Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes - Vestibular1

Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes

Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes

 

Resumo Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes

Dono do título de melhor romance da V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira (1990), Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes, consegue a proeza de trilhar por caminhos conhecidos, tanto na forma (regionalismo mineiro) quanto no conteúdo (temática da vingança), mas sem perder seu valor e identidade.

Sua história, Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes, mesmo resumida, por si só já se mostra forte. Tudo começa a partir de um conflito entre dois clãs, inicialmente por causa do desvio de um curso d’água. Esse desentendimento vai colocar frente a frente dois jovens que tinham sido amigos de infância: Fábio e Jaime. O primeiro era de uma família recém-chegada ao interior de Minas e que começava a entrar em negócios que iam concorrer com o monopólio instituído pela família rica do segundo.

A narrativa de fato começa com Fábio disposto a acertar as contas com a casta inimiga, mas, antes até mesmo de sacar seu revólver contra os três homens que havia visto, Arlindo, Joel e Jaime, é assassinado por este último. A partir de então, embocam-se inúmeras consequências.

A primeira é uma investigação vergonhosa e desastrosa, em que o dinheiro do pai de Jaime comanda. O policial responsável retira balas do revólver totalmente carregado de Fábio, para que de massacre possa prevalecer à versão de que houve tiroteio e o assassinato justificar-se em legítima defesa. Além disso, o legista não aparece e o corpo acaba sendo enterrado sem necropsia.

Quando é forçada a exumação, o legista já estava corrompido e só havia encontrado duas balas (mais haviam sido disparadas na realidade, mas esse fato acabou convenientemente omitido). Testemunhas foram compradas. A única que tomou coragem de contar a verdade, num segundo inquérito havia desaparecido. Arlindo, empregado da família de Jaime, havia assumido o assassinato, recebendo, em troca, boa quantia em dinheiro; mas, preso, é logo assassinado, num indício claro de queima de arquivo. Enfim, uma história típica dos desmandos que grassam no interior de nosso país.

Apesar desse toque de realismo cruel, bastante valioso na obra, Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes, há outros trunfos, sendo um deles a abordagem psicológica. Chama a atenção, por exemplo, a relação que duas mães, Ione e Helena, estabelecem com seus filhos, Jaime e Fábio respectivamente, justo os dois opositores da história. Ambas estabelecem uma ligação que pode ser visto como paixão quase doentia, próxima do edípico.

A união de Ione com Jaime provoca enorme ciúme em seu marido, Joel, tanto que este passa a tratar mal seu filho, dando preferência ao mais velho, que, no entanto, viaja para os Estados Unidos e não dá mais notícias. Dominado por sentimento tão negativo, tem em mente separar sua esposa de sua cria, por isso havia metido Jaime no crime e o induzido a matar Fábio. Sabia que dessa forma macularia a perfeição de seu filho. É um plano que dá certo.

A malignidade de Joel é explicada pela própria narrativa. Quando criança, havia sido violentado por três de seus amigos e ainda por cima passou a ser motivo de chacota com o apelido de “frutinha”. Supera essa situação humilhante de forma violenta: surpreende o mentor do abuso sexual e esfaqueia-lhe a coxa. A partir de então passa a ser respeitado. Aprende, pois, a conquistar seu espaço dessa forma e várias vezes o leitor toma conhecimento de ações insanas que havia tomado.

Mas a sorte do livro Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes é que as personagens não são apresentadas numa análise psicológica rasa.  A complexidade humana é respeitada, como no caso desse vilão. Ao mesmo tempo em que tem facilidade para extravasar uma alma tão diabólica, tem momentos de crise de consciência, como o acesso de vômito depois de ter torturado a golpes de faca uma novilha que estava tendo dificuldades para parir ou, principalmente, no seu suicídio.
Encaixa-se perfeitamente, portanto, na definição do herói problemático, que não aceita o mundo e nem é aceito por este.

Outro herói problemático é Horácio, pai de Fábio. Sente-se culpado pelo que houve com o filho, já que a mudança para um lugar tão perigoso fora ideia dele. Sua angústia aumenta quando vê que a injustiça impera e que o crime sai impune. Apega-se ao passado e à sua propriedade, decadente então, e mergulha no alcoolismo.

Helena, esposa de Horácio, é também outra figura marcante. Extremamente apegada ao filho, conforme se apontou anteriormente, tem um comportamento que mistura o desejo de vingança, a decepção pela impunidade e a loucura – prepara-se para a volta de seu filho, que imagina de fato ter-se realizado. Chega a ser internada, passando a ter momentos de melhora – em que recebe alta – e recaídas, quando volta ao manicômio. Sua atitude, no final de tudo, será a mais surpreendente.

No entanto, o drama fica mais encorpado em cima do assassino, Jaime. Seu crime, que é sua queda, e a maneira covarde com que aceita ser inocentado, acabam por anular sua personalidade e sua existência. Transforma-se num atormentado pelo remorso, a toda hora vendo a sombra do seu amigo assassinado.

Depois passa a ver a sombra de uma mulher de batom. Trata-se de Helena, que havia fugido do hospício para vingar a morte de seu filho (o interessante é notar que, durante o velório de Fábio, Helena se queixa, mentalmente, de ter-se esquecido de colocar o batom. Quando ela adquire a certeza de que seu filho voltaria, começa a se tornar vaidosa, renovando seu guarda-roupa.

No hospício, em seus delírios declara que toda noite seu filho voltava do trabalho para dormir, com ela, e sempre lhe trazia algum mimo. Agora, quando vai assassinar o algoz de seu filho, não se esquece de, em momento tão especial, usar batom. Há aqui uma erotização ou, no mínimo, uma afetividade além do comum entre mãe e filho).

Em suma, em há uma profusão de sombras geradas naquela manhã de julho. São gente atormentada pela dor, pela decepção, pela culpa, pela malignidade. O aspecto psicológico, portanto, é poderoso na obra Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes (não é à toa que Mariela, irmã de Fábio, vai-se tornar psicóloga. É um sinal na narrativa para que valorizemos esse aspecto na interpretação do comportamento humano). O importante é que se mostra de forma verossímil, dando sustentação à narrativa.

Alguns temas são trabalhados nos desabafos de algumas personagens, indicando que suas ações não surgem do nada, mas são geradas pelas circunstâncias a que são expostas. É o caso da vingança de Helena, ou o suicídio de Joel ou mesmo as lembranças que Horácio tem em sua infância sobre loucura e que antecipam o destino de sua esposa. Ou então o desabafo entre Jaime e Fábio, ainda meninos, sobre o horrível que deve ser matar uma pessoa. São fatos na narrativa que não só embasam outros, mas ajudam a montar na história um esqueleto bastante firme.

Porém, chamam também a atenção outros elementos ligados ao trabalho literário de Carlos Herculano Lopes. Pode-se destacar, por exemplo, o domínio da linguagem, principalmente no que se refere ao uso do português coloquial, que aparece estilizado, artístico, sem, no entanto, mostrar-se afetado. É um dos aspectos que nos prende à narrativa, pois permite um fluir gostoso da narrativa, possibilitando sua leitura de um fôlego só.

Entretanto, o maior destaque é a multiplicidade de vozes do discurso que surgem na obra Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes. Sempre que se encontra um trecho entre aspas, é o narrador vasculhando a mente de uma personagem, num fluxo de consciência que muitas vezes utiliza a técnica do monólogo interior, em outras a do discurso indireto livre. São inúmeros narradores nesse campo, como Joel, Jaime, Helena, Ione, Mariela, entre tantos.

Em outros momentos, quando não há aspas, nota-se que a voz é do narrador em terceira pessoa, portanto, alguém que não é personagem. Ainda assim, seu caráter onisciente não o faz perder de vista o universo que se passa na mente de nenhum actante da história. Tanto que sua identificação com os atuantes do texto é tão forte que muitas vezes há uma mistura de foco narrativo, como no excerto seguinte de Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes:

Ela (Helena) sentia-se assim, assustada, com um forte sentimento de culpa, e só conseguiu se controlar quando bateram à porta, ela perguntou quem era, e recusou de jeito delicado o comprimido que Tereza lhe trazia, dizendo-lhe que estava acabando de se trocar, e num instante vou ao encontro de todos. Então começou a se preparar.

Observe que no trecho que deixamos em negrito o foco passa temporariamente para primeira pessoa, voltando imediatamente depois para terceira. É um procedimento muito comum na obra.

Além disso, há um discurso dirigido não ao leitor, mas a uma das personagens, na maioria das vezes Fábio (até mesmo na condição de morto). Em pouquíssimas vezes está dirigido a Jaime. É fácil de reconhecer esse discurso, pois são os trechos que aparecem entre aspas e em negrito. Além disso, é um momento em que o narrador se mostra afetivo, ou pelo menos mais íntimo ou direto da personagem, pois se refere a ela por meio de vocativo.

Assim, em Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes a narrativa é pulverizada em várias vozes, o que acaba também por fragmentar toda a história, arrebentando a noção tradicional de tempo, o que é normal sempre que se dá atenção ao universo interior de personagens. No entanto, não há caos. Conforme a efabulação vai-se desenvolvendo, os fatos vão-se encaixando até montar, no final, um painel surpreendente e belo do social interpenetrado no psicológico.

Por todos esses motivos, Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes prova que sem dúvida alguma a Literatura Brasileira Contemporânea ainda está viva, produzindo obras de quilate, que não devem estar circunscritas no âmbito do vestibular. É leitura para qualquer momento de nossas vidas.

 

Sombras de Julho de Carlos Herculano Lopes

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