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Primeiras estórias de João Guimarães Rosa

 

Resumo Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – parte IV

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – A benfazeja
Mais uma vez a ideia de que quem não está preparado para a verdade não a pode enxergar. Mas neste conto esse defeito é visto em uma cidade inteira, o que deixa o narrador, que conversa com esses moradores, irritado com tal cegueira. Lembra o Velho do Restelo, de Os Lusíadas.

O narrador está determinado a convencer – o que não consegue – a todos que Mula Marmela, mulher estéril, sem nome cristão, dotada de linguagem antiga (sua descrição a afasta deste mundo), não é uma personagem maldita como sempre fora apregoado.
Sua função fora benfazeja, pois eliminara dois personagens sedentos por sangue: seu companheiro Mumbungu e o filho deste, Retrupé, que chegou até a ser cegado pela madrasta para deter seu espírito maligno. Essas acusações não são explicitamente encampadas pelo narrador, que apenas relata, cômoda e seguramente, os comentários que circulam pela cidade.

A imagem que simboliza Mula Marmela é a do carvão, que é preto, mas, aproximado à luz, torna-se brilhante. As ações de Mula Marmela, para quem tem visão tapada – como o narrador de “O Espelho”, em certo momento, ou Damásio Siqueiras, em “Famigerado” – são malignas.

No entanto, a ação dela salvou, por meio da morte, seu companheiro e de seu enteado. Tanto que os dois, por mais bandidos que fossem, sempre a respeitaram e a temiam, como se intuíssem que o destino deles estava nas mãos dela.

Como argumento em favor da personagem, é lembrado o momento em que Retrupé fora assassinado. Quando havia descoberto o inevitável fato (envenenamento), tem uma explosão de raiva e tenta atingir Mula Marmela com seu facão, mas não a alcança, mesmo ela estando inflexível. Arrefecida a explosão, começa, entre lágrimas, a chamar a algoz de mãe. Ela o chama de filho.

Realizada sua missão, parte da cidade, sob o silêncio ingrato dos habitantes. O narrador faz ainda questão de lembrar que na saída ela havia carregado nas costas um cachorro morto – ou para limpar a cidade, ou para enterrar o coitado, ou para garantir companhia em sua viagem. Qualquer uma dessas hipóteses reforça o caráter positivo da protagonista.

Primeiras estórias de João Guimarães Rosa – Darandina
Este é um dos poucos contos urbanos da obra. Claramente, sua temática é a loucura. Um sujeito rouba uma caneta e sobe numa palmeira, numa explosão de loucura que quebra o cotidiano de pasmaceira da cidade. Mais uma vez, do nada é que as coisas aconteciam, assim como em “Luas de Mel”.

Sua maluca subida, além de fazer lembrar “Ismália”, do simbolista Alphonsus de Guimarães, mostra uma confusão que a personagem faz entre plano denotativo (sair do chão, ao pé da letra) e plano conotativo (sair do chão no sentido de buscar a transcendência).

Outro aspecto interessante é o que acontece no chão. Além do absurdo que é os especialistas discutirem a rotulação da insanidade do sujeito, sem solucionarem o problema, chama também a atenção a cidade inteira acompanhar o espetáculo do rapaz. Tudo isso autoriza o seguinte questionamento: quem é louco? É uma pergunta espinhosa que faz lembrar o conto “O Alienista”, de Machado de Assis.

O incrível é que o louco consegue um equilíbrio espantoso no alto da palmeira (outra diferença entre os planos denotativo e conotativo), tornando-se, portanto, um excesso humano. Isso é que explica a profundidade de sentido de suas frases, como “Viver é impossível!”.

Infelizmente, recobra de súbito a sanidade e passa a ter medo da queda. De fato, chegar tão longe do comum do chão assusta – é o mesmo medo que sentiu o narrador de “A Terceira Margem do Rio” e Sionésio, de “Substância”. É conduzido para baixo pelos bombeiros. A população fica irritada com o fim do espetáculo. O ex-louco, talvez por segurança, tem (ou simula) outro surto, devolvendo alegria à cidade, que volta, alimentada, para o seu cotidiano.

Mais sobre Primeiras Estórias de Guimarães Rosa – Conto XVIII – Darandina
O livro guarda 21 histórias curtas, mas o assunto é o mesmo que permeou a trajetória do escritor: os “causos”pontilhados da tradição oral, os enredos que mostram desde o tom épico, o filosofante, o lírico, o hermético.

Embora nesse conjunto não haja propriamente uma linha temática, um fio condutor, é bom lembrar que neles predomina a poesia saborosa na organização das palavras e cada conjunto, oração ou período depende de nós, da nossa capacidade de observação, de nossa paciência para que se instaure o significado esplêndido que tem.

Primeiras Estórias de Guimarães Rosa – Tema: loucura
O narrador é um médico-residente num hospício ( o Instituto).
Como se dá a história, que é tragicômica e é narrada por um mordaz médico que em tudo põe os olhos e nada deixa escapar?

Assim: um homem muito bem posto, acusado de roubar uma caneta e, perseguido por outros, sobe com rapidez numa palmeira-real. Os funcionários do hospício ficam observando aquilo e decidem que ele é meio louco.
Um médico plantonista, que não é o narrador, diz que o homem é secretário das Finanças Públicas, o que é contado à multidão que, achando coerente o que ele faz, devido ao seu trabalho, aceita o fato como normal. O verdadeiro secretário recebe pedido de desculpas.
E outra multidão, agora, formada pela polícia, corpo de bombeiros, capelão, enfermeiros, padioleiros, chega.

Um professor, Dartanhã, aproveita a darandina ( confusão) e contesta a autoridade do diretor do hospital. Enquanto tudo acontecia lá embaixo, o homem , lá em cima, dizia:
“- O feio está ficando coisa…” (…) Querem comer-me ainda verde?!”

Tira os sapatos, a roupa, os bombeiros tentam resgatá-lo, os cinegrafistas o filmam, jornalistas e fotógrafos também estão lá. E o doido, lá em cima, resolveu, então, balançar-se na palmeira, recebendo, agora, os aplausos do público.

Mas, num momento, o doido recuperou o equilíbrio mental. Só que nem o público, nem os diretores, nem os médicos aceitavam isso, assim, de repente. Pretendiam linchá-lo. Foi ai que o louco deu gritos contra a ordem estabelecida e gritando “Viva a luta! Viva a liberdade!”despencou de lá de cima nu como viera ao mundo. , mas foi amparado pela multidão.
De igual, depois daquilo, só mesmo a palmeira.

Primeiras Estórias de Guimarães Rosa – Substância
O título desse texto, um verdadeiro conto de fadas, tem um título que estaria relacionado a três fatos. “Substância” pode significar “o essencial”. Seria um conselho para que nos atenhamos apenas ao que é importante. É a lição aprendida por Sionésio.

A palavra pode também estar ligada à ideia de alguns textos místicos medievais, que diziam que os anjos eram todos iguais – assim como o moço muito branco, de “Um Moço Muito Branco”, que é indefinido por ser feito de uma substância divina. Pode ainda estar ligada ao polvilho, material extremamente branco que Maria Exita, empregada de Sionésio, manipula.

O nome dessa personagem também suscita considerações interessantes. Maria é o nome mais sagrado e tipicamente feminino. Exita pode estar ligado a “êxito”, alcançado pela moça e por seu companheiro. Pode também fazer referência a Sionésio, que hesita em se unir a ela, com medo do salto que realizará – o mesmo medo de “Darandina” e de “A Terceira Margem do Rio”. pode também estar ligado ao termo “exit”, que em latim significa “saída”, indicando o afastamento das condições terrenas.

É quase um sinônimo de “salto”, tão comum na obra na obra. A palavra pode ainda ser um hibridismo constituído do latim “ex” e do tupi “ita”, que significa pedra. É uma referência à capacidade de sair da pedra (como a vaquinha de “Sequencia”), do mais baixo e tornar-se divino.

Maria Exita é o exemplo de que do nada é que as coisas acontecem, defendida em “Luas de Mel”. Havia chegado à fazenda de Sionésio ainda menina feia e desengonçada. Surpreendentemente, tornara-se aos seus olhos, deslumbrante, dona de uma beleza radiante digna das musas de Petrarca e Camões.
Essa luminosidade é reforçada pela matéria com a qual lida, o polvilho, e para a qual é a única que está acostumada, mesmo sob o forte sol do sertão, que torna essa substância dotada de um brilho cegante. Essa familiaridade a torna divina.

No entanto, Sionésio tem medo. A mãe de Maria Exita era leviana, tendo abandonado o lar. O pai estava num lazareto (lugar para leprosos). Seus irmãos eram bandidos, um preso e outro foragido. O fazendeiro tem, portanto, teme que em sua amada exista a marca de algumas dessas malignidades.

Mas Sionésio vence todos esses receios. Atingir a realização, a felicidade plena exige a coragem de suplantar obstáculos. Caminha para a eternidade, para a luz, para o “não tempo” e o “não fato”.

Primeiras Estórias de Guimarães Rosa – Tarantão, meu patrão
Este é outro conto com anticlímax. É a história de um velho que já fora mandão e que tinha sido afastado da família, por causa de sua caduquice – que já pode ser vislumbrada de início pelo costume da personagem de usar botas desiguais.

O narrador, Ligeiro ou Vaga-Lume – eis aqui um ponto de contato com “As Margens da Alegria” e “A Partida do Audaz Navegante” – tem a função de cuidar do idoso, mas se vê em apuros, já que o ancião tem um surto e, armado de uma velha faca de cozinha enferrujada, parte numa busca maluca para se vingar de um médico que o havia feito sofrer com aplicação de remédio e lavagem intestinal.

Achando que a viagem, dominada pelo instinto de vingança, era guiada pelo diabo, o narrador segue Tarantão, na tentativa de evitar algum infortúnio. E o velho parece disposto a criar um grande estrago, pois vai arregimentando toda espécie de marginalizados, loucos, bandidos, desvalidos. Constrói, portanto, uma tropa, tornando-se uma paródia do rei Arthur.

Chegando à cidade, Tarantão pede bênção ao padre, o que tranquiliza o narrador. A viagem não está sendo guiada de todo pelo maldito. E então, o anticlímax. Entra na casa do doutor. Era festa de batizado do filho do médico. Tarantão retribui a forma afetiva com que foi recebido com um discurso, que não se entende, mas que comove a todos.
Sentou-se, depois, em uma mesa à parte, junto dos seus cavaleiros.
Poucos dias após isso, morreu. Deve-se entender sua viagem, pois, como uma última explosão de vida, como se tivesse recebido a missão de poder experimentar uma explosão de existência.

Primeiras Estórias de Guimarães Rosa – Os cismos
O último conto apresenta forte semelhança com o primeiro. O ambiente é o mesmo, assim como praticamente as personagens. Além disso, o ponto final de “As Margens da Alegria” é o início de “Os Cimos”: a morte. Porém, o menino faz, aqui, sua viagem não mais no feliz, mas na agonia, pois sua Mãe corre um sério risco de morrer.

Para se viver melhor, deve-se evitar o apego à vida e aceitar a morte. É o que fez Tio Man’Antônio em “Nada e a Nossa Condição” ou Giovânio em “O Cavalo que Bebia Cerveja”. Essa necessidade de desapego é vista neste conto no chapeuzinho de um macaquinho de brinquedo que o Menino acaba perdendo durante essa viagem. Ainda assim, talvez por não entender essa mensagem, guarda o boneco, que várias vezes parece querer sair do bolso.

Ainda assim, o menino parece inconscientemente sentir que se ligar fortemente às coisas é ruim, tanto que sua agonia é crescente. Parece não querer mais querer. Querer é apegar-se. Apegar-se é sofrer.
Eis que, durante o nascer do sol, o menino intui a necessidade de estar na frente da casa do Tio. É quando presencia o início de um ritual que vai durar 1 mês: o voo de um tucano, que pousa num galho diante da criança, sempre às 6h20, alimenta-se e alça novamente voo às 6h30, em direção do sol, da luz, agora mais forte que a do vaga-lume em “As Margens da Alegria”.

Essa precisão faz com o que aprenda a esperar, a ter esperança, a deixar partir. Tanto que propõem caçar a ave, mas ele rejeita. Aprendeu a desapegar-se. Aprendeu a viver.
Resultado: contrariando expectativas, sua mãe melhora e escapa da morte. O Menino retorna para seu lar. No avião, durante a volta, o piloto devolve-lhe o chapéu do boneco. Mas o macaquinho já estava perdido. Ou deixado partir.

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Primeiras estórias de João Guimarães Rosa

Publicado em:Resumos de livros

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