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Humor no quadro-negro, enem

Humor no quadro-negro

Humor no quadro-negro

Professores usam anedotas como objeto de análise em aulas de língua portuguesa.

Na escola de treinamento para homem-bomba, os alunos estão todos reunidos, muito concentrados na aula, quando o professor explica:

– Olha aqui, vocês prestem muita atenção porque eu só vou fazer uma vez!

O professor é professor de piada, mas bem poderia ilustrar os docentes reais, que também penam para ter a atenção e o aproveitamento nas aulas de língua portuguesa. Não só. A piada virou também objeto de estudo nas salas do país.

O professor de literatura Clayton Mariano, por exemplo, usou a anedota da aula para homens-bomba ao explicar o que é humor negro a seus alunos do cursinho Anglo de Osasco (SP). Com a fórmula humor negro = ironia sarcasmo e a piada, ele conseguiu ilustrar de que elementos se vale esse tipo de humor. No caso, um jargão do professor e uma situação real dramática de contexto atual.

O humor está presente na vida, não somente nas piadas que correm de boca em boca e nos textos de humor. A importância do uso de textos que estejam mais próximos da realidade do aluno para o estudo da sintaxe é expressa por Eduardo Calbucci, doutorando em Linguística pela USP, professor de português e co-autor do material didático do Anglo: Não se pode analisar uma oração como quem autopsia um cadáver. É preciso mostrar, como dizia Bakhtin [linguista russo], a materialidade do signo linguístico, para o percurso ser mais dinâmico, e divertido, para crianças e adolescentes.

Além da risada

A professora Claudia Riolfi, da Faculdade de Educação da USP, explica que a compreensão de uma piada não passa pela decodificação do texto, mas sim pela interpretação. Ao interpretá-la, estimulam-se o questionamento sobre o texto e a descoberta da lógica linguística do conjunto, levando à busca de novas leituras de um mesmo enunciado.

Claudia, que é doutora em linguística pela Unicamp, utiliza textos de humor no curso de formação de professores tanto para mostrar as possibilidades de leitura superficial que os alunos podem fazer de enunciados quanto para promover o estudo dos dispositivos linguísticos que causam os efeitos de humor.

Mas ela faz um alerta quanto ao foco da aula, que deve ser a linguagem. As piadas servem apenas como uma estratégia de utilizar-se um texto que motive o aluno a pensar sobre a articulação da linguagem e suas consequências. Como exemplo de aula, ela usa a seguinte anedota:

Duas garotinhas de 8 anos conversam no quarto:

– O que você vai pedir no dia das crianças?

– Eu vou pedir uma Barbie, e você?

– Eu vou pedir um O.B.

– O.B.? O que é isso?!

– Nem imagino, mas na televisão dizem que com O.B. a gente pode ir à praia, andar de bicicleta, andar a cavalo, dançar, ir ao clube, correr, fazer um montão de coisas legais sem que ninguém perceba.

Segundo Marciano, do Anglo, os textos humorísticos aguçam o raciocínio, a capacidade de ler as entrelinhas e de perceber ambiguidades. Ele dá aulas em cursinhos pré-vestibulares e não abre mão de piadas, charges e textos humorísticos de autores consagrados para explicar o funcionamento da língua e os conceitos de literatura.

– Um tema complexo fica bem mais palatável com o recurso do humor e, por isso, torna-se uma maneira mais fácil de se aproximar do aluno. Inclusive estimulando seu raciocínio, já que a piada não entrega o assunto de mão beijada.

Há piada para todo gosto e conteúdo linguístico. Em Humores da Língua (Mercado das Letras), Sírio Possenti, linguista da Unicamp, analisa e classifica textos de humor, apresentando um interessante material que pode ajudar professores de gramática da língua.

– Estou com vontade de ganhar na loteria de novo?

– O quê? Você já ganhou?

– Não. Mas já tive essa vontade antes.

Não se trata de explicar a piada, mas os mecanismos que levam ao riso. A comicidade está no uso da expressão adverbial de novo no final do período. Numa leitura linear da primeira fala, não se percebe a existência de ambiguidade em relação ao que a expressão está determinando, se é a vontade ou o ganhar. A mudança de posição tiraria todo o efeito: Estou de novo com vontade… Essa percepção dá uma clareza maior aos alunos de que nem sempre o que se quer dizer fica claro à primeira vista, pois dentro da língua há outras possibilidades de entendimento.

Piada de criança

Márcia Gomes da Silva, professora do ensino fundamental da Escola de Aplicação da USP, tem um projeto à parte para aulas de reforço para alunos do 4º ano com dificuldade na escrita.

Na primeira parte da aula, os pequenos partilham as piadas de seu repertório com os colegas, esse primeiro momento de contar as piadas é um exercício de língua oral, explica a professora, que diz trabalhar com esse tipo de texto por serem narrativas curtas, que fazem parte do universo divertido da criança.

O foco do projeto de Márcia está na análise de mecanismos da língua, como efeitos da pontuação, coesão e coerência, voz do narrador, repetições de palavras e temas ou, ainda, qual a melhor maneira de expressar determinada ideia, quais palavras se encaixam melhor, como tornar o texto mais engraçado, a questão do inusitado etc.

Depois de escolhida uma piada, ela é escrita na lousa e a discussão sobre pontuação é a primeira a ser feita.

– A pontuação é um ponto importante da piada, porque dá o ritmo e marca as pausas que darão o sentido do texto – esclarece Márcia.

Segundo a professora, a estratégia está sendo eficaz, os alunos se divertem e conseguem entender com bom humor a importância dos pontos e das vírgulas no texto e, com isso, adquirem mais facilidade na hora de escrever seus próprios textos. Passada a fase da escrita, os alunos são convidados a montar uma piada, utilizando os dispositivos apreendidos nas discussões.

– Essa fase é um pouco mais complicada, porque eles ainda têm um pouco de dificuldade de criar o desfecho inusitado, mas o treino é bastante empolgante; há uma piada que paramos no meio, mas ainda vamos retomar – conta Márcia.

Qualquer registro em língua portuguesa serve como objeto de análise e reflexão para uma aula de língua portuguesa, mas piadas dão um molho a mais ao conjunto, como poucas vezes se vê por aí.

O que dizem os linguistas

É no humor e nos momentos de aparente descontração de uso da linguagem que vamos encontrar os mecanismos de produção de efeitos de sentido, os quais, de maneira aparentemente contraditória, mostrarão as possibilidades e as riquezas da língua.

Beth Brait, professora da USP, autora de Ironia em Perspectiva Polifônica

Se o linguista quiser investigar, por exemplo, questões fonológicas, morfológicas ou sintáticas, as piadas oferecem um material muito interessante, pois é como se os seus enunciados estivessem sempre, digamos, no limite, entre terem um sentido ou terem outro, e entre terem uma estrutura ou terem outra. Isso obriga o analista a considerar mais finamente o material linguístico que está sendo analisado.

Sírio Possenti, professor da Unicamp, autor de Os Humores da Língua.

Ainda que estejamos vendo os aspectos da linguagem, por meio do humor ou da piada, estamos estudando a construção da crítica social. Estudar a língua é estudar a sociedade à qual nós pertencemos. O riso é um gesto social e uma forma de punição. Então, numa sociedade que se quer crítica, não é possível desprezar esses efeitos de sentido do humor, que também são um índice para avaliar-se o pensamento crítico do jovem.

Ana Rosa Ferreira Dias, professora da PUC-SP

Uma piada no divã linguístico

Por Guilherme Bryan

Como agente de crítica social, o texto humorístico está cada vez mais presente nos vestibulares de todo o país e, com isso, alguns professores começam a apostar na sua utilização no ensino do idioma.

– Na medida em que os vestibulares, por exemplo, introduziram tiras de jornal em seus exames, a escola também percebeu um pouquinho que a piada pode ser um pretexto interessante para uma análise ou para um debate. Às vezes até mais um debate de conteúdo do que como uma análise da forma – acredita Sírio Possenti, da Unicamp.

A maior parte das boas piadas pode ser bem aproveitada no ensino da língua portuguesa, avalia Possenti.

Numa festa, o secretário do presidente fila um cigarro. O presidente comenta:

– Não sabia que você fumava.

– Eu fumo, mas não trago.

– Pois devia trazer.

O exemplo ilustraria uma peculiar coincidência de formas, apesar de uma provir de um verbo regular (tragar) e a outra, de um irregular (trazer).

– Por isso, a compreensão dessa piada exige um insight metalinguístico. Rimos menos de uma censura que relaxa do que de uma coincidência rara. Talvez se ria da própria língua, não porque ela não teria as virtudes que se suporia que deveria ter (porque falha), mas porque nos propicia agradáveis coincidências e descobertas – observa Sírio Possenti em seu livro.

Fonte: Revista Lingua (Viviane Rowe)

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