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Presidiários – Cora Coralina

Também de veio rememorativo, de feição doméstica, é a primeira parte de Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Apresenta poemas próximos da prosa, no dizer da própria autora: 

“Versos… não / poesia… não / Um modo diferente de contar velhas histórias”. Já a segunda parte é dedicada ao aspecto social que ela observava e desejava retratar, através de poemas para lavadeiras, lavradores, mulheres da vida, crianças abandonadas e presidiários, a quem deseja levar palavras de amor e compreensão.

Nos contos de Estórias da casa velha da ponte, a rude linguagem dos habitantes de Goiás serve de alicerce para a transmissão de alegrias e tristezas do povo de sua época. 

“A casa velha da ponte” retira, como de um baú, memórias relativas a seus antepassados, aos segredos de sua casa, lembranças que jamais seriam conhecidas, não fossem por seu livro.

O livro O tesouro da casa velha é póstumo, e não contou com a seleção final da própria autora. No entanto, seus contos versam sobre a vivência e as mágoas do passado de 96 anos e não apresenta qualquer mudança de estilo. 

Mais amargurado é Vintém de cobre, que dialoga com Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.

“E nas pedras rudes do meu berço gravei poemas”. Personificam-se o quartel, o gato e o bem-te-vi. 

Deixa mais mensagens de esperança e declara o poder da poesia: “Não é o poeta que cria a poesia, e sim, a poesia que condiciona o poeta”.

É a “estrutura na mesma pauta e ritmo” que Gilberto Mendonça Teles vê no seu estilo, numa aparente monotonia, que alça Cora Coralina a sua posição de escritora pioneira na conservação da tradição trovadoresca, que nos chegou nos finais da Idade Média, de Portugal.

Mulher da Vida – Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã.

De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.

Mulher da Vida, minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal 
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa 
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o 
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.

As pedras caíram
e os cobradores deram as costas

O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher… 
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que 
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.

Sem cobertura de leis
e sem proteção legal, 
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada, 
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão, 
a levante, e diga: minha companheira.

Mulher da Vida, minha irmã.

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.

E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrurível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.

Mulher da Vida, minha irmã.

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