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Resumo de Livros, não substitui a leitura vestibular1

Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro

 

Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro – parte I

Um problema fundamental na obra de João Ubaldo Ribeiro, especialmente em Viva o Povo Brasileiro é a identidade nacional. Seus romances revelam o intuito de valorizar uma literatura empenhada em investigar a questão da brasilidade, problematizando a tensão entre o dado local e o cosmopolita.

De fato, Viva o povo brasileiro, abrangendo 330 anos da história do Brasil, pinta um painel da formação do nosso povo. Contudo, o que normalmente se denomina “povo” está muito longe de ser um conjunto homogêneo.

Em uma sociedade de classes e, mais ainda, de diversidades étnicas, como é o nosso caso, não se pode ignorar a estratificação sociocultural, principalmente se considerarmos a enorme desigualdade social que caracteriza o Brasil.

O próprio uso corrente da palavra “povo” é ambíguo, podendo designar tanto a população como um todo, como apenas parte (na verdade a maior parte) dessa população. Estas acepções, entre outras, encontramos no Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa: “1. Conjunto de indivíduos que falam a mesma língua, têm costumes e hábitos idênticos, afinidades de interesses, uma história e tradições comuns [Cf., nesta acepção nação (1)]. (…) 5. O conjunto das pessoas que se submetem às mesmas leis (…). 6. O conjunto das pessoas pertencentes as classe menos favorecidas; plebe.”

Nesta última acepção, povo é aquilo que a classe dominante chama, pejorativamente, de povinho. Em contrapartida, o próprio “povinho” refere-se a si mesmo por um termo menos depreciativo: povão. Falar do povo brasileiro é, portanto, falar da elite, do povinho e do povão.

Viva o povo brasileiro é um interessante exemplo dessa superação, pois, apesar de retomar a questão da brasilidade, o romance evita o caráter monovocal da maioria dos discursos sobre o brasileiro, tanto dos discursos nativistas e ufanistas como dos discursos pessimistas.

Excelente exemplo daquilo que Bakhtin denomina de plurivocalidade ou polifonia, Viva o povo brasileiro mostra um contraponto entre as vozes da elite e do povo, em diferentes épocas da história brasileira. Mais do que isto: através do confronto de vozes de diferentes grupos sócio-étnicos, bem como dos recursos de estilização e paródia, o romance tece uma verdadeira crítica das diversas caracterizações do povo brasileiro, revelando-lhes o caráter ideológico.

Vejamos, então, como se processa, em Viva o povo brasileiro, a superação de uma visão única e absoluta do Brasil e dos brasileiros, pela polifonia.

I. A Elite e o Povino – Viva o Povo Brasileiro
A história do Brasil mostra uma oscilação entre o nativismo e o pessimismo com a natureza dos trópicos. Os textos dos primeiros cronistas revelam o deslumbramento com a terra exótica, com suas maravilhas ainda mais enriquecidas pelos motivos edênicos que povoavam a imaginação do homem europeu (sem exclusão, dentre as maravilhas, do potencial econômico das novas terras).

Certo nativismo ocorre também em textos literários do século XVIII. No século XIX, encontramos duas tendências opostas: inicialmente um forte ideal nacionalista, fruto da coincidência da assimilação do nacionalismo romântico com a independência do Brasil; logo em seguida, por influência do naturalismo, encontramos uma ideologia extremamente pessimista sobre a natureza tropical e sobre o Brasil em particular, com ênfase na inferioridade racial das raças não europeias.

Tal ideologia terá grande influência no Brasil até a primeira metade do século XX. Está presente, seja de forma mais aguda, seja de forma mais atenuada, nas obras de intelectuais de grande influência na vida cultural brasileira: Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues, Oliveira Viana, entre outros. Posteriormente encontramos um discurso que celebra o Brasil e sua gente com um exagero que chega à ingenuidade.

1. Tristes Trópicos – Viva o Povo Brasileiro
A ação de Viva o povo brasileiro concentra-se no século XIX, a partir do período imediatamente posterior à independência do Brasil. É, portanto, o século em que encontramos o sentimento nacionalista romântico, sucedido por uma visão pessimista dos trópicos. Contudo não é o nacionalismo romântico que predomina nos personagens de classe dominante em Viva o povo brasileiro, e sim uma visão extremamente negativa do Brasil, além do racismo contra os negros e índios.

A natureza tropical é vista como bárbara, agreste, incapaz de favorecer o florescimento de uma verdadeira civilização, como expressa um dos personagens, o Cônego Araújo Marques: “(…) sabemos que aqui não há bosques, nem pode haver paz bucólica entre bichos venenosos, cobras, plantas que causam todos os males, chuvas desmesuradas, calores, insofríveis, insalubridade perpétua, em clima cuja umidade de tal forma sustenta os vapores e pneumas que transportam as pestes, sendo de admirar-se que haja tão poucas delas. Não temos estações, chove ou não chove.”

Dentre as inúmeras paródias presentes em Viva o povo brasileiro, destacamos este ensaio composto mentalmente por um dos personagens, o banqueiro Bonifácio Odulfo:
“ (…) As nações como o Brasil, em que praticamente só existe inverno e verão, imperando a mesmice de janeiro a dezembro, parecem fadadas ao atraso e são abundantes os exemplos históricos e contemporâneos. Até culturalmente, as variações sazonais se revestem de enorme importância, eis que forçam a diversificação de interesses e atividades em função das alterações climáticas, de modo que os povos a ela expostos têm maior gama de aptidões e sensibilidade necessariamente mais apurada.

Além disto, o frio estimula atividade intelectual e obvia a inércia própria dos habitantes das zonas tórridas e tropicais. Não se vê a preguiça na Europa e parece perfeitamente justificada a inferência de que isto se dá em razão do acicate proporcionado pelo frio, que, comprovadamente, ao causar a constrição dos vasos sanguíneos e o abaixamento da temperatura das vísceras luxuriosas, não só cria condições orgânicas propícias à prática do trabalho superior e da invenção, quer técnica, quer artística, como coíbe o sensualismo modorrento dos negros, índios, mestiços e outros habitantes dos climas quentes, até mesmo os brancos que não logrem vencer, pela pura força do espírito civilizado europeu, as avassaladoras pressões do meio físico. Assim, enquanto um se fortalece e se engrandece, o outro se enfraquece e se envilece.”

Encontramos aqui o mesmo método positivista de Taine, que tanto influenciou Sílvio Romero: a explicação determinista dos fatos culturais por fatores como meio físico e a raça. A estilização paródica, presente na descrição, carregada de vocabulário científico da época, do meio físico e sua influência nos organismos humanos, lembra os trechos do higienista francês Michél Levy, citado por Sílvio Romero na sua História da Literatura Brasileira.

2. Bárbaros e Arianos – Viva o Povo Brasileiro
Afirma Juan Comas que “com o início da colonização africana e a descoberta da América e do caminho para as Índias pelo Pacífico, houve um considerável aumento dos preconceitos de raça e de cor. Isto pode ser explicado face aos autointeresses econômicos, ao fortalecimento do espírito do colonialismo imperialista e a outros fatores.”

Segundo Comas “o preconceito racial desenvolveu-se dentro de uma sistema doutrinário regular nos séculos XVIII e XIX.” O racismo era a principal justificativa para a escravidão, e posteriormente, para o imperialismo.
Seu sistema doutrinário incluía desde a filosofia de Aristóteles até a teoria de Gobineau, cujo Ensaio sobre a desigualdade das raças, tanto influiu, ainda no século XX, o pensamento de Oliveira Viana. A teoria de Gobineau defende a diferença de aptidões entre as raças e, portanto, uma hierarquia em que a raça ariana estaria destinada a comandar as demais.

Não por acaso, a raça ariana corresponde ao tipo caucasiano, predominante na Europa, sendo depois identificada, pelos nazistas, com o subtipo nórdico. A teoria de Gobineau aborda outro problema que, no caso do Brasil, ora foi apresentado como um fator negativo, ora foi visto ufanisticamente como uma das maiores qualidades do brasileiro: a miscigenação.

Admitindo a existência de uma raça superior às demais, a teoria de Gobineau condenava a miscigenação, principalmente entre arianos e não arianos, por sua influência degenerativa. Posteriormente, no Brasil, Oliveira Viana, ele mesmo mulato, vai assimilar essa visão negativa do mestiço, admitindo, no entanto, a distinção entre o mestiço com predominância de características arianas, passível de integrar-se à elite civilizadora, e o mestiço com predominância dos caracteres de cor.

Oliveira Viana, embora admita que na miscigenação esteja “a gênese e a formação da própria nacionalidade”, identifica o mestiço com as camadas plebeias da população, em que a “profunda mistura de sangues bárbaros” opera uma “desorganização sensível da moralidade de seus elementos componentes.” Também encontramos, entre os personagens de elite de Viva o povo brasileiro, esta visão negativa do mestiço, que, no entanto, teria seu lugar assegurado na sociedade, segundo esta interessante teoria socioeconômica de um dos personagens, o Cônego Araújo Marques:
Viva o Povo Brasileiro: “- Os mestiços são muito entusiasmáveis, não se lhes pode negar esta nem outras qualidades, que muitas vezes se sobrepõem à preguiça que lhes marca a reputação. Na verdade, sustento que a mestiçagem é uma real alavanca do progresso desta terra, pois que o espírito do europeu dificilmente suporta as contorções necessárias para o entendimento de circunstâncias tão fora da experiência e vocação humanas.
Eis que o Brasil não pode ser um povo em si mesmo, de maneira que as forças civilizadoras hão de exercer-se através de uma classe, no caso os mestiços, que combine a rudeza dos negros com algo da inteligência do branco. (…) eis aí onde se encaixa como uma luva o contingente de mestiços na perfeita organização social, a única que poderá conferir a este país uma elite, como dizem os franceses, uma nata, uma aristocracia de escol.

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Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro

Publicado em:Resumos de livros

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