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Trás os Montes de Miguel Torga

 

Resumo Trás os Montes de Miguel Torga – parte I

Um paraíso perdido e reencontrado por Torga
“Um Reino Maravilhoso (Trás os Montes de Miguel Torga)” é um texto da autoria de Miguel Torga, escritor nascido em S. Martinho de Anta, perto de Vila Real, em 12 de Agosto de 1907, e publicado na obra Portugal (1).
Neste texto, o autor localiza e apresenta Trás os Montes, a sua região natal, dizendo que “fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os tome mais impossíveis e apetecidos” (2). Torga evoca e caracteriza a região transmontana, foca as suas riquezas e pobrezas, fala das gentes com seus hábitos, comportamentos, modos de ver e estar no mundo.

Trás os Montes de Miguel Torga é, segundo o autor, um “Reino Maravilhoso” que todos podem ver, desde que “os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite” (3).

Não é só neste texto que Torga confere importância à sua região natal e a recria. Há muitas outras produções nas quais o espaço transmontano se encontra presente. Como escreve Claire Cayron (4), a tradutora da Obra torguiana para francês, Trás os Montes, província natal do autor, foi elevada Por Torga à categoria de mito; cantada em muitos dos seus poemas, transfigurada em A Criação do Mundo, ilustrada pelos Contos e Novos Contos da Montanha, analisada no seu Diário, esta região é ainda tema de dois textos eloquentes, segundo a mesma tradutora: um que constituiu uma Conferência pronunciada no Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro, Publicada em Traço de União, onde se encontra um dos aforismos torguianos – “o universal é o local sem paredes” –, e um outro texto, que figura no volume Portugal, cujo título se tomou toponímico para os Portugueses: “Um Reino Maravilhoso”.

Torga, de seu Verdadeiro nome Adolfo Rocha, nunca esqueceu a sua origem transmontana e humilde, de filho de gente do povo. Marcado pelas dificuldades que passou na infância e na adolescência e pela vida dura que via à sua volta, em grande parte das pessoas da sua região, serviu-se da pena para lutar e defender os direitos e a melhoria das condições de vida do homem, chamando a atenção para o que de errado lhe parecia existir à sua volta, situando espacialmente muitas das suas criações na região transmontana.

Adolfo Rocha cedo teve de deixar Trás os Montes. O precoce e forçado abandono da aldeia e da região natal deixou marcas profundas no seu espírito, sobretudo pelos motivos que estão na gênese desse afastamento da sua terra: a carência de recursos econômicos e a consequente falta de perspectivas de continuar os estudos.

Estes dois fatores estiveram na origem do rumo que a sua vida tomou depois de fazer a instrução primária e que Torga tão bem transpôs para A Criação do Mundo – os dois primeiros dias:
“Pouco tempo depois, o senhor Botelho mandou chamar o meu Pai, e teve com ele uma longa conversa na minha presença. Era pena que eu não seguisse os estudos. Sabia das dificuldades em que vivíamos, que os tempos iam maus, e tudo o mais. Em todo o caso, visse lá se podia fazer um sacrifício e mandar-me para o liceu da Vila.
Meu Pai sorriu tristemente. O senhor Botelho estava a mangar!… Olha liceu! Só se empenhasse o cabo da enxada… Gostava, gostava, de me ver professor, ou médico, ou advogado. Mas nicles, faltava o melhor! […] Já se lembrara do seminário. Aí é que talvez pudesse ser. Se arranjasse a meter me de graça, ou a pagar qualquer coisa pouca…” (5)

Além dos fatores apontados, há que salientar ainda a situação em que o abandono do lar e da sua terra se processou: primeiro para trabalhar no Porto em casa de uma família, depois para ser seminarista, vida para a qual não se sentia vocacionado, e, finalmente, para deixar Portugal e partir como emigrante para o Brasil, com apenas treze anos.

Trás os Montes de Miguel Torga: a experiência dessa viagem soube Torga aproveitá-la para a sua autobiografia romanceada:
“O comboio, frenético, avançava sempre. E eu, resignado no meu lugar, a vê-lo correr. Que remédio! Ia despachado para o desconhecido, e nada podia fazer. […] Era como se Portugal fugisse de mim, e eu dele.
[…] Embarcamos no dia seguinte à tardinha. […]
Em toda a terceira só havia barafunda e lágrimas. Ninguém sabia fazer mais nada. O cheiro do desinfetante branco dos urinóis ardia no nariz. Chegava uma música vaga, de longe, da primeira. A princípio, estive sentado num degrau de escada, depois, numa mala de mão. Por último, andava tonto, enjoado, sem rumo pelos corredores estreitos do dormitório. Até que um marinheiro de braços tatuados, que passava, me agarrou pelo cu das calças, ergueu ao ar e atirou para cima da enxerga, quase encostada ao teto.” (6)

A S. Martinho de Anta e à região transmontana ficaram associadas vivências da infância e da adolescência em liberdade, recordações de uma felicidade passada, apesar da rudeza de vida, que se mantiveram ao longo dos anos, transformando Trás os Montes num paraíso perdido nos longes da memória, associando-lhe sempre momentos de felicidade infantil e originando uma recordação saudosa de um espaço ao qual atribuiu a designação de “Reino Maravilhoso”.
É pertinente realçar a carga conotativa que o adjetivo maravilhoso comporta, remetendo para algo longínquo, não facilmente acessível, ideia que o próprio texto confirma, mas simultaneamente de um encantamento e valor que transcende o humano.

A vida e as gentes de S. Martinho de Anta ficaram, pois, sempre presentes na alma daquele adolescente que tão cedo se viu obrigado a abandonar a casa paterna em busca de melhores condições de vida, conforme registrou numa anotação de 1 de Outubro de 1953:
“No fundo, foi bom eu ter abandonado a casa paterna quase ao nascer. Fiquei sempre a ver as palhas do ninho como penas de aconchego. Não houve tempo para a mínima erosão.
Envolvidas numa redoma de saudade que nunca foi quebrada, as impressões infantis guardam toda a pureza de um amanhecer sem ocaso. Intemporal e mítica, a paisagem geográfica é nos meus sentidos uma perpétua miragem; quanto à outra, à humana, tais virtudes lhe descubro, que parece que só junto dela sou gente.” (7)

A memória saudosa e nostálgica de S. Martinho de Anta, que o acompanhou ao longo de toda a sua vida e que pode ser testemunhada em muitas passagens da sua obra, fez com que, num registro do Diário XII, de Londres, 10 de Junho de 1977, exprimisse o desejo morrer na sua terra:
“É lá, no meu [ninho] que sempre quis viver e quero morrer. Infeliz de o sentir de tojos, e feliz de o sonhar de penas.” (8)

Todavia, devemos deixar uma ressalva a esse desejo que pode, aparentemente, contradizer o que foi expresso anteriormente, já que Torga, em nota do Diário XVI (9), manifestou a aspiração de “fechar os olhos” no consultório, “sozinho, sem despedidas dilacerantes, com os olhos cheios da policromia do largo ajardinado fronteiriço, da frescura do rio remansoso e do aceno dos horizontes alargados pela imaginação durante meio século ao mundo inteiro”. E acrescenta:
“S. Martinho foi o lugar de onde. Coimbra o centro desse mundo misterioso e apaixonante que de lá perspectivei.”

S. Martinho de Anta e Trás os Montes deixaram estigmas muito profundos em Miguel Torga, tão profundos que parecem fazer parte do seu próprio organismo; é como se de algo fisiológico e vital se tratasse. Numa página do Diário XVI aparece inscrito o seguinte:
“Não tenho fronteiras espirituais, mas trago gravados nos cromossomos os marcos da minha freguesia e a fisionomia dos meus conterrâneos.” (10)

Também numa nota de 8 de Setembro de 1992, se constata a importância de S. Martinho de Ama para Torga. Foi nesta aldeia que o seu caráter se formou, foi neste espaço que aprendeu os valores morais da vida, numa fase do percurso humano, a infância, que é marcante e condicionadora de comportamentos futuros.

Trás os Montes de Miguel Torga: é por Isso que Torga confere a S. Martinho de Anta o valor metafórico de marco de orientação, quase de bússola indicadora de o caminho a seguir:
“Mesmo a cair aos bocados, teimei em passar por aqui. E que nenhuma hora da minha vida tem significação sem esta referência. S. Martinho é um marco de orientação e segurança que vejo em todas as horas de perplexidade e angústia e de todos os quadrantes do mundo.” (11)

Outro marco de orientação, nessa paisagem de rochas e montanhas, é a serra do Marão, sobranceira a uma boa parte da região transmontana, à qual Torga, sugestivamente, se refere nestes termos:
Do meu Marão nativo abrange-se Portugal; e, de Portugal, abrange-se o mundo” (12)

A propósito ainda do Marão, símbolo de toda a região, vale a pena chamar a atenção para a importância que esta serra assume para Torga, que chega mesmo a falar de amor de mãe:
MAR
Serra, seio de pedra
Onde mamei a infância
Amor de mãe, que medra
Quando medra a distância. (13)

Noutros momentos, a sua região surge como um paraíso distante, situado do outro lado desta serra:
“Este Trás os Montes da minha alma! Atravessa-se o Marão, e entra-se logo no paraíso!” (14)
Trás os Montes é para Miguel Torga um “ninho alto e agreste que transmite a elevação e a aspereza à casca e ao sabugo de quem ali nasce.” (15) Por isso, segundo ele:
“onde estiver um transmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível. E porquê? porque, mesmo transplantado, ele ressuma a seiva de onde brotou. Corre-lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora.” (16)

A sua região natal ficou, como vimos, gravada no espírito do escritor e sempre lhe inspirou um carinho especial, conforme se pode constatar também nesta citação extraída de Traço de União:
“Lá, naquela rudeza sem conforto, é que sentimos a cama macia, a alma aconchegada! de lá, daqueles agressivos penhascos, é que nos vem ternura e calor!” (17)

O apego de Torga à terra, não só a Trás os Montes mas a todo o Portugal, impediu-o de abandonar o país e viver no estrangeiro, como deixou registrado numa anotação do Diário XVI:
“Quando nos tempos ominosos da ditadura, em Paris, onde estava de passagem, alguns exilados da oposição teimavam comigo para que ficasse entre eles […], respondi que nunca poderia ser um escritor português fora de Portugal. Que me faltariam, longe dele, a linguagem da terra, a gramática da paisagem e o Espírito Santo do Povo. E regressei, para ser perseguido e preso pouco depois. Mas não desanimei.” (18)

É na região transmontana, no paraíso perdido da sua infância, que se movimentam grande parte ‘dos heróis e personagens da sua ficção, quer sejam seres humanos, quer bichos antropomorfizados, todo um conjunto de personagens possuidoras de virtudes e defeitos, caracterizadas em moldes eufóricos ou disfóricos, das quais podemos destacar figuras como o pícaro pardal do conto “Ladino”, o galo Don Juan do conto “Tenório”, o gato acomodado de “Mago”, o corvo rebelde e insubmisso de “Vicente”, todos da antologia Bichos, ou outras personagens como a Maria Lionça dos Contos da Montanha e o Alma Grande dos Novos Contos da Montanha.

São figuras que fazem parte da mundividência e do imaginário de Trás os Montes, que Torga tão bem conheceu e soube recriar na sua ficção narrativa.

Trás os Montes de Miguel Torga: no prefácio à tradução castelhana dos Contos e Novos Contos da Montanha, que aparece registrado em nota situada e datada de Coimbra, 20 de Março de 1987, Torga apresenta ao leitor castelhano os seus heróis da seguinte forma:
“Heróis altivos, cingidos às leis da condição, desde o nascimento que estão acostumados a enfrentar os caprichos do destino por sua conta e risco, mesmo quando afiançados. […] Portugueses, como é evidente, viram a luz do dia nas terras altas de Trás os Montes […]. Têm, pois, todos os traços fisionômicos da região. Duros e terrosos. Simplesmente acontece que, num livro que publiquei em tempos, a propósito de condicionalismos do meio, declarei que o universal é o local sem paredes. O que realmente acontece com eles. Psicologicamente, nenhum é murado. Daí que reajam e atuem como filhos do mundo em todas as circunstâncias.” (19)

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Trás os Montes de Miguel Torga

Publicado em:Resumos de livros

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