Menu fechado
Resumo do Livros, Leia a obra completa Vestibular1

Trás os Montes de Miguel Torga

 

Resumo Trás os Montes de Miguel Torga – parte II
Tal como os “heróis altivos” que psicologicamente não eram “mura¬ dos”, também Torga, metaforicamente, nunca permitiu a existência de muros em tomo de si. Paladino dos direitos humanos, do respeito, da fraternidade e da liberdade para todos, Torga sofreu por isso, viu algumas das suas obras apreendidas, tendo estado preso e inclusivamente a certa altura proibido de sair de Portugal.
No Diário V expressa o que sentiu quando pôde sair:
“Posso finalmente sair de Portugal (pelo menos tenho passaporte), e bastou essa certeza para me tirar toda a fúria que tinha de deixar isto. Quero partir, evidentemente, mas não o farei com o sonhado alivio de animal preso que salta os muros do cortelho! as minhas queixas sociais são as mesmas, mas já não me sinto preso na pátria onde vivo em desarmonia com os meus. Quando quiser, abro a porta e vou arejar. E o desespero tomou-se menos pungente e a vontade de abandonar o barco menos inadiável. O homem pode aguentar enormidades concretas, desde que sonhe alívios abstratos. O que ele não pode viver é sem nenhuma esperança. Mesmo que seja só a esperança de fugir…” (20)

Esta alusão à vontade de abandonar o barco, escrita em 27 de Junho de 1950, permite estabelecer uma relação intertextual com o conto “Vicente” de Bichos, obra publicada em 1940. Com este conto, com o qual sugestivamente termina a antologia, é veiculada a mensagem de que o homem não deve sentir medo quando luta por um ideal que considera justo.

A personagem Vicente representa a rebeldia na dialética submissão/rebeldia, protagoniza o homem corajoso, que não se deixa intimidar por ninguém e luta até ao fim pela sua libertação, já que considera a liberdade um direito inalienável ao homem.
É por isso que o conto termina com a vitória de Vicente, o corvo rebelde que no dilúvio universal não teve medo e ousou abandonar a arca de Noé, tomando-se autônomo relativamente ao próprio Criador que lhe deu a possibilidade de ser livre e, como tal, não poderia penalizá-lo por essa opção:
“Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou, A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tomou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.” (21)

A defesa da liberdade individual, a rebeldia e o caráter resoluto de Torga face à opressão por parte dos mais fortes, está patente em muitos outros dos seus trechos. Vejamos apenas um extrato do poema “Prece”:
Senhor, ergo me do fim
Desta minha condição:
Onde era sim, digo não,
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim. (22)

A defesa da liberdade constitui um dos temas obsidiantes na obra de Miguel Torga, não uma liberdade que está no céu ou nas mãos dos homens, mas que está sobretudo em cada um de nós. A este respeito é muito sugestivo o poema “Liberdade”, no qual o sujeito poético, num ato precatório, recorrendo à apóstrofe e a uma relação primeira-segunda pessoa, revela que a procura da liberdade, quer no céu quer na terra, de nada lhe serviu. Todavia, mudando de estratégia, acaba. por concluir:
“Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
– Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.” (23)

Trás os Montes de Miguel Torga: a necessidade de nos sentirmos interiormente livres é fundamental para o Autor, embora a liberdade exterior deva igualmente existir, visto que privado dela o homem não se sente bem, conforme se lê no Diário VII:
Liberdade interior… Sim, essa ao menos. Mas que falta nos faz a outra, a de fora! O pensamento é dialético, necessita de dialogar, de agir. Só assim medra, caminha, progride. (24)

Mas Torga, numa preocupação de defesa da autenticidade e identidade do eu, não deixa de chamar a atenção para a importância de, mesmo sem liberdade, sermos nós próprios. Veja-se esta anotação do Diário XVI:
“Liberdade. Passei a vida a cantá-la, mas sempre com a identidade no pensamento, ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode-nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade.” (25)

E Torga sempre quis ser idêntico a si próprio, agir em conformidade com os valores que defendia, manifestando de forma clara ou implícita o que pensava e/ou sentia. O seu desejo de intervenção, o seu constante grito de luta, o anticonformismo estão patentes no poema “S.O.S.” de Cântico do Homem, no qual o poeta escreve:
“Vai ao fundo o navio,
Mas eu sou o homem da telegrafia.
O que lança nas asas do vazio
O adeus da agonia…” (26)

Considerando-se, no mesmo texto, um “honrado poeta sinaleiro” dos destinos de quem vai no barco, põe a “correr mundo um grito derradeiro / Da […] desgraçada perdição”. Ele próprio se autodefine como alguém que pretendeu “ser cidadão a tempo inteiro, […] e poeta rebelde, cioso da sua liberdade de criador” (27); alguém que nasceu condenado a ser agônico a tempo inteiro”, nas “horas conscientes e nas inconscientes” (28), para quem a vida só tem sentido no que escreveu (29).

Torga sempre lutou pela independência, liberdade e dignidade humanas, ao longo da sua vida de escritor, e foram mais de sessenta anos de atividade literária. O seu combate revela uma personalidade dotada de uma capacidade de resistência irredutível e solitária.

Trás os Montes de Miguel Torga: foi um exemplo de coragem, de força anímica, o paradigma do homem capaz de lutar até ao fim com toda a verticalidade de caráter. Num texto do Diário XVI, a propósito da escrita deste último volume, escreveu:
“Coimbra, 9 de Dezembro de 1993 – E chega ao fim, com este volume, um livro que comecei a escrever um pouco estouvadamente há sessenta anos, e acabo agora com mais assento. […] Mais do que páginas de meditação, são gritos de alma irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à exaustão. E se despede dos seus semelhantes sem azedume e sem ressentimentos, na paz de ter procurado vê-los e compreendê-los na exata medida. E que confia no juízo da posteridade, que certamente lhe vai revelar os muitos defeitos e ter em conta as poucas virtudes. De alguma coisa me hão de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.” (30)

No Diário XII, quando da deslocação a Bruxelas para receber o Prêmio Internacional de Poesia que lhe foi atribuído na XII Bienal de Knocke Heist, em 1976, numa anotação datada de 4 de Junho de 1977, Torga, referindo-se a parte do percurso da sua vida, não deixa de evocar as dificuldades passadas, mas’ simultaneamente o valor que as mesmas tiveram na opção de vida que tomou e que o levaram a singrar na vida literária:
“As voltas que a vida dá, e como acaba por atar as pontas para se fechar num círculo simbólico! Quando há sessenta anos, como emigrante, desembarquei no Rio de Janeiro do porão de um navio, esperava-me no cais um sujeito desconhecido com a minha foto na mão, a fim de me identificar; há pouco, ao descer do avião, aconteceu coisa parecida: uma senhora, igualmente estranha, erguia à porta de saída, um grande cartão onde li, entre comovido e divertido, o meu nome. O rapazinho de outrora ia comer o pão que o diabo amassou; o velho de agora vinha receber um prêmio internacional. O prêmio de ser fiel às origens, e de ter sempre, como os antepassados, mourejado na mesma humildade e tenacidade, de enxada na mão ou de caneta na mão.” (31)

A propósito de fidelidade às origens, é pertinente salientar, pelo seu poder sugestivo, a metáfora da planta, da qual o escritor se serve para traduzir a sua origem e raízes transmontanas, metáfora que encontramos numa nota do Diário XVI.

Nesta nota diarística, a propósito da casa onde nasceu e onde, quando entra, diz ter uma “sensação estranha de ser eterno e provisório no mesmo instante”, sem pé num chão onde nasceu e não pôde crescer, mas onde sabe que cresceu, Torga diz que o destino lhe baralhou a condição e explica:
“Plantou-me aqui e arrancou-me daqui. E nunca mais as raízes me seguraram bem em nenhuma terra.” (32)

Ainda no mesmo volume XVI do Diário, num registro situado e datado de S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1990, Torga, apresentando-se sentado no pátio da casa, à sombra do noveleiro, coroado de flores e rodeado de silêncio, refere-se desta maneira ao seu “paraíso”:
“Amanhã regressarei. Este paraíso ainda não é meu duradouramente. É dos meus antepassados, que nele moram em cada canto da casa e do quintal. Desde há muito que sei que sou usufrutuário de uma herança sagrada, que só merecerei se nunca me esquecer que S. Martinho de Anta é um berço onde tenho de nascer todas as horas e morrer um dia.” (33)

Importa salientar o valor semântico de vocábulos como paraíso, sagrada a qualificar herança, e berço, que traduzem toda a emoção, a sensação de agradável fruição, o valor afetivo dos espaços para os quais os vocábulos paraíso e berço remetem.

Trás os Montes de Miguel Torga: aos oitenta e cinco anos, a propósito da entrega do Prêmio de Literatura Estrangeira «Écureuil» atribuído pelo 6º Salão do Livro de Bordéis, numa nota de 14 de Setembro de 1992, Torga recorda a sua infância. junto da Mãe, quando esta “à noite, entre o remendo e a roca, […] à luz da candeia, lia incansavelmente um livro” (a Bíblia) que ele depois herdou e que “foi a maior fortuna” que a Mãe lhe podia legar.

E, na sequencia dessa evocação, Torga saudosamente alude ao valor das histórias desse livro que passaram a alimentar a sua imaginação e, pelos anos fora, constituíram uma referência obrigatória na “memória dorida”:
“memória dos ninhos procurados e achados, do pião, dos primeiros frutos cobiçados nos quintais vizinhos, dos amores inocentes, das feiras tumultuosas, das procissões solenes, das fainas afadigadas, do paraíso perdido.” (34)

O passado, a infância, decorridos no espaço transmontano, mesmo em dificuldades, tomaram-se, como se pôde constatar, um paraíso perdido na memória de Torga.
Luciana Stegagno Picchio, escreveu que, na sua segunda vinda a Portugal, foi a Coimbra “visitar os dois monumentos da cidade: a Universidade e Miguel Torga” (35).

Mas Torga não é só um “monumento” de Coimbra; é principalmente um “monumento” de Trás os Montes. O seu nome aparece associado sobretudo a dois espaços: Coimbra, onde residiu e exerceu Medicina, e Trás os Montes, o espaço físico das suas origens, mas também um espaço mítico de ficção, ao qual se manteve sempre fiel, e que imortalizou metonimicamente como “Um Reino Maravilhoso”.

Trás os Montes, esse “Reino Maravilhoso” do qual se afastou por necessidade, mas ao qual se manteve sempre ligado afetivamente, representa, em simultâneo, um paraíso perdido e reencontrado por Torga; perdido porque deixado na adolescência, e achado porque, de acordo com a sua vontade, a ele regressou e nele repousa para sempre.

Voltar a ler o resumo Trás os Montes de Miguel Torga – parte I

 

Trás os Montes de Miguel Torga

Publicado em:Resumos de livros

Você pode gostar também