Viva o Povo Brasileiro III - Vestibular1

Viva o Povo Brasileiro III

Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro

 

Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro – parte III

De fato, em Viva o Povo Brasileiro,um dos personagens de maior prestígio na comunidade dos escravos negros é a velha Dadinha. Com a sabedoria conferida pelos seus 100 anos de idade, Dadinha é a verdadeira memória da comunidade, “testemunha de tudo quanto aconteceu”.

É ela quem conta, seja através de suas próprias lembranças, seja através dos espíritos que incorpora, a história pelo ângulo dos escravos. Daí a sua preocupação, no dia de sua morte, em recontar a história tantas vezes contada: “Eu vou ter de contar isso que já contei a um, já contei a outro, um pedaço aqui, outro acolá (…) — Por isso mesmo, para não ser tudo misturado e ninguém se lembrar de coisa com coisa logo depois que eu morrer, que eu vou contar o importante, respondo pergunta, digo preceito.”

2. Esperteza, Consciência e Revolução – Viva o Povo Brasileiro
Um dos efeitos mais poderosos da ideologia dominante, na manutenção do status quo, é a criação de uma falsa consciência, em que o oprimido assimila e acredita no discurso que favorece os interesses do opressor. Mas será que esta influência é absoluta, completa?

Apesar do seu poder, a influência ideológica não é determinista, pois sua recepção não é homogênea, mas diversificada, dependendo da consciência política de cada grupo de receptores. Em Viva o povo brasileiro, todos os escravos temem os senhores, mas nenhum parece realmente acreditar na imagem perfeitamente elevada que os senhores fazem de si mesmos; para os negros, a evidência da figura grotesca e opressora do Barão de Pirapuama fala mais alto que todos os discursos que o homenageiam.

Trata-se, portanto, de um respeito imposto mais pelo medo que pela persuasão. Por mais que se lhes conte a edificante fábula do Santo Negrinho, que recusou a alforria por não se julgar merecedor, os negros não parecem mostrar-se muito sensibilizados, como se observa nesta fala de Dadinha em Viva o Povo Brasileiro: “Furria só se for que nem a minha, que fui furriada de promessa e as pernas já mal andava, depois de criar no peito quase que toada à família, do bisavô no bisneto, na Armação e no Engenho Boa furria essa, me deram quatro patacas e me botaram aqui debaixo de paia (…)”.

Entretanto, no que diz respeito à escravatura (e à opressão de maneira geral), o pensamento oscila entre dois extremos: vê-la como a ordem natural das coisas ou como algo que pode e deve ser modificado; ou seja, entre o conformismo e a revolução.

Um dos personagens mais interessantes de Viva o povo brasileiro é o Nego Leléu. Escravo liberto, Nego Leléu consegue prosperar graças a uma combinação de trabalho com tino comercial e oportunismo. Sua ética consiste basicamente na valorização trabalho como fonte de prosperidade: “Tudo neste mundo se consegue com trabalho e quem é preto consegue menos com muito mais trabalho, então tem que trabalhar multiplicado e trabalhar em todos os trabalhos e trabalhar o tempo todo e trabalhar sem se distrair e sempre acreditar que alguém que tomar o resultado do seu trabalho.”

Mas somente trabalho não basta; é preciso ser esperto para compensar a desvantagem social: “(…) Quanto mais se vive, mais se aprende, é isso mesmo, e além disso o preto tem de ser mais esperto, muito mais esperto – já viu, não é, estar neste mundo de sabidos e ainda ser preto, já viu, hem? ”

O pensamento do Nego Leléu em Viva o Povo Brasileiro, está longe de ser revolucionário; para ele o negro deve procurar melhorar sua condição tirando o melhor proveito possível das mínimas oportunidades. Daí a necessidade de aproximar-se dos antigos senhores, conquistar-lhes a simpatia fazendo o papel de bobo da corte, agradando suas crianças, pois tudo isto ajuda a melhorar os negócios; enfim: ficar bem com os senhores dá lucro.

A contrapartida disto é a rejeição do pobre, cuja aproximação causa prejuízo. Trata-se a velha ideologia do conformismo oportunista: não tentar modificar o sistema social, mas usufruir da simpatia e da troca de favores com os poderosos e evitar a solidariedade com as classes mais baixas. Como diz Nego Leléu em Viva o Povo Brasileiro: “Pobre é uma desgraça, não adianta ninguém! É por isso que não me dou com pobre, eles lá e eu cá, quando muito um adeusinho e uma esmolinha. Pobreza pega, olhe o que te digo!”

Esta visão rejeita qualquer reivindicação política e assume o papel subalterno imposto pela classe dominante. Enfim, cabe ao pobre procurar prosperar dentro dos limites estreitos em que se encontra, mas sempre conhecendo seu lugar. O homem do povo pode, com trabalho persistente e esperteza, melhorar de vida, mas nunca deixará de ser “povinho”:
“- Disseste muito bem, disseste muito bem: nós somos o povo desta terra, o povinho. É o que nós somos, o povinho! então te lembra disto, bota isto bem dentro da cabeça: nós somos o povinho! E povinho não é nada, povinho não é coisa nenhuma, me diz onde é que tu viu povo ter importância? Ainda mais preto? Olha a realidade, veja a realidade! Esta terra é dos donos, dos senhores, dos ricos, dos poderosos, e o que a gente tem de fazer é se dar bem e ser sabido, é compreender que certas coisas que não parecem trabalho são trabalho, essa é que é a vida do pobre, minha filha, não te iluda. E, com sorte e muito trabalho, a pessoa sobe na vida, melhora um pouco de situação, mas povo é povo, senhor é senhor! Senhor é povo? Vai perguntar a um se ele é povo! Se fosse povo, não era senhor!”

Por outro lado o romance Viva o Povo Brasileiro mostra uma ideologia francamente revolucionária nos negros da Irmandade do Povo Brasileiro, em Maria da Fé e em Patrício Macário. O discurso de Maria da Fé questiona a legitimação do poder da elite, reivindicando-o para a classes populares:
“ — (…) e são vocês os donos do país? Não. Somos nós. E, no entanto, é contra nós que se vira a força do país, é contra nós que se vira o ódio, como era contra os escravos que se virava o ódio e a força do país. (…)
“ — (…) chegará talvez o dia em que um de nós lhes parecerá mais estrangeiro do que qualquer dos estrangeiros a quem vocês dedicam vassalagem. O povo brasileiro somos nós, nós é que somos vocês, vocês não são nada sem nós.”

Tal discurso nos soa panfletário, mas cumpre observar que são panfletárias as intenções do personagem, que não é uma bandoleira vulgar, mas uma rebelde política, devidamente bem informada, que tem como objetivo não somente de desafiar a ordem instituída, mas também de conscientizar o povo. Se seu discurso soa mais intelectualizado que os dos outros personagens populares, é porque o próprio personagem,em Viva o Povo Brasileiro, por ter tido acesso a alguma educação formal, se expressa em um estilo mais próximo da língua culta, sem contudo deixar-se influenciar pela ideologia dominante.

Com sua inteligência e sensibilidade, Maria da Fé resgata uma imagem positiva do grupo oprimido de que faz parte, rejeitando reduzi-lo a “povinho”. Caso simétrico ocorre com seu par amoroso, Patrício Macário, que nascido na elite, aprende a livrar-se dos preconceitos e conhecer verdadeiramente o povo. Contudo a simetria não é completa, pois, enquanto Maria da Fé faz realiza seu aprendizado já na juventude, o que a leva à ação revolucionária, Patrício Macário vai aprendendo aos poucos, ao longo da vida, ganhando contornos de protagonista do romance de formação.

Viva o Povo Brasileiro – Conclusão
O romance Viva o Povo Brasileiro é o gênero mais adequado para expressar a estratificação da língua, reflexo da estratificação da sociedade. O romance é um gênero “pluriestilístico, pluriest[il[istico e plurivocal “, ou seja, um gênero que incorpora, através da estilização e da paródia, os mais diversos discursos.

Podem ser incorporados no romance Viva o Povo Brasileiro desde os demais gêneros literários e não literários até os diversos jargões profissionais e variantes sociais da língua: do discurso formal, escrito, em norma culta, até estilizações do diálogo e de gêneros da literatura oral.

É de extrema relevância a noção de dialogo e de ideologização do discurso. O dialogismo implica uma relação, implícita ou explícita, de um discurso presente com os discursos de outrem. Nenhuma palavra nasce virgem: ela já nasce, por assim dizer, contaminada pelos diversos sentidos que adquire em seu uso social.

Esta “contaminação” também é ideológica, pois nenhum discurso é neutro: sempre há de expressar uma posição sobre o mundo, opondo-se ou corroborando outros discursos reais ou virtuais. A pessoa que fala no romance Viva o Povo Brasileiro é um ideólogo; seu discurso, um ideologema. É neste sentido que entendemos a plurivocalidade em Bakhtin: um contraponto entre diferentes vozes ideológicas. Por isto pode-se dizer que o romance supera o autoritarismo de alguns gêneros monovocais.

Em que consiste o caráter monovocal de um discurso? Consiste na construção de uma unidade estilístico-ideológica que abafa a diversidade de vozes presente em qualquer comunidade humana. Trata-se da oposição bakhtiniana entre “língua oficial” e estratos linguísticos populares.

É comum nos discursos oficiais a persuasão de que que a visão de mundo de determinada classe social ou instituição política seja a única válida. Ou seja: a verdade oficial é que é a verdade. O caráter ideológico dos discursos oficiais autoritários normalmente apresenta-se como verdade absoluta, seja como revelação religiosa, noção científica ou como a “simples constatação dos fatos” e não como visão parcial da realidade que atende aos interesses de determinados grupos ou instituições.

Ao escrever um romance, Viva o Povo Brasileiro, sobre a identidade do povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro consegue superar as ideologias do caráter nacional dos diversos estudos sobre o assunto. Isto ocorre porque, ao contrário dos discursos ensaísticos monovocais, que procuram sintetizar o caráter nacional, a construção polifônica de Viva o povo brasileiro permite o confronto entre diversas ideologias, desmascarando-lhes o caráter ideológico. O romance não oferece, afinal, uma caracterização única e absoluta do povo brasileiro, mas mostra o que os diversos estratos do povo pensam a respeito.

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Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro

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