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Romance Negro e outras Histórias de Rubem Fonseca

 

Resumo Romance Negro e outras Histórias de Rubem Fonseca – parte I

Depois de cultivar o romance nos últimos dez anos, Rubem Fonseca volta ao gênero que lhe deu o estatuto de um dos melhores prosadores brasileiros da atualidade. O retorno cria certa expectativa no leitor, pelo fato de seu conto ter sido quase que unanimemente exaltado pelos críticos, ao mesmo tempo em que o romance era visto, também por boa parte desses críticos, como obra falha, em que determinados procedimentos se rotinizavam, fazendo com que o escritor perdesse a tensão dos primeiros contos.

A fim de avaliar sem exageros o livro mais recente de Fonseca, Romance Negro e outras Histórias, é necessário pôr de lado o esquematismo de querer ver no gênero a razão absoluta da qualidade ou não do escritor. Mesmo porque nem todo conto publicado nas décadas de 60 e 70 mostrava o melhor de Fonseca, enquanto seu romance A Grande Arte (1983) é sem dúvida uma das obras mais expressivas da década passada. A ressalva visa retirar de Romance Negro a responsabilidade de trazer ao leitor o mesmo Rubem Fonseca que ele aprendeu a apreciar em contos sensíveis e cultos, como “Gazela”, “A Força Humana”, “A Matéria do Sonho”, “Pierrô da Caverna” e outros mais.

O estilo mudou, e nem poderia ser de outra forma, pois Fonseca correria o risco de imitar a si mesmo, o que seria o fim da linha. Na verdade, sua inquietação como leitor e escritor, a obsessão em apreender a realidade pelo ângulo mais inusitado, fizeram com que o estilo se modificasse de livro para livro: do impressionismo dos primeiros contos, passou pela linguagem fraturada dos livros intermediários ¬ Lúcia McCartney (1969) é o melhor exemplo ¬, até atingir um equilíbrio algo clássico, em relação a sua própria obra, naquele que continua sendo um dos seus melhores livros, O Cobrador (1979).

Romance Negro e outras Histórias é desigual no conjunto, pela extensão e qualidade das histórias. Mesmo assim, basta confrontá-lo com o que se vem publicando no gênero nesses últimos anos, para perceber como Rubem Fonseca é ainda o mestre do conto no Brasil.

A começar de certa prudência em não confiar demais na concisão que o gênero requer e propicia, “concisão” que pode ser antes fraqueza, acanhamento literário de textos mal resolvidos. A consequência disso é o escritor achar um conto em cada canto para onde olhe, certo de que a cena apreendida valerá por si, o que nem sempre ocorre; e o livro acaba sendo um conjunto to extenso e disperso. Moacyr Scliar talvez seja o caso mais exemplar desse equívoco.

Romance Negro e outras Histórias, por seu lado, traz sete contos apenas, a menor quantidade entre as coletâneas do autor; mesmo assim, o livro é desigual. Um conto como “A Recusa dos Carniceiros” não cria grande entusiasmo no leitor: é uma reflexão sobre a pena de morte, em que o narrador vai alinhavando várias passagens de discursos de parlamentares brasileiros no ano de 1830 a respeito da questão, ao mesmo tempo em que pontua o texto com notícias de publicações literárias na Europa naquele mesmo ano.

Mas o conto não decola, não tem a graça que tem, por exemplo, “H.M.S. Cormorant em Paranaguá”, de O Cobrador, em que, através de um episódio da vida de Álvares de Azevedo, o autor tratava das mesmas questões de agora: dependência econômica e cultural, escravidão, posição incômoda do intelectual, etc.
Talvez desagrade também à falta de tensão dramática do conto que abre a coletânea, “A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro”, conto um tanto crônica.

Augusto, o personagem central, é um flâneur do lado sem luz do Rio, um passante que ouve e vê os habitantes soturnos da cidade: mendigos, ratos, prostitutas. Na verdade, Augusto é uma mistura do flâneur e do “homem da multidão”, pois não carrega consigo “nem desejo, nem esperança, nem fé, nem medo”; é uma câmera descobrindo os subterrâneos da cidade.

Pena que a cidade não surja com o mistério que tivera antes das luzes da TV. Além disso, ela ganharia força se estabelecesse com o personagem uma relação mais dramática, como ocorria com o andarilho Mandrake, em Lúcia McCartney, que dizia: “quem pensa que advogado trabalha com a cabeça está enganado, advogado trabalha com os pés”.

De qualquer modo, há motivos engraçados no conto, como o do pastor Raimundo, da “Igreja de Jesus Salvador das Almas”, cujo “templo” (das 8 às 11h) divide o espaço com um cinema pornô; ou o diálogo entre o pastor atormentado (os fiéis estão deixando de contribuir) e o “bispo” de rosto “inescrutável”: “E joias? Nenhum deles tem uma joia? Uma aliança de ouro. Nós podemos pedir joias?/ Por que não? São para Jesus”.

O leitor reencontrará os temas e obsessões que Fonseca vinha trabalhando em sua obra, e que de alguma forma se depuraram, pois o tom do livro agora é outro: diferente da angústia anterior, neste último há desencanto e aceitação. É interessante articular os contos atuais com outros antigos; isso, na verdade, é feito pelo próprio autor em “O Livro de Panegíricos”, que traz de volta o personagem central de “A Matéria do Sonho”, de Lúcia McCartney. Na primeira aparição, o jovem personagem vivia com uma boneca de vinil, Gretchen, e passava todo o tempo lendo os velhos romances do apartamento em que fora trabalhar: sonho e retificação andavam juntos. Vinte e cinco anos depois a cena é a mesma, pois ele vai novamente trabalhar como enfermeiro de um idoso, num apartamento também forrado de livros. Mas o personagem está velho.

Romance Negro e outras Histórias: quando vai para seu quarto, diz o narrador, outrora um leitor voraz: “Meu quarto é confortável, com um pequeno banheiro, televisão e uma estante de livros. Se fosse antigamente eu examinaria livro por livro para ver se algum me interessaria, mas nem olho para a estante”.

Com referência à boneca de vinil: “Eu era um garoto solitário. Com a Gretchen eu conversava./ O que aconteceu com ela. / Furou. Me arranjaram outra, chamada Claudia./ Outra boneca de vinil?/ Sim./ O que aconteceu com ela?/’ Deixei de ser uma criança, cansei de brincar de boneca”.

O velho doente é um contraponto ao enfermeiro; ainda que também amargo, sua experiência é o lado inverso do narrador, pois passou a vida trapaceando, traindo e dormindo com todas as mulheres: “Sabe quando descobri que estava velho? Quando passei a gostar mais de comer do que de foder.

Esse é um indício terrível, pior do que os cabelos crescendo no nariz. Agora não gosto nem de comer”. O doutor Baglioni havia sido o “maior advogado do Brasil”, até o dia em que os médicos disseram que tinha apenas seis meses de vida. Os amigos resolveram homenageá-lo com um livro de depoimentos laudatórios ¬ daí o título do conto; só que o velho advogado não morreu, e percebeu que “passaria à história como um arrivista desfrutável”.

O desencanto do velho advogado com o livro que resume sua vida, e com os livros em geral (“Gostar tanto dos livros quanto das mulheres não é um indício terrível?”), e a rejeição feroz do personagem narrador à fantasia (“Grandes merdas. Há muito tempo deixei de dar importância para o que se lê nos livros”), fazem parte da preocupação temática que perpassa todas as histórias de Romance Negro e outras Histórias, possivelmente com intensidade maior do que ocorria até então na obra de Fonseca.

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Romance Negro e outras Histórias

Publicado em:Resumos de livros

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