. Eis a ideia de que a criança enxerga melhor a verdade (eis um dos motivos para a predileção para esse tipo de personagem na obra).
Tornando-se adulto, a visão é embaçada. No entanto, existe a promessa de que se voltará ao estágio da perfeição. Vai-se estar face a face com Deus, como se diante de um espelho.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Luas de mel
Do nada é que as coisas acontecem. Essa frase pode ser entendida como uma defesa do desapego, presente em “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “Os Cimos”, “A Terceira Margem do Rio”, “O Espelho” ou “Nada e a Nossa Condição”.

Pode também ser entendida como uma explicação para as ações de Liojorge e Zé Centeralfe, de “Os Irmãos Dagobé” e “Fatalidade”, respectivamente. Mas é uma frase proferida por Joaquim Norberto, protagonista do presente conto, que tem a mesmice de sua vida quebrada pelo pedido do Coronel Seotaziano de proteção a um casal que quer casar-se, contrariando a decisão da família da moça.

Deve-se notar que, além de a filiação de Joaquim a Seotaziano lembrar o feudalismo, a chegada do casal provoca duas consequências: cria, em forte crescendo, uma expectativa tensa de um combate, o que faz todos ficarem armados, até o padre, que viera celebrar o matrimônio. Gera, também, o renascer do amor em Joaquim Norberto e sua esposa Sa-Maria Andreza.

No final, outra vez se manifesta no obra o recurso ao anticlímax. O irmão da noiva surge, mas não traz a guarda, apenas o convite de um almoço para comemorar a união. Todos vão ao festejo, menos Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza. Os dois ficam para aproveitar o sentimento renovado. Amor traz amor.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Partida do Audaz navegante
Este conto apresenta uma personagem considerada o Guimarães de saia: Brejeirinha. Tal aproximação justifica-se por causa da compulsão de ambos por contar histórias usando elementos poéticos e alógicos, dando novos sentidos a palavras conhecidas.

A narrativa inicia-se com a protagonista presa em casa, por causa da chuva, em companhia de sua mãe, dos irmãos Pele e Ciganinha, e do primo Zito, namoradinho desta última. O ambiente em que estão, com o calor do lar, sugere o conforto do útero, imagem que parece um reflexo da figura da mãe.

Com o fim da chuva, partem para o ambiente externo. Brejeirinha começa a contar uma história, baseada num sonho de Zito. Ao usar o real para fazer seus voos imaginativos, age como Guimarães Rosa. Sua narração é sobre um navegante que sai em busca de sua amada quase uma referência a Ciganinha e Zito. É uma história que curiosamente vai ter o seu final várias vezes alterado, atendendo à compulsão de Brejeirinha para efabulação.

Quando chegam à margem do rio, encontram um esterco de vaca em que havia crescido um cogumelo. Enfeitam-no com flores, palitos, chiclete e demais adereços miúdos, transformando-o no Audaz Navegante. É uma atitude alquimista, pois tira ouro, beleza da matéria mais pobre. Mas pode ser também entendida como surrealista, graças à associação inusitada de elementos.

Com a chegada da mãe, as crianças esquecem momentaneamente o brinquedo, que parte, conduzido pelas águas da chuva e do rio. Assim como o Audaz Navegante, que conseguira unir-se a seu amor. Curiosamente Brejeirinha diz que ele havia-se transformado em vaga-lume. É um ponto de contato com “As Margens da Alegria” e “Tarantão, meu Patrão”.

 

 

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