A escolha decisiva - Vestibular1

A escolha decisiva

Artigo A escolha decisiva

Às portas do vestibular, dois em cada três jovens não sabem que curso farão. O consolo é que o profissional do futuro poderá mudar de carreira ao longo da vida (AIDA VEIGA)

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A escolha decisiva

Nas próximas semanas, cerca de 1,8 milhão de jovens vão escolher uma profissão e dar o primeiro passo rumo a ela disputando uma vaga no vestibular. Apesar da proximidade das inscrições, especialistas acreditam que dois entre três vestibulandos ainda estão em dúvida. Muitos vão acabar se inscrevendo em cursos diferentes em cada concurso, deixando o destino dar a última palavra. Com 17, 18 anos de idade, esta é certamente a decisão mais difícil que já tomaram na vida. Recém-saída da adolescência, a maioria carece de segurança emocional e vivência.

Sempre foi assim, diga-se de passagem. Mas, nos últimos anos, fazer essa opção vem ficando mais difícil por diversos motivos. O número de cursos, por exemplo, aumentou sensivelmente. Nos anos 70, as opções eram poucas. Quem gostava de ciências exatas para engenharia ou arquitetura, a turma da biologia ficava entre medicina e odontologia e, em humanas, podia-se seguir Direito, economia, jornalismo ou pedagogia.

Hoje, as 1.705 instituições de ensino superior registradas no MEC oferecem 350 cursos – de comércio exterior a quiroprática, de gastronomia a design de games, de enologia a citologia, os caminhos são muitos.

Eduardo Monteiro

Do Bisturi para as panelas

Artigo A escolha decisiva Vestibular Enem

Tábata sonhava ser médica, mas se decepcionou com o curso e o largou no segundo semestre. Fez estágio em um restaurante e hoje estuda na França

Por outro lado, a possibilidade de emprego em qualquer uma delas é pequena. Segundo levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), 31% dos jovens entre 18 e 24 anos estão procurando uma vaga. Há dois anos, o índice era de 25%. A incerteza leva 70% deles a optar pelas carreiras mais tradicionais. O alto índice de evasão – 56% – é determinado tanto pelo valor das mensalidades como pela decepção com o curso. ‘Nessa idade, o jovem ainda não quer saber de responsabilidade’, afirma o antropólogo Marcos Carlini. ‘Não é uma crítica, mas ä o que ele quer nessa fase é curtir a vida. Como sai da casa dos pais cada vez mais tarde, pode dar-se ao luxo de trocar de faculdade duas, três vezes.’ Por último, a pressão da família aumenta as dúvidas. Uma pesquisa realizada em escolas particulares de Curitiba identificou as carreiras que os pais gostariam de que os filhos abraçassem. Em apenas 2% dos casos os pais apontaram como preferida aquela que fosse do gosto do filho – todos sonham com um herdeiro médico, advogado ou administrador de empresas.

Confuso, dizem os especialistas, o jovem deveria ouvir a si. ‘Quem ainda não sabe o que quer fazer pode começar eliminando o que não gosta’, ensina Sílvio Bock, diretor da Nace, empresa de orientação educacional. A escolha deve ser resultado da equação ‘sentimento razão’. Fazer um ano de cursinho ou viajar para fora pode ser um proveitoso tempo para reflexão e amadurecimento. Não dá para escolher uma profissão simplesmente porque se tem facilidade para algumas matérias na escola.

Vida profissional é muito diferente de vida de estudante. Nada de descartar também aquela que está saturada e optar pela que está na moda. O mercado é dinâmico e, em cinco anos, a realidade será outra.

‘Quem gosta e se dedica ao que faz sempre consegue sobressair’, atesta Ryon Braga, diretor do Grupo CM, empresa de consultoria educacional. ‘Mesmo em um mercado saturado, se a pessoa tiver visão de conjunto e for criativa, acaba achando um nicho para crescer’, afirma.

A paulistana Juliana Abrusio, de 25 anos, é um exemplo. No segundo ano de Direito, começou a estudar as opções para quando se formasse. Pensou em Direito Comercial e concurso público até ter o ‘estalo’ de sua vida: Direito Eletrônico. ‘Com a expansão da informática, vi um mercado inexplorado se abrindo’, conta. Juliana pesquisou, bancou uma viagem aos Estados Unidos para entrevistar especialistas e escreveu uma das primeiras teses a respeito no Brasil. ‘Saí da faculdade empregada e, hoje, sou sócia de um escritório e dou aula na universidade.’

Régis Filho/ÉPOCA

Visão

Ainda na universidade, Juliana descobriu um nicho em sua área: Direito Eletrônico. Fez tese a respeito, formou-se, hoje dá aulas na faculdade e já é sócia de um escritório

Também ajuda pensar que nenhuma escolha é definitiva. A carioca Tábata Rainho, de 25 anos, sempre sonhou ser médica, mas largou o curso no segundo semestre da UFRJ. ‘Tinha uma imagem romântica da profissão e descobri que não queria fazer aquilo para o resto da vida.’ Conseguiu um estágio no restaurante do hotel Sofitel. Lavou muito prato, mas, depois de dois anos, era assistente do chef. Com as economias e uma ajuda de custo do Grupo Accor, dono do hotel, Tábata está estudando gastronomia no renomado Instituto Paul Bocuse, na França. ‘Tive coragem de trocar a certeza de uma carreira tradicional por um sonho.’

Além da possibilidade de mudar, existe a de exercer atividades diferentes depois da graduação. Se a escolha não for um curso muito especializado, como fonoaudiologia ou fisioterapia, a passagem é tranquila. Tem engenheiro trabalhando com administração de empresas, antropólogo em publicidade, professor em turismo. As profissões também se fundem. Quem fez Direito e se interessa por meio ambiente pode trabalhar com Direito Ambiental.

Os orientadores educacionais citam três pontos que ajudam a tomar uma decisão. O primeiro passo é descobrir as áreas de que mais gosta, listar suas inclinações pessoais e o que espera para o futuro. Quem quer ter qualidade de vida não pode sonhar em ser executivo numa empresa que exige dedicação total ao trabalho.

Também não ficará feliz fazendo obstetrícia e sendo convocado para realizar um parto no dia do aniversário do filho. ‘Há pontos menos óbvios’, assinala Patricia Patané, diretora da Teenager, empresa de orientação educacional que atende 20 mil jovens por ano. ‘Para quem não tem jeito com números, biologia pode não ser tão atraente, já que há uma clara tendência de matematização da área’, conta Patricia.

Em seguida, o jovem deve conhecer a fundo as profissões: as habilidades exigidas, o dia-a-dia. Conversar com quem trabalha na área ajuda. ‘É fundamental derrubar certos mitos’, adverte Silvio Bock. ‘Quem escolhe Direito porque sonha em fazer justiça vai se frustrar, porque o advogado tem de adaptar as necessidades de seu cliente às leis. Quem quer ser médico para cuidar dos outros terá de fazê-lo naqueles minutos de consulta que o plano de saúde paga.’

As preferidas dos pais

Pesquisa mostra as profissões dos sonhos das famílias. São poucos os que não interferem, deixando a decisão para o filho – em %

Médico – 34%

Advogado – 17%

Engenheiro – 12%

Empresário – 8%

Dentista – 5%

Informática – 4%

Professor – 3%

O que o filho quiser – 2%

Fonte: Instituto Paraná de Pesquisas

É preciso também considerar o futuro de cada carreira. Há mudanças de curso inesperadas. Há dez anos, ninguém diria que biologia e matemática seriam atividades promissoras. No caminho inverso, economia e física perderam espaço. Sem ficar na futurologia, uma análise cuidadosa dos setores em expansão ajuda na escolha. É importante também salientar que o diploma não faz mais ‘aquela’ diferença no mercado de trabalho. Antigamente, era garantia de emprego, principalmente se obtido em universidades de prestígio. Hoje, mesmo carimbado por grifes como a USP, ele representa o requisito mínimo na disputa por uma vaga. ‘Houve um tempo em que as empresas só selecionavam universitários dessas instituições para entrevistas. Agora, estão mais abertas porque enfrentam dificuldades para encontrar o estudante com o perfil desejado’, afirma Alexandre Santille, diretor da Lab-SSJ, empresa de consultoria que prepara universitários para o mercado de trabalho. ‘Valorizam-se características como criatividade, iniciativa, liderança, comunicação e, principalmente, capacidade para enxergar e resolver problemas.’

É por essa razão que, no ano passado, 180 mil jovens não conseguiram ocupar 872 vagas de estágio e de trainee oferecidas por grandes empresas. É verdade que a maioria foi descartada por falhas no currículo, como falta de inglês fluente e conhecimentos de informática e base escolar fraca. Mas uma boa parte foi eliminada por características pessoais. ÉPOCA publica em primeira mão o resultado de uma pesquisa com 3.200 alunos e 38 empresas feita pela SSJ com a Companhia de Talentos, consultoria que coordena programas de trainees para grandes empresas brasileiras. Nela, fica claro que a visão do empresário e a dos universitários sobre a empregabilidade de cada um são bastante diferentes. ‘Não adianta ter apenas uma formação acadêmica de primeira linha, estudar no Exterior e voltar sem saber o que fazer com tudo o que aprendeu’, afirma Sandra Cabral, da Companhia de Talentos. ‘É fundamental fazer estágios, trabalhar em ONGs, enfim, ter um pouco de prática’, aconselha.

Por que o primeiro emprego é difícil

Consultoria perguntou a empregadores e candidatos quais fatores atrapalham a contratação de um recém-formado. O resultado mostrou que os jovens pensam que são recusados por falta de experiência, mas o problema costuma ser de personalidade ou formação

Visão dos jovens Visão dos empresários
Falta de experiência profissional 1 Características pessoais, como insegurança
Poucas vagas 2 Curso universitário fraco
Conhecimento insuficiente de idiomas 3 Poucas vagas
Curso universitário fraco 4 Conhecimento insuficiente de idiomas
Conhecimento técnico insuficiente 5 Falta de identificação com a profissão
Governo não incentiva abertura de negócios 6 Universidade está descolada da realidade
Competição globalizada 7 Falta de conhecimento técnico
Universidade está descolada da realidade 8 Falta de experiência profissional
Características pessoais, como insegurança 9 Necessidade de mão-de-obra diferenciada
Necessidade de mão-de-obra diferenciada 10 Competição globalizada
Fonte: Grupo CM/Consultoria de Pesquisas Educacionais

 

Aida Veiga (Revista Época)

Qual a saída do Labirinto? – Veja na seção!

 

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