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Sonhos Douro de José de Alencar

 

Sonhos Douro de José de Alencar

Publicado em 1872, vem esse romance com uma introdução, intitulada Bênção paterna, na qual o autor faz uma apresentação do desígnio geral da sua obra, bem como da sua divisão segundo o gênero e o assunto. Também faz aí a defesa do sabor e da conformação própria do português brasileiro por oposição ao europeu. Essa apresentação, no que diz respeito à divisão da obra, ainda hoje é parafraseada por boa parte da crítica.

Trecho escolhido de Sonhos Douro de José de Alencar
OS SONHOS D’OURO

Suscitou este livro, recentemente publicado, duas censuras ao distinto folhetista do Diário do Rio. Nada aproveita mais à propagação das boas letras do que seja a crítica leal e inspirada pelo sentimento artístico.

A mim deleitam os certames literários. Argui o ilustrado crítico de personagens estrangeiros as duas figuras principais do romance.

“Guida, a jovem caprichosa e aristocrática, Ricardo, o homem dos devaneios e do orgulho intelectual, são tipos naturais da nossa sociedade íntima, tão franca e democrática?” Eis sob a forma da interrogação a primeira censura.

Antes de tudo, não disse o autor que ia esboçar os seus personagens pelo prisma da vida íntima. Bem ao contrário, os apresenta ele a maior parte das vezes fora da intimidade da família, em passeio ou na convivência de pessoas estranhas.

Feita esta observação, entro com a crítica. Por que razão não apresentará nossa sociedade, a mundana ou a íntima, o tipo de uma menina caprichosa e aristocrática?
Não há capricho no Brasil? Aqui as rosas são, como dizia Mílton das do Éden, sem espinhos (without thorn)?

Também será deserdada de toda superioridade esta raça brasileira, a ponto de não sentirem os espíritos elevados quaisquer assomos da aristocracia natural que não vem da linhagem, mas de alguma preeminência social, chamese esta dinheiro, talento ou posição? Desconhece a vida fluminense quem negar a existência do que se chama entre nós a “alta sociedade”, embora sem o esplendor do grand monde em Paris e da high life em Londres.
Se o ilustrado crítico chegasse à janela da sua tipografia em um dia de festa, veria passar-lhe diante dos olhos não uma, senão muitas moças mais caprichosas e aristocráticas do que a Guida. Mas onde está a aristocracia de Guida? Não nos diz o ilustrado crítico, e pois força-nos a conjeturar, o que será longo e fastidioso.

Podia forrar-nos a esse trabalho apontando os fatos. Estará a aristocracia de Guida no passear na Tijuca em cavalo do Cabo? Em trazer roupão de caxemira e luvas de peau de Suède? Em Ter uma governanta e criado estrangeiro para acompanhá-la? Creio que a sociedade fluminense em peso protestaria contra semelhante apoucamento de nossa corte.

Não é preciso ser filha de capitalista para ter semelhante tratamento. Talvez que o severo crítico sentisse o ressaibo de estrangeirismo no fato de trazer Guida em sua carteira uma nota de cinquenta mil-réis para fazer com ela uma esmola disfarçada por uma travessura. Se ainda não desapareceu em todas as zonas da sociedade fluminense o tempo do “papai me dá um vintém”, não é menos certo que um melhor princípio de educação doméstica já condenou aquela tacanha e mesquinha inquisição familiar, que excedia-se em preparar a massa dos hipócritas, dos avaros e dos perdulários.

É indispensável habituar um homem desde criança a lidar com esse tóxico perigoso, que se chama dinheiro; do contrário corre o inexperiente o risco de embriagar-se com ele; e essa embriaguez produz em de dous efeitos: o delirium tremens da prodigalidade, ou o idiotismo da avareza.
Atualmente é comum das famílias ricas terem as filhas seus alfinetes, e nas pobres, quando as posses dos pais não chegam para essa verba, as moças laboriosas formam com os seus trabalhos de agulha os pequenos pecúlios, com que vão acudindo às exigências do toucador, sem a necessidade e o vexame de estarem a cada instante importunando os pais com o pedido de dinheiro para uma fita, um grampo, um crochete.(Deixem passar essa aclimação que é irmã do colchête, melhor do que crochê.) Que resta da inculcada aristocracia de Guida?

Uns desperdícios feitos pela moça, que dava chocolate a comer ao seu cavalo e mandava-o lavar com vinho em vez de aguardente. Estas e outras extravagâncias não são ditas pelo autor, mas referidas por uma das personagens, em cujas palavras ele por certo não jura. Bastava este simples reparo para não se tomar a rigor aquelas coisas, dando ao contrário o desconto à exageração habitual dessa murmuração social que serve de tema às palestras. Mas prescinda-se da atenuação.

Em um país onde tanto se esbanja com extravagâncias, onde homens sérios queimam centenas de contos em baboseiras, não se concebe que a filha de um banqueiro pudesse ter quejando capricho? Será necessário ir às sociedades da velha fidalguia para encontrar exemplos dessas dissipações? Ao contrário, o traço brasileiro está aí se revelando. Desses caprichos não se lembraria Guida se, apesar de rica, não se ocupasse com os arranjos de casa e não tivesse as chaves da despensa.

Passemos a Ricardo. Em que é que os devaneios e o orgulho intelectual repugnam com a sociedade brasileira, aponto de não poderem germinar em seu seio? Não nos disse a crítica e era o essencial. Neste país dos trópicos, onde a própria natureza devaneia nas cambiantes da luz, no capricho das formas, nos contrastes do belo; nestas naturezas meridionais de imaginação vagabunda, cismar será acaso uma aberração? O orgulho da inteligência também não vinga nesta terra onde ele se ostenta todos os dias desde o legítimo brio do talento laborioso até a fofa vaidade da “suficiência” lerda e obesa, que refocila na reputação mal ganha? Nem um nem outro destes dois senões tinha-os Ricardo que entretanto, como homem ou como personagem, não estava isento de defeitos.

Longe de ser o “homem dos devaneios”, Ricardo é o homem prático, preocupado dos interesses positivos da vida, compenetrado de sua grave responsabilidade como chefe de uma família não pequena e paupérrima que tem nele o único arrimo. Professa a advocacia, donde espera tirar recursos; luta com uma corajosa tenacidade contra as dificuldades do tirocínio. Nas horas de lazer não faz verso, desenha, como eu costumo fazer às vezes, à toa e por desfastio, sem nunca ter aprendido; e confesso que esses grosseiros empastes me divertem.

Aí vai esse neologismo, feito com a nossa mobília cá de casa (do verbo empastar) para traduzir o pastiche, que os franceses trouxeram do italiano pasticcio. Quanto a orgulho de inteligência, é coisa de que o moço não tinha nem sombras. Em suas palavras não há uma alusão à sua capacidade; não trai aspirações literárias nem políticas; não sonha com a glória.

Sua preocupação é, para o coração, o amor da família e a afeição de uma moça; para a razão, a posse de vinte contos, necessária para assegurar o bem-estar dos seus. São dois colegas que de passagem e em ocasiões diversas fazem alusão “a seu talento”; pois ele o tinha, se o autor não se enganou em dar o nome a alguma dessas fosforescências que usurpam aí pelo mundo esse título.

Creio ter exaurido a primeira pecha de estrangeirismo; e se alonguei-me foi pelo sistema da crítica, incômodo e laborioso para o autor, que deseja defender o seu livro, pois, além da tarefa de arcar com a habilidade do crítico, é obrigado a adivinhar-lhe os motivos. Tachando as duas personagens principais de estrangeiras, deu a entender que destoavam da nossa “sociedade franca e democrática”.

Mas não será franca e democrática a sociedade onde se passam as cenas do romance? Onde dois moços pobres e desconhecidos são convidados a jantar, logo depois de rápido conhecimento, feito pela manhã em um encontro? Onde a fidalguia é representada por titulares de carregação, como um barão que foi tropeiro, um visconde que foi belchior, e um conselheiro que tem casa de consignações? Uma observação ainda. No romance de costumes, e não sei se os Sonhos d’ouro podem levar tão alto suas pretensões, nem todas as personagens são tipos, nem todas figuram na “comédia social”, de que o autor aproveita um ato ou um trecho.

As principais na grande parte dos casos são atores no drama, que formam o esqueleto do livro, e lhe tecem o enredo, fibra vital dessa espécie de obra cujo fim é antes de tudo o conto, a fábula, que pretende o espírito e o deleita. Divaguem como queiram os modernos discípulos de Aristóteles: aquele é o escopo do romance, o mais não passa de acessórios e ornatos, às vezes é certo, de tão subido preço, que sobrepujam o todo, como os diamantes de que se bordam as vestes.

Nem Guida, nem Ricardo são tipos, mas caracteres formados pelas nossas condições sociais, idiossincrasias, como outras que aí estão se reproduzindo ao infinito, sob a influência de um concurso qualquer de circunstâncias. A diferença entre um tipo e um caráter não careço de a determinar, pois não a ignora o ilustrado crítico. O tipo é moral; o caráter é psicológico.
Este só contraste basta: dá-nos ela outra importante aferição. O tipo forma-se exteriormente pelo molde social; o caráter é uma criação espontânea, que se produz internamente pelas modalidades da consciência. O marinheiro, o soldado, o estudante, o advogado, etc., são tipos de maior ou menor relevo. O avaro, o egoísta, o ambicioso, são caracteres que variam como as folhas de uma árvore e os logaritmos de uma mesma forma natural.

Fazendo aplicação destes prolegômenos da crítica a nossas personagens, não será difícil discernir o que pertence ao caráter e o que ao tipo, em cada uma delas. Em Guida a altivez do gênio, a elegância fidalga, os caprichos dissipadores, a isenção da alma, tudo isto é do caráter, no qual sente-se a leve impressão da educação inglesa.

O que há de típico nessa figura é a forma de que se revestem suas travessuras, a garrulice brasileira desse lábio malicioso, o impulso de caridade que se expande traquinando, o modo por que apesar da riqueza vive sem luta no meio de uma sociedade que lhe não convém. Em Ricardo o caráter revela-se nos escrúpulos de probidade e no pudor da pobreza, que os afasta dos círculos onde arrota-se ouro, não por orgulho ou inveja, mas pelo recato da dignidade.

O homem que não jantou, curte sua fome em casa e não vai espiar a mesa farta dos ricos, sob pena de ser um mendigo de casaca. A vida é um banquete, onde nem todos são convivas, como disse com lúgubre ironia o infeliz Gilbert; porém muitos ficam à porta. Ricardo pensava por esta forma; se bem, se mal, é o que a crítica filosófica devia decidir, mas absteve-se.

A profissão de advogado, única esperança de decente ganha-pão para ele que não tinha proteções, nem se encaminhara a outras profissões igualmente independentes, como o comércio e a indústria; as recordações de S. Paulo e as amizades e os amores ali tecidos com as noitadas do tempo de estudante; o tom da amizade escolástica e fraternal que o liga a Fábio; o seu modo de viver; eis o que há de típico em Ricardo, e não o viu o ilustre crítico por estar sob o domínio de uma prevenção. Havemos de chegar a ela, a seu tempo.

Sênio

11 de setembro de 1872.

 

Sonhos Douro de José de Alencar

Publicado em:Resumos de livros

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