Sagarana de João Guimarães Rosa I - Vestibular1

Sagarana de João Guimarães Rosa I

Sagarana de João Guimarães Rosa I

 

Sagarana de João Guimarães Rosa reúne nove contos nos quais estão presentes os temas básicos de João Guimarães Rosa: a aventura, a morte, os animais metaforizados em gente, as reflexões subjetivas e espiritualistas.

Sagarana de João Guimarães Rosa I: Cinco deles – O burrinho pedrês, Duelo, São Marcos, A hora e a vez de Augusto Matraga e Corpo fechado – trazem para os sertões de Minas Gerais peripécias de antigas histórias épicas ou heroicas. O lirismo dos temas do amor e da solidão transparece em Sarapalha e Minha gente. O conto A Volta do Marido Pródigo, é o mais farto em citações de lugares e personagens da região de Itaguara. Neste conto ele descreve saborosamente a epopeia de Lalino ou Laio, que na história, empenha a sua mulher em garantia a um empréstimo feito a um espanhol. Este espanhol, que vivia nas redondezas, era de confiança do chefe político local, o Major Anacleto, enquanto que as reflexões sobre o poder e a fraqueza centralizam-se em Conversa de bois.

O narrador dos contos de Sagarana de João Guimarães Rosa I muitas vezes caracteriza como folclóricas as histórias que conta, inserindo nelas quadrinhas populares e dando-lhes um tom épico e/ou de histórias de fada. Por exemplo, temos o Era uma vez que inicia o conto O burrinho pedrês (Era um burrinho pedrês). Neste conto, assim como em Conversa de bois e em A volta do marido pródigo, os animais se transformam em heróis, questionando o saber dos homens com o seu suposto não saber.
O livro “Sagarana”, na sua primeira versão, foi escolhido em 1937 para concorrer ao prêmio literário “Graça Aranha”, patrocinado pela Livraria José Olympio. Apesar de ser bastante comentado pela crítica, ficou em segundo lugar e não foi escolhido para ser publicado.
Mais tarde, Guimarães Rosa decidiu revisar a obra e excluir algumas partes, até que em 1946, o calhamaço original, com cerca de 200 páginas mais enxuto, foi finalmente publicado.
Sagarana de João Guimarães Rosa I: O próprio título da obra foi inovador e criativo: Guimarães para compor a palavra, tomou um radical de origem germânica (Saga → Lenda) e juntou com outro de origem ameríndia (Rana → Maneira de, Espécie de) e chegou em “Sagarana”, para significar “Maneiras de Lendas ou Espécies de Lenda”.
O livro que se destaca por expor de forma nítida toda a inventividade do autor no trato com a linguagem literária. Percebe-se nele o aproveitamento do colorido de expressões típicas do povo como “Estou como ovo depois de dúzia”, “Suspiro de vaca não arranca estaca”, “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma”, entre tantas outras.
De cunho regionalista, Saragana surpreendeu a crítica e levou o escritor ao renome, em virtude da originalidade de sua linguagem e de suas técnicas narrativas, que apontavam uma mudança substancial na velha tradição regionalista.

Sagarana de João Guimarães Rosa I – “Sarapalha”: Este conto está na lista dos que menos Guimarães Rosa havia gostado. O seu título faz menção ao nome da região em que se passa a história. Era um lugar destinado ao abandono, pois havia sido dominado pela maleita. Seus protagonistas, os primos Argemiro e Ribeiro, estavam, inclusive, acometidos dessa doença. Aos poucos tomamos conhecimento dos dois e de todo o seu histórico. Ribeiro está no estágio crítico da doença e já torce pela morte.
Só tem o primo como companheiro, principalmente depois que a esposa daquele, Luísa, o abandonou por um vaqueiro que aparecera por lá. Em vista de tudo isso, tem uma enorme gratidão com Argemiro. No entanto, este tem um remorso gigantesco, pois só havia largado suas terras não por companheirismo, mas porque havia se apaixonado por Luísa. Mas com a fuga dela, sente que a amizade entre os dois havia fortalecido, portanto, sente-se na obrigação de confessar seus sentimentos.
Fá-lo logo após uma crise de febre e de delírio de Ribeiro e antes que a sua própria chegasse (essas manifestações da doença eram sazonais, funcionando até como relógio). Confessa e pede perdão, mas não o obtém, pois o primo percebe que Argemiro só fora morar ali por causa de Luísa e ficara ali não para cuidar dele, mas para esperar o possível retorno dela. Expulsa aquele que considera traidor. Argemiro parte, já às portas do seu acesso de febre, que de fato chega em meio à sua caminhada, no meio do mato. Pára de andar e espera a crise, que se anuncia numa sensação acolhedora que o faz sentir a paisagem ao seu redor de forma acolhedora. É o delírio instalando-se.
Sarapalha é um dos nove contos que compõem a obra Saragana, de Guimarães Rosa. No conto, o autor não faz nenhum mistério sobre o lugar da conversa dos dois primos que padeciam de alta febre por terem sido atacados pela malária: “é ali, na beira do Pará”. O lugar é o povoado de Pará de Vilelas, na estrada que liga a Rodovia Fernão Dias a Cláudio, (MG 260) único povoado do município de Itaguara, que margeia o citado rio.

Sagarana de João Guimarães Rosa I: O lirismo dos temas do amor e da solidão transparece em Sarapalha.
Há uma narrativa principal, que é bem simples: a sazão (febre/malária) avança por um povoado às margens do Rio Pará. As pessoas abandonam o povoado deixando tudo para trás, as que não se vão morrem.
O Mato toma conta do povoado. Primo Argemiro e Primo Ribeiro observam a doença avançar em si mesmos. Ribeiro faz Argemiro prometer enterrá-lo no cemitério do povoado.
Ribeiro começa lembrar da esposa (que era sua prima Luísa) que fugiu com um boiadeiro. Argemiro amava a mulher do primo e desejava ter sido ele a fugir com ela. Confessa ao primo que amava sua mulher e foi morar com eles por causa dela. Ribeiro expulsa o primo enquanto o tremor da maleita lhe atinge.
A outra história que aparece no conto é a da partida da esposa de Ribeiro, que o abandonou por um vaqueiro. Ribeiro, entretanto, prefere ouvir uma história em que ela é raptada pelo diabo…

Sagarana de João Guimarães Rosa I – Personagens:
Primo Argemiro – das bandas do rio
Primo Ribeiro – das bandas do mato
Prima Luísa – Mulher de Ribeiro
Ceição – Preta velha
Jiló – cachorro

Sagarana de João Guimarães Rosa I – O Burrinho Pedrês
A trama desse conto, como nas demais narrativas de Guimarães Rosa, é relativamente simples. O velho burrinho Sete de Ouros, por falta de outras montarias, é engajado para levar uma boiada vendida pelo dono da fazenda, o major Saulo. Durante a viagem, ficamos sabendo que o vaqueiro Silvino quer matar o vaqueiro Badu, por causa de uma moça. Francolim, que é uma espécie de ajudante de ordens do major, denuncia a briga ao patrão, mas nada é feito para evitá-la.
Silvino chega a provocar um acidente, com o intuito de fazer os bois atropelarem Badu. Quando vê que não consegue matá-lo desta forma, planeja fazê-lo pessoalmente, na viagem de volta, depois de atravessarem o ribeirão cheio pelas chuvas. Nesse retorno, Badu está bêbado. Por isso, os demais vaqueiros deixam-no com o burrinho Sete de Ouros. Ao atravessarem o ribeirão, morrem na enchente oito vaqueiros, inclusive Silvino. Badu é salvo heroicamente pelo Sete de Ouros, que consegue chegar à outra margem e ao descanso merecido. Traz, vitorioso, o bêbado apaixonado na sela e Francolim agarrado no rabo…

Sagarana de João Guimarães Rosa I – Trecho escolhido: Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete de Ouros, e já fora tão bom, como outro não existiu e nem pode haver igual.
Agora, porém, estava idoso, muito idoso. Tanto, que nem seria preciso abaixar-lhe a maxila teimosa, para espiar os cantos dos dentes. Era decrépito mesmo à distância: no algodão bruto do pêlo – sementinhas escuras em rama rala e encardida; nos olhos remelentos, cor de bismuto, com pálpebras rosadas, quase sempre oclusas, em constante semi-sono; e na linha, fatigada e respeitável – uma horizontal perfeita, do começo da testa à raiz da cauda em pêndulo amplo, para cá, para lá, tangendo as moscas.
Na mocidade, muitas coisas lhe haviam acontecido. Fora comprado, dado, trocado e revendido, vezes, por bons e maus preços. Em cima dele morrera um tropeiro do Indaiá, baleado pelas costas. Trouxera, um dia, do pasto – coisa muito rara para essa raça de cobras – uma jararacuçu, pendurada do focinho, como linda tromba negra com diagonais amarelas, da qual não morreu porque a lua era boa e o benzedor acudiu pronto. Vinha-lhe de padrinho jogador de truque a última intitulação, de baralho, de manilha; mas, vida afora, por amos e anos, outras tivera, sempre involuntariamente: Brinquinho, primeiro, ao ser brinquedo de meninos; Rolete, em seguida, pois fora gordo, na adolescência; mais tarde, Chico-Chato, porque o sétimo dono, que tinha essa alcunha, se esquecera, ao negociá-lo, de ensinar ao novo comprador o nome do animal, e, na região, em tais casos, assim sucedia; e, ainda, Capricho, visto que o novo proprietário pensava que Chico-Chato não fosse apelido decente.

Sagarana de João Guimarães Rosa I – A marca de ferro: um coração no quarto esquerdo dianteiro – estava meio apagada: lembrança dos ciganos, que o tinham raptado e disfarçado, ovantes, para a primeira baldroca de estrada. Mas o roubo só rendera cadeia e pancadas aos pândegos dos ciganos, enquanto Sete de Ouros voltara para a Fazenda da Tampa, onde tudo era enorme e despropositado: três mil alqueires de terra, toda em pastos; e o dono, o Major Saulo, de botas e esporas, corpulento, quase um obeso, de olhos verdes, misterioso, que só com o olhar mandava um boi bravo se ir de castigo, e que ria, sempre ria – riso grosso, quando irado; riso fino, quando alegre; e riso mudo, de normal.
Mas nada disso vale fala, porque a estória de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida. E a existência de Sete de Ouros cresceu toda em algumas horas – seis da manhã à meia-noite – nos meados de mês de janeiro de um ano de grandes chuvas, no vale do rio das Velhas, no centro de Minas Gerais.

O burrinho permanecia na coberta, teso, sonolento e perpendicular ao cocho, apesar de estar o cocho de todo vazio. Apenas, quando ele cabeceava, soprava no ar um resto de poeira de farelo. Então, dilatava ainda mais as crateras das ventas, e projetava o beiço de cima, como um focinho de anta, e depois o de baixo, muito flácido, com finas falripas, deixadas, na pele barbeada de fresco. E, como os dois cavos sobre as órbitas eram bem um par de óculos puxado para a testa, Sete de Ouros parecia ainda mais velho. Velho e sábio: não mostrava sequer sinais de bicheiras; que ele preferia evitar inúteis riscos e o dano de pastar na orilha dos capões, onde vegeta o cafezinho, com outras ervas venenosas, e onde fazem voo, zumbidoras e mui comadres, a mosca do berne, a lucília verde, a varejeira rajada, e mais aquela que usa barriga azul.
De que fosse bem tratado, discordar não havia, pois lhe faltavam carrapichos ou carrapatos, na crina – reta, curta e levantada, como uma escova de dentes. Agora, para sempre aposentado, sim, que ele não estava não. Tanto, que uma trinca de pisaduras lhe enfeitava o lombo, e que João Manico teve ordem expressa de montá-lo, naquela manhã. Mas, disto último, o burrinho não recebera ainda aviso nenhum.
Para ser um dia de chuva, só faltava mesmo que caísse água. Manhã noiteira, sem sol, com uma umidade de melar por dentro as roupas da gente. A serra neblinava, açucarada, e lá pelas cabeceiras o tempo ainda devia de estar pior.
Sete de Ouros, uma das patas meio flectida, riscava o chão com o rebordo do casco desferrado, que lhe rematava o pezinho de Borralheira. E abria os olhos, de vez em quando, para os currais, de todos os tamanhos, em frente ao casarão da fazenda. Dois ou três deles mexiam, de tanto boi.

Alta, sobre a cordilheira de cacundas sinuosas, oscilava a mastreação de chifres. E comprimiam-se os flancos dos mestiços de todas as meias-raças plebeias dos campos-gerais, do Urucuia, dos tombadores do rio Verde, das reservas baianas, das pradarias de Goiás, das estepes do Jequitinhonha, dos pastos soltos do sertão sem fim. Sós e seus de pelagem, com as cores mais achadas e impossíveis: pretos, fuscos, retintos, gateados, baios, vermelhos, rosilhos, barrosos, alaranjados; castanhos tirando a rubros, pitangas com longes pretos; betados, listados, versicolores; turinos, marchetados com polinésias bizarras; tartarugas variegados; araçás estranhos, com estrias concêntricas no pelame – curvas e zebruras pardo-sujas em fundo verdacento, como cortes de ágata acebolada, grandes nós de madeira lavrada, ou faces talhadas em granito impuro.

Sagarana de João Guimarães Rosa I: Como correntes de oceano, movem-se cordões constantes, rodando remoinhos: sempre um vaivém, os focinhos babosos apontando, e as caudas, que não cessam de espanejar com as vassourinhas. Somam-se. Buscam-se. O crioulo barbeludo, anguloso, rumina estático, sobre os maus aprumos, e gosta de espiar o céu, além, com os olhos de teor morno, salientes. O espúrio gir balança a bossa, cresce a cabeçorra, vestindo os lados da cara com as orelhas, e berra rouco, chamando a vaca malabar, jogada para o outro extremo do cercado, ou o guzerate seu primo, que acode à mesma nostalgia hereditária de bois sagrados, trazidos dos pascigos hindus do Coromandel ou do Travancor. Mudo chamado leva o garrote moço a impelir toda uma fileira, até conseguir aproximar-se de outro, que ele antes nunca viu, mas junto do qual, e somente, poderá sentir-se bem. E quando o caracu-pelixado solta seus mugidos de nariz fechado, começando por um eme e prolongando-se em rangidos de porteira velha, respondem-lhe o lamento frouxo do pé-duro e o berro em buzina, bem sustido e claro, do curraleiro barbatão.

 

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